Capítulo 114 Fim
Chrissy sentiu a mente ficar completamente em branco.
O que… eu acabei de ouvir?
O rosto da mãe, que sempre sorria de forma gentil, agora estava distorcido por uma fúria que ele nunca tinha visto antes. Ele jamais havia sequer imaginado vê-la com aquela expressão — muito menos sendo direcionada a ele. A confusão o tomou por completo.
O que está acontecendo aqui?
— Mãe.
Ele mal conseguiu falar. Forçando-se a manter a razão, tentou analisar a situação da forma mais fria possível.
— Eu sei que é difícil para a senhora aceitar a realidade. Muitas famílias de criminosos reagem da mesma forma.
Sim, ele já não tinha visto isso inúmeras vezes. Famílias que se enfurecem, entram em desespero, negam a verdade. Sua mãe… era apenas mais uma entre elas.
— Essa reação da senhora é completamente compreensível. Por isso eu também entendo…
— Entende? Entende?! Como você ousa dizer que me entende?!
Cortando as palavras de Chrissy, que tentava consolá-la, a mãe explodiu de forma cortante. Como se não pudesse mais se conter, ela gritou com uma voz estridente que ele nunca tinha ouvido antes:
— Que descaramento! Foi você que o seduziu, que o arrastou para aqueles atos imundos, e agora vem fingir que não tem culpa nenhuma?! Eu fechei os olhos para aqueles seus atos repugnantes, eu até te perdoei… e mesmo assim, como você ousa fazer isso na minha frente?! Como ousa jogar a culpa nele?!
Ela estava genuinamente furiosa. Se houvesse alguma arma por perto, talvez tivesse atacado Chrissy sem hesitar. Mas ele não podia mais ignorar a origem daquela raiva. Ela realmente acreditava nisso… Acreditava, do fundo do coração, que seu marido inocente havia sido vítima de uma armadilha… causada por Chrissy.
— Eu tinha seis anos, mãe.
Por algum motivo, ele não sentiu raiva. Nem tristeza, nem qualquer outra emoção. Apenas vazio. Chrissy murmurou com a voz afundando:
— Eu… tinha só seis anos naquela época.
Ele insistiu em repetir a realidade, mas a expressão da mulher não mudou. Cerrando os dentes, ela continuou a encará-lo com ódio.
— E daí? Meu marido era a pessoa mais pura que existia. Foi o Dennis quem insistiu em te adotar. Quem iria querer criar alguém como você, nascido de pais tão horríveis — um homem que matou a própria esposa? Mesmo assim, foi Dennis quem se ofereceu para te acolher. E você… você o corrompeu e ainda o levou à morte. Seu demônio, criatura maldita! Nunca vou te perdoar, nem depois da minha morte! Ingrato! Você nunca vai ter uma morte tranquila. Claro que não. Deus vai te punir!
Ela despejou uma sequência de maldições. O coração de Chrissy já havia esfriado completamente. Com o olhar vazio, ele apenas a observava. Quando ela finalmente parou, ofegante, ele então abriu a boca:
— Se a senhora sempre pensou assim… o que achou que eu poderia fazer para ajudar?
Ele já não a chamou de mãe. Diante da pergunta seca de Chrissy, ela respondeu friamente:
— A honra do seu pai, é claro! Se você ainda tem um mínimo de consciência, deveria limpar o nome dele dessa acusação injusta. Eu achei que você ao menos tivesse um pouco de vergonha na cara. Mas vem até aqui dizer esse tipo de absurdo? Nem pensar. Eu nunca vou cair nas suas mentiras. Não como o meu pobre Dennis caiu!
Ela gritava, tomada pela fúria. Chrissy já não tinha mais nada a dizer. Apenas observava, em silêncio, aquela mulher que um dia ele chamou de mãe.
Sim… mãe.
Mas, no fim, ela era apenas a esposa de Dennis. Talvez nunca tenha sido, de fato, sua mãe. Talvez tudo não passasse de uma ilusão dele.
— …Eu vou embora.
Chrissy disse apenas isso e se levantou. Enquanto caminhava em direção à porta, ela continuou a despejar uma saraivada de palavrões.
— Isso mesmo, suma daqui! Vá para o inferno, filho do demônio! Seu pai devia ter te matado junto quando matou sua mãe! Alguém como você merece queimar no fogo do inferno para sempre…!
Os gritos incessantes continuaram mesmo depois que ele fechou a porta da frente. Chrissy não olhou para trás nenhuma vez — apenas seguiu em frente, entrou no carro e bateu a porta. Só então o silêncio tomou conta ao redor. Ele ligou o motor imediatamente e partiu, deixando aquele lugar sem hesitar.
Por algum motivo, nenhuma lágrima veio. Não sentiu nada. Havia apenas um rosto ocupando sua mente. De repente, sentiu uma vontade desesperada de ver aquele homem.
— Boa tarde, senhor Jin.
O segurança na entrada o reconheceu e o cumprimentou. Chrissy respondeu brevemente e perguntou imediatamente:
— O senhor Miller já voltou?
— Sim, por aqui, por favor..
Assim que o segurança fez um gesto com a cabeça, um funcionário que estava na entrada se aproximou e o conduziu até o elevador privativo. Era um caminho já familiar para Chrissy, mas ele apenas seguiu em silêncio. Dentro do elevador, sentiu o coração começar a acelerar, e fechou os olhos com força.
Nathaniel Miller havia sido solto sob fiança poucas horas antes. Chrissy tentou encontrá-lo novamente depois daquela ocasião, mas qualquer visita havia sido proibida. Só depois de uma semana — ao ouvir a notícia da libertação — ele foi direto para a cobertura onde Nathaniel morava.
Uma semana.
Na verdade, isso era incrivelmente rápido. O processo de fiança, que poderia levar meses, ter sido concluído tão rapidamente certamente se devia ao fato dele ser um Miller. Sentir tanto alívio pelo fato de Nathaniel ser um Miller era algo impensável no passado. Quando sorriu amargamente sem perceber, um curto sinal sonoro ecoou e o elevador parou.
Quando as portas se abriram, Chrissy respirou fundo e deu um passo à frente. Mesmo atravessando a entrada e caminhando para dentro, havia uma sensação estranha — uma mistura de tensão e expectativa.
E então ele estava ali. No lugar que Chrissy esperava. Como sempre, apoiado no balcão, com um copo de uísque na mão, observando-o.
— Você chegou mais rápido do que eu esperava.
Foi a primeira coisa que Nathaniel disse. Chrissy apenas o encarou, fixamente, absorvendo o rosto daquele homem que tanto queria ver. Seu coração, que já batia forte, parecia agora golpear ainda mais pesado contra as costelas.
— E então… como foi a experiência de “visitar” a prisão?
Felizmente, com o mesmo tom indiferente de sempre, Nathaniel soltou um som entre os dentes, como um sopro.
— Foi horrível. A ponto de eu não querer passar por isso nunca mais.
— Ainda bem.
Chrissy continuou, ainda com a voz sem emoção:
— Eu não durmo com ex-presidiário.
Com isso, dessa vez, Nathaniel riu de verdade. Foi um riso breve, mas claro.
— Nesse caso, vou ter que garantir minha absolvição, nem que tenha que matar o juiz.
Não dava para saber se era brincadeira ou não, mas Chrissy não se deu ao trabalho de rir junto. Apenas continuou olhando para ele, com o rosto rígido.
— …Parece que você emagreceu um pouco.
Depois de um breve silêncio, ele falou. Nathaniel o fitou com olhos semicerrados, como se perguntasse: ‘era só isso que você tinha para dizer?’.
É verdade, eu tinha tanta coisa pra falar, pensou Chrissy, atordoado. Mas por que minha mente está tão vazia?
— Minha mãe sabia.
Ao ouvir aquilo, Nathaniel, que estava prestes a levar o uísque à boca, parou no meio do movimento. Diante do olhar que parecia perguntar “do que você está falando?”, Chrissy continuou, sentindo como se seus lábios se movessem por conta própria, independente da sua vontade.
— Ela sabia o que aquele homem fazia comigo… e ainda disse que fui eu quem o seduziu.
Nathaniel não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo em Chrissy enquanto levava o copo aos lábios.
— Fui precipitado.
Depois de beber, ele colocou o copo de volta sobre o balcão e disse.
— Eu devia ter atirado nela também.
Com um tom tão casual quanto quem comenta sobre o clima, Chrissy pensou se o que ouvia teria outro significado. Caso contrário, não seria possível falar em matar alguém com tanta naturalidade.
…Mesmo tentando acreditar que era só um absurdo dito ao acaso.
— Você tem mesmo certeza, acha que vai ficar tudo bem?
Chrissy abriu a boca. Mesmo com a voz fortemente contida, ela tremia violentamente.
— Eu sou beta. Não libero feromônios e não posso ter filhos.
Ao ouvir isso, Nathaniel soltou outra risada curta, como se achasse aquilo um absurdo.
— Chrissy, eu tenho cinco irmãos mais novos. Já cuidei de crianças até me cansar disso.
A ponta do nariz ardeu. Sua visão embaçou, e ele já não conseguia enxergar direito o rosto do homem. Sem pensar mais, Chrissy se jogou em seus braços.
— Eu te amo…
Foi como se algo explodisse dentro do peito, e as palavras simplesmente saltaram de sua boca. Era a primeira vez que dizia aquilo — e o impacto rasgou seu coração. Com os braços tremendo, envolveu com força o pescoço de Nathaniel. Este, por sua vez, puxou a cintura de Chrissy com um braço, colando seus corpos. O calor subiu como se a pele estivesse em chamas.
Hesitante, Chrissy ergueu o rosto — e imediatamente seus olhos encontraram os de Nathaniel. Ele o observava em silêncio antes de inclinar levemente a cabeça. Chrissy não recuou. Apenas fechou os olhos e entreabriu os lábios.
— Ah.
Quando seus lábios se encontraram profundamente, Chrissy soltou um suspiro involuntário. Talvez eu tenha esperado a vida inteira por esse beijo. Ele se agarrou a Nathaniel com todas as suas forças, pensando que não poderia haver beijo mais perfeito no mundo.
Epílogo
< Nathaniel Miller, inocente. >
No dia do veredito, o país inteiro foi tomado por uma enorme comoção. Durante todo o julgamento, a discussão central foi: “isso pode ser considerado um homicídio justificável?”
No entanto, conforme o processo avançava, vieram à tona os crimes da vítima — e também o fato de que Nathaniel Miller havia colaborado com o FBI para desmantelar uma organização de tráfico humano e exploração sexual infantil em grande escala. Isso foi o suficiente para mudar a opinião pública.
< Herói ou assassino >
Por conta de sua reputação anterior — sendo chamado de “demônio” —, muitos inicialmente duvidaram. Mas, à medida que novas provas surgiam durante o julgamento, tornou-se impossível negar. No fim, Nathaniel Miller passou a ser visto como alguém digno de ser reverenciado como herói…
<Ainda assim, isso não apaga os atos questionáveis que ele cometeu no passado.>
Mesmo assim, ainda haviam opiniões negativas. Considerando o histórico do escritório Miller, essa reação era compreensível. Por outro lado, também havia quem dissesse:
<Pelo menos neste caso, ele merece reconhecimento. Foi a única coisa certa que ele fez até hoje. Não faz sentido puni-lo por isso.>
Ainda assim, o fato de ele ter sido declarado inocente surpreendeu a todos. Mesmo reconhecendo seus méritos como agente infiltrado, muitos acreditavam que uma absolvição completa seria exagero.
Chrissy observava de dentro do carro enquanto Nathaniel saía do tribunal. Flashes disparavam de todos os lados, e jornalistas lançavam perguntas sem parar, mas ele não respondeu a nenhuma delas. Apenas avançou a passos largos, quase correndo em direção ao carro.
— Saiam da frente! Saiam!
Aproveitando o momento em que os seguranças empurravam os repórteres, Nathaniel entrou no carro quase deslizando. Sentado no banco de trás, Chrissy estava esperando por ele, e disse:
— Bom traba—
Antes que pudesse terminar, Nathaniel colou os lábios nos dele. Chrissy sorriu, como se não tivesse escolha, e aceitou o beijo.
— Como você conseguiu isso?
Quando Chrissy finalmente conseguiu perguntar, o carro já estava na estrada. Nathaniel sorriu e mordeu de leve o lábio inferior dele.
— Eu conheço muita gente poderosa.
Pessoas poderosas com segredos.
E aquele caso também havia sido extremamente útil para seu pai, Ashley Miller. Rivais políticos, empresários difíceis de controlar, até figuras da mídia — todos que estavam envolvidos naquele caso acabaram arruinados.
Talvez esse tivesse sido o verdadeiro motivo para Nathaniel aceitar esse caso desde o começo.
— Como eu pensei… vocês são os vilões.
Ao ouvir Chrissy falar com o rosto franzido, Nathaniel riu.
— Mas, no fim, é mais fácil quando vilões pegam outros vilões.
E então, segurando a mão de Chrissy e beijando seus dedos, disse:
— Continue fazendo o que é justo. Eu cuido do trabalho sujo.
Mostrando os dentes, ele mordiscou de leve a ponta dos dedos dele antes de soltá-los, encarando Chrissy com os olhos semicerrados.
— Não seremos o casal perfeito?
Chrissy apenas o observou em silêncio.
Um mês atrás, sua mãe adotiva foi assassinada em casa por um assaltante que invadiu sua casa durante a noite. Até agora, não só não prenderam o culpado, como nem encontraram pistas. As pessoas pareciam nem se importar, e o caso logo cairá no esquecimento…
Chrissy não fez perguntas sobre aquilo.
Sem retirar a mão presa por Nathaniel, ele levou a outra até o rosto dele, envolvendo sua bochecha, e inclinou a cabeça novamente.
— Provavelmente… mais do que perfeito.
Com um sussurro baixo, seus lábios se encontraram novamente. Sobre a estrada em movimento, folhas amarelas das árvores, levadas pelo vento, flutuavam no ar e se espalhavam de forma caótica.
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Fim.