↫─Capítulo 143
Cheongyeon, aguçando a guarda como quem vê um invasor, o empurrou para longe. À primeira vista, parecia até estar com medo.
O olhar de Cheongyeon, carregado de uma emoção sombria que Do-Heon não conseguia decifrar por completo, brilhava afiado.
Sabia que era coisa impossível, mas Do-Heon sentiu no peito uma dor pungente, como se tivesse sido perfurado por aquele olhar.
Aqueles dois olhos que agora encarava um dia cintilaram com um afeto puro, quase transbordante. A cada instante em que o fitavam, estavam exaltados como quem sonha, e em toda palavra e frase que saía daquela boca transparecia um afeto sem hesitação.
Passados três anos desde o casamento, a partir de certo momento aquele rosto, antes só claro e sem sombras, foi aos poucos escurecendo. Cheongyeon não confessava mais que gostava dele, e deixou de existir aquilo de tagarelar com o rosto corado dizendo que aguardava ansioso a estação que se aproximava.
Com mais tempo dali em diante, o olhar de Cheongyeon ao fitá-lo esfriou por completo, e às vezes estava abatido como quem se cansou de tudo.
— Eu…
E agora… parecia não ter sobrado nenhum sentimento por ele. Nem mesmo o ódio.
— Eu não estou tentando te machucar.
A Cheongyeon, que erguia o olhar para ele com o rosto tomado de descrença, Do-Heon, após um bom tempo, murmurou como quem se justifica.
— O senhor pensa isso de verdade?
Cheongyeon, inclinando na diagonal o rosto avermelhado pela bebida, retrucou.
Num instante, com a garganta embargada, Do-Heon não conseguiu dar resposta alguma.
A pergunta lançada como uma recriminação e o remédio caído no chão, os roteiros, e a relação que se desfizera porque ele não soubera protegê-la.
Tendo tudo aquilo diante dos olhos, não lhe saía de jeito nenhum a palavra “penso”.
Do-Heon, pela primeira vez, foi o primeiro a desviar do olhar fixo de Cheongyeon. E, tateando o pescoço apertado, logo se deu conta de que não havia gravata e baixou a mão de novo.
— A matéria que saiu agora vai sair do ar dentro de quinze dias.
Ele, mudando de assunto, levantou-se. Em seguida, com a voz sem altos e baixos de sempre, deu continuidade à fala.
— Kwon Hyena, era o nome. Segundo essa mulher, até tudo se aquietar por completo são necessários alguns meses. Quanto à atuação, é só esperar o conteúdo do escândalo se resolver e cair no esquecimento e então recomeçar. A produção do drama também pode ser adiada até lá.
Do-Heon , como quem tenta provar suas próprias palavras de que “não estava tentando machucar”, apresentou uma solução com que Cheongyeon pudesse superar a situação atual.
Agora estava suspenso, mas o maior investidor do drama que fora decidido gravar de novo era ele, então adiar o cronograma por uns meses não era coisa impossível.
— Uau. O plano é bem detalhado, hein. Sem travar, tim-tim por tim-tim… feito uma empresa de gestão.
Cheongyeon, desabado no chão sem conseguir se levantar, riu debilmente.
— Se você tivesse me contado desde o começo, teria sido mais simples. Sem nem precisar ter meses de intervalo.
— Mas se o plano é assim tão perfeito… então como é que eu vou ter que pagar de novo… Desta vez eu nem cheguei a pedir para o senhor fazer.
Cheongyeon, que soltou um suspiro, murmurou com a pronúncia indistinta. Embora Do-Heon tivesse apresentado uma solução clara, a expressão dele não parecia nem um pouco satisfeita.
— Será que eu consigo pagar tudo isso com o meu corpo?
Diante das palavras “pagar com o corpo”, os olhos de Do-Heon se contorceram com aspereza.
— Yoo Cheongyeon.
Mesmo diante da voz baixa que cuspia seu nome, Cheongyeon piscava tranquilamente os olhos.
— Que foi. É verdade, oras.
— Quem disse que queria atuar de verdade foi você. E eu só estou tentando ajudar para que você possa continuar atuando.
Do-Heon disse fixando o olhar no roteiro que Cheongyeon deixara escapar.
Mas talvez fosse por só ter empilhado justificativas esfarrapadas. Pelo contrário, teve a sensação de estar sendo encurralado.
Por mais que embrulhasse como “estou ajudando Cheongyeon”, não dava para reverter a situação distorcida. Afinal, o único que agora se debatia para recuperar esta relação era ele mesmo.
Cheongyeon não lhe fizera, ele mesmo, nenhum pedido a respeito deste caso.
— Ajuda até que é. Só que o problema é ser uma ajuda que vem com preço.
— Nunca pedi um preço.
Diante da resposta séria de Do-Heon, Cheongyeon caiu na risada.
— Por que a esta altura o senhor finge que não? No fim das contas o senhor está fazendo isso para deitar comigo, oras. Entre a gente, o que mais sobrou além disso.
— …
— Fui eu que provoquei, é verdade… mas agora até isso está me esgotando demais.
O fim das frases pareceu ficando cada vez mais lento e então Cheongyeon, alisando o cabelo que escorregara, deixou a cabeça pender fundo para o chão.
— O que eu deveria ter feito, e como. Não faço a menor ideia, de verdade.
Assim, no estado em que desabara sentado, ficou um bom tempo sem se mexer, e então começou a se ouvir o som ritmado da respiração dele.
— …É melhor você dormir logo.
Do-Heon disse enquanto erguia nos braços Cheongyeon, que estava no chão.
Como não tinha adormecido de vez, Cheongyeon se remexeu dizendo que conseguia andar sozinho. Mas não havia força suficiente para ele se soltar por conta própria do abraço de Do-Heon e andar.
Do-Heon, depois de deitar na cama Cheongyeon, de quem emanava um cheiro forte de álcool, cobriu-o com o edredom. Cheongyeon mexeu os lábios como se ainda lhe restasse algo a dizer.
Mas, sem conseguir erguer as pálpebras que teimavam em se fechar pesadas, logo cerrou os olhos.
Não muito depois, espalhou-se o som de uma respiração regular.
Do-Heon fitou por um tempo, quieto, Cheongyeon deitado na cama.
Nesse estado, quantos minutos teriam passado. Talvez por ter caído num sono profundo, Cheongyeon, com os lábios levemente entreabertos, inclinou a cabeça para o lado.
Só então Do-Heon começou a examinar com atenção o pescoço, os ombros, os braços e as pernas de Cheongyeon, para verificar se havia algum ponto ferido no corpo dele.
Fora o rosto um pouco abatido pelo sofrimento emocional, por sorte não havia nenhum ferimento visível.
— …
Ele acariciou com cuidado, como que redesenhando com a ponta dos dedos, o dorso frágil da mão de Cheongyeon adormecido em sono pesado. Talvez por lhe fazer cócegas, Cheongyeon estremeceu o tronco, e Do-Heon logo recolheu a mão.
Ele, que se levantou, recolheu e organizou os roteiros que Cheongyeon deixara cair. Em seguida, ligou para o médico responsável.
*
— Digestivo, remédio para dor de cabeça, anticoncepcional, supressor… Não me diga que ele toma tudo isso junto?
Apesar da hora avançada, o médico, que atendera ao chamado de Do-Heon e fora ao apartamento, conferia um a um os remédios tirados da bolsa e da gaveta do apartamento, estalando a língua.
— O estado dele está muito ruim?
Do-Heon, sem mover um único passo ao lado da cama onde Cheongyeon dormia, perguntou ao médico.
O médico coçou a cabeça como quem está numa situação difícil.
— Como é bem mais limitado do que examinar por máquina no hospital, a precisão cai, mas… por ora, à primeira vista, avalio que seja algo como desnutrição e privação de sono.
O médico acrescentou de novo “só à primeira vista”, deixando aberta a possibilidade de diagnóstico equivocado.
— A propósito, será que o anticoncepcional e o supressor continuam sendo tomados ao mesmo tempo?
Depois de saber que ele tomava os dois remédios juntos, nunca mais tinham deitado juntos, então provavelmente ele vinha tomando só o supressor, sem o anticoncepcional.
Quando Do-Heon negou com a cabeça, o médico, como quem se alivia, soltou um suspiro e checou as pupilas e a temperatura corporal de Cheongyeon.
— A temperatura está um pouco alta, mas, como o senhor disse que ele está alcoolizado, isso parece não ser problema… Atualmente, o senhor sabe mais ou menos quanto pesa o paciente Yoo Cheongyeon?
— Sei lá. Uns 56 kg?
Do-Heon respondeu relembrando o peso de quando erguera Cheongyeon nos braços e o deitara na cama.
— Ele emagreceu. Mesmo que por ora não haja efeito colateral visível, examinar assim só pela pulsação e pela temperatura tem seus limites.
O médico foi anotando o parecer na ficha que trouxera do hospital.
— O estado não parece melhor do que da última vez em que ele ficou internado. Se ele precisa continuar tomando o supressor, é melhor interromper de todo jeito o uso simultâneo com o anticoncepcional. E agora ele precisa descansar o suficiente.
Ao ver a expressão de Do-Heon endurecer cada vez mais, o médico mediu a reação por um instante e então deu continuidade à fala.
— Não é só a questão da infertilidade; se, por perturbação do sistema nervoso, o supressor de feromônio começar a não fazer efeito, até a vida cotidiana fica difícil. Se o efeito do supressor sumir, não dá para prever o ciclo de cio, então ele teria de largar também a atividade de ator. Mesmo que a profissão não fosse a de ator, e sim funcionário de empresa, seria a mesma coisa. Chegado esse ponto, por mais caro que seja o tratamento, uma vida normal será impossível.
— Se ele interromper o uso, a recuperação é possível?
— Isso não dá para saber com exatidão. E, para a recuperação do paciente, eu até posso receitar remédio em caráter temporário, mas recomendo um exame minucioso o quanto antes. Para quando marco a consulta?
Diante da pergunta do médico, Do-Heon não conseguiu responder de imediato e baixou o olhar para Cheongyeon adormecido.
Como não tinham mais uma relação conjugal, ele também não era o responsável legal de Cheongyeon, portanto não podia consentir com a internação. Nem tinha pretexto para levá-lo à força ao hospital.
A Do-Heon não restava mais nenhum direito. Talvez fosse por saber disso que se apegaria ainda mais ao “contrato”.
E esse apego, no fim, vinha destruindo Cheongyeon.
*
Do-Heon só voltou para casa um bom tempo depois de o médico ter ido embora. Por ter passado muito tempo sem dormir, a mente foi ficando cada vez mais turva.
Pensando que primeiro devia dormir e, ao acordar, planejar os próximos passos, Do-Heon abriu a porta de entrada.
— Diretor. Chegou?
Quando pôs o pé no corredor que dava para a sala, a empregada veio recebê-lo depressa. Ao contrário do costume, os gestos eram agitados e a voz também tinha algo de aflito.
— Aconteceu alguma coisa?
— É que, enquanto o senhor estava fora, chegou uma visita.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna