↫─Capítulo 150
Depois disso, embora Cheongyeon se revirasse algumas vezes de tempos em tempos, não houve mais episódios de ele escorrer suor frio ou falar sozinho sem distinguir sonho e realidade.
Do-Heon só saiu do apartamento depois de confirmar que a febre de Cheongyeon quase toda tinha baixado.
— Diretor. Está indo embora agora?
Quando desceu ao estacionamento e ia entrar no carro, o chefe de segurança, que aguardava, saiu e curvou o corpo diante de Do-Heon. Do-Heon assentiu e abriu a porta do carro.
— Por via das dúvidas, a equipe de segurança que aguarde neste local por um tempo.
— Entendido.
— E se algum sujeito suspeito rondar, detenham na hora e me reportem.
— Vou vigiar à risca, conforme o senhor disse. Mas o senhor vai dirigir em pessoa? Se precisar, até a sua casa…
— Não preciso.
— …Ainda assim, se precisar, por favor me diga.
Do-Heon, que se sentou no banco do motorista sem responder, só depois de dar a partida entendeu por que o chefe de segurança se oferecera para dirigir.
Seu aspecto refletido no retrovisor era um espetáculo.
Por muito tempo sem dormir direito, ao redor dos olhos escurecidos tinham subido capilares. O cabelo também, ao contrário do de costume, estava desgrenhado e desalinhado. Por causa da fadiga acumulada, mesmo à primeira vista, estava num estado meio fora de si.
Ele, esforçando-se para ignorar a própria imagem no espelho, atravessou o beco e saiu para a via.
Não muito depois, ele teve de parar o carro num sinal. Ao ver a pista completamente engarrafada, as entranhas ficaram aflitas.
No fim, quanto a Cheongyeon, era uma situação em que nada tinha sido resolvido, então ele chegava a ficar impaciente.
Não bastasse Cheongyeon simplesmente não querer ir ao hospital, a ele, que ainda por cima ganhara um trauma por causa dele, também não podia tornar a forçá-lo à internação. Como não havia meio de saber já qual era o problema, as entranhas ardiam.
Do-Heon, diante da sensação de o interior do peito se obstruir de repente, abriu a janela. Mas, por mais que um vento fresco varresse o corpo inteiro, o sufoco não melhorava.
Enquanto tamborilava o volante sem sentido com os dedos, o secretário Shim ligou.
— Sim. Fale.
— Diretor. O que o senhor pretende fazer quanto à agenda de amanhã.
Quando atendeu a ligação no viva-voz, o secretário Shim fez uma pergunta inesperada. Diante disso, Do-Heon inclinou a cabeça de viés.
— Agenda?
— A reunião prevista para amanhã à tarde. Como o senhor ainda não deu o aval, liguei para confirmar.
— Ah.
Tinha esquecido por completo. Ainda por cima, esquecera até a coisa mais óbvia e simples de que precisava ir trabalhar na empresa.
Do-Heon, que confirmou o sinal que mudara para o verde, revolveu o cabelo e pisou no acelerador.
— Vou conferir e aviso até amanhã de manhã.
— Entendido.
— Ah, e secretário Shim.
— Sim, diretor.
— Onde ficava a casa da família do Cheongyeon? Acho que ouvi que ele se mudou tempos atrás.
— O endereço? Vou conferir agora. Mas com que assunto o senhor procura a casa da família do Cheongyeon…
— A emissora estava alvoroçando e cutucando até aquele lado. Achei melhor bloquear de antemão a possibilidade de complicação.
— Entendi. Vou tentar contato o mais rápido possível para que não haja problema no futuro.
O secretário Shim, que entendeu de imediato o que Do-Heon dizia, respondeu com voz firme.
*
— Ai, diretor. Chegou agora?
Quando voltou para casa, a empregada, que justamente limpava o corredor da entrada, cumprimentou Do-Heon ao vê-lo entrar.
Depois de baixar a cabeça, ela, que se virava para terminar a limpeza, estremeceu como quem viu algo errado e espiou Do-Heon de esguelha.
A impressão geral parecia estranhamente diferente, a ponto de ser difícil pensar que era o Do-Heon que ela conhecia. Da expressão às roupas, ao modo de andar, ao olhar, tudo sem exceção.
— A avó está lá dentro?
— Ah… Ela saiu há pouco. Disse que tinha um compromisso com o presidente Jang Myeonggon…
— E não disse quando volta aos Estados Unidos.
— Não. Sobre o cronograma de partida ela não disse nada em especial.
Do-Heon assentiu de leve e dirigiu os passos ao segundo andar.
Jang Myeonggon era o presidente da NewDay Media e uma das figuras apontadas como das mais influentes nos meios de comunicação de massa, incluindo TV e imprensa.
A avó tinha uma rede de contatos mais variada e profunda que a de Do-Heon. Que ela tivesse ido em pessoa encontrar o presidente Jang Myeonggon era, provavelmente, para restringir de imediato a mídia que se despejava em conexão com Cheongyeon.
Que a avó tivesse ficado sabendo do divórcio era lamentável, mas, por outro lado, veio-lhe o pensamento de que era um alívio. Graças a ela ter agido, talvez a coisa se dissolvesse até mais cedo do que Do-Heon previra.
Do-Heon fechou a porta e entrou no quarto. E, depois de tirar o casaco de qualquer jeito e jogá-lo sobre a cadeira, sentou-se na cama.
Fora um dia realmente longo. Talvez por ter consumido demais as emoções, tardiamente uma fadiga acumulada se abateu.
O tato dos braços e das pernas estava embotado. Mas, de forma estranha, ao contrário do corpo, a mente ainda estava nítida.
Do-Heon se deitou como quem desaba sobre a cama e fitou o teto. Um silêncio pesado enchia o interior por completo.
— …
Antes não sentia nada, mas depois que Cheongyeon saíra de casa este silêncio não lhe era grato.
Os olhos de Do-Heon, que por um tempo fitaram o vazio, pouco depois foram aos poucos se fechando.
*
A consciência de Do-Heon, submersa fundo, foi aos poucos voltando à realidade. As pálpebras que estavam fechadas se abriram e o foco começou a se ajustar de forma embaçada.
Ele, ainda embriagado de sono, soltando um suspiro fundo, apoiou a testa com o dorso da mão.
Desta vez ele deve ter dormido bastante tempo, pois levou um tanto até a mente aturdida ficar nítida. Por ter mantido por longo tempo, antes de dormir, um estado de nervos delicadamente aguçados, seguiu-se uma leve dor de cabeça.
Fazia tempo que sua condição não estava assim tão ruim; a última vez fora depois que Cheongyeon pedira o divórcio e saíra de casa.
Do-Heon, assim que ergueu o corpo, logo pegou o celular. Achando que, quem sabe, nesse meio-tempo tivesse chegado algum contato de Cheongyeon, conferiu uma a uma as notificações acumuladas, mas eram apenas e-mails de trabalho da empresa e a mensagem de relatório do chefe de segurança.
Ficou curioso sobre em que medida o estado de saúde de Cheongyeon já teria se recuperado a essa altura.
Por hábito, Do-Heon entrou nos contatos e, quando ia apertar o ícone verde de chamada ao lado do nome de Cheongyeon, estancou.
Como não podia conferir pessoalmente, sentia que ia enlouquecer de aflição. E também não podia ir de novo até lá.
— Será que vou de novo.
Do-Heon murmurou sozinho, no inconsciente. Se fosse só dar uma olhada em como estava o estado dele e voltar, não haveria problema, quem sabe.
Por um instante se deixou seduzir pelo próprio pensamento, mas, como sabia que Cheongyeon, mais que incomodado, manifestaria repulsa, logo abandonou a ideia de ir em pessoa.
Em vez disso, ligou o notebook e conferiu as matérias sobre Cheongyeon. Talvez por influência da avó, muito mais material do que ele previra já tinha saído do ar.
Também as redes sociais, que estão entre as coisas difíceis de controlar, estavam com as publicações sendo tornadas privadas ou restringidas. Além disso, ao longo do dia a NewDay Media estourara com exclusividade a corrupção de um político famoso, e por causa disso todos os veículos estavam em alvoroço.
Era um método clássico, mas o interesse do público e da imprensa logo se voltou para o lado da política.
Do-Heon, que tirou um peso das costas, resolveu então tratar do trabalho acumulado da empresa.
Mas, por mais que ficasse sentado à mesa um bom tempo, era difícil se concentrar no trabalho como antes. Não bastasse voltar o olhar para o celular uma vez a cada cinco minutos, sempre que sobrava uma brecha, com medo de que tivesse surgido algum outro problema, pesquisava o nome de Cheongyeon na internet.
Mexeu no celular umas dez, vinte vezes. No fim, a paciência se esgotou por completo.
Do-Heon se levantou de repente para ir conferir se Cheongyeon tinha melhorado.
Quando ia apressar os passos para justamente vestir o casaco, o envelope de documentos amassado entrou no campo de visão de Do-Heon.
O termo de renúncia à herança que Cheongyeon apresentara.
— …
Do-Heon parou de repente, como se nem tivesse se movido de forma agitada.
— O coração dele foi embora faz tempo. Se ainda te resta consciência, resolve com as tuas próprias mãos essa imprensa barulhenta e solta o garoto.
No mesmo instante em que percebeu aquele maldito documento que não conseguira guardar, as palavras que a avó dissera prenderam seus passos.
— Soltar…?
Do-Heon murmurou, de pé no meio do quarto como que cravado ali.
Mas, se soltasse aqui, era mesmo o fim. Entre Cheongyeon e ele não sobraria nada.
Do-Heon queria agarrar desesperadamente, mesmo que fosse, este elo de ligação instável, prestes a se romper.
Mesmo sabendo que a resposta já não era senão uma, o fato de continuar, fora do seu feitio, virando a cabeça em busca de outro método o tornava mesquinho e patético. Cheongyeon dissera que não queria ver o abismo, mas, encurralado num canto, o abismo sujo e vulgar de si mesmo se mostrava sem parar.
— Droga.
Diante da dor surda que afluía ao peito, Do-Heon cerrou os dentes e cuspiu um palavrão. Uma sensação horrível que nunca antes experimentara o encobriu.
Do-Heon, que ia sair, no meio do caminho voltou à mesa e abriu a gaveta situada na parte mais baixa. Quando tirou de lá um arquivo e o abriu, surgiu o contrato com Cheongyeon redigido após o divórcio.
Ele, que por um tempo mexeu na impressão digital que Cheongyeon carimbara com vinho, virou a página.
Então viu-se um pequeno bilhete de cor desbotada.
No bilhete amassado estava escrita a letra torta de Cheongyeon da infância. Do-Heon, que o tirou do arquivo com cuidado, relembrou o dia em que encontrara Cheongyeon pela primeira vez.
Embora fosse coisa de um bom tempo atrás, não sabia por que, mas a memória daquele dia era singularmente nítida.
— Aaah! Que loucura! I-isso é sangue. Você está bem?
— Chama o resgate, rápido!
Do-Heon, que estava no primeiro ano do ensino médio, machucou o ombro por ter caído enquanto jogava futebol na hora do almoço.
Ao ver o sangue que pingava do ombro, os alunos que se aglomeraram em volta gritavam. Na hora, por estar atordoado, quase não sentia a dor.
Só depois que a ambulância chegou é que a região da carne rasgada começou a arder.
Depois de ser transportado ao hospital e receber cuidados rápidos, tardiamente o responsável chegou ao pronto-socorro. Ele era o motorista e segurança encarregado do trajeto de ida e volta da escola de Do-Heon .
— Patrãozinho! Hã, hã. Desculpe. Hoje deu um problema na escola do meu segundo filho e eu tive que ir buscá-lo rapidinho… Haa. Cheguei atrasado.
O segurança correu de longe carregando uma criança pequena.
— Está tudo bem.
— Como está o ferimento? Eu ia buscá-lo sem atraso na hora da saída, mas de repente me disseram que o senhor tinha sido levado ao pronto-socorro e me assustei…
O segurança, com o rosto constrangido, pediu desculpas dizendo que, por ter vindo às pressas, não tivera tempo de deixar a criança e, sem alternativa, acabara trazendo-a.
Diante disso, Do-Heon olhou com um olhar indiferente para a criança aninhada no colo do segurança. A criança, talvez tivesse acabado de entrar na escola primária, com uma mochila tão grande quanto o próprio corpo às costas, piscava os olhos bem arregalados.
🎬 ∙ ∙ ∙ 🎥 ∙ ∙ ∙ 🎭
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna