↫─Capítulo 144
Capítulo 144
— Aconteceu alguma coisa?
— É que, enquanto o senhor estava fora, chegou uma visita.
A empregada, espiando de esguelha na direção da sala, cochichava. Com isso, o olhar de Do-Heon também se voltou naturalmente para a sala.
— Chegou tão de repente que, por ora, mandei entrar, mas…
Quando saíra de casa era madrugada alta, e sem se dar conta já era manhã cedo. Talvez por ter começado a trabalhar havia pouco, a empregada parecia atarantada por causa da visita que aparecera de repente.
Do-Heon , em vez de perguntar quem era a visita, para conferir ele mesmo, atravessou o corredor e caminhou até a sala.
As pessoas que podiam entrar nesta casa sem a permissão dele eram apenas Cheongyeon, o presidente Moon e a avó.
Como havia pouco estivera observando Cheongyeon dormir e viera de lá, não seria ele, e o presidente Moon não tinha interesse na vida particular de Do-Heon, então estava igualmente descartado.
Sendo assim, sobrava uma pessoa.
— Você continua chegando tarde em casa.
Como Do-Heon previra, no sofá da sala estava sentada a avó. A avó, que, com a ajuda de um acompanhante, virou o corpo para o lado onde Do-Heon estava, estalou a língua como quem já esperava por aquilo.
— Não recebi nenhum aviso de que a senhora viria à casa.
Do-Heon, mesmo vendo na própria casa uma pessoa que deveria estar num hospital nos Estados Unidos, não se surpreendeu nem um pouco.
— Com você agindo dessa maneira, como é que eu ia conseguir ficar quieta.
Ao ver a atitude desinteressada de Do-Heon, um vinco profundo se formou no cenho da avó.
— Você quer é ver esta velha morrer primeiro de insônia nos Estados Unidos?
Do-Heon percebeu de imediato que o motivo de ela ter vindo era Cheongyeon.
— A senhora veio até a Coreia para falar disso?
— Rapaz inútil.
Ela ainda precisava da ajuda de um acompanhante para se locomover, mas talvez porque a saúde tivesse de fato melhorado, a postura da avó parecia melhor do que antes. A voz também vinha carregada de força.
— Agora estou cansado. Se a senhora tem algo a dizer, volte outra hora.
Do-Heon, com os olhos semicerrados, alisou o cabelo para trás.
Por não ter dormido por quase dois dias, por ora não tinha fôlego para lidar com a avó que aparecera de repente. Ele também, sendo humano, estava um tanto esgotado.
— Solte o Cheongyeon de uma vez.
Diante daquilo, Do-Heon, que ia subir ao quarto no segundo andar, estancou.
Ele fitou de volta os olhos da avó, que, sentada no sofá numa postura ereta, o encarava.
— Não sei do que a senhora está falando.
— Não me diga que você achou que eu não saberia. Quem envelhece e chega perto de morrer vira idiota, é? Eu também tenho olhos e ouvidos.
Diante das palavras que davam a entender que ela sabia do divórcio com Cheongyeon, Do-Heon soltou um breve suspiro.
Para ser sincero, ele não achava que a avó não saberia. A essa altura, o mais estranho seria ela não ter percebido.
— É assunto nosso. A gente resolve. Se a senhora vai ficar mais um pouco em casa antes de ir, providenciarei o quarto de hóspedes para que possa usá-lo.
Do-Heon, que traçou um limite diante da censura da avó, fez sinal com os olhos para a empregada que estava atrás. Compreendendo o significado, a empregada assentiu de leve e, para preparar o quarto de hóspedes, virou-se depressa.
— O jeito que você resolve é esse? Numa briga de família, não devia ter arrastado uma pessoa alheia para dentro.
Apesar da recusa evidente, a avó não parecia ter intenção de recuar.
— Se era para brigar, deviam ter resolvido entre gente do próprio sangue. Você ficou só olhando enquanto a Hejin turvava a água tentando abalar um garoto frágil?
— Não que eu quisesse arrastar o Cheongyeon desse jeito. Moon Hejin e Park Jonguk eu resolvo depois, à minha maneira, então a senhora não precisa se preocupar.
— Ora, essa. Depois? E agora, o que você pretende fazer?
A avó retrucou como quem não acredita.
— Vou trazer o Cheongyeon de volta primeiro.
— E com que artes você vai trazer um garoto que já foi embora!
Diante do bramido súbito, Do-Heon pôs força no olhar e fitou a avó.
— Ele ainda não foi embora.
— Não. Pelo que eu vejo, foi embora faz tempo.
— …
A avó falou com frieza.
— De que adianta ele só ter guardado as coisas. Aquele garoto não precisa de nenhum desses objetos.
E, apontando para o quadro pendurado na parede, censurou Do-Heon. Era algo que Cheongyeon colecionava quando vivia nesta casa.
A avó, só de ver algumas cenas da sala, percebeu que Do-Heon mantinha de propósito, intactas, sem tirar, as coisas de Cheongyeon.
— Isso é coisa que ninguém sabe.
Do-Heon respondeu com firmeza. Era uma atitude que beirava a teimosia.
A avó, que fitava demoradamente o próprio neto, virou a cabeça e fez sinal para o acompanhante. Então o acompanhante que amparava a avó tirou de uma pasta de couro um grosso envelope de documentos.
Do-Heon, em vez de abrir de imediato o envelope de documentos estendido à sua frente, primeiro o observou minuciosamente. Na superfície do envelope, com um selo colado, havia um endereço escrito em caracteres latinos, e a destinatária era a avó.
— É um documento que o Cheongyeon mandou há alguns dias por meio de um advogado. Recebi quando estava nos Estados Unidos.
— E que conteúdo é esse.
Quando Do-Heon, só então, abriu o envelope para conferir o documento que havia dentro, a avó acrescentou.
— É um termo de renúncia à herança dos bens.
— …
As pupilas de Do-Heon tremeram, abaladas. Ele apressou-se em desdobrar o documento e começou a ler.
Fora redigido por um advogado como representante, mas parecia certo que tinha sido escrito por vontade de Cheongyeon. E, como dissera a avó, continha de fato o teor de que ele renunciaria à herança dos bens.
Por quê? Foi a primeira dúvida que ocorreu a Do-Heon.
A participação e o valor que a avó prometera de herança não eram, de modo algum, quantia pequena. Por isso, nunca uma única vez ele pensara que Cheongyeon fosse renunciar a isso.
Não era herança condicional, nem coisa obtida de forma indevida. Como não havia nada que a avó tivesse exigido a pretexto da herança, não existia obrigação alguma que Cheongyeon tivesse de renunciar ou cumprir em troca disso.
Queria dizer que, ficando quieto, lhe cairia no colo um dinheiro que uma pessoa comum não chegaria a tocar a vida inteira.
Com a guerra de opinião pública que o Jornal Gyuseong estourara desta vez, se Cheongyeon viesse a herdar os bens ficaria numa situação em que não escaparia das críticas, mas opinião pública é coisa que sempre muda. Aquilo era um problema insignificante.
Que ele podia abafar aquilo sem esforço, Cheongyeon também não devia desconhecer.
Ainda assim, Cheongyeon manifestara a vontade de renunciar à herança.
E logo no período em que o escândalo estava mais barulhento. Que ele tivesse tomado sozinho uma decisão dessas e enviado o documento à avó, sem lhe fazer contato nenhum, não fazia sentido para o bom senso de Do-Heon.
Não havia como interpretar senão que, mesmo abrindo mão desse dinheiro, ele queria cortar dali para a frente os laços com esta família.
Na verdade, em vez de dizer “esta família”, o correto seria substituir por “Moon Do-Heon”.
— O coração dele foi embora faz tempo. Por mais que você despeje dinheiro, ele não parece ter intenção de voltar. Se ainda te resta consciência, resolve com as tuas próprias mãos essa imprensa barulhenta e solta o garoto.
Diante das palavras de que o coração dele fora embora fazia tempo, a mão de Do-Heon que segurava o documento ganhou força.
— Não quero.
— E com que cara. Ele entrou nesta casa olhando só para você e aguentou três anos, e você pretende fazê-lo repetir isso?
Diante da resposta obstinada, a avó soltou uma risada de escárnio.
— Sendo a vontade do Cheongyeon assim tão firme, como será que ele fingiu esse tempo todo estar se dando bem com você. Não preciso ver para saber com que conversa você manteve aquele garoto ao seu lado. Eu devia ter percebido bem antes.
— Eu disse que isto é assunto nosso. De que modo eu mantenho Yoo Cheongyeon ao meu lado, quem decide sou eu. E querer que o Cheongyeon volte para esta casa é o desejo da senhora também, não é.
Mesmo vendo o papel ser amassado de forma deplorável, a avó não pestanejou.
— Você está errado no método, e por muito. Não há nada tão tolo quanto pôr preço naquilo que se quer bem.
Do-Heon, como quem não ouviu palavra alguma, enfiou o documento de volta no envelope.
Queria de algum jeito dominar a emoção exaltada, mas o desagrado e a inquietação que se cruzavam não sumiam e, mais depressa, engoliam Do-Heon.
Ele, para não ser tomado por completo pela emoção, cerrou os molares com tanta força que os tendões se salientaram no maxilar.
— Está na hora do seu remédio.
Nisso, rompendo a tensão retesada, o acompanhante avisou a hora da medicação.
Do-Heon ficou observando enquanto ela tirava o remédio da bolsa e então se virou rumo ao segundo andar.
— Vou subir.
— Teimando desse jeito, você só vai se arrepender.
— A senhora deve estar cansada por causa do voo, então é melhor descansar. O quarto em que vai se hospedar será indicado em breve.
Do-Heon, de forma unilateral, interrompeu a conversa e subiu a escada. Ao entrar no quarto e fechar a porta, ficando sozinho, o suspiro fundo que escondia enfim escapou.
Ele, depois de pousar na mesa o envelope de documentos que agarrava na mão, fitou o espelho num canto do quarto.
Achava que estava escondendo bem a emoção, mas no espelho estava de pé um homem que perdera a razão. Não parecia lhe restar nem um pouco de compostura.
“Teimando desse jeito, você só vai se arrepender.”
As palavras que a avó dissera roíam seus nervos aguçados.
Do-Heon já estava se arrependendo. Mas não sabia como parar.
Pôr preço naquilo que se quer bem é uma tolice?
Não, quanto mais se quer bem, mais caro, pelo contrário, é justo que se cobre. Quanto maior o valor, mais alto o preço — era princípio óbvio. Todas as coisas do mundo transcorriam assim.
O motivo de Cheongyeon ter se casado com ele, e o motivo de, mesmo divorciado, ele não ter tido escolha senão continuar se encontrando com ele, era porque ele podia pagar um valor à altura.
Do-Heon vivera a vida inteira dentro deste princípio, e seu princípio nunca uma única vez falhara.
“Do-Heon . Você tem que sentar com as costas eretas.”
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna