↫─Capítulo 180
— Você chegou mais cedo do que eu esperava. Estava preocupada com o trânsito.
— Ahn…
Cheongyeon parou de pé, numa postura desajeitada.
Levou um tempo considerável para despertar daquele estado de atordoamento.
Ele nunca imaginaria encontrar Do-Heon ali. As pupilas de Cheongyeon oscilavam sem remédio, como se houvesse um terremoto, sem achar onde pousar o olhar.
Quando enfim recobrou o juízo e lançou a Do-Heon um olhar que dizia “o que você está fazendo aqui?”, ele também balançou a cabeça de leve, como quem não sabe.
— Deve ter sido cansativo vir até aqui. Se acostumou bem com o fuso?
A única pessoa ali que parecia totalmente impassível era a avó. Por isso, Cheongyeon percebeu que aquela situação era fruto de um plano intencional dela.
— Claro. …Mas, vovó. Por que o senhor diretor está aqui? Aconteceu alguma coisa?
— Ah. É que eu me confundi com as datas, veja você.
— Datas?
— Esqueci que hoje era o dia em que o Do-Heon vinha e acabei convidando você. Eu também só lembrei que tinha marcado com os dois ao mesmo tempo agora há pouco, depois que o Do-Heon chegou.
— Sei…?
— Meu Deus. Com a idade a gente vive esquecendo as coisas. É por isso que envelhecer é um problema.
— …….
— …….
Mas que atuação mais péssima é essa.
O jeito de falar entrecortado, com cara evidente de texto decorado, era um martírio para os ouvidos. Avaliando como ator, a atuação dela não podia ser mais artificial.
Diante daquela desculpa desleixada, como quem recita um livro didático, o desconcertado Cheongyeon voltou a olhar para Do-Heon. Mesmo ouvindo aquela história absurda, não houve mudança perceptível na expressão de dele.
Certo. É verdade que sangue não é água.
Aquele ar seco de deserto que os dois exalavam era sem dúvida herança de família.
Cheongyeon organizou com calma a origem daquele encontro constrangedor a três.
Ou seja: a avó, sabendo que tanto Do-Heon quanto ele estavam nos Estados Unidos, convocou cada um à casa de campo. E isso calhou de ser no mesmo dia, na mesma hora.
Pela reação dele ao entrar, parece que Do-Heon também não esperava por isso…
— Não fique aí parado como uma estátua, venha se sentar, Cheongyeon-a.
A avó alegou ter se confundido com as datas, mas a intencionalidade era evidente em vários aspectos.
O fato de tê-los chamado àquela hora para a casa de campo de Nova Jersey, aonde ela raramente ia, e aquela atuação sem pé nem cabeça eram as provas.
Mas por quê? Até então ela nunca tinha mencionado nem de passagem uma reconciliação entre ele e Do-Heon, por isso a situação era ainda mais repentina.
— O que foi. Não quer? Se o Do-Heon te incomoda tanto, quer que eu o expulse?
Como não vinha nenhuma reação de Cheongyeon, a avó voltou a falar.
— N-não. Vou me sentar.
Cheongyeon se sentou desajeitadamente à frente de Do-Heon.
— Chamei porque o Cheongyeon passou por Nova York para filmar e o Do-Heon disse que veio a trabalho. Espero que sejam generosos e entendam que uma velha errou de tanta alegria em vê-los.
— Claro… pode acontecer.
— Sei que é desconfortável, mas, já que vieram, façam ao menos uma refeição juntos. E façam companhia a esta velha.
Cheongyeon molhou a garganta com o chá que estava à sua frente.
Até a empregada que trouxe o chá era alguém que ele conhecia da Coreia, a ponto de ele se confundir sobre se estava nos Estados Unidos ou na Coreia.
Se não fosse pela paisagem do jardim e da rua estranhos do lado de fora da janela, ele acreditaria se lhe dissessem que era a casa da avó que ele visitava com frequência.
— Pensando bem, faz tempo que vocês dois não se veem, não é? Já na Coreia é assim, e nos Estados Unidos, com um território tão vasto, é mais difícil ainda se cruzarem.
Naquele instante, Cheongyeon quase cuspiu o chá que bebia.
Tendo encontrado Do-Heon anteontem à noite e passado até a noite anterior só transando, a fala da avó, feita na mais completa ignorância, fez seu telhado de vidro tremer.
— Sim, é natural que seja assim.
Cheongyeon assentiu com a cabeça enquanto forçava o chá garganta abaixo.
Seria bom se Do-Heon entrasse na conversa nesse ponto, mas ele estava sentado quieto, encarando apenas Cheongyeon. Daquele jeito, ia acabar furando seu rosto.
Cheongyeon fuzilou Do-Heon com o olhar, escondido da avó. Quando lhe fez sinal com os olhos para que fingisse tê-lo encontrado pela primeira vez em Nova York, só então Do-Heon assentiu.
— Você tem passado bem?
E então perguntou por ele do nada.
— Hã? Ah, sim. Mais ou menos…
— Parece que você tem andado ocupado.
— Ando meio enlouquecido, sim. O senhor diretor, se veio a trabalho, também deve estar ocupado.
— Desta vez a agenda está tranquila.
— …….
Trocar amenidades fingindo nunca ter se visto com alguém com quem tinha estado até o dia anterior era um constrangimento de matar.
Toda vez que ouvia a voz de Do-Heon, a cena da confissão lhe voltava à mente e as pontas dos dedos formigavam demais. Por mais que abrisse e fechasse a mão sob a mesa, a sensação de coceira não passava.
Sem coragem de encará-lo, Cheongyeon fixou o olhar no prato de frutas.
— Quando você chegou a Nova York?
Ele achou que as amenidades já tinham acabado, mas Do-Heon prosseguiu com as perguntas.
— …Faz poucos dias. E o senhor diretor?
— Eu também.
Os olhos dele não se desgrudavam de Cheongyeon nem por um instante.
Ah, a vovó está do lado, por que ele está agindo assim?
Por causa de Do-Heon, que deixava explícito demais que havia algo entre eles, um suor frio escorreu pelas costas de Cheongyeon.
— …….
Sem aguentar mais, Cheongyeon virou a cabeça para o lado a fim de tomar o resto do chá. Nesse momento, seus olhos encontraram os da avó, que o observava com um olhar de certa satisfação.
Droga. Ele se sentiu completamente enredado pela avó.
— …Ahem. A senhora tem passado bem, vovó? Como anda a saúde?
Cheongyeon ergueu desajeitadamente os cantos da boca e mudou de assunto.
— Se eu não estivesse bem de saúde, não estaria aqui sentada, não é? Os Estados Unidos são tranquilos; quando a gente fica quieta, nem vê o tempo passar. Não é um lugar ruim para descansar.
— Que bom que combinou com a senhora.
— Vendo vocês dois aqui, fico ainda mais contente. Mudando de assunto. Parece que você tem aparecido bastante por aí ultimamente.
— Eu?
— Ora, vi numa revista coreana que você fez fotos segurando um perfume.
Quando foi que ela viu isso. Cheongyeon coçou a bochecha, sem jeito.
— Isso foi fotografado com bastante antecedência.
— Sei. E o Do-Heon foi tão contra. E agora, que você faz à vontade essa tal carreira de artista de que gostava, qual é a sensação?
Cheongyeon umedeceu com a língua o lábio inferior ressecado.
Chegou a pensar por que ela estava sendo tão incômoda, mas, por outro lado, achou: e daí?
Já que era assim mesmo, Cheongyeon se ajeitou confortavelmente na cadeira.
— É divertido. Não é fácil, mas às vezes acho que devia ter feito isso antes.
— Nem preciso perguntar de você, porque você aparece muito na TV coreana. É gostoso ficar acompanhando. Do-Heon, você não sabe o que é caminhão de café, né?
— Ah, vovó. Por que a senhora traz isso à tona de repente?
— Eu já mandei duas vezes para o set do Cheongyeon. Foi há uns dois meses, acho…
A avó falou em tom de vanglória.
— E não pode mandar a qualquer hora; disseram que era preciso marcar a data e pedir autorização, então mandei o gerente Seo cuidar disso.
— Eu também já mandei.
— O quê?
Diante da resposta de Do-Heon, a avó ergueu as sobrancelhas.
Cheongyeon chutou a perna dele por baixo da mesa, como quem diz “por que você vai falar uma coisa dessas?”.
Mas Do-Heon apenas deu de ombros, lançando-lhe um olhar de quem não entende qual é o problema.
A surpresa durou pouco. Logo a avó olhou alternadamente para Do-Heon e Cheongyeon com olhos cheios de interesse.
— Ora, ora, como eu imaginava… Parece que a garotada de hoje é mesmo diferente da nossa época. Divorciados e mandando caminhão de café um para o outro.
Não era uma fala apropriada para quem, com toda a naturalidade, chamara duas pessoas divorciadas até os Estados Unidos e as sentara no mesmo lugar. Cheongyeon segurou a muito custo a coceira na língua de dizer que a avó também não ficava atrás.
Sinceramente, era uma situação tão sem pé nem cabeça que ele nem sabia o que dizer. Nem sabia por que estava ali… E ficava ansioso por não saber se a avó estava agindo assim porque sabia de alguma coisa ou se tinha outras intenções.
— Vou preparar a refeição.
Bem nessa hora, a empregada interveio no momento oportuno. Depois de confirmar que as três xícaras estavam vazias, ela começou a recolhê-las.
Quando aquele clima estranho que deixava as pessoas desconfortáveis se dissipou, ainda que brevemente, Cheongyeon finalmente conseguiu respirar.
Os três trocaram novidades atrasadas durante a refeição.
Quanto mais conversavam, mais parecia que a avó não tinha nenhum objetivo especial ao chamá-lo junto com Do-Heon. Ocorreu-lhe que talvez ela estivesse simplesmente solitária ou que realmente tivesse esquecido as datas.
Felizmente, a refeição, que ele temia que fosse constrangedora, transcorreu sem problemas.
Como se nunca tivesse havido nada de sombrio, Cheongyeon viu a fartura de comida coreana servida na mesa e se concentrou em comer, esquecido de tudo.
Pouco depois do fim da refeição, um médico americano bateu à porta com pontualidade militar. Chegando de surpresa, ele disse que era hora de tomar o remédio e a injeção e começou a tirar os instrumentos médicos que trouxera.
Nesse meio-tempo, a avó empurrou as costas de Do-Heon e Cheongyeon, mandando-os passear sem lhes dar escolha. Insistindo que, se caminhassem cinco minutos lá fora, encontrariam um parque bonito, ela os fez sair da casa como se fossem expulsos.
— Eu não sabia que você continuava em contato com a vovó.
Ao saírem da casa, Do-Heon abriu o portão do jardim para que ele passasse.
— Ah. Acabou acontecendo… É estranho?
Ele balançou a cabeça.
— Só achei inesperado.
Felizmente, ele não parecia contrariado.
Os dois passaram pelo portão enorme e começaram a caminhar lado a lado em direção ao parque.
Pela rua passavam algumas pessoas passeando com cachorros. Na avenida larga e comprida não havia um único carro.
Como as casas enfileiradas dos dois lados da rua tinham jardins cuidados com esmero, sentia-se um perfume suave de flores e capim.
— Como está seu corpo. Não dói nada?
— Como você pode ver, estou ótimo.
Do-Heon assentiu. E, poucos segundos depois, voltou a falar.
— Você pensou?
— No quê?
— Ontem. Eu pedi que você me desse mais uma chance.
Aparentemente era algo que o incomodava bastante, porque Do-Heon parou de andar e ficou de pé na calçada, esperando a resposta.
🎬 ∙ ∙ ∙ 🎥 ∙ ∙ ∙ 🎭
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna