↫─Capítulo 179
— Então, por favor, me ensina, Cheongyeon-a.
Era uma voz em que a frieza que ele sempre envergava pelo corpo inteiro, rigorosa como uma máscara, tinha ruído por completo.
Cheongyeon remoeu várias vezes o que acabara de ouvir, como se não pudesse acreditar.
“Não existe nada que não se compre com dinheiro.”
Poucos meses antes, quem, olhando Cheongyeon de cima, decretara que não existia nada que não se comprasse com dinheiro fora justamente Do-Heon. Os olhos que ele encarara estavam cheios de uma convicção sólida a ponto de ser desagradável.
A cena daquele dia, a voz arrogante dizendo que ele estava errado, ainda estavam vivas…
— Estes seis meses sem poder te ver foram como uma punição longa demais.
Mas no Do-Heon de agora não se encontrava um resquício sequer daquela autoconfiança de então.
Sua voz, para qualquer um que a ouvisse, estava desmoronada e impotente.
Cheongyeon ficou profundamente abalado com aquele naufrágio. A ponto de o pulso acelerar e o estômago revirar, cada palavra que Do-Heon proferia se cravava inteira em seu peito, sem filtro.
Por outro lado, um alarme agudo soava em sua cabeça. Que ele não podia se deixar arrastar mais. Que precisava se firmar.
As lembranças sombrias do passado ainda estavam ali, profundas e nítidas como cicatrizes, prontas para impedi-lo de se render àquela confissão dilacerante.
“Porque era conveniente e você dava pena. Tudo em você se ajustando a mim.”
“E é por isso que eu estou disposto a pagar o preço equivalente.”
“Nesse caso, por que você está aqui agora? Por que você acha que eu estou dormindo com você, que me largou dizendo que não me suportava, e tocando você neste momento?”
Cheongyeon se esforçou desesperadamente para trazer à tona as lembranças em que mais se magoou com ele.
De todo modo, com o tempo acabaria se machucando pelo mesmo problema.
Você jurou no dia em que saiu de casa pela primeira vez. Que não voltaria.
Ele não queria sentir de novo aquela mesma perda. Levou tempo demais só para se recompor.
— …Isso não muda nada.
— Eu vou mudar. Você não precisa fazer nada.
Os ombros de Do-Heon tremiam de forma visível. A voz abafada era úmida como neblina.
— Sei que perdi muitas oportunidades. Mesmo assim, me dá mais uma chance, só uma.
— …….
— A última. A última mesmo.
Cheongyeon prendeu a respiração diante da sensação sufocante que lhe fechava a garganta.
Todos os seus sentidos estavam voltados para Do-Heon, apoiado em seu ombro.
Ele estava esperando por essas palavras? Achava que não restava nenhuma expectativa em relação a ele.
Desde o instante em que Do-Heon dissera que se arrependia, seu peito se comprimia com tanta força que era difícil respirar.
Ficava claro que ele estava mais desesperado do que nunca. Ao contrário do juramento inicial, seu coração amoleceu sem parar.
— Eu… não sei o que dizer.
Cheongyeon mordiscou o lábio inferior com os dentes de cima e prosseguiu.
— Eu mal comecei a me estabelecer… E, se o senhor diretor fizer isso, tenho medo de que eu mesmo seja abalado por completo de novo… E fico com mágoa de por que só agora. Por que você diz uma coisa dessas só depois que tudo passou…
— Desculpe por ser tarde.
— …….
— Me desculpa, Cheongyeon-a.
Seria por causa da voz embargada? Nada típico dele, a pronúncia saiu embolada. E, quando ele esfregou a testa em seu ombro feito uma criança, Cheongyeon encolheu o corpo sem perceber.
— …Você está chorando?
— Não.
— Então levanta a cabeça um pouco.
— …….
Àquela distância, não havia como ele não ter ouvido Cheongyeon, mas Do-Heon não se mexeu nem um pouco.
Sem aguentar mais, Cheongyeon segurou com cuidado o rosto de Do-Heon enterrado em seu ombro e o ergueu.
Só então pôde ver o rosto dele.
Como o sol lá fora já tinha se posto por completo, não dava para ver sua expressão em detalhes, mas as pupilas negras voltadas para ele brilhavam nitidamente mesmo na escuridão.
Os dois se encararam por um tempo, sem dizer nada.
Inúmeras emoções varreram seu corpo e desapareceram, mas ele continuava sem saber o que dizer.
— Eu te amo, Yoo Cheongyeon.
Só depois de um longo tempo Do-Heon abriu a boca.
Era uma confissão pesadíssima e penosa, como se as palavras carregassem chumbo.
Naquele instante, Cheongyeon teve a ilusão de que o tempo havia parado.
Enquanto estava atordoado com aquela fala repentina, a força escapou das mãos que seguravam o rosto dele e seus braços deslizaram para baixo.
— Senhor diretor. Com licença, mas chegou um contato da matriz e acho que o senhor precisa verificar imediatamente.
Nesse momento, uma voz estranha atravessou o interior do quarto como um visitante indesejado.
O chamado vindo de fora da porta trouxe Cheongyeon de volta à realidade.
— Ah.
Cheongyeon piscou rapidamente, como quem acabou de acordar de um sonho.
— Estão te chamando lá fora.
Em seguida, afastou-se de Do-Heon e sussurrou baixinho.
Do-Heon hesitou, ainda com o rosto conturbado, e passou a mão bruscamente pelo cabelo.
— Pode ignorar.
— Não. Por ora… acho melhor eu sair também. Afinal, eu vim para cá a trabalho.
— …….
— E preciso de tempo para organizar as ideias.
Cheongyeon fingiu indiferença como pôde e deu as costas a Do-Heon.
Naquele momento, só conseguia pensar que precisava sair dali. Se ficasse mais tempo, sentia que o perdoaria fácil demais.
— Quando você volta?
— Hoje… não.
Cheongyeon parou no meio da frase.
— O resto a gente conversa quando voltar para a Coreia.
— Senhor diretor.
Diante das batidas que continuaram, Cheongyeon saiu do quarto como quem foge.
O assistente, que aguardava diante da porta esperando que Do-Heon saísse, se assustou ao ver Cheongyeon e recuou. Logo abaixou a cabeça e o cumprimentou.
— Boa noite, senhor.
Cheongyeon também abaixou a cabeça de leve e olhou o corredor para os dois lados. Depois de confirmar que não havia ninguém passando, apressou o passo.
Só depois de entrar no elevador que chegou na hora certa e apertar o botão do saguão do primeiro andar é que ele relaxou e encostou o corpo na parede.
— Haa, haa.
Soltando longamente a respiração que se tornara pesada sem que percebesse, Cheongyeon alisou o peito.
“Eu te amo, Yoo Cheongyeon.”
Mas, por mais que regulasse a respiração, seu íntimo não se acalmava.
A voz de Do-Heon que acabara de ouvir ficava girando à revelia em seus ouvidos.
— Vou enlouquecer.
Cheongyeon falou consigo mesmo, com a mão tapando a boca.
Enquanto estava ali, parado, encarando o vazio, sua imagem refletida no espelho do elevador lhe chamou a atenção.
Seu rosto estava vermelho e em brasa. Qualquer um veria que não era uma cor normal.
Enquanto o desconcertado Cheongyeon virava o rosto de um lado para o outro diante do espelho, as portas do elevador se abriram no primeiro andar.
— Ué? Ator!
Assim que saiu, meio empurrado, deu de cara com um membro da equipe de filmagem.
— Olá.
— Descansou bem? Parece que estava muito cansado. Ouvi dizer que você nem tomou o café da manhã hoje.
O rapaz acenou com simpatia e perguntou como ele estava.
Mesmo tentando passar direto fingindo não ver, como ele falara muito alto, todos os estrangeiros ao redor voltaram a atenção para aquele lado.
Sem alternativa, Cheongyeon caminhou com passos lentos até o sofá do saguão onde o rapaz estava sentado.
— Ah, a gente estava juntando pessoal para ir comer alguma coisa agora. O ator quer ir também?
— Não. Está tudo bem. Eu não estou com fome…
— Ator, olá. Veio tomar um ar?
Ele achava que só estava ali o membro da equipe que o cumprimentara, mas alguns rostos conhecidos estavam reunidos em volta de um sofá.
— Sim. Estava sufocado, quero caminhar um pouco.
— A vista noturna de Nova York é matadora mesmo. Não temos compromissos até amanhã, então estou super tranquila.
— Hã? Tranquila? A agência que montou a agenda desta vez não é péssima no trabalho? Como a programação muda toda hora, eu fico o tempo todo ansiosa.
— Mas graças a isso a gente pode descansar hoje e amanhã inteiros, então para mim está ótimo.
— Nossa, deve ser bom ser tão despreocupada.
Os membros da equipe resmungavam, cada um adicionando uma frase.
— É verdade. Ator. A Soeun ficou super preocupada porque não conseguiu confirmar se você chegou bem ontem. Não aconteceu nada, né?
— Não. Cheguei bem.
— Sua voz parece meio rouca. Você não está gripado?
— É mesmo. Vendo o rosto vermelho, parece que você está com febre. Toma um remédio antes de dormir.
— Vou tomar. Recebi uma ligação… vou atender e já volto.
Cheongyeon, que vinha respondendo por educação, pediu licença tirando o celular, que começou a vibrar.
— Certo. A gente já vai sair para comer, mas, se mudar de ideia, avisa no grupo da equipe!
Cheongyeon abaixou a cabeça em cumprimento ao grupo e conferiu o remetente um pouco mais afastado.
— Vovó
Diante daquela nova ligação da avó, Cheongyeon inclinou o queixo, intrigado.
Então lembrou-se tardiamente de que, quando trocaram notícias antes da viagem, tinham combinado de se encontrar uma vez nos Estados Unidos.
— Sim, vovó.
— Até que enfim você atende. Que dificuldade para falar com você, francamente.
Assim que atendeu, a voz insatisfeita da avó perfurou seus tímpanos.
— Desculpa. Fiquei o dia todo enlouquecido por causa do trabalho.
Trabalho que nada: ele passara o dia inteiro na cama com Do-Heon, sem tempo para conferir o celular, mas Cheongyeon mentiu com calma.
— Por quê. A empresa não te dá nem intervalo? Se por acaso fizerem uma barbaridade dessas, me conta.
— Não é isso. Mesmo ocupado, eu gosto de trabalhar.
Mesmo sem ele nunca ter contado, em algum momento a avó passou a saber com naturalidade que Cheongyeon trabalhava como ator depois do divórcio.
Ela não o repreendeu por ter escondido o fato; pelo contrário, reagiu com naturalidade.
— Parece que ator combina mais com você do que ser marido do Moon Do-Heon.
Diante da piada da avó, Cheongyeon riu sem jeito. Era natural, mas ainda era difícil reagir naturalmente sempre que ela mencionava Do-Heon.
Ainda por cima, justamente por ter rolado na cama com Do-Heon de ontem até hoje, o peso na consciência era ainda maior.
— Deve ser.
— E Nova York, como está?
— Muito boa. O tempo está bom, tem muitos lugares para conhecer. Ainda não pude ver tudo por causa das filmagens.
— Pois é. Sim, é uma boa cidade. Tem bastante coisa boa para a garotada comer também. Comprei umas garrafas de vinho para te dar, então venha buscar quando tiver tempo. Não me diga que você esqueceu o combinado comigo, só porque foi com uma velha?
A avó perguntou, ríspida.
— Que isso, não esqueci. A gente combinou que, já que eu vim aos Estados Unidos, eu iria uma vez até Nova Jersey visitar a senhora.
— E então. Vem ou não vem?
— Claro que vou. É pertinho de Nova York.
— Então, já que se falou nisso, apareça amanhã. Vou mandar o motorista.
Pensando bem, amanhã será justamente um dia sem compromissos. Devia ser coincidência, mas era curioso como os horários se encaixavam perfeitamente.
— Amanhã está ótimo. A senhora precisa de alguma coisa? Algo que queira comer…
— Por quê. Se eu precisar você vai comprar? Deixa disso. Prefiro tirar o fígado de uma pulga.
— Eu não estou tão duro assim… Ah, é verdade. Mas por que a senhora foi para Nova Jersey de repente? Trocou de hospital?
— Não é da sua conta. Enfim, amanhã só pega o carro do motorista e chega na hora.
Antes mesmo que Cheongyeon terminasse a pergunta, a avó ergueu a voz de forma pouco natural e cortou sua fala.
— Ei, por que a senhora ficou brava do na…
— Fiquei tempo demais no telefone e já estou cansada. Vamos desligar.
E encerrou a chamada unilateralmente.
Será que aconteceu alguma coisa?
Cheongyeon murmurou, olhando aturdido para a tela da chamada encerrada.
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Na tarde do dia seguinte.
Cheongyeon chegou a Nova Jersey no carro do motorista que a avó enviou ao hotel.
Dentro da casa de campo, de portão altíssimo, havia um pequeno chafariz. A fachada, com o gramado verdejante, era acolhedora e de estilo clássico.
Só depois de entrar no prédio Cheongyeon entendeu porque a avó insistira com tanta pressa para que ele fosse a Nova Jersey.
Porque ele se deparou com uma pessoa inesperada na sala da casa de campo.
— Por que o senhor diretor está aqui?
— Por que você veio aqui?
Do-Heon e Cheongyeon abriram a boca quase ao mesmo tempo.
Os dois mergulharam por um instante no silêncio, tentando entender como aquilo tinha acontecido.
E a avó, que os chamara no mesmo dia e no mesmo lugar, recebeu Cheongyeon pousando a xícara de chá com toda a cara de pau.
— Você chegou mais cedo do que eu esperava. Estava preocupada com o trânsito.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna