Capítulo 11
Cishan acabou permanecendo inalcançável. As cheias de outono chegaram com força e submergiram as regiões de Yizhou e Danzhou.
Para piorar a situação, o Príncipe de Ruyang adoeceu.
Quando Han Wangzong o foi visitar, o Príncipe de Ruyang estava deitado na cama, gemendo.
“Não vou conseguir… Esta chuva está me enlouquecendo.” Murmurou o Príncipe de Ruyang, desanimado.
Han Wangzong acreditava que um resfriado leve dificilmente seria fatal. Mas, por outro lado, não tinha tanta certeza. Um pensamento pouco caridoso lhe ocorreu. Aqueles nobres mimados do palácio pareciam frágeis o suficiente para perecerem com uma simples rajada de vento.
Se o Príncipe de Ruyang morresse em Danzhou… isso não significaria muito nem para o Imperador nem para o Primeiro-Ministro. Se ele falecesse logo após sua chegada, seria simplesmente visto como um infortúnio seu – ou seu destino era muito cruel, ou seu ressentimento o consumira até a morte. Naturalmente, nenhuma culpa recairia sobre o Imperador ou o Primeiro-Ministro.
Contudo, se aqueles que o serviam não cuidassem adequadamente do príncipe, isso mancharia seus registros. Desse ponto de vista, Han Wangzong não desejava que nada acontecesse ao Príncipe de Ruyang.
“Vossa Alteza tem apenas um pequeno problema de saúde. Descansar alguns dias ajudarão na sua recuperação.” Assegurou-lhe Han Wangzong.
Li Yu acenou fracamente com a mão, parecendo doente. “Bobagem, tudo bobagem.”
Han Wangzong então mencionou a mensagem de preocupação do Imperador. Após receber a carta do Príncipe de Ruyang, o Imperador enviou presentes. Embora fossem apenas alguns tecidos e artigos de papelaria, o gesto em si carregava o significado. Mais do que os objetos em si, era uma declaração de que o Imperador não havia esquecido seu irmão mais velho.
E, de fato, no instante em que o Príncipe de Ruyang ouviu o nome do Imperador, suas queixas cessaram. Ele murmurou baixinho: “Sua Majestade é realmente bondoso…”
Han Wangzong fingiu não notar a amargura em suas palavras.
Após deixar a residência do Príncipe, Han Wangzong retornou ao seu escritório na Prefeitura de Danzhou. Ele encontrou vários colegas fofoqueiros que zombaram dele: “Não é o Han, o Registrador! Você voltou da residência do Príncipe! Recebeu alguma recompensa do Príncipe?”
Han Wangzong os ignorou, apenas debochando por dentro. Essas pessoas zombavam do Príncipe de Ruyang por ser estúpido, mas era o sujo falando do mal lavado – aqueles que ridicularizam os outros em voz alta não são muito mais inteligentes.
Enquanto isso, depois que Han Wangzong saiu, Li Yu se sentou lentamente na cama. Um servo do palácio lhe levou seu remédio – na verdade, apenas uma tigela de chá de gengibre com açúcar mascavo.
As chuvas úmidas de outono lhe causaram um leve resfriado, e ele aproveitou a oportunidade para cancelar sua viagem a Cishan.
Na verdade, ele estava genuinamente com medo de ficar gravemente doente. O velho médico da residência repetidamente o assegurou de que não era nada sério. Somente depois de tomar um chá de gengibre, Li Yu sentiu que havia escapado do desastre. Ele nunca conseguiu tolerar remédios tradicionais amargos.
Depois de tomar uma tigela de chá de gengibre bem quente e excessivamente doce, Li Yu se sentiu imediatamente revigorado. Nesse instante, Wuji chegou.
Em um dia chuvoso, não havia necessidade de atividades ao ar livre. Era o momento perfeito para desfrutar de boa companhia, ler um livro, bater um papo e cultivar bons sentimentos. Se acrescentássemos uma boa garrafa de vinho quente e alguns pratos requintados, a noite poderia naturalmente evoluir para… outros assuntos agradáveis.
Infelizmente, Wuji não bebia. Ele não era um daqueles monges indulgentes. Li Yu não acreditava em toda aquela conversa sobre forçar um monge a quebrar seus votos ser um pecado grave, mas ele havia se tornado mais consciente dessas coisas. Além disso, ele nunca gostou de coerção.
Então, ele teve que se contentar com chá em vez de vinho. Como de costume, Wuji começou recitando uma passagem das escrituras para o Príncipe de Ruyang.
Então, a conversa deles foi descambando de um assunto para outro. Uma criada do palácio levou duas bandejas de doces, cada uma servida em pratos de prata.
Uma delas continha bolinhos de inhame, que Wuji reconheceu. Estes eram muito mais refinados do que os encontrados nas casas comuns.
Eram do tamanho perfeito para uma mordida e decoradas com padrões de crisântemos da estação. A outra bandeja continha algo desconhecido.
Era de formato quadrado, com uma aparência ligeiramente queimada. Supostamente era de Taosu, embora não correspondesse exatamente à descrição.
Wuji perguntou: “Este é o bolo de gergelim popular na capital atualmente?”
Naquela época, tudo o que era desconhecido era frequentemente considerado originário da capital. Wuji não estava totalmente errado. Li Yu de fato vira pães e biscoitos semelhantes na capital, todos classificados como ‘hubing’. No entanto, este biscoito em particular foi feito a seu pedido – ou melhor, pela equipe da cozinha, mas ele ordenou especificamente que construíssem um forno para o assar.
Infelizmente, Wuji não ficou impressionado. Depois de provar um pedaço pequeno, ele ainda preferia os bolinhos de inhame.
Ele parecia gostar um pouco demais de bolinhos de inhame.
“Vossa Alteza, posso levar os doces que sobraram comigo?” Perguntou Wuji.
Li Yu respondeu imediatamente: “Leve quantos quiser. Se gostar, enviarei para você todos os dias.”
Wuji explicou: “Há algumas mulheres e crianças que fugiram para cá como refugiadas perto do Templo Miaozhi. O templo lhes oferece mingau e vegetais, mas não é muito nutritivo. Esses doces, com seu teor de açúcar e óleo, as ajudarão a se sustentar melhor.”
Li Yu instruiu as criadas a prepararem mais doces para Wuji, acompanhados de pãezinhos cozidos no vapor e pães achatados.
“Há muitos refugiados na cidade? Se necessário, posso pedir que enviem mais comida.” Perguntou Li Yu. Ele não precisava fingir muito na frente de Wuji – afinal, até a pessoa mais tola fingiria bondade, e fazer um pequeno favor não era nada.
Wuji respondeu: “Há cerca de trinta pessoas ao redor do Templo Miaozhi, com um máximo de cinquenta. Há um pouco mais ao redor do Templo do Deus da Cidade, cerca de oitenta. Estimo que haja cerca de duzentos refugiados em toda a cidade. No entanto, se muitos refugiados entrarem na cidade mais tarde, talvez tenhamos que fechar os portões da cidade.”
Li Yu, sentindo-se generoso, imediatamente pediu à cozinha que enchesse vários carrinhos com pães cozidos no vapor para distribuição. Para a família do Príncipe de Ruyang, alguns carrinhos de pães não passavam de troco.
Mas Wuji o interrompeu rapidamente, um pouco constrangido. “Vossa Alteza, não há necessidade de pressa. Distribuir comida de forma descuidada pode levar ao caos. Além disso… os refugiados perto do Templo Miaozhi já estão incomodando o abade. Se começarmos a distribuir comida lá, ainda mais pessoas virão. O abade certamente me culpará.”
Pela primeira vez, Li Yu encontrou uma oportunidade para o provocar. “Você se importa demais com assuntos mundanos. Quase parece um leigo qualquer.”
Wuji simplesmente sorriu e juntou as palmas das mãos em um gesto de oração.
Li Yu deixou o assunto para lá com uma risada. Meio mês depois, o número de refugiados na cidade havia aumentado para cerca de quinhentos. O Templo Miaozhi não podia mais ignorar a situação. Algumas famílias ricas da cidade finalmente se apresentaram para financiar um posto de distribuição de mingau. Naturalmente, o Príncipe de Ruyang fez questão de ser o doador mais generoso. Ninguém mais tinha permissão para o ofuscar.
Como resultado, Han Wangzong recebeu mais uma tarefa ‘maravilhosa’: anunciar o posto de distribuição de mingau do príncipe. A essa altura, o tempo já estava completamente frio. Han Wangzong sentiu um arrepio não só no ar, mas também no coração. Ele sabia que, desde que chegara a Danzhou, o Príncipe de Ruyang se tornara incrivelmente próximo de um monge, quase como se seguisse cada palavra de Wuji. Corria o boato de que esse ato de caridade também fora inspirado pelo monge.
Han Wangzong começou a refletir seriamente sobre uma questão: afinal, que tipo de pessoa era esse Príncipe de Ruyang?
m(_ _)m
Enquanto o Príncipe de Ruyang ganhava notoriedade em Danzhou, o povo da capital praticamente o havia esquecido. No palácio, ele se tornara pouco mais que uma piada ultrapassada.
Com a chegada do inverno, um grande acontecimento abalou a corte. A Imperatriz ainda não estava grávida e o Imperador havia adoecido.
A princípio, era apenas um resfriado leve. Ninguém esperava que a doença do Imperador durasse tanto tempo.