↫─Capítulo 145
Capítulo 145
“Do-Heon . Você tem que sentar com as costas eretas.”
Ao ouvido de Do-Heon , mergulhado em pensamentos, a voz da mãe, ouvida havia muito tempo, chegou como um sussurro.
“Curvar o corpo na hora de comer é um mau hábito.”
A mãe dizia endireitando os ombros de Do-Heon, sentado numa cadeira infantil.
Do-Heon, que acabara de aprender a segurar a colher e a comer sem derramar um único grão de arroz, corrigiu a postura conforme as palavras da mãe. Mas, sem conseguir entender o motivo de ter de manter as costas eretas de propósito, parou por um tempo de mexer a colher.
“Por que eu tenho que comer assim?”
“As pessoas ilustres detestam gente encolhida.”
Para Do-Heon, que acabara de completar quatro anos, a resposta da mãe era só enigmática.
Ela, dizendo que ele entenderia quando crescesse um pouco mais, o admoestou num tom suave.
Na época, Do-Heon vivia a sós apenas com a mãe. Nem todas as lembranças a respeito da mãe eram nítidas. Mas uma coisa certa era que ela fora extremamente bela.
Ela não era desinteressada em relação a Do-Heon, mas tampouco o tratava com afeto profundo. Quando ele desatava a chorar, logo se aproximava e o acalmava, mas na expressão e no tom transparecia sem disfarce o tédio. A ponto de até o pequeno Do-Heon conseguir perceber.
Unhas limpas, maquiagem leve, um discreto cheiro de perfume, cabelo arrumado, roupas brancas e elegantes. A mãe sempre vivia sem perder a beleza, num traje impecável.
E do pequeno Do-Heon também sempre exigia um nível parecido de asseio e distinção.
“Se você continuar chorando assim, as pessoas vão dizer que você é malcriado e falar mal. Olha só, a roupa toda amassada. Se sair para a rua neste estado, os amiguinhos vão dizer que você está sujo e não vão brincar com você.”
A mãe se importava em excesso com o olhar alheio. Montava certos critérios e moldes e queria encaixar o filho, com perfeição, dentro deles.
Tinha como natural apontar e expor os defeitos, e só elogiava quando se revelava algum aspecto excepcional, superior aos dos outros.
“Realmente, o Do-Heon tem talento para os estudos.”
No dia em que trouxe o primeiro boletim da escola primária, a mãe, ao ver o número que indicava primeiro lugar, ficou radiante a ponto de quase pular.
Como era a primeira vez que ela se abalava tanto, para o pequeno Do-Heon aquela reação foi só curiosa. E ele também pareceu ficar um tanto animado junto.
“É uma coisa boa?”
“Claro que sim. Ser mais inteligente que os outros é uma coisa de muito valor.”
A mãe, que guardou o boletim na bolsa de grife que costumava carregar, disse “obrigada, Do-Heon ” e lhe deu um beijo na bochecha.
Do-Heon não conseguiu entender por que, naquele momento, ela lhe agradecera. E, diante do contato físico incomum, ficou aturdido.
“Por que ser inteligente é uma coisa de valor?”
“Porque as pessoas que têm muito dinheiro são todas de cabeça boa.”
“Então a mamãe gosta mais de dinheiro?”
“Agora você não entende direito, mas quando crescer vai entender o que as minhas palavras significam. Neste mundo, com dinheiro dá para fazer qualquer coisa.”
Quando Do-Heon, como quem estranha, ergueu o olhar fixo para a mãe, ela explicou com doçura.
As pessoas apontavam o dedo sempre que a mãe ia à escola na condição de responsável. Cochichavam que a bolsa cara dela, as unhas compridas, o traje luxuoso, o cabelo arrumado feito o de uma atriz eram inadequados para uma responsável.
A mãe, embora sempre se importasse com o olhar das pessoas, ao que parece não dava ouvidos justamente a esse tipo de palavra maldosa.
“O Do-Heon é excepcional em relação aos da idade dele nos estudos, não é? Se for pôr entre os melhores, ele entra em quantos por cento?”
Nas reuniões de responsáveis, a mãe costumava repetir sempre perguntas parecidas ao professor, como quem busca confirmação.
Ficara guardada na memória a expressão da professora regente, que, ao mesmo tempo em que dava a resposta que a mãe queria, ficava de algum modo constrangida.
Passado mais um pouco de tempo, num dia abafado de verão. A mãe, em vez de mandar Do-Heon, então com dez anos, à escola, começou a percorrer vários hospitais e centros de exame.
Ali Do-Heon se submeteu a inúmeros exames relacionados não só ao estado de saúde, mas também a QI, capacidade física, traço, genética e afins. Consumiram um tempo tediosamente longo e uma bela soma, mas, não se sabe por quê, a mãe parecia o tempo todo animada como quem está prestes a sair num passeio.
“Por que a gente fica indo ao hospital? Não precisa ir à escola?”
Quando Do-Heon, sentado na cadeira do hospital, perguntou balançando as pernas no ar, a mãe segurou seus joelhos para contê-lo.
“Essa tal de escola não é o importante. É agora que é a hora de provar o seu valor.”
A mãe deu uma resposta indecifrável, com a voz exaltada.
Depois que saíram todos os resultados dos longos e enfadonhos exames, não muito depois um homem desconhecido veio à casa.
A mãe cochichou que ele era o presidente Moon. E acrescentou que, sendo o pai biológico de Do-Heon, ele precisava causar boa impressão.
“Talvez por ter genes superiores, ele é de fato mais rápido em tudo do que os da idade dele. É alto, vai bem nos estudos, e o traço também deu alfa dominante confirmado. Ainda por cima é filho legítimo, não é. Se o senhor presidente o levar, com certeza ele será útil.”
A mãe estendeu ao presidente Moon as grossas folhas de resultado dos exames e apresentou Do-Heon .
No conteúdo que ela punha na boca não se incluía absolutamente nenhuma história pessoal sobre o que Do-Heon gostava, sobre como eram seus hobbies ou seu temperamento.
A explicação se concentrava unicamente na função de comprovar o valor do produto que ela mesma fabricara.
O presidente Moon conferiu os documentos que a mãe lhe entregara. Aos seus dois lados, reuniam-se pessoas de terno examinando minuciosamente o material.
De forma a desmentir o fato de ser o pai biológico, o presidente Moon não dirigiu ao Do-Heon que via pela primeira vez sequer um simples cumprimento.
“Você, antes como agora, parece ser craque em passar a perna nos outros. Com razão eu achei estranho você andar quiets, fora do seu feitio.”
Um bom tempo depois, o presidente Moon, passando os documentos ao acompanhante, abriu a boca.
“Ainda assim eu não minto. Diga quem disser, o Do-Heon é o verdadeiro filho do senhor presidente, parido pelo meu ventre.”
O presidente Moon, só então, dirigiu pela primeira vez o olhar ao filho legítimo, Moon Do-Heon, que estava de pé, quietinho, ao lado da mãe.
“Realmente igualzinho ao senhor presidente, não é? Essa coisa de sangue é bem curiosa.”
A mãe, com um sorriso mais radiante do que nunca, afagou a cabeça de Do-Heon.
Pouco depois, os acompanhantes do presidente Moon surgiram carregando várias bolsas de viagem. Eles depositaram, bem alinhadas, aos pés da mãe aquelas bolsas pesadas a ponto de serem difíceis até para um adulto carregar.
Por dentro do zíper levemente aberto de uma das bolsas, havia notas amarelas empilhadas a ponto de quase estourar.
Aquilo foi o último contato com a mãe. Depois daquele dia, nunca mais tornou a encontrá-la.
Até agora, passado longo tempo, Do-Heon não sabe sequer o nome dela.
O presidente Moon levou Do-Heon de imediato para a casa da família.
Uma casa desconhecida, um quarto desconhecido, pessoas desconhecidas, tudo dado sem aviso algum. De um dia para o outro, tudo mudara.
Do-Heon, por um tempo, não conseguiu aceitar a realidade de que a mãe partira nem o fato de que dali para a frente teria de viver a vida inteira neste novo ambiente.
Ali não havia ninguém gentil. Todos eram hostis a Do-Heon.
Sem folga sequer para se adaptar à situação, Do-Heon teve de trocar de escola, e transbordavam as coisas novas que precisava aprender.
Quanto mais era posto num ambiente estranho, mais só os princípios que a mãe impusera sustentavam Do-Heon .
Devia estar sempre impecável e ser o mais excelente, e jamais mostrar uma imagem desleixada diante dos outros.
Quanto mais agia assim, mais, de fato, as pessoas não o tratavam com desdém.
Quando se soube na escola que Do-Heon era o filho do presidente Moon, do Grupo JT, e correu o boato de que talvez viesse a ser o herdeiro, a atitude gélida se transformou em gentileza num piscar de olhos.
A adaptação à vida escolar foi rápida, mas o reconhecimento de Do-Heon pelas pessoas da família e sua aceitação como um dos membros só vieram depois que Do-Heon se tornou adulto.
Quando ele agarrou com tenacidade um projeto que ia por água abaixo e o concluiu com sucesso, o presidente Moon, ao conferir os lucros, pela primeira vez o reconheceu.
Quando a atitude do presidente Moon para com Do-Heon mudou, também os parentes que o tratavam como um espinho no olho não puderam mais agir com desdém.
Quanto mais dinheiro ganhava, quanto mais alto valor agregava à empresa, mais as pessoas o seguiam e o bajulavam.
Por trás, podiam rir dele por ser de origem baixa, mas na frente ninguém mais o tratava com a grosseria de antes. Mesmo aqueles que se diziam de sangue nobre, todos sem exceção, se curvavam dóceis tentando agradá-lo.
“Neste mundo, com dinheiro dá para fazer qualquer coisa.”
Do-Heon enfim pôde compreender a maior parte das palavras que a mãe dissera na infância.
E a mãe, ao receber dinheiro do presidente Moon e vender o filho, provou em pessoa quão absoluto era o princípio dela.
Com o passar do tempo, Do-Heon foi passando a possuir muitas coisas. A ponto de achar que não havia mais nada que não tivesse, os bens materiais transbordavam.
“Uau… Bonito demais, feito um cenário de cinema. Aqui é mesmo a nossa casa?”
Por isso, quando Cheongyeon, ao entrar pela primeira vez na casa de recém-casados, disse “a nossa casa”, a sensação foi estranha.
Porque, até então, Do-Heon nunca por um único instante tivera um espaço que merecesse ser chamado de nossa casa. Por causa daquela única fala, Do-Heon percebeu pela primeira vez a carência que trazia em si.
Cheongyeon, sem hesitação, definiu este espaço como sendo nosso. E, tal como dissera, foi preenchendo tudo, dos móveis grandes até o mais insignificante dos objetos, como coisas nossas, uma a uma.
Portanto, tudo o que havia na “nossa casa” era, por completo, “nossas coisas”. Desde o instante em que Cheongyeon pôs os pés na casa pela primeira vez, foi sempre assim.
Sem que ele percebesse, para Do-Heon essa premissa se tornara algo tão óbvio quanto respirar.
Foi por isso que nunca sequer chegara a pensar que pudesse perder a nossa casa.
Só quando, com a partida de Cheongyeon do espaço da nossa casa que Cheongyeon lhe concedera, perdeu por completo as “nossas coisas” e a “nossa casa”, é que ele enfim se deu conta desse valor.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna