Capítulo 113
Que diabos esse homem está dizendo…
Chrissy apenas o encarou, atônito. Não conseguia acreditar em nada do que tinha ouvido. Principalmente na última frase.
Nathaniel Miller não falou mais nada depois de dizer aquelas palavras. O silêncio caiu entre os dois.
O que eu deveria dizer?
Havia coisas demais passando pela cabeça de Chrissy — e, justamente por isso, ele não conseguia dizer nada.Quanto tempo ficaram apenas se encarando em silêncio?
Após uma breve batida, a porta se abriu, e o policial que havia conduzido Chrissy até ali colocou o rosto para dentro.
— O tempo acabou. Por favor, saia.
Só então Chrissy percebeu que não conseguiu dizer uma única palavra. O arrependimento veio tarde demais, mas não havia o que fazer. Ele hesitou, mas acabou se levantando. Foi no momento em que estava prestes a sair que finalmente falou:
— …Eu volto.
Ao olhar para trás e dizer isso, um leve sorriso surgiu nos lábios de Nathaniel. Aquela foi sua única reação. Chrissy mordeu o lábio inferior, então virou o rosto de novo e saiu da sala.
…Que sufocante.
O dia estava excepcionalmente ensolarado e o ar era incrivelmente fresco, mas mesmo assim Chrissy sentia o peito apertado. Como entender esse contexto? A confissão repentina de Nathaniel Miller… toda aquela situação… tudo só o deixava mais confuso. Cobrindo o rosto com uma das mãos, ele ficou parado por um momento, tentando se recompor. Com isso, Chrissy ergueu a cabeça.
O que preciso fazer agora é verificar como está o andamento do caso.
O fato de Nathaniel Miller ter matado o padrasto de Chrissy é uma verdade imutável. A questão é: como esse caso vai se desenrolar daqui pra frente? É claro que a promotoria vai indiciá-lo por homicídio, mas… como a defesa pretende agir? Há alguma chance de vitória? Absolvição é um resultado completamente absurdo então…
Foi pensando nesse ponto que Chrissy franziu levemente a testa. Por que estou pensando do ponto de vista de um assassino? De qualquer forma, se cometeu um crime, deve-se pagar por ele. Independentemente do motivo, homicídio é o crime mais hediondo de todos.
Ainda assim… o fato de eu estar tentando montar um julgamento do ponto de vista de Nathaniel Miller… é porque ele é Nathaniel? Ou porque a vítima era aquele homem?
Justiça é um valor absoluto. Em nenhuma circunstância ela deveria pender para um lado. Não é à toa que a deusa da justiça usa uma venda nos olhos, para manter o equilíbrio perfeito.
Mas a balança de Chrissy já estava inclinada. Ele não estava pensando o tempo todo em como poderia amenizar a culpa de Nathaniel? Ao perceber isso, Chrissy se sentiu completamente confuso.
— …Haah.
Ele soltou mais um suspiro profundo. Foi então que o seu celular vibrou de repente. Ao conferir o número, ele imediatamente se lembrou de alguém que havia esquecido por completo.
— …Mãe.
Ao atender, abriu a boca com certa hesitação. Do outro lado, ouviu-se um choro.
— Chrissy… por favor, me ajude… o que é isso tudo…?
Por um momento, Chrissy não conseguiu dizer nada. Apenas ouviu o choro dela. Nessa situação, ela também era uma vítima. Quão grande deveria ser o choque ao descobrir a verdadeira natureza do homem em quem havia confiado e de quem havia dependido por toda a vida?
— Estou indo agora.
Após dizer isso, Chrissy encerrou a ligação. No momento, ele era a única pessoa que podia consolá-la.
O bairro, antes calmo e pacífico, agora estava tomado por uma atmosfera estranha. Talvez por causa do terrível assassinato, o ar parecia pesado, sombrio.
Chrissy estacionou o carro na rua em frente à casa — provavelmente o mesmo lugar onde Nathaniel havia parado — e desceu.
O jardim, que seu pai costumava cuidar com tanto zelo, agora estava completamente destruído, com terra e grama reviradas pelas pessoas que passaram por ali. Como se mostrasse, de forma cruel, que não havia mais ninguém para cuidar dele.
Voltar a pisar naquela casa da qual havia conseguido escapar com tanto esforço exigia uma coragem imensa. Parado diante da porta, antes de apertar a campainha, Chrissy respirou fundo várias vezes. Cerrando e abrindo o punho com pressa, tentou conter o tremor nas mãos.
O som da campainha, familiar e ao mesmo tempo terrível, ecoou do outro lado da porta. Pouco depois, ouviram-se passos apressados se aproximando, e a porta se abriu bruscamente sem sequer verificar quem era.
— Chrissy…!
— Mãe.
Com os olhos já cheios de lágrimas, ela foi imediatamente envolvida pelos braços de Chrissy, que tentou confortá-la. Ela o abraçou com força, mas logo se afastou e falou:
— Entre logo. Isso tudo… vamos conversar lá dentro.
Ela se virou e saiu andando na frente, mas Chrissy não conseguiu dar o primeiro passo para dentro da casa. As lembranças terríveis voltaram como se tivessem acontecido ontem, deixando-o pálido e paralisado. Ao notar isso, a mãe voltou até ele e segurou seu braço.
— O que está fazendo? Entre logo. Está tudo bem, já limparam todos os vestígios.
No fim, Chrissy foi conduzido pela mãe e entrou na casa contra a vontade. Por um instante, pareceu sentir um leve cheiro de sangue, mas era apenas impressão. Dentro do ambiente estava tão limpo que era difícil acreditar que algo tão horrível havia acontecido ali.
— Sente-se. Quer que eu traga alguma coisa para beber?
— Não, está tudo bem.
Chrissy balançou a cabeça e se sentou um pouco afastado do lugar que ela havia indicado. Escolheu um assento o mais distante possível da cadeira onde seu pai costumava ficar. Mesmo naquela situação, a racionalidade da mãe ao oferecer algo para beber era, de certo modo, impressionante. Ainda assim, o rosto visivelmente abatido deixava claro o quanto ela estava sofrendo.
Com a recusa de Chrissy, ela balançou a cabeça como quem entendia e sentou-se no sofá individual ao lado, abaixando a cabeça logo em seguida. Seus lábios cerrados tremiam, mostrando que ela se esforçava para conter o choro. Deve se sentir como se o mundo tivesse desmoronado. Pensando assim, Chrissy segurou a mão de sua mãe. Era uma tentativa de consolá-la, mas ela suavemente puxou a mão de volta. Chrissy interpretou aquilo como um gesto para enxugar as lágrimas.
— O que devemos fazer agora?
Estaria ela perguntando sobre como deveria seguir vivendo dali em diante? Chrissy apoiou os braços sobre as coxas, inclinando o corpo para frente, e respondeu:
— Vamos superar isso. A senhora vai conseguir.
— Claro… eu também acredito nisso. Você vai me ajudar, não vai?
Diante da pergunta da mãe, Chrissy assentiu.
— Claro. Qualquer coisa que eu puder fazer, farei com prazer.
Até aí, tudo bem. Teria sido melhor se tivesse parado ali, mas Chrissy acabou dizendo o que não devia.
— Eu sei que a senhora também deve ter ficado abalada por causa daquele homem. Mas eu sei que não é culpa sua, então…
Chrissy interrompeu a própria fala. A expressão da mãe ao encará-lo era completamente diferente do que ele esperava.
— Do que você está falando?
Com o rosto dela frio e endurecido, Chrissy ficou momentaneamente confuso. Será que ela ainda não sabe?
Ele pensou que talvez ela estivesse apenas em choque com a morte repentina do marido, mas estava enganado. A mãe o encarou com um olhar gélido e continuou friamente:
Chrissy ficou momentaneamente perturbada pela frieza no rosto dela. Será que ela ainda não sabia? Ele chegou a pensar que talvez ela estivesse apenas em choque pela morte repentina do marido — mas não era isso. Com um olhar frio, ela o encarou e respondeu com firmeza:
— Ele não era esse tipo de pessoa. Tudo isso é um mal-entendido. Já estão investigando, então logo tudo vai ser esclarecido. Vão provar que foi uma acusação injusta…
Chrissy ficou atordoado, como se tivesse levado um golpe. Ela sabia. Sabia que tipo de homem ele era — apenas se recusava a acreditar. Com todas as notícias sendo divulgadas por todos os lados, seria até mais difícil não saber… e ainda assim… Chrissy também sabia o quanto aquele homem significava para ela. Assim como seu pai biológico foi para sua mãe biológica. E, assim como seu pai biológico, seu pai adotivo também traiu a própria esposa. Ele entendia perfeitamente o tamanho do desespero que aquilo causaria.
Mas isso não muda a realidade. Nem o crime que aquele homem cometeu.
— Mãe… eu entendo como a senhora se sente, mas o pai não era uma boa pessoa como a senhora pensa.
Ele falou com a maior calma que conseguiu reunir, contendo as emoções — mas a reação dela foi dura.
— Seu pai não é esse tipo de homem! Ele era uma pessoa tão devota… como poderia fazer algo assim? Não diga um absurdo desses.
Ao vê-la reagir com raiva, Chrissy percebeu que não podia mais esconder. Ele precisa dizer. Se não disser agora, nunca mais vai conseguir.
Como aquele homem a traiu.
— Não, mãe.
Chrissy baixou o tom ao máximo para conter as emoções, mas mesmo assim não conseguiu esconder o tremor em sua voz.
— Eu também fui vítima daquele homem horrendo. Desde seis meses depois de vir para cá… por anos, ele fez isso comigo.
As palavras saíram rápidas, como se estivesse vomitando. Revelar um segredo que havia escondido por tanto tempo exigiu uma energia enorme. Sentindo uma exaustão como se toda a força tivesse saído de seu corpo, ele olhou para a mãe e então congelou.
Ele tinha certeza de que ela estaria paralisada de choque, devastada… mas não havia nenhum sinal disso. Ao contrário, ela o encarava com olhos firmes, sem o menor abalo. O leve franzir em sua testa fez Chrissy ficar atordoado. O que é isso…? Não me diga que… Isso não faz sentido.
— …A senhora sabia.
Como se finalmente conseguisse respirar, Chrissy soltou as palavras como se estivessem presas. Em seguida, murmurou, como alguém perdido:
— A senhora sabia… o que aquele desgraçado fazia comigo.
A mãe ergueu o queixo e estreitou os olhos. Com um olhar cheio de desprezo que ele nunca tinha visto antes, ela o encarou e disse:
— E daí?
A respiração antes calma dela tremeu levemente, tomada pela raiva. Cerrando o punho, ela olhou para Chrissy com ódio e rosnou entre os dentes:
— Foi você que seduziu o meu marido.
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Continua…