↫─Capítulo 131
Cheongyeon, esforçando-se para ignorar o ar que ficara sutil, sem olhar para o lado de Do-Heon, tirou dois jogos de talheres.
Nesse meio-tempo, Do-Heon esquentou a sopa e trouxe os acompanhamentos da geladeira. Depois de servir também o arroz, logo se armou uma refeição e tanto.
Todos os movimentos dos dois eram naturais, como quem flui feito água. Como se ainda morassem juntos naquela casa.
Como se entrosavam bem demais, sem necessidade, seu coração ficou inquieto à toa.
— Você não está com fome?
Do-Heon, tendo sido ele mesmo a dizer para comerem juntos, na hora em que a mesa estava posta, não pegou os talheres. Cheongyeon o olhou com estranheza e tomou uma colherada de sopa.
— Nem tanto.
— …
Ao ouvir a resposta de Do-Heon, Cheongyeon por um instante ficou sem palavras.
Que absurdo. Por que ele mandou comer juntos. Então devia ter me deixado ir para casa antes.
Bem quando ele pensava em dizer que então ia se levantar, Do-Heon começou a comer com um movimento lento.
E Do-Heon não disse nada durante a refeição inteira. Ele já era de poucas palavras, mas naquele dia o clima estava excepcionalmente pesado.
Por que será que ele estava agindo de forma tão estranha. Diante daquela atitude difícil de entender, Cheongyeon espiava o rosto dele sem parar. Estará doente? Ou levou bronca na empresa? Mas existe alguém que possa dar bronca no Do-Heon, que é o diretor-presidente na empresa?
Cheongyeon, que fazia imaginações tolas, tirou o olhar de Do-Heon, achando “o que eu estou fazendo?”. Veio-lhe o pensamento de que devia comer rápido e sair.
— …
— …
Mas, para Cheongyeon, o silêncio era um suplício. Comer sem uma palavra sequer o deixava sem saber se ele estava mastigando borracha ou arroz.
Achando que assim ia ter indigestão, depois de alguns pigarros, Cheongyeon foi o primeiro a abrir a boca.
— Aconteceu alguma coisa na empresa?
Do-Heon parou de mexer os pauzinhos e olhou para Cheongyeon.
— Parece?
— É que você não parece de bom humor.
As ações caíram? Será que é hora de comprar a JT Eletrônicos. Suposições que não combinavam com a situação saltavam de forma esparsa. Além de uma queda brusca no preço das ações, não lhe ocorria um motivo razoável para Do-Heon estar tão abatido.
Ou será que ele ainda estava incomodado por causa da matéria que saiu ontem.
— Por acaso você não queria comer e eu te obriguei à força…
— O que você disse ontem.
Do-Heon cortou o que Cheongyeon dizia e abriu a boca.
— Era sério?
— Hã?
Cheongyeon perguntou de volta como quem não entendia do que se tratava.
— Se é o que eu disse ontem.
O que foi que eu disse ontem. Tinha saído uma matéria por iniciais que parecia mirar em Do-Heon, e Cheongyeon dissera que ele não precisava fazer questão de contar se era verdade ou não e que não precisava se preocupar com ele.
“Você está dizendo que não se importa que eu me case com outro ômega?”
Aah. E ele também tinha dito que não se importava que ele se casasse com outra pessoa.
Mas por que esse assunto está vindo à tona? Será que aquilo o incomodou.
Pensando bem, a reação de Do-Heon na hora tinha sido diferente do habitual.
— É sério.
Cheongyeon respondeu com clareza.
— O que eu quis dizer… Bem, não é que eu não me importe nem um pouco. Mas, de qualquer forma, a pessoa de que você precisa não sou eu, e sim…
— Que estranho. Tanto a Moon Heejin quanto você falam como se soubessem melhor do que o próprio interessado do que eu preciso.
— …
— E justamente eu nunca disse uma coisa dessas.
De algum jeito, soou como se ele o estivesse repreendendo. Cheongyeon ruminou o que ele dissera.
— É mesmo? Mas que eu não estava à sua altura é fato, não é? Você viveu três anos comigo, então deve saber.
O olhar de Do-Heon sobre ele era intenso demais, mas Cheongyeon, sem se intimidar, continuou com calma.
— Eu só disse no sentido de que gostaria que você encontrasse alguém que te fosse útil.
— Quem é você? Eu pedi, disse que precisava?
Na voz de Do-Heon havia uma hostilidade evidente.
— Se você fala assim… eu não tenho o que dizer.
Cheongyeon engoliu um suspiro e desviou o olhar. Sinceramente, ele não entendia por que ele estava tão afiado, mas não queria fazer questão de brigar ali.
— Faça como quiser. Casar ou não é a sua escolha.
Cheongyeon deu de ombros e falou como se fosse algo sem importância. No instante em que ia continuar comendo assim mesmo, Do-Heon abriu a boca de novo.
— A intenção de voltar para casa.
— …
— Ainda não tem?
Como era uma pergunta inesperada, ele quase engasgou.
— …Não tenho.
— Mesmo que eu faça como você deseja e finja que o contrato nunca existiu?
Ouvir aquilo era um absurdo. Mesmo que o contrato de patrocínio desaparecesse, surgiria outro contrato, o registro de casamento, então por que eu aceitaria?
Para Cheongyeon, era uma questão que nem precisava de reflexão. Ele não entendia por que, de um jeito nada característico dele, ele fazia a mesma pergunta sem parar, mesmo depois de ele ter recusado várias vezes.
— Já dói a boca de tanto responder. Haa. Vou dizer pela última vez. Eu não quero morar com você.
Cheongyeon recusou com firmeza aquele pedido de casamento sem uma remela de romance, como um negócio. Enquanto falava encarando de frente as pupilas negras dele, de repente lhe ocorreu uma coisa que queria perguntar a ele.
— Aliás, diretor. Por acaso, quando eu era criança… a gente se encontrou?
Cheongyeon, desde que voltara de ter encontrado o tio havia pouco, vinha pensando que talvez o motivo de Do-Heon o segurar fosse por causa de um vínculo da infância.
Embora ele não se lembrasse, se existisse uma história especial que os ligava, parecia que ele poderia entender, nem que fosse vagamente, a atitude atual de Do-Heon .
— Como você sabe disso.
— Ah, era verdade mesmo.
Parece que o tio não tinha inventado uma história do nada.
— Foi por acaso que eu fiquei sabendo… Mas por que você nunca me contou? Que a gente já tinha se encontrado antes.
— Por que esse assunto é necessário agora? E, de qualquer forma, é algo de que você não se lembra, então o que muda se eu contar.
— O motivo de você não ter contado esse tempo todo era esse?
— Porque é uma conversa desnecessária.
Cheongyeon mergulhou por um instante em pensamentos. A palavra “desnecessária” que Do-Heon usara se cravou fundo em seu peito de forma singular.
— Sabe. Enquanto eu vivia com você, “por que essa pessoa se casou comigo?”… Desde que eu abria os olhos de manhã até adormecer, eu pensava nisso.
Cheongyeon abriu a boca, lembrando de si mesmo naquela época.
— Não querer se casar com a pessoa que a família apresentou e, ainda por cima, por dó, porque eu era digno de pena. Além disso, será que realmente não havia nem uma partícula de outro motivo?
Uma vez que essa dúvida começava a brotar, como ele mesmo não conseguia chegar a uma resposta, ele passava o dia inteiro mergulhado na melancolia.
— A gente viveu três anos juntos… mas você, Do-Heon, nunca me disse o que gostava em mim, por que me pediu em casamento, coisas assim.
Do-Heon provavelmente não entenderia por que ele dizia aquilo, mas, ainda assim, Cheongyeon continuou com firmeza.
— Foi por isso que eu decidi me esforçar para que você, Do-Heon, pudesse criar ao menos um motivo que fosse. Tentei imitar o comportamento dos filhos de outras famílias ricas, estudei arte, escolhi suas roupas com afinco, me arrumei como uma pessoa de que você gostaria em tudo — no vestir, no comer, no falar. Vestindo miseravelmente uma casca falsa.
Enquanto falava, sua garganta se embargou com as lembranças antigas. Por isso teve que parar de falar por um instante e ajeitar a respiração.
— Todos me desprezavam… mas eu ia com afinco até aos encontros a que você tinha que comparecer acompanhado do cônjuge. Vivi três anos assim.
Cheongyeon continuou desviando o olhar de Do-Heon . Se seus olhos se encontrassem assim, parecia que a calma que ele mal mantinha ia desmoronar.
— Mas de repente me vem esse pensamento. Se, naquela época, quando eu era criança, você tivesse me dito que a gente já tinha se encontrado, nem que fosse de relance, por acaso. Então, ao menos, eu teria uma coisa pra me consolar dizendo “ah, ele se casou comigo porque havia um vínculo antigo”. Com aquela única frase, eu ficaria um pouco menos inquieto todo dia.
A resposta de Do-Heon, de que não sentira a menor necessidade de contar aquilo, parecia comprovar o quão nítida era a linha de fronteira que existia entre ele e Cheongyeon.
Do-Heon, desde o início, não era uma pessoa delicada e comum o bastante para considerar, um a um, o complexo de inferioridade e a insegurança dele. E o que ele sempre desejara, sem falha, era um Moon Do-Heon comum.
— É por isso que eu não quero nunca mais voltar para você.
Só depois de terminar por completo o que queria dizer é que Cheongyeon ergueu o olhar e encontrou os olhos de Do-Heon.
— E você? Que faceta minha exatamente te agrada, pra você dizer que quer morar comigo? Por causa de quê?
Cheongyeon engoliu em seco e perguntou de volta a Do-Heon.
E, por alguns segundos, pairou o silêncio.
— Porque você era digno de pena e conveniente.
— …
— Tudo em você se ajustando a mim.
Ele achava que ficaria bem, mas, diante daquela resposta, foi como se o chão sumisse sob seus pés.
— É por isso que eu preciso de você.
Ah. Então eu vinha sendo constantemente objeto da pena do Moon Do-Heon .
Cheongyeon, sem encontrar o que responder, tapou a boca com a mão e enrijeceu o corpo.
De repente, tudo lhe pareceu vazio. Aquela relação, o tempo que ele acumulara com ele. Tudo.
E seu peito doeu.
Cheongyeon assentiu devagar. Por outro lado, foi grato a ele por ter falado com sinceridade. Afinal, ser direto a ponto de ser cruel foi, até o fim, bem a cara do Moon Do-Heon .
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna