↫─☫ Extra 9
↫─☫ Extra 9
O céu visto através da enorme vidraça de vidro temperado estava intensamente azul. Ao baixar um pouco o olhar, era possível ver o mar, tão azul quanto o céu, com alguns iates flutuando serenamente.
Mais perto, estendia-se a vista panorâmica do resort, onde diversos tipos de árvores latifoliadas e várias piscinas se misturavam em harmonia. Embora fosse um pouco cedo para o lazer, já havia algumas pessoas aplicadas aproveitando o banho de piscina desde a manhã.
— Bip-bip-bip — Bip-bip-bip —.
Exatamente às 9h30 da manhã, o relógio de pulso começou a apitar baixo. Em vez de parar bruscamente de forma implacável, Lee Cha-young reduziu a velocidade e caminhou por mais alguns minutos antes de desligar a esteira.
— Ufa… —.
Um hálito adocicado escapou de seus lábios. Embora o ar-condicionado estivesse no máximo no ambiente, ele havia corrido sem parar por mais de 30 minutos, e o suor escorria como chuva.
Ele secou o rosto de qualquer jeito com uma toalha e dirigiu-se direto ao chuveiro. O local estava vazio, indicando que não havia outros clientes VIP aproveitando os exercícios matinais. Graças a isso, após terminar o banho sem pressa, ele entrou no elevador de uso exclusivo para os hóspedes dos andares superiores.
O corredor estava silencioso. Ao abrir a porta da suíte e entrar, Cha-young passou pela sala e foi direto para o quarto ao fundo. Assim que abriu a porta, ele hesitou involuntariamente. Ele certamente havia aumentado um pouco a temperatura antes de sair, mas parecia que o clima havia sido baixado drasticamente de novo, pois o ar estava mais do que fresco — estava gelado.
O edredom branco sobre a cama formava um volume saliente. Com um riso contido, Cha-young caminhou e abriu as cortinas que permaneceram fechadas a noite toda. O próximo passo era acordar Seo Gyu-ha. Ele observou Gyu-ha dormindo com o corpo todo enrolado no cobertor, deixando apenas o rosto de fora, sentou-se ao lado dele e balançou levemente seu ombro.
— Gyu-ha, acorda.
— … —.
— Vamos tomar café.
Após insistir em balançá-lo, Gyu-ha finalmente abriu os olhos com dificuldade. Ao vê-lo levantar e sentar-se docilmente, apesar da expressão franzida, Cha-young sorriu sem fazer barulho novamente. O cabelo curto estava amassado e espetado para todos os lados; qualquer um veria que era a imagem de alguém que acabara de despertar.
Gyu-ha esfregou o rosto com as mãos algumas vezes enquanto estava sentado e encarou o outro com uma fisionomia ainda sonolenta.
— Que horas são?
— Quase 10 horas.
Era o mesmo horário em que acordaram no dia anterior. Gyu-ha esticou os dois braços e deu um longo espreguiçamento. Talvez por ainda não ter se adaptado ao fuso horário, ele só conseguiu pegar no sono ao amanhecer, então não sentia que tivesse descansado de verdade.
Em comparação, Cha-young parecia transbordar vitalidade à primeira vista, e seus cabelos estavam úmidos, provando que ele acabara de se lavar. Como sempre, ele era um cara desnecessariamente diligente em qualquer hora ou lugar.
— O que quer comer no café?
— Qualquer coisa serve. E você?
— Para mim também tanto faz… Então, que tal algo simples como sanduíches?
— Pode ser.
Cha-young folheou o catálogo informativo do hotel até parar na página do menu de serviço de quarto. Após fazer o pedido de algo padrão, ele se virou e viu Gyu-ha segurando o celular de forma desajeitada com uma das mãos.
— O que está fazendo?
— Liguei para a minha mãe.
O toque alegre da chamada parou e logo uma voz familiar foi ouvida.
— Papai! —.
Ao ouvir a voz ecoar vigorosamente até onde ele estava, a cerca de quatro ou cinco metros de distância, Cha-young sorriu abertamente. Caminhando a passos largos em direção à cama, ele se sentou atrás de Gyu-ha e envolveu seu ombro com um braço. Com a outra mão, ele acenou carinhosamente para o filho na tela do celular.
— Gyu-young. Já jantou?
— Sim! A vovó grelhou carne para mim! —.
— É mesmo? Deve ter sido uma delícia. Já escovou os dentes também?
— Sim! —.
Gyu-ha, que involuntariamente teve sua vez roubada, apressou-se em falar para não ficar atrás.
— Brincou bastante com seus primos hoje?
— Sim! Agora, agora pouco, eu também encontrei a outra vovó! Ela disse que o Gyu-young é lindo e me deu muito dinheiro de presente. Também ganhei da titia! —.
— É mesmo? —.
A “outra vovó” mencionada por Gyu-young era a mãe de Lee Cha-young. Como as mães eram melhores amigas antes mesmo de se tornarem sogras uma da outra, ele soube que elas ainda se encontravam frequentemente para fofocar.
— Quando o papai vem? —.
— Só faltam mais duas noites de sono e nós iremos.
Um sorriso permaneceu no rosto de Cha-young enquanto ele ouvia a conversa em silêncio.
Provavelmente Seo Gyu-ha não se dava conta, mas, ao lidar com Gyu-young, ele costumava usar expressões e comportamentos que pais comuns usam com filhos pequenos de forma bastante natural. Ao ver essas cenas, Cha-young sentia novamente a realidade de que os dois haviam formado uma família e estavam criando um filho juntos.
— Gyu-young, está com saudade do papai?
— Sim! —.
— De qual dos dois você está com mais saudade?
A resposta veio da boca de Jeong Eun-hee, que estava sentada ao lado de Gyu-young.
— Por que você pergunta esse tipo de coisa para a criança? —.
— É que eu estou curioso.
— Gyu-young, diga: “Estou com mais saudade do outro papai”. —.
— Fala sério, mãe, de que lado você está, afinal?
— Vai ficar emburrado de novo se eu disser que estou do lado do Cha-young? —.
— “De novo”? Como assim?
Após prometer mais uma vez ao filho que voltariam após duas noites, Gyu-ha desligou a chamada satisfeito.
Ele largou o celular agora desnecessário de qualquer jeito e se jogou de costas na cama. Então, como se lembrasse de algo repentinamente, virou a cabeça e olhou para Cha-young.
— Não é bizarro?
— O quê?
— O Gyu-young, sabe? Ele não chora mesmo estando longe dos pais. Ouvi dizer que a Soo-bin faz um escândalo se a deixarem sozinha por um momento.
Na verdade, não era preciso buscar exemplos longe. Da última vez que os dois viajaram juntos e foram buscar o filho, enquanto tomavam um chá, sua mãe contou uma história:
— “Gyu-ha, quando você tinha a idade do Gyu-young, era um bagunceiro sem limites, mas antes de dormir à noite, você chamava pela mãe desesperadamente”. —.
— “Eu fazia isso?”. —.
— “Não lembra? Quando eu fiz a cirurgia de apêndice e fiquei internada, você fez um escarcéu dizendo que a mãe não estava em casa, e seu pai acabou tendo que te levar nos braços para o hospital no meio da noite. Segundo seu pai, você chorou por mais de três horas seguidas, mas dormiu assim que deitou ao meu lado, que eu até achei que ele estava mentindo”. —.
— “…Não sei. Não lembro”. —.
— “Eu deveria ter tirado fotos. Enfim, comparado a você, o Gyu-young parece um mini adulto. É ajuizado, calmo. Quanto mais eu olho, mais vejo que ele é a cara do Cha-young!”. —.
A conclusão, como sempre, terminava com elogios a Lee Cha-young, mas, de qualquer forma, aos olhos dele também, Gyu-young parecia ser definitivamente mais calmo e bem comportado para a sua idade.
Bem, apesar disso, ele ainda era apenas um garotinho fofo que cabia na palma da mão.
— Ei.
— Hum?
— Você também não chorava muito quando era pequeno? Não chamava pela mãe mesmo estando longe dela?
— Bem, acho que era assim. Como eu sabia que meus pais eram ocupados, acho que amadureci um pouco mais cedo.
— Não sente vergonha de dizer isso de si mesmo?
— Nem um pouco.
Enquanto se provocavam, o som da campainha ecoou ao longe. — Eu atendo —. Cha-young levantou-se e abriu a porta da suíte, permitindo que um funcionário do hotel entrasse empurrando o carrinho. Nesse meio tempo, Gyu-ha finalmente entrou no banheiro e parou diante da pia.
No momento em que levantou a cabeça após lavar o rosto, sua expressão franziu-se imediatamente. Ele viu manchas avermelhadas espalhadas pelo pescoço, visíveis sobre a regata preta.
“Aquele desgraçado, eu disse tanto para ele aguentar só por alguns dias.”
Ele se sentiu um idiota por ter acreditado piamente na resposta de “entendido”. Como ele começou focando apenas na parte inferior, Gyu-ha baixou a guarda, mas ao se lavar no dia seguinte, viu que seu corpo estava todo manchado. Ele poderia apostar toda a sua fortuna que, embora Cha-young fosse alguém que mordia e chupava de forma obsessiva normalmente, desta vez ele o havia marcado pior de propósito.
Após terminar de se lavar, Gyu-ha devorou um sanduíche em um instante e olhou ao redor da sala.
— Onde está a roupa de banho?
— Deixei em cima do sofá. Já quer sair?
— Já que viemos até aqui, tenho que aproveitar ao máximo.
Ao se aproximar do sofá, ele viu a roupa de banho estendida impecavelmente em um cabide. Ele vestiu primeiro o short justo e, após hesitar por um momento, pegou também a blusa *rash guard* (camisa de proteção térmica).
Sua expressão estava cheia de insatisfação. Por direito, em um lugar como este, ele deveria exibir um pouco o corpo e aproveitar o banho de piscina com roupas leves. No entanto, por culpa de um certo louco que deixou marcas por todo o seu corpo, esse plano foi por água abaixo.
Ele não se importava muito com o olhar dos outros, mas isso dependia da situação. Ele não tinha a cara de pau de exibir marcas que qualquer pessoa com experiência sexual reconheceria de imediato em um lugar cheio de crianças e adolescentes.
Momentos depois, os dois saíram do quarto lado a lado. Ao contrário de Gyu-ha, que estava com vestimentas claramente apropriadas para a piscina, Cha-young usava uma camisa branca, bermuda bege claro e carregava um tablet nas mãos.
Embora preferisse nadar no mar em propriedades privadas ou desfrutar de uma piscina silenciosa e confortável em clubes exclusivos, o fato de ter vindo para um resort movimentado como este foi puramente para satisfazer o gosto de Seo Gyu-ha. Enquanto desciam no elevador, o olhar de Cha-young pousou no pescoço de Gyu-ha. Os cantos de sua boca se ergueram levemente em um sorriso. Ver Gyu-ha vestindo uma roupa de banho de mangas compridas, apesar de resmungar, fez com que as marcas de beijos deixadas propositalmente por todo lado valessem a pena.
Assim que saíram do prédio, sentiram o ar quente e úmido. Havia uma piscina exclusiva para os quartos VIP logo à frente, mas Gyu-ha passou por ela sem hesitar.
Após caminharem por cerca de cinco minutos, surgiu uma instalação que parecia um parque aquático em miniatura. As pessoas eram todas muito diligentes; já havia bastante gente se divertindo por todos os cantos. Cha-young nem sequer olhou para aquele lado e parou diante das espreguiçadeiras alinhadas sob as grandes palmeiras.
— Vou ficar descansando aqui.
— Tá bom.
Enquanto Cha-young relaxava o corpo e olhava para frente, Gyu-ha apareceu em seu campo de visão vestindo um colete salva-vidas. Cha-young soltou um riso leve novamente. Alguém poderia se sentir sem graça de estar sozinho em um lugar assim, mas Gyu-ha percorria todos os cantos como um esquilo voador.
Ele seguiu a figura de Gyu-ha com os olhos por um tempo e só então ligou o tablet. Colocou os fones de ouvido que trouxera no bolso e deu play no filme que parara de ver ontem.
Fazia muito tempo que ele não desfrutava de um momento tão relaxante. Valeu a pena ter trabalhado de forma um pouco excessiva nos últimos dias para se libertar do serviço enquanto estivesse aqui.
Quanto tempo teria passado? Ao ver Gyu-ha se aproximando de seus pés, Cha-young tirou os fones e levantou o corpo que estava apoiado na espreguiçadeira. Ao olhar para o relógio, viu que uma hora já havia passado voando.
— Hah, que cansaço.
Gyu-ha tirou o colete salva-vidas e se jogou na vaga ao lado. Cha-young percorreu o corpo dele lentamente com o olhar. A roupa molhada grudada na pele deixava os mamilos e o volume central levemente proeminentes, o que parecia extremamente sexy.
Como era óbvio o que ouviria se revelasse seus pensamentos honestamente, ele apenas apreciou a vista por mais um pouco antes de sorrir com um rosto inocente e falar:
— Quer beber algo gelado?
— Seria ótimo. O que vai querer?
— Fique sentado. Eu busco.
Caminhando um pouco em direção ao prédio, havia um pequeno café aberto. Enquanto esperava o suco de manga que pedira, alguém chamou seu nome atrás dele.
— Irmão Cha-young? —.
Ao virar a cabeça, inesperadamente viu um rosto familiar. O rosto da pessoa que o chamara com incerteza logo se iluminou com um sorriso radiante.
— É você mesmo, né? —.
A pessoa que falara com ele era seu primo, Choi Seung-hwa.
Com uma altura quase igual à dele, uma aparência com traços exóticos e um corpo esguio para um alfa. Exceto pelo cabelo tingido de verde como grama, ele não havia mudado nada desde a última vez que se encontraram, há cerca de dois anos, quando ele voltou brevemente para o país.
Cha-young logo respondeu com um rosto sorridente:
— Que surpresa te encontrar em um lugar assim. Veio passear?
— Sim. Decidi trancar a faculdade por mais um semestre e voltar no ano que vem. Uau, mas é bizarro. Como a gente se esbarra aqui do nada? —.
— Pois é.
Como era um resort operado por uma empresa do grupo, ele poderia usá-lo livremente a qualquer momento, mas era surpreendente se encontrarem no mesmo período e local.
Ao vê-lo tagarelando como um peixe na água, Cha-young soltou um riso curto. Choi Seung-hwa era filho da tia caçula que morava na Inglaterra com os avós e eles chegaram a morar juntos na mesma casa por um tempo quando Seung-hwa era estudante de intercâmbio. Na época, ele tinha exatamente a idade que Gyu-young tem agora, e Cha-young o achava fofo por segui-lo chamando de “irmão”, então gostava bastante dele.
Já se passaram cerca de dez anos, então agora ele era um jovem de vinte e poucos anos, mas, como a imagem de infância estava muito presente na memória, Cha-young ainda tinha a sensação de estar vendo uma criança imatura.
— Você veio com a família, né? Onde está o Gyu-young? Quero vê-lo. —.
— Desta vez vim apenas com o Gyu-ha.
O rosto de Choi Seung-hwa, que olhava ao redor, mudou rapidamente para uma expressão de desagrado.
— Vieram só vocês dois? Por quê? —.
De certa forma, era uma pergunta rude, mas Cha-young, em vez de demonstrar incômodo, sanou a curiosidade dele.
— Quero ter um tempo a sós com o Gyu-ha para fortalecer nossa relação pelo menos uma vez por ano. Você entenderá quando se casar no futuro.
— Então onde o Gyu-young está agora? —.
— A avó está cuidando dele. Quer ir cumprimentar o Gyu-ha?
Choi Seung-hwa hesitou por um instante e respondeu tardiamente com um sorriso:
— Eu adoraria, mas meus amigos estão esperando, então tenho que ir agora. Posso te mandar mensagem depois? —.
— Claro.
— Então eu vou indo. Divirta-se, irmão. —.
Ele acenou e partiu primeiro, e Cha-young logo recebeu os copos de suco do funcionário do café.
Caminhando pelo caminho por um momento, Cha-young hesitou diante da cena que viu à distância. Ele viu duas mulheres em pé, de braços dados, perto da espreguiçadeira onde Gyu-ha estava descansando.
Naturalmente, seus passos se apressaram. Mal chegou perto e Cha-young falou:
— O que está acontecendo, Gyu-ha?
Embora chamasse pelo nome de Gyu-ha, seu olhar estava fixo nas mulheres à sua frente. Ao olhar para baixo momentos depois, Gyu-ha respondeu coçando a nuca:
— Elas disseram que estavam nos observando há um tempo e perguntaram se não queríamos brincar os quatro juntos, já que viram que viemos só nós dois.
Sem perder a oportunidade, uma das mulheres interveio subitamente:
— Vocês dois são alfas, certo? Mesmo de longe vocês são tão bonitos que nossos olhos não paravam de segui-los. Nós também viemos apenas em duas, se não se importarem, o que acham de nos divertirmos juntos? —.
Como ele tinha olhos, a aparência daquelas mulheres entrou em sua visão sem intenção. Rostos sofisticados como de atrizes, pele com aspecto saudável, e roupas de banho de design ousado que caíam muito bem nelas.
A mulher ao lado também ostentava uma beleza acima da média. Ao vê-las sorrindo com confiança, Cha-young também curvou levemente os lábios.
— Agradeço a proposta, mas nós dois somos casados.
— …O quê? —.
A expressão da mulher mudou para perplexidade, como se nunca tivesse sorrido. Quando Cha-young fez um gesto de passar a mão pelo cabelo, as pupilas dela oscilaram drasticamente. O anel em seu anelar esquerdo saltou aos olhos dela.
— Os… os dois são casados? —.
— Sim. Na verdade, viemos viajar como casal. Eu e ele…
— Ei!
Gyu-ha, horrorizado, cortou a fala dele com um grito e levantou-se abruptamente. — Divirtam-se —. Deixando uma saudação que parecia um comunicado com um sorriso forçado, ele agarrou o braço de Cha-young e saiu caminhando a passos largos.
Dava para sentir a irritação dele apenas olhando para suas costas, o que fez Cha-young querer rir de novo, mas ele se conteve e fingiu uma dor:
— Gyu-ha, meu braço está doendo.
Com isso, Gyu-ha hesitou e parou por um instante. — Eu nem segurei com força —. Embora resmungasse, ele soltou o pulso de Cha-young, segurou a ponta de seus dedos e voltou a caminhar.
Observando as costas dele, um sorriso sincero surgiu naturalmente no rosto de Cha-young. Sua sogra costumava dizer como hábito que se preocupava porque Gyu-ha não amadurecia, mas a opinião de Cha-young era diferente.
Se fosse antigamente, Gyu-ha não teria dado a mínima se ele dissesse que estava com dor, ou pior, teria rido dele; mas enquanto criavam Gyu-young juntos, suas ações e expressões tornaram-se muito mais gentis, de forma perceptível ou não. Na verdade, não era de forma imperceptível, era bem visível.
Gyu-ha continuou caminhando e só soltou a mão de Cha-young quando chegaram atrás do tronco de uma grande árvore. Após espiar a área das espreguiçadeiras, ele falou com uma expressão insatisfeita:
— Para que falar esse tipo de coisa?
— Que tipo de coisa?
Ao perguntar de volta fingindo não saber, o cenho liso dele se franziu ainda mais.
— Já esqueceu o que acabou de dizer? Se eu não tivesse te interrompido, você ia dizer que nós dois somos casados, não ia?
Não apenas suas ações mudaram, mas sua percepção também ficou bem aguçada. Cha-young sorriu com uma expressão de desculpas e estendeu a mão para acariciar o cabelo de Gyu-ha.
— Ficou bravo?
— Não é que eu esteja bravo… mas você sabe. Eu não gosto muito desse tipo de conversa.
Ele revelava sua natureza para pessoas com quem precisava conviver ou cujo raio de ação coincidia, mas com estranhos a história era outra. Haveria uma multidão de pessoas cochichando, achando bizarro ou enviando olhares de pena; ele não tinha motivos para ser o primeiro a contar algo que certamente estragaria seu humor de um jeito ou de outro.
Cha-young deveria saber disso. Por que ele tentou abrir a boca primeiro?
— Desculpe. É que eu fiquei ansioso.
— …!
Diante da resposta inesperada, Gyu-ha hesitou. Ficou ansioso por quê?
— Por quê?
— Assim que eu me afastei, elas se aproximaram de você como se estivessem esperando por isso. Só por isso o objetivo parecia óbvio… Achei que, se eu não dissesse que éramos casados, aquelas mulheres continuariam insistindo. Se eu não tivesse interferido, você pretendia aceitar?
— Como se eu fosse fazer isso. Você sabe que eu não tenho o menor interesse em mulheres.
— E se não fosse uma mulher, mas um homem bonito, você teria cedido?
— Com certeza.
Ele respondeu sem hesitar nem por um segundo, e logo soltou um riso curto, dando um leve soco no abdômen de Cha-young.
— Desfaz essa cara, idiota. Você sabe que é brincadeira. Eu não ia dizer isso, mas… elas estavam de olho mais em você do que em mim.
— Não.
Uma resposta firme saiu da boca de Cha-young.
— Se fosse isso, elas não teriam falado com você, teriam me seguido. Especialmente a mulher que estava atrás, ela estava olhando descaradamente apenas para você.
— … —.
— Seo Gyu-ha, você ainda continua em alta.
— Com certeza.
Ele respondeu tentando parecer descolado, mas os cantos de sua boca insistiam em subir. Embora soubesse que Cha-young era mestre em elogios por cortesia, ele se sentia bem ao ouvir palavras que o exaltavam.
— Quando vai me dar isso?
— Hum?
— Isso na sua mão. Não comprou para me dar?
Ao apontar com o queixo, o olhar de Cha-young moveu-se. Em seguida, como se estivesse atraindo a atenção de um cachorro com um petisco, ele balançou o copo plástico, que estava coberto de gotículas de água, de forma provocativa.
— É sim, mas não vai ser de graça.
— Que mesquinho.
Gyu-ha resmungou, mas desfez o cruzamento de braços e deu um passo à frente. *Vup.* Ele puxou Cha-young pelo colarinho, deu um beijo rápido nos lábios próximos e exigiu com autoridade:
— Me dá.
— Quer compensar só com isso?
— “Só”? Está dizendo que meus lábios valem menos que um simples copo de suco?
Então, ele viu a mão estendendo o copo sem mais discussões. Gyu-ha o recebeu com uma expressão triunfante, abriu a tampa e virou o suco de uma vez, sentindo o frescor.
Como já tinha se divertido o suficiente, ele começou a caminhar em direção à acomodação com a intenção de entrar e descansar um pouco. Cha-young, que caminhava ao lado ajustando o passo, falou como se tivesse acabado de lembrar:
— Ah, encontrei o Seung-hwa agora pouco.
— Quem é esse?
— Meu primo. Ele foi no nosso casamento e eu te apresentei a ele separadamente. Não lembra?
— Não lembro.
Seu coração já estava inquieto na época por sentir que estava sendo “laçado”, e tantas pessoas entraram e saíram da sala de espera que ele não conseguia lembrar quem era quem.
— Quer jantar com ele mais tarde?
— Pode ser.
Pensando que, sendo parente de Cha-young, ele deveria saber que os dois eram um casal, Gyu-ha aceitou sem pensar muito.
No entanto, apesar de ter aceitado de forma despojada, acabaram tendo que jantar sozinhos. Isso porque o tal primo demonstrou hesitação.
— “Ele disse que veio com amigos e que seria ruim ele sair sozinho agora. Sinto muito”. —.
Cha-young transmitiu as palavras pedindo desculpas, mas Gyu-ha não se importou nem um pouco. Era muito mais confortável jantar apenas com Cha-young do que dividir a mesa com alguém que nem era seu conhecido e cujo rosto ele nem sequer lembrava.
O tempo voou. Por aproveitarem o banho de piscina sempre que podiam, as férias logo chegaram ao fim. Eles pegaram o voo noturno, mas já era madrugada na Coreia, e Seo Gyu-ha, ao chegar em casa, caiu na cama como se estivesse desmaiado. Embora tivesse vindo deitado de forma relativamente confortável durante todo o trajeto, não se comparava à sua casa.
Ele dormiu pesadamente como alguém inconsciente até que acordou em algum momento. Ao abrir os olhos, o lugar ao seu lado estava vazio.
Ele sentia que tinha dormido apenas por um momento, mas ao olhar o relógio, já passava das 14h. Gyu-ha soltou um longo bocejo, espreguiçou-se e deu um passo para fora da cama.
— Você acordou? —.
A ajudante que não via há dias fez uma saudação gentil. Gyu-ha sentou-se à mesa, saciou a fome rapidamente e foi direto para o closet. Ele tirou a regata e o short que usava como pijama e vestiu uma camisa verde-menta fresca com calças bege claro.
Após conferir o visual no espelho, pegou a carteira, a chave do carro e a sacola com o presente, sem esquecer de nada, e saiu de casa. Ao entrar no carro, Gyu-ha girou o volante e saiu do estacionamento.
O destino era a casa de seus pais. Era para buscar Gyu-young, que ficou sob os cuidados deles durante as férias. Ao chegar na casa e tocar sucessivamente a campainha do portão e da porta principal, sua mãe abriu a porta pessoalmente.
— Você chegou? —.
— Sim. Pegue isto aqui.
— Eu disse para não comprar nada. —.
Embora dissesse isso, as mãos de Jeong Eun-hee dirigiram-se à sacola de compras. Enquanto ela espiava o conteúdo, Gyu-ha olhava ao redor da sala como se procurasse algo.
— Onde está o Gyu-young?
— Ele dormiu agora pouco. Como ele estava com sono após o almoço, eu nem contei que você tinha ligado. —.
— Fez bem. Ele não me chamou ou algo assim durante a noite?
— Na primeira noite ele acordou e resmungou um pouco, mas seu pai o pegou no colo e o ninou, e ele logo voltou a dormir. Anteontem ele passou a noite na casa da Tae-seon. —.
— O papai deixou?
— Ai, nem me fale. Ele ficou resmungando e segurando a criança dizendo que queria ficar com o avô, que eu tive que dar uma bronca nele. —.
Ele conseguia imaginar a cena perfeitamente. Dizer que “deu uma bronca” era um eufemismo; ele certamente levou pelo menos um tapa nas costas por deixar a criança em uma situação difícil.
Talvez por ser o primeiro neto, mas o amor dos avós de ambos os lados era imenso. Até o pai de Lee Cha-young, aquele homem ríspido e carismático, sorria de orelha a orelha nas fotos com Gyu-young, o que já dizia tudo.
Entregando uma fatia de pera bem branca ao filho com um garfo, Jeong Eun-hee perguntou como foi a viagem. Após ouvir a resposta curta de que foi “boa”, ela chamou o nome do filho cautelosamente.
— Gyu-ha.
— … —.
Instantaneamente, uma tensão surgiu no rosto de Seo Gyu-ha. O olhar que ele dirigiu à mãe era o mesmo. O tom de voz de sua mãe mudava sempre que ela ia pedir um favor ou fazer uma proposta secreta.
Como esperado, um tema um tanto desconfortável saiu da boca de sua mãe.
— Você ainda não pensa em ter um segundo filho de jeito nenhum? —.
Ele sentiu o apetite desaparecer subitamente. Após engolir a pera que já estava despedaçada em sua boca, Gyu-ha respondeu sem esconder seu desagrado:
— Você sabe. Eu não gosto desse assunto.
— Eu sei. …Para ser bem sincera, eu acho que criar bem o Gyu-young já é o suficiente. —.
O choque que sentiu quando soube da gravidez de seu filho pela primeira vez ainda permanecia em sua memória. Tanto que, mesmo vendo Gyu-young com seis anos brincando diante de seus olhos, o fato de Gyu-ha ter dado à luz às vezes parecia um sonho.
De qualquer forma, dizer que não tinha nenhum desejo por um segundo neto seria mentira. Seria maravilhoso ter mais uma criança linda como Gyu-young, mas… antes disso, Jeong Eun-hee era mãe. Não importava o que dissessem, ele era seu filho caçula, e ela não queria ver o filho que cresceu a vida toda como um beta e que tinha um orgulho forte sofrendo e se estressando novamente com uma gravidez.
Contudo…
— Então por que está tocando nesse assunto?
— Por que mais seria? Por causa do Gyu-young. —.
Ao ouvir a resposta acompanhada de um suspiro, Gyu-ha arregalou os olhos e perguntou à mãe:
— O que tem o Gyu-young? Por acaso ele disse que quer um irmão? Mas o Gyu-young deve saber que eu não posso ter bebês.
Ele ainda lembrava claramente do dia em que Gyu-young, que sempre fora bonzinho e calmo, lançou uma bomba inesperada.
Ao voltar da creche, ele correu até ele, agarrou suas pernas com as mãozinhas e disse com os olhos brilhando que também queria um irmãozinho.
Pelo que ouviu, parece que um dos pais de outra criança levou um recém-nascido para a creche. Gyu-ha, pego de surpresa e muito confuso, saiu daquela situação dizendo: “Ah, o papai vai pensar no assunto”, confortando-se com a ideia de que, após comer um lanche e brincar, ele logo esqueceria.
Mas foi um grande erro. Depois disso, sempre que tinha oportunidade, Gyu-young demonstrava interesse na barriga do papai. E não era apenas interesse; ele perguntava tagarelando quando a barriga ia crescer, se seria um irmão ou uma irmã, deixando Gyu-ha em maus lençóis.
Após passar cerca de uma semana suando frio, Lee Cha-young finalmente interveio. Sentando a criança que ainda nem tinha entrado na escola primária à sua frente, Cha-young começou a aconselhá-lo com um rosto muito sério: disse que, como o “ninho de bebê” na barriga do papai era fraco, seria difícil ter outro bebê.
O que veio depois foi… literalmente, Gyu-young abriu o berreiro e os dois tiveram que lutar para acalmá-lo. Após niná-lo e consolá-lo, conseguiram resolver a situação criando pequenos peixes ornamentais em casa, embora não fosse exatamente um substituto para um irmão.
De qualquer forma, desde aquele dia, Gyu-young nunca mais mencionou o assunto. Por isso, ele não entendia por que sua mãe estava falando de um segundo filho por causa da criança.
— Anteontem eu levei o Gyu-young para comer e ele não parava de olhar para um bebê na mesa ao lado. Seu pai, sem noção, perguntou se ele queria um irmãozinho, e ele disse com uma expressão triste que queria muito um irmão, mas que o papai disse que não podia dar a ele. —.
Cha-young quem disse, mas Gyu-ha sentiu-se culpado. A flecha do ressentimento logo apontou para uma direção. “Por que meu pai foi perguntar esse tipo de coisa para a criança sem ter um pingo de noção?”
— Você realmente não pensa nisso? De jeito nenhum? —.
— …Não penso. Você sabe. O Gyu-young também nasceu por falta de escolha.
Jeong Eun-hee moveu os lábios, mas deixou seus pensamentos escaparem em um leve suspiro. Como ela disse repetidamente, pensar em Gyu-ha tendo outro filho a deixava preocupada e, por mais que fossem pais, interferir no planejamento familiar de um filho adulto era uma atitude excessiva.
— Tudo bem. Descanse um pouco, jante e depois vá. Ou diga para o Cha-young vir para cá depois do trabalho. —.
— Sim. Então vou subir e descansar um pouco.
Gyu-ha levantou-se e subiu para o segundo andar sem hesitar. Jeong Eun-hee observou as costas do filho por um momento e, soltando mais um suspiro, pegou a xícara de chá que já havia esfriado.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna