↫─Capítulo 149
Do-Heon baixou o olhar, quieto, para as próprias duas mãos. Tinha a sensação de que, quanto mais punha a mão, tudo se estragava. A situação, a relação, e até Cheongyeon. Tudo.
O que, e a partir de onde, deveria corrigir. Corrigir era mesmo possível.
Como não dava para dimensionar em números feito os documentos que todo dia se punham sobre a mesa da sala de trabalho, ele chegara até aqui sem nem perceber que a coisa rumava para o pior. Pela vontade de ninguém mais senão do próprio Moon Do-Heon .
Se ao menos, feito uma cifra estatística, ele pudesse ao menos conferir com os olhos.
Era uma situação em que, dentro do sistema que ele possuía, não se via resposta de jeito nenhum.
As palavras ditas não tinham substância, mas, como se tivesse sido trespassado pelas palavras de Cheongyeon, a cada batida do coração seguia-se uma dor surda. Do-Heon , que fitava as próprias mãos com o olhar vazio, cerrou-as com força.
— Uhng…, hng.
Do-Heon, que estava mergulhado em pensamentos, se recompôs diante do som do gemido de Cheongyeon.
Ao ver Cheongyeon, com o suor frio brotando denso no cenho, ele relembrou a si mesmo que não era hora de ficar assim, quieto, de mãos atadas.
Do-Heon pousou o ombro e a cabeça de Cheongyeon sobre os próprios joelhos e o deitou. Mesmo no inconsciente, Cheongyeon recusava o toque que amparava seu corpo e soltava sem parar palavras de recusa numa pronúncia esboroada.
Do-Heon, sem conseguir pôr mais a mão, esperou que Cheongyeon se acalmasse.
— Se você não quer, não vou fazer nada.
Como quem tranquiliza, Do-Heon sussurrou em voz baixa. Queria falar de forma um pouco mais suave, mas uma emoção pesada que nunca antes sentira se condensava e a voz se cortava dura por conta própria.
Quando esperou prendendo a respiração, Cheongyeon parou de gemer. Mesmo vendo aquela imagem, Do-Heon, sem saber o que fazer, hesitou repetidas vezes.
Logo ele pôs o antitérmico por entre os lábios ligeiramente entreabertos. E, tomando na boca a água que trouxera havia pouco, fê-la escorrer para dentro da boca de Cheongyeon.
— Ng.
Mesmo com um beijo leve, a temperatura quente do corpo se transmitia por inteiro. No meio da hesitação sobre se, caso ele não conseguisse engolir nem isso, teria de acordá-lo à força para fazê-lo tomar o remédio, por sorte Cheongyeon não cuspiu a água e a engoliu junto com o remédio.
Ao ver o fino pomo de adão se mover, Do-Heon descolou os lábios e ergueu a cabeça lentamente.
Ele, com um gesto cauteloso, limpou a água que ficara nos cantos da boca de Cheongyeon por ele não ter conseguido engolir tudo.
Por mais que tornasse a tocar a testa e a nuca, a febre ainda fervia altíssima. Talvez fosse impressão, mas parecia até ter ficado mais quente que há pouco.
Se ao menos houvesse um termômetro. Como não dava para saber o quanto ele estava mal, só com imaginações à toa a inquietação se agravava e até ele, que olhava, sofria.
Do-Heon observou Cheongyeon deitado em seus joelhos prendendo a respiração, esperando que o efeito do remédio circulasse.
Diferente por completo, como se fosse outra pessoa, do Cheongyeon que ria de orelha a orelha no sonho, o semblante estava vermelho e macilento. Para começar, o Cheongyeon do sonho não passava de um delírio que ele mesmo fabricara. Afinal, nos três anos em que viveram como casal, quase nunca ele o fizera rir assim, com sinceridade.
Não bastasse não tê-lo feito rir, no fim fizera Cheongyeon chorar, e por último o estragara por completo.
Ninguém mais senão ele mesmo.
— Maldição.
Do-Heon, por hábito, ergueu a mão na direção do pescoço. Então, ao se dar conta de que não tinha posto a gravata, apoiou a testa e fechou os olhos. Como se tivesse corrido, o coração disparava depressa demais e era difícil recompor logo a respiração.
— Isso deve ser porque você plantou todo mundo em volta do Yoo Cheongyeon como gente sua e ele não confiou.
A alfinetada que Han Iram lançara ressoava repetidamente em sua mente. Ele não conseguira sequer pensar numa palavra para rebater. E fora tomado por uma impotência inédita.
O fato de que, para Cheongyeon, ele era uma pessoa menos confiável até que Han Iram, que dizia tê-lo encontrado apenas uma única vez, por causa do drama, o tornava um miserável.
— …
Passado algum tempo, talvez o efeito do remédio circulasse, pois a respiração áspera de Cheongyeon foi aos poucos se tornando regular. Ainda soltava, de vez em quando, um gemido tênue, mas estava melhorando de forma visível em comparação a quando entrara pela primeira vez no apartamento.
Só então a tensão retesada afrouxou um pouco. Do-Heon, aliviado, deitou Cheongyeon direito na cama.
Ele, com medo de que, no meio do caminho, Cheongyeon acordasse e dissesse que estava com sede, pegou o copo que tinha pouca água e rumou para a cozinha. Enquanto enchia o copo de água até em cima, de algum lugar soou um zumbido de vibração.
Ao virar a cabeça com agilidade para o lugar de onde vinha o som, sobre a bancada da pia o celular de Cheongyeon piscava. Do-Heon, que pousou por um instante o copo de água, pegou o celular.
— [Pai]
O pai de Cheongyeon estava ligando.
Como o som da vibração que tocava sem parar era irritante, no exato momento em que ia desligar o aparelho, a ligação caiu.
Na tela que voltou ao ecrã principal apareciam dezenas de chamadas perdidas. Não só chamadas, mas também mensagens haviam entrado, perto de centenas.
De repente, ficando curioso sobre de que pessoas teriam vindo contatos, Do-Heon tocou a tela. Então surgiu o aviso pedindo para digitar a senha.
Do-Heon, que estancou por um instante, mesmo sabendo que de todo modo não conseguiria desbloquear, por ora digitou primeiro o aniversário de Cheongyeon.
0901. Mas, junto com o aviso de que estava errado, tornou a surgir a janela de digitação de senha.
Do-Heon, que fitou a tela por alguns segundos, digitou em seguida a data de estreia de Cheongyeon como idol. Desta vez também deve ter errado, pois o bloqueio não se desfez.
Não era a data de estreia como ator tampouco. Como não lhe ocorria mais nada, quando ia desistir de uma vez e pousar o celular, uma velha lembrança relampejou na mente de Do-Heon .
Quando fazia pouco tempo de casados, Cheongyeon dissera de passagem que definira a senha do celular com o aniversário de Do-Heon.
Achando “não me diga”, quando digitou 0213, a tela de bloqueio enfim se desfez.
— Hã.
Por que ele não trocou?
Do-Heon olhou com um olhar confuso na direção da cama onde Cheongyeon estava deitado. Diante de um alívio estranho e, ao mesmo tempo, da sensação de o pomo de adão se apertar, ele expeliu um breve suspiro seco.
Nesse meio-tempo, novas mensagens continuavam entrando.
— [Pai: Cheongyeon. Atende o telefone. É que eu tenho uma coisa para falar..]
— [Pai: Não sei como ficaram sabendo, mas chegou no meu e-mail um contato da emissora SDS perguntando se dá para você dar uma entrevista.. Não seria melhor você mesmo entrar em contato e conversar?]
— [Pai: Você tem que dar alguma explicação para ter os próximos trabalhos, né.]
— [Pai: Atende, Cheongyeon. Você está mesmo saindo com aquele ator? Ou é amigo?]
— [Pai: Os repórteres aqui dizem que querem pelo menos falar rapidinho com você por telefone. Não é que estejam pedindo de graça, se você topar a entrevista dizem que dão dinheiro também.]
— Que espetáculo.
O sujeito que se dizia pai estava só empilhando um monte de conversa que não ajudava em nada.
Do-Heon, que terminou de ler as mensagens, mudou as notificações para o modo silencioso. Pensou em sair de vez da janela de conversa, mas, com medo de que depois Cheongyeon ficasse com raiva perguntando por que ele fizera outra coisa à toa por conta própria, sem alternativa, deixou como estava.
Ele, sem conseguir esconder a expressão de desagrado, encarou o texto que o pai de Cheongyeon enviara.
Ao ver que, só para arrancar uns trocados que a emissora despejava, ele, mesmo nesta situação, tagarelava para Cheongyeon apenas conversa fiada e transparente, a raiva subiu.
Aí, de repente, Do-Heon sentiu estranheza de si mesmo por estar se enfurecendo com uma coisa dessas e estremeceu.
Afinal, pais não são todos parecidos? Quem, de algum jeito, projeta a si mesmo na glória do filho e deseja receber reconhecimento e recompensa, isso é que era um pai. O pai e a mãe de Do-Heon também eram assim, e o sujeito que se dizia pai de Cheongyeon não era diferente deles.
Do-Heon sempre achara aquilo óbvio. Afinal, quem se move conforme o interesse é que é o ser humano.
Por isso, depois de se casar, quando a família de Cheongyeon ficava pedindo custos de vida, ele os apoiava sem cerimônia. Pelo contrário, aquilo lhe era cômodo. Resolver com dinheiro sem precisar despender tempo era o método que Do-Heon preferia.
De forma a desmentir a raiva de pouco antes, ele também desejara, usando dinheiro, que Cheongyeon se movesse de forma transparente diante dele. Tal como o pai de Cheongyeon fazia. E Do-Heon acreditara que aquilo era o certo.
Sem nem perceber que seu egoísmo estragava Cheongyeon. Vinha empurrando esta relação para a beira do precipício. Justamente ele, que estava mais desesperado que ninguém por Yoo Cheongyeon.
Do-Heon, depois de desligar o aparelho, o largou com um gesto um tanto brusco, quase jogando-o sobre a bancada da cozinha.
— Fu.
Diante do olhar dele, que expelia um breve suspiro e dominava a emoção que subia num ímpeto, encontrou a embalagem vazia de remédio.
Do-Heon logo estendeu a mão e conferiu a superfície da embalagem.
Eram remédio para dor de cabeça e antitérmico. Ao ver que já estava vazia, parecia que Cheongyeon já os tomara antes de ele chegar.
Do-Heon virou a cabeça e fitou o lugar onde estava Cheongyeon. Por sorte, agora ele dormia bem mais tranquilo do que quando sofria há pouco.
Ele, com o copo cheio de água até em cima, caminhou na direção da cama onde Cheongyeon estava deitado e o pousou sobre a mesa.
Quando a razão, que estivera submersa em emoções complexas, inclusive a inquietação, foi aos poucos voltando, ele, tardiamente, começou a examinar com calma o apartamento.
Os roteiros que ele organizara antes de sair de manhã estavam enfiados em bloco na lixeira.
Entre eles estava incluído também o roteiro do drama que Cheongyeon iria gravar.
Pelo que ouvira por meio do secretário Shim, como dois dos atores principais tinham se envolvido em escândalos desagradáveis, o cronograma de gravação estava totalmente suspenso.
Do-Heon tirou o roteiro da lixeira. O fato de ter jogado fora algo que, ainda de manhã, ao entrar no apartamento, carregava zelosamente na bolsa, não podia ser interpretado senão como intenção de desistir do drama.
Ao ver que os outros roteiros que vinha revisando também tinham sido jogados fora junto, talvez ele quisesse largar de vez a atuação.
Só então o comportamento de Cheongyeon fez, vagamente, algum sentido. Como desde o começo ele não tinha vontade de restaurar esta situação, é que não lhe fizera nem uma única ligação.
Queria dizer que pedir a ele “me ajude” era mais horrível do que desistir da atuação. Por isso, mesmo doente, ele entrara em contato com Han Iram, que estava no burburinho por causa do escândalo…
— Do-Heon … ?
Nisso, uma voz enrouquecida penetrou os ouvidos de Do-Heon. Do-Heon, que estava mergulhado em pensamentos, se assustou e ergueu a cabeça de repente.
— Cheongyeon. Você acordou?
Ele depressa inclinou bem o corpo e se aproximou do lado de Cheongyeon.
Mas Cheongyeon, que ele achara ter acordado, ainda estava de olhos fechados. Ao ver as pálpebras que tremiam de leve, Do-Heon franziu o cenho.
Não sabia se ele ainda estava sonhando ou se tinha se recomposto.
— Cheongyeon. Yoo Cheongyeon.
— Ãh. Mas… o senhor, por que… aqui…
Cheongyeon reagiu debilmente. A voz era tão baixa que só apurando o ouvido dava para entender, a muito custo, o que ele dizia.
— Por que eu estou assim… o corpo tão pesado… Haa. Será que é gripe?
Diante das palavras que ele murmurava de olhos fechados, Do-Heon, sem saber o que responder, apenas mexeu os lábios.
— Não posso passar… para o senhor…
Ao ver que ele usava alternadamente os tratamentos “Do-Heon” e “senhor”, era mais próximo de uma fala de sono soltada porque a consciência estava misturada por causa da febre alta, como há pouco.
— Pode passar o quanto quiser.
Do-Heon respondeu a muito custo. E, depois de segurar a mão de Cheongyeon, beijou com cuidado o dorso.
Então as pálpebras que estremeciam se abriram muito lentamente. Cheongyeon, com os olhos semicerrados, por um instante cruzou o olhar com Do-Heon.
Ao confirmar que ele, não bastasse fitá-lo com preocupação, ainda fazia uma expressão próxima do sofrimento, Cheongyeon, num estado embriagado de sono, deu uma risadinha.
— Ah, era… um sonho.
Porque Do-Heon não teria como fazer aquela cara.
Logo Cheongyeon, que tornou a fechar os olhos, adormeceu num instante. Do-Heon, que observava aquela imagem, sussurrou.
— …Dorme bem.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna