Ato 1, 03
ִֶָ𓂃 ࣪˖ ִֶָ⏱️🐇Ato 3: Criança Perdida no Espaço ་༘࿐
Felizmente, quando ele abriu os olhos de novo, era a realidade. Conforme a névoa que turvava sua mente se dissipava, sua visão ficou nítida. Nine tomou um susto ao ver a cena que se desenrolava bem à sua frente assim que abriu os olhos.
“O que é aquilo? Um cadáver?”
Um homem, o corpo inteiro aparentemente coberto por uma névoa negra, estava sendo carregado numa maca, encharcado de sangue. Sua mão, que não fora devidamente colocada sobre a maca e pendia frouxa para baixo, estava mortalmente pálida. Toda vez que o homem tossia debilmente, sangue espirrava no ar. A julgar pela densidade da névoa, era um homem que morreria em breve.
“Mas aquela pessoa, onde eu já a vi antes?”
Nine tinha a impressão de que a aparência do homem era familiar à primeira vista.
“…Ou talvez não…”
Sua mente ainda estava completamente enevoada.
— Ei, a pessoa acordou! Rápido, tragam outro cobertor!
— Você está se sentindo mais lúcido agora?
As pessoas, notando tardiamente que Nine havia recuperado a consciência, aproximaram-se e falaram com ele. Mas Nine apenas moveu os lábios aturdido. Era uma língua que ele nunca tinha ouvido antes. Ele revirou os olhos, escutando distraidamente várias pessoas com roupas idênticas falarem com ele.
“Onde…”
Onde raios fica este lugar? Aquele não era o beco onde ele tinha perdido a consciência. Era um local completamente desconhecido. Língua estranha, pessoas vestidas com estilos de roupa desconhecidos, e a sensação fria sob sua palma…
“…Isto é neve?”
Nine murmurou para si mesmo enquanto mexia na neve crocante sob sua mão. Pensando bem, seu corpo inteiro estava gelado. As pontas de seus dedos, apoiadas no chão frio, estavam vermelhas e inchadas, com a sensibilidade embotada.
O Império Blanche no Continente Oriental onde Nine vivia era um país com quatro estações bem distintas. Não estava tão frio quando ele partiu de manhã. Especialmente naquele ano, a primavera havia chegado mais cedo do que o habitual. As árvores estavam repletas de brotos verdes e viçosos e flores perfumadas, e conforme o tempo esquentava, as pessoas naturalmente começavam a usar casacos mais finos.
Mas para a neve estar acumulada assim… Teria levado pelo menos um dia inteiro de nevasca. Nine inclinou a cabeça, pensando.
“Será que este é o Continente do Norte?”
O Continente do Norte, onde metade do ano era inverno, era um campo de neve não importava para onde se fosse. Mas Nine balançou a cabeça de leve depois de dar uma olhada nos rostos das pessoas. Nenhum dos reinos do Continente do Norte usava uma língua daquelas.
Além disso, o que era estranho eram os dispositivos mágicos espalhados ao redor. Havia coisas demais que ele nunca tinha visto antes. Todos seguravam algum objeto estranho na mão. Ele fazia sons de clique e emitia luz.
O letreiro fixado firmemente na parte externa do prédio mudava constantemente seu conteúdo, piscando de forma brilhante. Nine se sentiu tonto na rua ofuscantemente iluminada. Ele estava desorientado.
“Também não há espíritos. Será que voltaram?”
Ele não conseguia sentir a presença de espíritos em lugar nenhum. O espírito protetor de baixo nível que Chae-Chae havia atrelado a ele tinha uma personalidade brincalhona. O espírito nunca saía de seu lado, mesmo quando Nine estava dormindo, fazendo cócegas em seu cabelo.
Os espíritos eram seres imortais, mas tinham o hábito de retornar ao reino espiritual quando confrontados com uma força incontrolável. A menos que Nine fosse um invocador de espíritos, ele não conseguiria chamá-lo de volta.
“Não, será que estou sonhando agora…”
Nine murmurou aturdido, sem senso de realidade mesmo enquanto as pessoas o erguiam e o empurravam para dentro de uma carruagem desconhecida. No entanto, em menos de um dia, ele teve a intuição de que aquilo sobre o que Chae-Chae costumava falar ocasionalmente tinha acontecido com ele.
— Nine, você sabia que os viajantes têm uma cor de alma diferente dos outros humanos?
— O que é um viajante?
— Um viajante é alguém que pode atravessar dimensões livremente. Existem espíritos, pássaros e, raramente, até humanos. Nine, eu os chamo de viajantes.
Era um absurdo. Como uma pessoa poderia atravessar dimensões? Para começar, a existência de outros mundos era inacreditável.
— Você está brincando! Está contando outra grande mentira, não está?
— Ai, ai, lá vamos nós de novo. Como devo corrigir o jeito de falar deste pequeno atrevido… Nine, você precisa aprender de novo como respeitar um ser transcendente. Você acha que a grande dragoa do Continente Oriental mentiria?
— Você mente! Você mente!
Chae-Chae era um ser que tinha vivido por mais de mil anos, mas era uma dragoa que não agia conforme a idade e sempre tinha uma piada nos lábios. Nine foi enganado por ela e acreditou na existência da fada do dente até os doze anos. Houve até uma época em que achava que os bebês nasciam de figueiras, e quando o fruto estivesse maduro, ele se deitava sem parar debaixo das árvores no pomar, na esperança de que um irmãozinho pudesse nascer.
A dragoa milenar segurava a barriga de tanto rir toda vez que o menino de dez anos caía em suas palavras que nem um patinho, se divertindo com o quanto ele era ingênuo. Além disso, a história sobre outras dimensões era a menos realista entre os contos de Chae-Chae. Então ele achou que talvez fosse mais uma história inventada, mas…
— Como uma pessoa pode atravessar para outro mundo? Nós, humanos, já dominamos o espaço, não é? O poder mágico está em todo lugar, e os humanos podem controlar o espaço manipulando o poder mágico. Se o que você está dizendo é verdade, não haveria como nossos professores não terem nos contado sobre a existência de outros mundos. Nem mesmo os maiores mágicos conseguem fazer uma coisa dessas.
— Os humanos dominam o espaço? …Foi isso que ensinaram a você?
— Por quê? Não é verdade?
Chae-Chae bufou e respondeu:
— Ha!
— De jeito nenhum. Que criaturas arrogantes. Essa é a coisa mais ridícula que ouço em quase cem anos.
Chae-Chae baixou ainda mais a voz e sussurrou seriamente:
— Nine, os viajantes existem sim. Eu de fato vi um viajante com meus próprios olhos.
— …
É verdade? Ou ela está me provocando de novo e eu simplesmente não estou percebendo?
Nine, que vinha se esforçando ao máximo para não cair nos truques da dragoa, logo arregalou os olhos com uma expressão vazia. Seres próximos à fonte da magia frequentemente mentiam para Nine, mas dessa vez podia ser verdade. As orelhas de Nine se aguçaram mais uma vez diante das palavras de Chae-Chae.
— …Sério? Aquela pessoa é mesmo um grande mágico?
— Não. Ele era um humano comum que nem sequer conseguia usar magia. Ele não parecia se lembrar de nada do que tinha acontecido com ele.
— Ele não se lembra? Por quê?
— Bem, quem sabe. Talvez ele tenha apagado da memória porque foi uma experiência desagradável, ou talvez tenha simplesmente esquecido sem motivo. Foi um acidente, afinal.
— Um acidente?
— Sim, um acidente.
Como mais se chamaria algo que acontece sem aviso?
A voz de Chae-Chae, tingida de riso daquela conversa de infância, continuava ecoando em seus ouvidos.
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“Será que Chae-Chae sabia que isso aconteceria comigo?”
Nine murmurou para si mesmo, quase fora de si. É claro que aquilo não podia ser verdade, mas naquela situação, todo tipo de pensamento passava por sua mente. A dragoa sempre parecia viver de forma descuidada, mas no fim, conforme o tempo passava, sempre havia um significado por trás de todas as suas ações. Exceto, claro, pelas brincadeiras que ela fazia só para provocá-lo.
Se eu soubesse que isso aconteceria, deveria ter feito mais perguntas.
“Nunca pensei que algo assim fosse acontecer comigo!”
Naturalmente, ele não conseguia se comunicar com as pessoas desconhecidas naquela cidade desconhecida. O próprio sistema linguístico parecia diferente. As pessoas ficaram um tanto incomodadas com a língua estranha que fluía da boca de Nine, mas o próprio Nine, justamente a pessoa incapaz de se comunicar, não estava particularmente preocupado.
Ele discretamente enfiou no dedo mindinho um anel que havia recebido diretamente da dragoa, o qual encontrou na bolsa de espaço expandido amarrada em sua cintura.
O anel preto, feito entalhando minerais e infundido com a magia da dragoa, tinha um formato bastante tosco apesar de seu valor. Era simples, sem uma única gema decorativa, mas caracteres antigos parecidos com hieróglifos estavam gravados na superfície interna que tocava diretamente o dedo.
A magia, originária do poder da dragoa, instantaneamente o deixou fluente numa língua que ele nunca tinha encontrado antes.
“Recebi há tanto tempo que tinha esquecido que eu o tinha…”
Esse anel, que ele havia recebido de Chae-Chae quando era tão pequeno que agora nem conseguia se lembrar, era um tesouro com múltiplas camadas de magia de alto nível que conseguia até compreender a língua dos dragões.
Um item mágico infundido com a língua dos dragões, nada menos. Não havia um único texto que ele não conseguisse ler, das línguas de outros continentes às línguas antigas.
Graças a isso, o artefato tinha sido bastante útil ao pegar livros antigos emprestados na biblioteca. Os professores ficavam impressionados com a seleção singular de temas e os traços de pesquisa extensa nos trabalhos que Nine entregava, o que o diferenciava dos outros estudantes.
Nem mesmo os professores conseguiam imaginar que Nine conseguia ler línguas antigas. Eles nem sabiam que tais livros existiam na biblioteca. Era o quão incrivelmente valioso era aquele artefato, geralmente desconhecido até mesmo em sua existência.
Nine havia se perguntado a vida toda por que Chae-Chae só lhe dera um espírito guardião e um presente tão precioso.
“Simplesmente porque ela gosta de mim?”
Era um pensamento que o fazia parecer alguém com complexo de inferioridade, mas era verdade. Chae-Chae, também conhecida como a Dragoa Guardiã Imperial não apenas do Continente Oriental, mas de todo o império, era bastante afeiçoada aos humanos em geral, mas adorava Nine em particular. Ela dizia que ele era divertido de brincar, ou algo assim.
↫๋ ࣭ ⭑๋ ࣭ ⭑Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki