↫─Capítulo 141
Do-Heon, que pôs o perfume de volta no lugar, voltou lentamente para a cadeira e se sentou. Ele, sentindo o cheiro de Cheongyeon que rondava ao redor ainda que tênue, fechou os olhos.
Então uma das lembranças que ele havia esquecido lhe veio à mente ao acaso.
— Hoje o senhor chegou bem tarde.
O Cheongyeon da lembrança, ao ouvir o som de Do-Heon acabando de chegar do trabalho, descia às pressas desde o segundo andar.
Ao vê-lo correr saltando dois, três degraus de uma vez, Do-Heon tinha franzido o cenho.
— Por que você não foi dormir.
— Queria dormir depois de ver o senhor chegar. Já jantou?
Talvez por ter saído no meio de um cochilo, os olhos de Cheongyeon, de pijama, estavam meio fechados. O olhar de Do-Heon deteve-se por um instante na bochecha macia tomada de rubor.
Logo ele desviou o olhar e fitou a escada de degraus bem altos, que parecia perigosa.
— Jantei.
— Ah, então…
— E não precisa esperar até a hora em que eu chego do trabalho. De agora em diante, não venha e durma primeiro.
Diante das palavras de Do-Heon , os olhos sonolentos de Cheongyeon foram aos poucos se abrindo nítidos.
Como se tivesse algo a dizer, Cheongyeon mexeu os lábios repetidas vezes. Mas, no fim da hesitação, o que saiu foi uma resposta sem graça, um “sim”.
— O que você fez hoje?
Os dois, ajustando o compasso dos passos, subiram juntos ao segundo andar. Talvez por ter gostado bastante de Do-Heon lhe fazer uma pergunta, Cheongyeon se animou e começou a tagarelar.
— De manhã, depois que o senhor saiu para o trabalho, entrei no quarto e fiquei mais um pouco deitado na cama. Ah… não que eu tenha ficado o dia inteiro só deitado.
Cheongyeon acrescentou espiando Do-Heon de esguelha.
— À tarde a avó disse que queria me ver um pouco, então comemos juntos e passeamos. Já que saí, aproveitei e comprei também a roupa para usar no próximo encontro. A do senhor também. Depois eu mostro.
Mesmo sem o outro corresponder, Cheongyeon, sozinho, explicava com afinco a rotina do dia.
— Na volta para casa, recebi um contato dizendo que tinha chegado um quadro novo na galeria, então passei lá rapidinho também… À minha maneira, andei ocupado. À minha maneira.
Cheongyeon, enfatizando em especial essa última fala, seguiu com naturalidade Do-Heon , que entrava no quarto.
— Deve estar cansado.
Do-Heon , que entrou no quarto, disse tirando o blazer.
— Não é tanto assim. Hehe.
Na voz de Cheongyeon que dizia isso transparecia uma languidez de que ele não conseguia se livrar.
— Aliás, senhor. O que o senhor faz no fim de semana? Amanhã é sábado…
— Vou à empresa. Surgiu um trabalho que preciso resolver dentro desta semana.
— …Então chega tarde?
— Acho que só vendo para saber.
— E domingo?
— Aí tenho que descansar.
Do-Heon , olhando os longos cílios de Cheongyeon que tremulavam devagar carregando o sono, afrouxou a gravata.
O Cheongyeon dos últimos tempos, toda vez que o via, tinha um ar de cansaço, então sem dúvida parecia precisar de descanso.
— Ah. É verdade. Tem que descansar.
Cheongyeon concordou assentindo várias vezes. Por um instante o canto dos olhos pareceu cair murcho, mas logo tornou a lhe surgir um sorriso.
— Mas o senhor, o que faz para descansar no dia de folga? Não vê coisas como musical? Dizem que um grupo de musical superfamoso lá de fora vai fazer uma apresentação na Coreia desta vez, e todo mundo diz que é muito divertido. Provavelmente as poltronas da frente já esgotaram, mas se der certo as de trás…
Cheongyeon, sentado na beirada da cama de Do-Heon , tagarelava sem parar.
Do-Heon , que ia justamente tirar a camisa, ao ver a poeira branca grudada nos cabelos despenteados de Cheongyeon, estendeu a mão sem pensar.
— Ãh…
Mas, antes mesmo de o toque o alcançar, Cheongyeon, de olhos arregalados, recuou o corpo para trás.
— …
— …
A mão de Do-Heon parou por um instante no ar e em seguida se recolheu.
— De-de repente o senhor estendeu a mão… não é que eu não goste do senhor. É que, me assustei muito.
Cheongyeon, paralisado, com uma expressão de quem não sabia o que fazer, falava atropelado.
O olhar de Do-Heon deteve-se nos lábios cheios e lisos de Cheongyeon e na clavícula revelada por entre o pijama que escorregara.
Ele, para conter algum impulso que aflorava de súbito, cerrou a boca numa linha reta. E apertou o punho com força.
— Volte já para o seu quarto.
Do-Heon , que a muito custo reprimiu o instinto, disse em voz baixa. Cheongyeon hesitou por um instante e se levantou.
— Boa noite, senhor.
Cheongyeon, que se despediu cabisbaixo, saiu do quarto de Do-Heon como quem foge.
Terminada a breve reminiscência, Do-Heon abriu os olhos que mantinha fechados. A cena que se desenhava nítida em sua cabeça sumiu como fumaça e o quarto vazio de Cheongyeon entrou em seu campo de visão.
Pensando bem, parecia que, depois daquilo, nunca mais Cheongyeon o acompanhara para dentro do próprio quarto. Era sempre conversando à porta, ou então, quando ele não estava no quarto, Cheongyeon entrando e saindo sozinho.
— …
O aroma que por um breve momento lhe proporcionara uma sensação de estabilidade agora tinha evaporado por completo. E provocara uma sede ainda maior.
Do-Heon , por hábito, conferiu o celular. Como antes, nenhuma notícia sobre Cheongyeon havia chegado.
Ele, tamborilando na mesa com a ponta dos dedos, mergulhou em pensamentos.
Deixando de lado a emoção e abordando a situação da forma mais racional possível, ainda não era uma etapa que merecesse ser levada a sério. Afinal, fazia apenas meio dia que estava sem contato com Cheongyeon.
Ainda que dissessem que ele estava sem contato com as pessoas ao redor desde ontem à noite, de modo geral um dia é um tempo extremamente curto.
Podia ter desligado o celular por precisar de um tempo pessoal, ou talvez tivesse esquecido de carregá-lo. Existia até a possibilidade de tê-lo perdido de vez.
Era cedo para, pelo simples motivo de não conseguir ligar, julgar precipitadamente qualquer coisa.
— Fu.
Mesmo sabendo disso com a cabeça, as entranhas que ferviam não davam o menor sinal de se acalmar.
Ao se ver nessa situação, Do-Heon , enfim, se deu conta de que havia coisas demais que ele não sabia a respeito de Cheongyeon.
Onde seriam os lugares aonde ele poderia ir, quem ele encontrava, o que estaria pensando, por que não o contatara nem uma única vez.
Por mais que ficasse sentado ali matando o tempo à toa, não conseguia chegar a uma única resposta.
Talvez fossem mais os pontos que ele desconhecia sobre Cheongyeon do que os que conhecia.
Cheongyeon detestava até comer com ele, tampouco se divertia em ver quadros, e chegara a dizer que fora infeliz até por viver com ele nesta casa.
Ao lembrar da imagem dele, todo encolhido e tremendo, gritando que o odiara, que fora tão horrível a ponto de nunca mais querer vê-lo, o peito ficou apertado. Por mais que inspirasse fundo, a falta de oxigênio não se preenchia.
Diante de uma inquietação de origem desconhecida, Do-Heon , franzindo a testa, levantou-se. Por mais que não quisesse recordar, os resíduos de imagem que se cravaram por conta própria em sua mente se reproduziam sem parar. Para ele, era algo a que não estava acostumado.
Do-Heon , que perambulava pelo quarto de Cheongyeon, abriu o closet e entrou.
O interior estava impecavelmente arrumado, como se mão humana não o tivesse tocado. Era um lugar repleto, por completo, das coisas de Cheongyeon.
As roupas e os acessórios que Do-Heon presenteara, camisas, sapatos, relógios, chaves de carro, fotos tiradas juntos.
Estava com uma conservação tão perfeita que podia ser usado de novo a qualquer momento.
No entanto, Cheongyeon, mesmo quando visitara a casa de novo após o divórcio, não parecera ter nenhum apego. Como se não se importasse que o espaço em que os dois viveram ficasse assim, deixado para trás, virou as costas e saiu com facilidade.
Talvez o único a atribuir significado a este lugar fosse Do-Heon .
Do-Heon , que fitava as coisas que Cheongyeon deixara para trás, só depois de passar um bom tempo é que se virou e saiu do quarto.
*
Do-Heon , que a noite inteira não conseguiu pregar o olho, levantou-se sem apego da cama em que estava deitado. Quanto mais forçava os olhos fechados, mais parecia que todos os nervos se aguçavam.
Ele, de forma compulsiva, saiu da cama e conferiu o celular. Só havia entrado e-mail e mensagem relacionados a trabalho, e, como antes, a notícia que esperava não estava lá.
A essa altura já era de esperar que ao menos chegasse um contato dizendo que tinham encontrado Cheongyeon. Será que aconteceu alguma coisa.
Ou então, não me diga que com aquele sujeito ômega ele de fato acabou tendo algum caso.
A possibilidade que ele vinha se esforçando para ignorar penetrou na cabeça de Do-Heon .
Han Iram, era isso? Depois de ouvir a história de que o traço dele era ômega, tinha afastado a suspeita de que ele e Cheongyeon fossem algo especial.
Assim que a desconfiança ergueu a cabeça uma vez, a imagem dos dois na foto que vira na matéria começou a lhe arranhar as entranhas.
Era raro, mas ouvira dizer que havia casos de gente do mesmo traço se apaixonando. Em teoria, não era impossível também. Ainda por cima, veio-lhe o pensamento de que o motivo de Cheongyeon não o ter contatado após o escândalo estourar talvez fosse porque a matéria era verdade.
Do-Heon cerrou os molares com tanta força que os tendões se salientaram no pescoço e no maxilar.
Sentindo de súbito uma sede que ardia na garganta, ele desceu ao primeiro andar. Por mais que virasse um copo cheio de água gelada, a sensação de queimação da garganta quente não baixava.
Ainda que ontem, por causa do voo, tivesse passado mais de um dia inteiro sem dormir, a mente estava anormalmente lúcida.
Ele pousou o copo vazio e logo pegou a chave do carro.
Mesmo sabendo que gente do mesmo traço se encontrar era, na prática, uma probabilidade ínfima, parecia que só verificando com os próprios olhos que não era verdade é que as entranhas em fervura iriam se acalmar.
Ainda que ir de novo até lá de nada adiantasse, Do-Heon saiu de casa sem demora.
Mesmo sendo madrugada, sem se importar, ele deu a partida no carro rumo ao apartamento de Cheongyeon. Afinal, aquele era o único lugar aonde valia a pena ir, para começar.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna