Ato 1, 04
ִֶָ𓂃 ࣪˖ ִֶָ⏱️🐇 Ato 4: Criança Perdida no Espaço ִֶָ་༘࿐
#5
É claro que Nine não acreditou. Embora talvez não se lembrasse agora, quando era mais novo, ele era quieto e insociável.
Ele ouviu dizer que era uma criancinha problemática que desmaiava em convulsões quando estava em lugares cheios e não conseguia dormir sozinho. Ele era até tão distraído e desatento que ficava sentado na chuva e pegava um resfriado, adoecendo.
É claro que isso era de um tempo tão distante que nem conseguia lembrar. Agora, ele não era mais aquela criança aturdida, mas um jovem perspicaz que conseguia se virar sozinho. Ele só sabia de seu passado pelo que os outros tinham lhe contado, sem quaisquer memórias claras próprias.
“Bem, eu era pequeno naquela época.”
De qualquer forma, só Chae chae saberia o verdadeiro motivo.
Quando as pessoas dali trouxeram às pressas um intérprete telepático, Nine já era capaz de falar a língua delas fluentemente.
— …O que é isso? Você não poderia ter aprendido a língua tão rápido.
— Mas ele só sabia cumprimentos, não é? Talvez esteja só repetindo o que ouviu?
— Não, eu só perguntei o nome dele e ele entendeu e respondeu perfeitamente.
— É verdade. Ele definitivamente não conseguia se comunicar com o órfão espacial mais cedo.
As pessoas olharam para ele com curiosidade quando de repente entendeu a língua delas. Nine fingiu indiferença e concentrou-se em manter alerta a mente que ficava se dispersando.
Fosse como fosse, conseguir se comunicar era uma coisa boa. As pessoas lançaram olhares estranhos para ele enquanto estalavam os lábios. Todas saíram da sala, exceto uma mulher.
— Você está bastante composto — disse a mulher com um sorriso amigável. Nine ficou aliviado por dentro. Se era assim que ele aparentava por fora, era uma sorte.
Nine era do tipo que se importava muito com sua aparência exterior. Independentemente de como realmente se sentia, ele queria parecer impecável por fora. Então sempre fazia o possível para permanecer humilde e não agir com arrogância.
As pessoas que tomavam sua imagem fabricada como seu verdadeiro eu achavam que Nine era uma boa pessoa. Estabelecer uma imagem positiva sólida reduzia significativamente as chances de ser criticado.
Nine não queria parecer assustado diante de estranhos. A primeira impressão era extremamente importante.
Suor frio escorria pelas costas de Nine enquanto ele lutava para não tremer, chegando a respirar fundo. Embora não demonstrasse, o senso de crise que sentia era imenso.
Pensar que ele havia sido abandonado à deriva entre dimensões.
— Normalmente, os órfãos espaciais choram ou gritam por pelo menos três dias quando isso acontece, antes mesmo de conseguirmos explicar a situação. Leva dias só para acalmá-los.
— …
Nine olhou para o chá colocado à sua frente. Ainda estava fumegando, ainda não tinha esfriado. Como fora oferecido para ter um efeito calmante, ele deliberadamente não o tocou. Ele não podia contestar se aquilo fosse chamado de orgulho desnecessário. Era óbvio que, se ele segurasse a xícara, suas mãos trêmulas ficariam expostas, e talvez derramasse a maior parte do chá sem sequer beber metade. Ele não queria parecer tolo.
“Então não sou o primeiro.”
Isso era um tanto reconfortante. Segundo eles, Nine era o septuagésimo sétimo viajante a cair naquela dimensão. Até ele, que tinha um entendimento superficial de outras dimensões a partir de incontáveis conversas com Chae chae, ficou perplexo. Ele nem conseguia começar a imaginar como os viajantes antes dele deviam ter se sentido.
Felizmente, Nine tinha uma sorte relativa. Como não era o primeiro a cair de outra dimensão, espers foram enviados para trazer Nine até ali. Havia pelo menos um sistema básico implementado para acomodar os “viajantes”. Graças a isso, Nine não tinha passado por dificuldades nem perdido nenhum pertence.
— Com licença, você está bem?
— …
Nine ergueu a cabeça diante da voz à sua frente e apenas piscou vazio. Ele não tinha escutado o som, pois estivera perdido em pensamentos por um momento.
— Você está cansado?
— O quê? …Ah, não. Estou bem.
— Parece que forçamos você demais em seu primeiro dia. Vamos continuar o resto amanhã?
A mulher fechou de forma demonstrativa os documentos em que estivera trabalhando. Ela sentia tanto pena quanto afeição por Nine. Embora todos os órfãos espaciais estivessem numa situação difícil, Nine era particularmente jovem entre eles.
Também parecia ser a primeira vez que um jovem tão bonito tinha saído do portal.
O homem com um jeito de falar calmo e gentil tinha se apresentado como príncipe de um país. Embora surpresa com o termo um tanto incomum nos tempos modernos, ela logo entendeu. Combinava com a imagem do homem.
Com cabelo loiro-platinado mais próximo do branco como espuma do mar e olhos azuis como o oceano, o órfão espacial de aura clara e brilhante usava roupas que pareciam as de atores de teatro, passando a impressão de ser de uma era diferente. Ele parecia exatamente um príncipe saído de um conto de fadas que ela tinha lido quando criança. Mesmo com o rosto pálido e a aparência desalinhada, ele ainda parecia suficientemente elegante.
Ela instintivamente sabia que o que Nine mais precisava naquele momento era de descanso suficiente. Embora estivesse fingindo estar calmo, ela agora notava que suas mãos tremiam como folhas de álamo. Ela se perguntou por que não tinha notado até então.
Não havia necessidade de pressa. Estabilizar a mente e o corpo do órfão espacial era a prioridade.
Achou que ficaria tudo bem adiar o resto dos procedimentos até o dia seguinte. Ela tentou tranquilizar Nine com um sorriso inofensivo.
— Está tudo bem. Você deve ter ficado muito chocado. Por que não descansamos por hoje e conversamos de novo amanhã?
— Podemos conversar agora mesmo…
— Um quarto deve estar pronto para você. Por favor, siga-me.
A mulher o interrompeu e levantou-se primeiro. A existência de alguém que ousasse interromper as palavras da realeza era inimaginável no império, mas Nine, que tinha passado muito mais tempo na academia do que no palácio imperial, não deu importância a isso. Ele não tinha presença de espírito para tais pensamentos de qualquer forma. Nine piscou vazio antes de segui-la rapidamente.
Eles tiveram que caminhar por um bom tempo. Conforme se moviam para outro prédio, muitas pessoas passavam por Nine, lançando-lhe olhares curiosos, mas ele não tinha o luxo de prestar atenção em cada uma delas. Estava tenso demais para absorver informações sobre o que estava ao seu redor. Ninguém se aproximou para falar com ele enquanto caminhava com uma postura rígida, completamente concentrado.
— Chegamos. Por favor, entre e descanse bem. Vejo você amanhã de manhã.
Talvez por estar tão tenso, um suspiro de alívio escapou involuntariamente diante das palavras de que haviam chegado.
A mulher empurrou Nine para dentro do quarto e enfiou-lhe na mão um folheto e uma pequena bala. A porta se fechou atrás dele.
“Estou cansado…”
Só então Nine percebeu o quanto tinha ficado exausto. A fadiga de repente o invadiu, deixando seus ombros pesados. Ele sentia que poderia desabar a qualquer momento. O que raios estava acontecendo? Era uma sensação estranha estar sozinho num mundo desconhecido sem conhecer ninguém.
“Espera um pouco…”
Nine percebeu tardiamente que havia algo errado e olhou ao redor. Sua cabeça se virava para um lado e para outro, incapaz de esconder a expressão perplexa. O quarto era pequeno demais. Havia uma pequena escrivaninha junto à janela, e ao lado da cama encostada na parede havia apenas espaço suficiente para passar. Era um espaço tão estreito que não havia onde se sentar a não ser na cama.
Isto não faz sentido. Isto é mesmo um quarto de hóspedes? Pelo que ele tinha visto no caminho, o número de criados e o tamanho da propriedade não eram pequenos. Para isso, a hospitalidade com os hóspedes parecia bastante precária. Mas…
“…Acho que não tenho escolha.”
Aquela não era a hora de ser exigente com tais coisas. Nine desistiu e sentou-se na cama, voltando a atenção para o livro que estivera segurando o tempo todo.
Nine abriu o livro e passou os olhos pelo conteúdo. Era um livro composto de ilustrações detalhadas e texto conciso. Conforme Nine lia lentamente o texto, ele aprendeu o termo usado para se referir a pessoas como ele que tinham se perdido entre dimensões.
Órfão espacial.
— Chae chae os chamava de viajantes, mas aqui eles são chamados de órfãos espaciais…
Embora tivesse ouvido isso algumas vezes mais cedo, ler assim, por escrito, fazia parecer mais real.
— Viajante e órfão.
A diferença de nuance entre as palavras o fez se sentir estranho. Pensando mais a respeito, Nine sentiu que o último termo era mais adequado à sua situação. A palavra “viajante” não combinava com alguém que involuntariamente tinha acabado naquela situação. Em vez disso, “órfão” era mais apropriado.
— Não está aqui.
Nine não conseguiu esconder a decepção na voz enquanto folheava o livro. Em nenhum lugar do livro havia qualquer menção a como voltar para casa. Aquele livro parecia ser um manual para se adaptar àquele lugar, em vez de descrever maneiras de voltar.
Considerando que nem todos que caíam ali talvez conseguissem ler como Nine, havia muito mais ilustrações do que texto, e elas eram muito detalhadas.
[Se você se perder lá fora, não fique perambulando. Procure um táxi (um veículo amarelo com uma placa em cima). Tudo bem se você não souber o endereço de casa. Mostre o verso da sua identidade de órfão espacial. Um táxi é um meio de transporte que o levará ao seu destino mediante uma taxa em dinheiro.]
E havia vários desenhos simples e claros que até mesmo alguém que não soubesse ler conseguiria compreender suficientemente.
Aquele era um termo novo. O nome dessa carruagem de formato estranho é táxi? Ele tinha andado em algo parecido no caminho até ali. Embora balançasse muito menos do que uma carruagem, por algum motivo ele estivera à beira de vomitar quando desceu.
↫๋ ࣭ ⭑๋ ࣭ ⭑Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki