Ato 1, 02
ִֶָ𓂃 ࣪˖ ִֶָ⏱️🐇 Ato 2: Criança Perdida no Espaço ִֶָ ་༘࿐
Nine ficou um tanto perplexo quando voltou à academia depois de muito tempo e viu as sombras estampadas no rosto de todos. A pele deles estava toda seca e os olhos, embaçados pela falta de sono.
Eles perguntaram a Nine com os rostos cansados: — Você não ouviu a voz? — e Nine assentiu. Parecia que ele tinha recebido certa folga por ser estudante. Ou talvez tivessem se esquecido dele já que estava na academia. …De qualquer forma, Chae-chae era uma dragoa misericordiosa.
— Devo ir eu?
— …Você iria?
Ninguém tentou detê-lo. Todos tinham olheiras escuras de tanto que haviam sofrido. Nine, que tinha voltado à cidade imperial pela primeira vez em muito tempo antes de sua formatura na academia, partiu sem descanso para apaziguar Chae-chae.
Além de ser incômodo, ir ver Chae-chae não era de todo desagradável. Embora a jornada fosse um tanto traiçoeira, na verdade era prazerosa quando ele enfim se encontrava com Chae-chae.
O covil de Chae-chae continha não apenas tesouros antigos, mas também pedras de magia puras e poderosas que a maioria dos mágicos sequer conseguiria vislumbrar. O cofre do tesouro era tão imenso e esplêndido quanto o imperial. Ela tinha o hábito, como os dragões costumam ter, de acumular todo tipo de tesouros e ornamentos. Ela não resistia a nada que brilhasse.
“Fico imaginando o que ela vai me dar hoje…”
Tratando-o como um humano de estimação, Chae-chae alimentava Nine até ele ficar de barriga cheia sempre que o via. Não só isso, mas ela lhe jogava despreocupadamente artefatos preciosos como se fossem brinquedos comuns. Era revelador que, quando Nine era pequeno, ele brincava de bolinha de gude sem saber com artefatos valiosos o bastante para comprar um castelo antigo inteiro.
“Se você está tão entediada a ponto de morrer, por que não desce e vem viver na vila?”
Assim ele poderia visitá-la com mais frequência. Mas Chae-chae detestava a ideia, dizendo que seria estranho um grande ser transcendente se misturar com humanos na vila deles. Os dragões deveriam viver em lugares altos e traiçoeiros para manter a imagem. Era típico de um dragão, tudo aparência.
Mesmo depois de chegar à província mais próxima, era preciso caminhar meio dia inteiro para alcançar o covil de Chae-chae. Além disso, o caminho era traiçoeiro, e magia de teletransporte não podia ser usada. Não havia ninguém neste continente que ousasse definir coordenadas dentro do domínio dela para uma viagem mágica fácil.
Os humanos de um passado distante temiam a existência dos dragões. Era uma era repleta de guerras. Criaturas que viviam em montanhas rochosas traiçoeiras ou sob o mar e usavam magia poderosa eram entidades desconhecidas que os humanos não conseguiam conquistar. Os reis enviavam tropas repetidamente aos covis dos dragões e faziam tentativas fúteis de matar esses seres transcendentes. Era por isso que Chae-chae detestava aqueles que portavam espadas.
Por essa razão, não levar sequer um cavaleiro da guarda foi um dos erros que Nine cometeu naquele dia.
Ele caminhava sozinho por um beco deserto. Uma sombra negra se contorceu e rastejou até os pés de Nine. O ar vibrou sutilmente e, antes que ele pudesse reagir, seu tornozelo foi agarrado pela sombra.
— …?
Ele olhou para os próprios pés surpreso. O grande buraco negro que se abrira estava simplesmente vazio. O braço de Nine se debateu descontroladamente no ar. Ao mesmo tempo, seu corpo se inclinou.
“Ah.”
Nine era o único dentre a família imperial que não conseguia manejar poder mágico adequadamente. Diferente dos outros membros da realeza, ele não conseguia sentir a mana que se dizia existir em todo lugar, e, portanto, não tinha habilidade para lidar com situações como aquela. Era por isso que às vezes chamavam Nine de aberração da família imperial.
Em um instante, o chão sob seus pés cedeu. Tragicamente, Nine não fazia ideia do que era aquele buraco mesmo enquanto caía. Como era um caminho sem transeuntes, ninguém testemunhou seu desaparecimento.
Com a sensação de seu corpo sendo sugado para a escuridão, Nine perdeu a consciência.
✦•┈๑⋅⋯ ⋯⋅๑┈·✦
Sua consciência ia e vinha repetidamente. Cada vez que abria os olhos, sentia como se o cenário tivesse mudado. Às vezes parecia um espaço completamente negro, e outras vezes ele via um leve brilho de luz à distância antes de cochilar de novo. Ele não conseguia dizer direito onde estava.
Sua cabeça ficava enevoada o dia todo. Não havia força alguma em seu corpo, e parecia que todo o ar o pressionava pesadamente. Num estado em que mal conseguia distinguir objetos, Nine percebeu que seu corpo, e aquele lugar, não eram normais.
“Isso é ruim.”
Mesmo tentando com todas as forças, ele não conseguia se mover, e Nine instintivamente sabia que seria difícil desenredar aquela situação sozinho. No fim de seu senso de crise havia apenas desespero.
“Vou morrer assim?”
De forma tão fútil? Quando ele não havia realizado nada, absolutamente nada…
Para evitar perder até mesmo seus sentidos cada vez mais embotados, Nine constantemente forçava o cérebro sempre que recuperava a consciência. Ele nunca parava de pensar. Ainda assim, continuava ficando aturdido como se tivesse inalado uma poção do sono.
Quanto tempo havia passado? As pálpebras de Nine se contraíram quando ele sentiu alguém tocá-lo de leve. Abrindo os olhos grogue, o mundo que viu estava todo enevoado, como uma paisagem refletida numa poça num dia nublado. E no meio daquela paisagem estava uma sombra cinza.
Uma língua incompreensível. Foi o primeiro som.
“Quem é?”
Nine piscou várias vezes.
O homem que apareceu com uma silhueta tão vaga quanto uma sombra ou névoa era inteiramente monocromático da cabeça aos pés.
Nine desesperadamente estendeu a mão em direção ao homem, espremendo toda a força de seu corpo. Não. Ele tentou, mas, infelizmente, só conseguiu mover as pontas dos dedos.
O homem se aproximou e sentou-se ao lado dele. Dedos ásperos roçaram gentilmente sua bochecha. Nine se encolheu involuntariamente diante da sensação de cócegas. Os dedos percorreram sua linha do maxilar e finalmente alcançaram sua nuca. Ele agarrou levemente o pescoço de Nine com as duas mãos.
Naquele momento, Nine desesperadamente estendeu a mão em direção ao homem, espremendo toda a força de seu corpo. Ele conseguiu agarrar a manga do homem. Com sua mão enfraquecida, era tudo o que podia fazer. Ele não tinha força para puxar a manga com firmeza nem para expressar nada por gestos.
— …
Me salve, por favor. Os lábios de Nine se moveram sem emitir som. Então ele sentiu a mão do homem em sua nuca se contrair. Os dedos enrolados em torno de seu pescoço lentamente se afastaram. O calor corporal que grudara em sua pele desapareceu, fazendo aquele ponto parecer ainda mais frio. Nine quis gritar, pensando que o homem talvez fosse embora assim, mas sua garganta já estava seca demais para emitir som.
Felizmente, o homem não abandonou Nine. Em vez disso, deslizou a mão sob o tronco de Nine e o ergueu para uma posição sentada em um único movimento. A pouca força que Nine havia espremido se dissipou, e a mão que estivera agarrando a manga do homem caiu frouxa no chão.
O homem apoiou a parte de trás do pescoço dele. E o calor imediatamente invadiu por entre seus lábios indefesos. Água morna fluiu para dentro, umedecendo sua garganta ressecada. Nine bebeu desesperadamente a água que escorria pouco a pouco. Ele se sentiu um pouco mais vivo. O calor se separava e se reconectava repetidamente.
Em sua boca, sua bochecha, e então seus lábios de novo. Foi um beijo muito leve, como o de um passarinho bicando. O homem lambeu até as lágrimas acumuladas nos olhos de Nine, sem deixar escapar uma única gota, como se fosse água no deserto. A ação, aparentemente natural e sem hesitação, fluía suavemente. Alívio. Nine, com a mente inteiramente focada no pensamento de que estava vivo, nem sentiu que havia algo estranho na ocasião. Ele apenas se apoiou fracamente contra o calor.
Nine, que estivera aturdido, tardiamente encontrou os olhos cinza-prateados escondidos na névoa.
— …!
Os olhos revelados conforme a névoa negra se dissipava eram belos. As íris de um prata profundo cintilavam misteriosamente, como se uma galáxia tivesse sido plantada em seus olhos.
Longos cílios e os olhos prateados escondidos sob eles, o formato de olhos feroz e afiado, sobrancelhas escuras… Ao observar cada traço separadamente, eles eram claramente visíveis, mas, estranhamente, parecia que ele não conseguia percebê-los direito ao desviar o olhar. Curiosamente, o formato geral do rosto não se fixava bem.
“…Ah.”
Será que isto é um sonho?
Como se confirmasse os pensamentos de Nine, o cenário pareceu se aproximar. Parecia que ele seria engolido pela paisagem enevoada. O mundo se contorceu. O chão e o céu rodopiaram e se misturaram. Naquele breve instante, Nine se desesperou mais uma vez.
O homem, que estivera encarando-o daquela forma, sorriu levemente.
O que você está dizendo?
A palma do homem parecido com uma sombra cobriu os olhos de Nine. Assim que sua visão foi bloqueada, sua mente ficou enevoada. Era exatamente como… magia.
As pálpebras de Nine tremularam algumas vezes antes de finalmente se fecharem por completo. Um leve suspiro escapou quando sua cabeça pendeu. A última coisa que ele sentiu foi seu corpo frouxo sendo erguido e colocado em algum lugar antes de Nine fechar os olhos.
Foi mais um apagão de consciência.
↫๋ ࣭ ⭑๋ ࣭ ⭑Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Yuki