↫─Capítulo 146
Ao longo dos últimos três anos, para Do-Heon, “a nossa casa” era um lugar ao qual era óbvio ter de voltar. Por mais distante que estivesse e por mais coisas que tivesse a fazer, no fim o término dos passos desembocava neste lugar.
Mas um motivo como o de ter de voltar para casa todos os dias sumira junto com a ausência de Cheongyeon. A desolação de ter sido deixado sozinho, largado ali, o esmagava com peso a cada instante.
No começo, sem dúvida, ele confiara que Cheongyeon voltaria. Afinal, não haveria pessoa capaz de oferecer a Cheongyeon uma recompensa maior do que ele.
Tal como a mãe e todo ser humano que constituía o mundo dele, tinha certeza de que Cheongyeon faria a mesma escolha.
E a realidade se desviara por completo da previsão.
Terminada a reminiscência sobre o passado, Do-Heon abriu os olhos que mantinha fechados. Nesse meio-tempo, talvez o sol tivesse se posto, pois em volta tudo se transformara em trevas.
Será que dormi tanto tempo assim.
Do-Heon ergueu o corpo da cama para conferir a hora. Estranhou por não se lembrar sequer de quando se deitara na cama, mas logo esqueceu a dúvida.
Por entre a fresta da porta do quarto, ligeiramente aberta, escapava uma luz tênue. Do-Heon , como que atraído por algo, caminhou até o lugar onde estava a luz.
Ao abrir a porta do quarto, um corredor iluminado se estendeu. Ele, por hábito, virou a cabeça e olhou na direção do quarto de Cheongyeon.
Ao contrário do de costume, quando ficava escuro com a iluminação apagada, ali a luz estava acesa.
— Yoo Cheongyeon?
Do-Heon, surpreso, chamou o nome com um “não me diga” no coração. E correu depressa para o quarto de Cheongyeon.
— Cheongyeon.
Só depois de escancarar a porta é que ele se deu conta de que entrara no quarto por vontade própria, sem nem bater.
— Ãh? Hoje você não vai à empresa? Achei que estivesse se arrumando para o trabalho.
Cheongyeon, talvez tivesse acabado de acordar, estava sentado na cama esfregando os olhos. Por ter se assustado ao ver Do-Heon entrar no quarto sem avisar, a voz meio embargada transparecia por inteiro o constrangimento.
Do-Heon conferiu repetidas vezes se a pessoa neste quarto era mesmo Cheongyeon.
— …Quando você chegou.
Do-Heon perguntou aproximando-se lentamente da cama. Era grato e ao mesmo tempo estranho que Cheongyeon estivesse nesta casa.
— O que é isso. Eu estive em casa esse tempo todo, oras.
Cheongyeon, de pijama, piscando os olhos como quem estranha, desceu da cama.
A voz era tão viva que Do-Heon começou a ficar em dúvida se estava sonhando ou se, como Cheongyeon dizia, vinha se enganando esse tempo todo.
— Ah, é verdade. Você disse que tem um encontro semana que vem. Hoje à noite você pode ir junto à loja de departamentos e me ajudar a escolher uma roupa?
— …
Do-Heon ficou um tempo sem dizer nada.
Cheongyeon, achando estranho o longo silêncio, aproximou-se dele com passos cautelosos.
— Do-Heon?
Do-Heon examinou com atenção Cheongyeon, de pé à sua frente. O rosto claro e branco que inclinava a cabeça era realístico demais.
Como um sonho pode ser assim tão nítido. No olhar de Cheongyeon ao fitá-lo transbordava tanto vigor que fazia o peito palpitar. Do-Heon estava confuso.
Ele desviou o olhar e conferiu o perfume de Cheongyeon sobre o aparador. Dentro do frasco de perfume, o líquido estava cheio até em cima.
— …
Se era assim, queria dizer que tudo aquilo era um sonho.
Afinal, o perfume que restava na realidade estava com pouco, porque Do-Heon o usara quase por completo.
Mesmo sabendo que este espaço e este tempo, e até Cheongyeon, tudo não era real, Do-Heon não queria acordar do sonho.
— Vamos. À loja de departamentos.
— Sério?
Cheongyeon retrucou radiante.
— Sim.
— Quando você vai sair do trabalho? A loja fica aberta até que horas, mesmo. Em dia de semana deve fechar cedo…
— Vamos agora.
— A-agora?
Diante da resposta imediata de Do-Heon, Cheongyeon se assustou e gaguejou.
— E a empresa.
— Chegar tarde um dia não tem problema. E nem preciso ir.
— Sério? Não aconteceu nada na empresa, não é?
Diante da resposta de que ele iria à loja agora mesmo, sem nem trabalhar, Cheongyeon, embora meio incrédulo, não conseguiu esconder a alegria e deixou brotar um sorriso.
Do-Heon fitou os olhos cintilantes e as bochechas rechonchudas e salientes de Cheongyeon.
Ele sempre ria assim com facilidade? Parece que não. Talvez, por ser sonho, sua memória estivesse distorcida.
Achava que ficaria só feliz se Cheongyeon risse, mas emoções pesadas se enredavam umas nas outras e a sensação era de garganta embargada. Do-Heon, mesmo sabendo estar dentro de um sonho, não conseguiu abrir a boca com facilidade e teve de recompor a respiração várias vezes.
— Da última vez, você disse que queria ver um espetáculo, não foi. Vamos ver isso também.
— Ah, o musical! Você lembrava disso?
Cheongyeon, radiante a ponto de quase pular, cobriu a boca.
Quanto mais pensava que aquilo não era real, mais as entranhas de Do-Heon iam se retorcendo e enjoando.
— …Claro que sim.
— Achei que você tivesse esquecido.
— No fim de semana, não. Amanhã mesmo vamos ver.
— Que ótimo!
Cheongyeon, que respondeu de imediato sem hesitação, aproximou-se bem de Do-Heon. Quando Do-Heon pousou a mão na cintura de Cheongyeon, ele por um instante pareceu surpreso e logo se aninhou dentro do abraço.
Do-Heon enterrou o rosto na nuca de Cheongyeon e fechou os olhos. O tato e o calor sentidos na pele em contato eram bons.
O coração começou a bater aceleradamente, como se fosse explodir. Diante da inquietação de não conseguir controlar por conta própria as funções do corpo, Do-Heon ficou aflito. Ao mesmo tempo, pensou que queria beijar a bochecha corada de Cheongyeon.
— Eu já disse?
— O quê…
— Que gosto de você.
— Como?
— Eu te amo, Cheongyeon.
— …
Diante da confissão de Do-Heon, Cheongyeon fez uma expressão perplexa.
— O senhor me ama?
Após um breve silêncio, Cheongyeon abriu a boca.
— O que você disse agora?
Diante do tratamento “senhor”, o corpo de Do-Heon enrijeceu.
Cheongyeon, durante a vida conjugal, nunca uma única vez o chamara de senhor.
— Senhor?
Cheongyeon, achando estranho Do-Heon não reagir, afastou o corpo do abraço e tornou a chamá-lo.
Diante do olhar que o fitava fixamente de baixo para cima, num instante a visão de Do-Heon oscilou desordenada.
Do-Heon, apoiando a testa, franziu o cenho. Ao mesmo tempo, o nariz de Cheongyeon começou a sangrar.
— Yoo Cheongyeon?
Ele, assustado, envolveu o rosto de Cheongyeon. Sobre o branco dos olhos, avermelhado e injetado, ergueram-se veias nítidas. Os lábios que tinham vigor secaram num instante e ficaram roxos.
— Cheongyeon. O que você tem. Por que de repente o sangue assim… por quê.
Do-Heon, falando atropelado, limpava com a manga o sangue vermelho que Cheongyeon derramava. Mas o sangue não parava, escorrendo depressa, descendo pela ponta do queixo e caindo no chão.
Talvez por falta de força, o corpo de Cheongyeon se inclinou. Do-Heon, apavorado, segurou Cheongyeon com toda a força. Diante do tato arrepiante do sangue pegajoso e morno caindo no dorso da mão, ficou sem ar de repente.
Do-Heon, num instante, não conseguiu formular pensamento algum. Diante da imagem de Cheongyeon sofrendo, todos os circuitos de raciocínio simplesmente pararam.
Não conseguiu fazer sequer o julgamento simples de que devia chamar uma ambulância ou alguém.
— Cheongyeon! Acorda, Yoo Cheongyeon!
*
Assim que gritou com toda a força, os olhos se abriram de repente.
E uma luz clara penetrou como que se derramando pela visão. Diante da claridade súbita à frente, Do-Heon, por reflexo, franziu o cenho.
Do-Heon fitou a janela por onde o sol se derramava. Lá fora estava muito claro. Ao conferir a hora, ainda era de tarde.
— …
Só se lembrava até o ponto em que, de manhã, depois de encontrar a avó e subir ao quarto, se sentara na cama sem nem trocar de roupa.
Por causa da fadiga acumulada, era incerto quando adormecera.
Ao se dar conta de que dali em diante haviam se passado apenas algumas horas, Do-Heon alisou o cabelo desgrenhado.
Assim que ergueu o corpo, o envelope de documentos que deixara sobre a mesa entrou em seu campo de visão. Era o termo de renúncia à herança que Cheongyeon enviara à avó.
Por mais que tornasse a pensar, o significado daquele documento era claro.
Cheongyeon, mesmo no instante em que o esforço acumulado ao longo dos últimos meses desmoronava em pedaços, não precisara dele. Longe de precisar, pelo contrário, quisera excluí-lo por completo.
— Fuu.
Talvez por ter visto, pouco antes de acordar do sonho, Cheongyeon desabar, a respiração ainda estava áspera.
O sangue que escorria pela ponta do queixo até o chão e o rosto pálido ficavam desfilando diante dos olhos. Mesmo sabendo que não era realidade, as entranhas reviradas não se acalmavam com facilidade.
Ele, esforçando-se para ignorar o coração que batia depressa, levantou-se. Depois de encarar o documento por alguns segundos, entrou no banheiro como quem foge.
Depois de se lavar e trocar de roupa, ao sair, nesse meio-tempo havia chamadas perdidas do secretário Shim e do acompanhante.
Do-Heon logo ligou para o secretário Shim.
— Aconteceu alguma coisa.
— Diretor. Consta que a equipe de segurança flagrou Han Iram tentando entrar no apartamento do Cheongyeon há pouco e o está detendo.
— Han Iram? Aquele do escândalo?
Assim que ouviu o nome irritante, Do-Heon estreitou os olhos.
— Isso mesmo. Ele diz que quer entrar no apartamento, mas, considerando a possibilidade de, num descuido, ficar exposto à imprensa e envolto em conjecturas, por ora barramos a entrada dele.
Por que Han Iram está tentando entrar no apartamento de Cheongyeon? Numa situação tão delicada assim. Era um ato que não trazia nada de bom para nenhum dos dois.
Ainda assim, não havia como interpretar senão que havia um motivo especial para os dois terem de se encontrar.
A mão de Do-Heon que segurava o celular ganhou força.
— Transmita que o mantenham detido até eu chegar. Vou sair agora mesmo.
— Entendido.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna