↫─Capítulo 181
— Ontem. Eu pedi que você me desse mais uma chance.
Aparentemente era algo que o incomodava bastante, porque Do-Heon parou de andar e ficou de pé na calçada, esperando a resposta.
— Hã? Não passou nem um dia, que tipo de conclusão eu poderia ter tirado nesse tempo?
Cheongyeon ergueu os olhos para ele, incrédulo.
— Então de quanto tempo você precisa.
— Nem eu sei.
— Quer dizer que eu tenho que esperar indefinidamente, sem prazo?
Ele protestou como se estivesse sendo vítima de uma injustiça. Ao mesmo tempo, um riso vazio escapou da boca de Cheongyeon.
— Isso depende de como o senhor diretor se comportar.
Ele já recebera bastante declarações ao longo do fundamental, do ginásio e do ensino médio, mas um caso assim era inédito. Exigir uma resposta logo no dia seguinte.
— E onde já se viu quem se declara vir cobrar feito agiota. Espera um pouco.
Resmungando, Cheongyeon se jogou num banco à beira do caminho.
De novo aquela sensação de cócegas na palma da mão. Mesmo esfregando a palma discretamente na calça, o formigamento continuava igual.
Cheongyeon mordiscou o lábio inferior sem perceber. Então lembrou-se de que Min Hyerin lhe pedira para não morder, porque podia machucar, e fechou a boca com firmeza. Já tinha mordido demais inconscientemente, e o lábio ardia.
Mesmo naquela situação, os cantos da boca insistiam em se contorcer, como se fossem subir sozinhos, e ele teve até de fazer força para segurá-los.
Logo Do-Heon também se sentou ao lado dele no banco.
Ficando ali sentados lado a lado por um tempo, o canto dos pássaros ressoava como uma música entre os galhos frondosos.
O bairro onde ficava a casa de campo da avó não era ponto turístico, mas uma pequena vila. Os moradores locais, circulando em roupas confortáveis, pareciam, ao contrário da Coreia, não ter o menor interesse em Do-Heon e Cheongyeon.
As pessoas passavam com indiferença diante do banco em que os dois estavam sentados. Como não havia por que se preocupar em ser reconhecido, o coração de Cheongyeon relaxou.
— Quer dizer que não é que a possibilidade seja nula?
Cheongyeon desviou o olhar, fingindo estar gravando com afinco a paisagem tranquila da vila. Mas toda a sua atenção estava voltada para Do-Heon, sentado ao lado.
— O lábio.
— Hã?
— Para de maltratar o lábio.
— Ah.
Diante daquela observação repentina, Cheongyeon apalpou o próprio lábio inchado.
— O lábio é meu, que diferença faz se eu mordo ou não.
— É que só ele fica à vista e é difícil me segurar.
— Difícil, difícil o quê.
— É preciso explicar em detalhes?
Adivinhando mais ou menos o sentido, Cheongyeon o olhou de esguelha. Ao contrário da voz contida, o olhar dele fixo nos lábios de Cheongyeon era pegajoso e explícito ao extremo.
— …Ficou louco, no meio da rua.
Cheongyeon murmurou quase para si mesmo e cobriu a boca. Por um instante teve a ilusão de que o ar ao redor esquentava.
— Pelo contrário, ainda bem que é na rua. Se não fosse, acho que não conseguiria te deixar em paz assim. A vovó foi sábia em nos mandar passear.
— Você é um animal? Depois de tudo o que fez, ainda tem consciência?
— Eu também estou surpreso, foi a primeira vez que descobri que sou tão tarado assim.
Do-Heon se criticou com o rosto impassível.
Bem nessa hora soprou um vento fresco, esfriando ao menos um pouco o calor que envolvia os dois.
As folhas verdes ao redor balançavam suavemente ao sabor do vento. Conforme o movimento, a luz do sol da tarde se desfazia e reaparecia sem parar.
Cheongyeon teve de repente o pensamento absurdo de que as folhas esvoaçantes eram como um retrato de seu próprio coração.
Nesse momento, uma folhinha caiu sobre a cabeça de Do-Heon.
— Tem uma folha na sua cabeça.
— Onde?
— Aqui, em cima da testa do lado direito.
Cheongyeon apontou com o dedo a folha tenra, como se tivesse acabado de brotar.
— Tira você.
Do-Heon se inclinou na direção de Cheongyeon.
Mesmo pedindo um favor, quando ele falava parecia estar dando uma ordem a um subordinado. Era alguém acostumado até os ossos a comandar as pessoas.
Que uma pessoa dessas tivesse feito uma declaração tão dilacerante a ele ainda parecia irreal.
— Tira sozinho.
— Por quê.
— Não é nada difícil.
— Mas o cabelo de outro alfa você fez questão de tocar.
Sem entender do que se tratava, Cheongyeon inclinou a cabeça. Levou alguns segundos para compreender.
— O Jeff?
Não sabia por que aquela história do bar voltava à tona. Ele mal se lembrava.
— O nome daquele desgraçado é Jeff?
Quando o nome do alfa que encontraram no bar anteontem à noite saiu da boca de Cheongyeon, a expressão de Do-Heon endureceu.
Antes que ele arrumasse mais motivo para implicância, Cheongyeon tirou depressa a folha da cabeça dele.
Mas, pensando bem, era injusto que só ele fosse interrogado por aquilo.
— O senhor diretor também não está em posição de se fazer de digno. Anunciando aos quatro ventos que estava procurando parceiro. Eu até achei que você era formado em marketing.
— Não era anúncio, era o rut e eu não tinha o que fazer. Para constar, aquele nível de feromônio durante o rut é bem comedido.
— E quem não sabe disso? Mas o senhor diretor é dominante, e antes nunca era tão intenso assim.
Cheongyeon cruzou os braços e o fuzilou com os olhos, como se aquela desculpa fosse absurda.
— Naquela hora, qualquer um veria uma pessoa que veio atrás de uma noite.
…Espera. E eu é que acabei sendo essa “noite”?
— Mesmo com traço dominante, não existe alfa sem sintomas de rut. É que eu tomava remédio, então não aparecia.
— Remédio? Supressor?
Os olhos de Cheongyeon se arregalaram.
Mesmo vendo Do-Heon assentir, era difícil aceitar.
— Você quer dizer que antes, mesmo em rut, eu não sentia nada de feromônio porque você tomava remédio? Você? Por três anos?
Cheongyeon disparou perguntas com uma expressão de choque.
— É motivo para tanta surpresa?
Era a primeira vez que ele ficava sabendo. Durante o casamento, como a vida sexual era escassa, ele nunca tinha presenciado um ciclo de rut de Do-Heon, mas jamais imaginara que ele também tomasse supressor.
— C-claro que é. O senhor diretor, por quê? Sendo dominante… e sem que isso atrapalhasse nada…
— Não é que não atrapalhe em nada. Não dá para ser exatamente como sempre.
— …….
— Achei melhor não deixar transparecer, porque se você soubesse que era ciclo de rut ia ficar com medo. Já bastava você tremer só de se falar em cama; eu não queria te assustar ainda mais.
Não pode ser. Do-Heon também tomava supressor por causa dele?
— Foi só uma medida preventiva, para o caso de eu perder a razão e te tratar de forma diferente do habitual. E você também me evitava nos ciclos de cio.
— Remédio. Você tomou todas as vezes?
— Quase.
— Ha…
Cheongyeon soltou uma pequena exclamação. Sua cabeça ficou zonza, como se tivesse levado um golpe.
Ele tinha certeza de que fora unilateralmente só ele a se ajustar a Do-Heon esse tempo todo, e por isso guardava mágoa. Agora que se revelavam as partes em que Do-Heon, a seu modo, também se esforçara para manter aquela relação, sua cabeça ficou confusa.
Pensando bem, só depois do divórcio ele soube que Do-Heon teve problemas de feromônio por não ter resolvido o rut adequadamente durante anos.
O que diabos nós fizemos durante três anos? Não sabemos nada um do outro.
Quando o pensamento chegou até ali, de repente lhe voltou à mente uma conversa que teve com a empregada depois do divórcio.
“Não é que ele tenha parado de comer de repente; ele já não fazia questão de comer em casa antes mesmo do casamento.”
“E antes disso, o que ele comia?”
“Sei lá. No café da manhã ele comia leve, torrada ou frutas, e no jantar, se não tivesse compromisso de refeição com o presidente, acho que ele não comia muito, não.”
A sensação de cócegas na palma da mão foi ampliando seu território até se estender ao peito e começar a formigar ali.
— Senhor diretor. Você normalmente não fazia questão de café da manhã e jantar?
Do-Heon apoiou o cotovelo no encosto do banco e, com as pernas cruzadas, inclinou o queixo por um instante.
— Por que a curiosidade?
— Nada, só isso.
— Se você está perguntando com base em antes do casamento, eu não comia muito, não.
— …Por quê?
— Toma tempo e é trabalhoso.
— Mas quando morava comigo você sempre comia.
— Para fazer você comer direito, é claro que eu tinha de comer junto. E o café da manhã era a única hora em que eu conseguia ficar bastante tempo olhando para o seu rosto.
Do-Heon olhou para Cheongyeon com estranheza, como quem se pergunta por que ele está perguntando o óbvio.
E Cheongyeon ficou atônito, sem palavras.
— Espera, isso… por que você nunca me disse isso?
— Era preciso dizer em voz alta?
Do-Heon devolveu a pergunta como quem não vê a menor necessidade disso.
Como se ele estivesse curioso sobre por que ele respirava ou piscava, fenômenos naturais e óbvios.
— Você tinha… que dizer, para eu saber.
Cheongyeon murmurou, gaguejando. Mas, pensando bem, ele também tinha muitas coisas que nunca dissera a Do-Heon. Eram tão pequenas e triviais que ele nem considerava necessário explicá-las. Assim como o Do-Heon de agora.
— Então a culpa é minha.
Do-Heon admitiu sem resistência.
Diante daquela reação impotente, Cheongyeon é que ficou com o peito pesado, como se algo tivesse ficado atravessado.
— Naquela época também…
Depois de hesitar por um bom tempo, Cheongyeon finalmente disse em voz alta o que mais o intrigava.
— Quando a gente casou, você já gostava de mim?
— Como é que alguém se casa sem amar?
— …….
No instante em que Do-Heon pronunciou a palavra “amar”, Cheongyeon prendeu a respiração sem perceber. Por algum motivo, seus olhos esquentaram.
Por mais confusas que as coisas tivessem ficado, era possível se desencontrarem tanto assim?
Assim que desatou finalmente um dos nós emaranhados, em vez de alívio, veio apenas mais ansiedade.
Porque lhe ocorreu que talvez existissem outras coisas que tivessem passado por mal-entendidos sem que ele soubesse.
— Parece que isto também eu devia ter dito antes.
Vendo Cheongyeon atordoado, Do-Heon murmurou baixo.
Como ainda assim não veio nenhuma reação, Do-Heon se inclinou na direção de Cheongyeon, estendeu a mão e tocou com cuidado seus olhos avermelhados.
— Desculpa por dizer tarde, Cheongyeon-a.
— …….
— Eu te amo.
No exato instante em que Cheongyeon fechou lentamente os olhos e voltou a abri-los, um calor macio tocou seus lábios.
Foi um beijo suave o bastante para fazer o coração explodir.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna