↫─☫ Extra 10
↫─☫ Extra 10
— Ai, vou morrer.
Saindo do banheiro, Seo Gyu-ha soltou um gemido de dor e se jogou na cama. Como dois funcionários de meio-período faltaram ao mesmo tempo, ele teve que ficar no café em turno integral pela primeira vez em muito tempo, e suas pernas pareciam pesar uma tonelada.
— Quer que eu massageie seus ombros?
— Os ombros não…
Gyu-ha ia responder que queria nas pernas, mas mudou de ideia rapidamente.
— Os ombros e as pernas também.
Observando a nuca redonda dele enquanto ele estava deitado de bruços, Lee Cha-young deu um riso contido e se levantou da posição em que estava escorado na cabeceira.
— Vou começar pelas pernas.
Suas mãos grandes tocaram as pernas de Gyu-ha e, em pouco tempo, exclamações de satisfação começaram a escapar da boca do outro. Como alguém que fazia quase tudo bem, sua habilidade para massagem continuava excelente.
— Estava muito movimentado?
— Nem me fale. Achei que ia morrer.
Já era uma área com muito fluxo de pessoas, e sendo fim de semana, os clientes não paravam de chegar. Como havia muita gente pedindo para viagem quando não havia mesas, a sensação era de que ele tinha trabalhado o dia todo sem descansar direito nem por uma hora.
— Amanhã também é turno integral?
— Não. Amanhã só preciso ir à tarde.
— Que bom, pelo menos isso. Ah, eu tenho uma coisa para te falar.
— Falar? O quê?
— O Seung-hwa disse que quer ficar na nossa casa enquanto estiver na Coreia.
Ele recebeu o contato naquela tarde. Como de costume, estava imerso no trabalho quando recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
[Irmão!!!! Sou eu, o Seung-hwa. Estou na Coreia!!!!! Surpresa~~]
Pelo uso excessivo de pontos de exclamação, era óbvio que se tratava de Choi Seung-hwa, então Cha-young apertou imediatamente o botão de ligar. Ele perguntou brevemente o que o trouxera de volta tão de repente e marcou de se encontrarem à noite.
Como hoje era o dia em que Gyu-ha trabalhava em tempo integral, Cha-young passou em casa, pegou Gyu-young e foi para o local do encontro. Ele estava preocupado que o primo pudesse não gostar de crianças, mas foi uma preocupação infundada. A reação de Seung-hwa ao ver Gyu-young pela primeira vez foi de puro entusiasmo. Ele se agachou para ficar na altura do menino, despejou elogios dizendo que ele era fofo como um boneco e não tirava os olhos da criança. Chegou até a tentar comer com o menino sentado em seu colo, e quando foi impedido, puxou a cadeira para bem perto da sua.
Não existe pai que não goste de ver seu filho sendo paparicado. Graças a isso, o ambiente foi bastante harmonioso e, quando o jantar estava quase terminando, Seung-hwa soltou o pedido inesperado: perguntou se não poderia ficar na casa do primo enquanto estivesse na Coreia.
— “O hotel é muito frio, eu não gosto. É sem graça. Vou ficar só quatro dias, não pode? Eu até levo o Gyu-young no jardim de infância. Por favor?” —.
Cha-young ficou pensativo. Como ele detestava qualquer invasão em seu espaço privado, normalmente teria recusado na hora. No entanto, não pôde fazer isso porque, na época em que era estudante de intercâmbio, ele ficou sob os cuidados da família do primo por alguns anos.
Claro que não foi por vontade própria, mas por imposição dos pais que estavam preocupados com o filho ainda menor de idade, então ele acabou morando na casa da tia…
De qualquer forma, Seung-hwa percebeu a hesitação e disse astutamente: — “Você também morou na minha casa, lembra?” —. Ele mencionou o passado, e Cha-young acabou adiando a resposta, dizendo que entraria em contato no dia seguinte. Por mais que por ele estivesse tudo bem, se Gyu-ha dissesse que não queria, ele pretendia recusar, apesar do aperto no coração.
— É aquela pessoa que você encontrou naquela noite?
— Isso mesmo.
Gyu-ha aceitou de forma surpreendentemente tranquila.
— Por mim, tudo bem.
— Sério? Não vai ser desconfortável? Ele deve ficar uns três dias.
— Você vai dar o quarto de hóspedes do segundo andar para ele de qualquer jeito, não vai? Desde que ele não fique perambulando ou fazendo bagunça, está tudo bem.
O motivo de ele ter permitido tão prontamente foi Gyu-young. Quando chegou do trabalho, Gyu-young correu para seus braços com um sorriso radiante e contou, com seus lábios pequenos, o que havia acontecido naquela noite. Ele estava muito feliz porque o “irmão” que conheceu com o papai lhe deu muitos elogios e comprou um enorme tubarão de pelúcia.
Além disso, como ambos andavam muito ocupados ultimamente e Gyu-ha se sentia mal por isso, não parecia má ideia ter alguém que gostasse da criança por perto por alguns dias. E se Cha-young chegou a tocar no assunto, o rapaz não devia ser um mau sujeito. Se houvesse qualquer sinal de desconforto ou algo que não o agradasse, Cha-young teria cortado o contato por conta própria.
— Se ele quer vir, diga para vir.
— … —.
— Por que ficou quieto?
— Não, é que pensando bem…
— Pensando bem, o quê?
— Nada. Então vou dizer para ele vir amanhã.
Pensando bem, Cha-young lembrou-se tardiamente de que Seung-hwa também era um alfa, mas parou de falar antes de deixar as palavras saírem.
A reação que teria se dissesse isso a Gyu-ha era óbvia. Ele ficaria indignado, perguntando se Cha-young estava agindo assim até com um garoto tão jovem por não ter mais ninguém para vigiar.
Na verdade, não havia nada com que se preocupar. De qualquer forma, eles já haviam realizado a marca mútua e, mesmo que não tivessem, Seo Gyu-ha não conseguia detectar feromônios de alfas. E não havia chance de Seung-hwa sentir os feromônios de Gyu-ha.
Embora Cha-young às vezes ainda lamente o fato de Gyu-ha ter feito a cirurgia de supressão de feromônios tão cedo, ironicamente, em momentos como este, era a melhor trava de segurança. Graças a isso, mesmo que ele estivesse longe de seus olhos, ou que qualquer alfa ou ômega estivesse por perto, ele nunca seria levado pelos feromônios.
***
Na noite seguinte, Seo Gyu-ha finalmente pôde ver pessoalmente o primo de Lee Cha-young sobre quem tinha ouvido falar. Disseram que ele fora ao casamento, mas o rosto continuava sem registro em sua memória. Cha-young, que trouxera o rapaz após o trabalho, apresentou-os.
— Este é o Seung-hwa. E este é o Gyu-ha, meu cônjuge. Você já o viu antes, certo?
Enquanto isso, o olhar de Seo Gyu-ha estava fixo em Choi Seung-hwa. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi: “Ele é bonito”.
Ele era alto, com o olhar ficando um pouco acima do seu, mas tinha o rosto pequeno e traços marcantes, porém harmoniosos; poderia passar por um modelo ou celebridade. Pelo visto, o rapaz à sua frente também herdara a “bênção genética” que Cha-young mencionara uma vez.
Ele pensou que o rapaz tinha feições delicadas para um alfa, mas logo soltou um riso curto. Julgar a natureza de alguém pela aparência não era algo que ele deveria…
— Por que está rindo?
— O quê?
— Você não acabou de rir enquanto olhava para mim?
Gyu-ha moveu os lábios confuso, mas o perspicaz Cha-young interveio rapidamente.
— Ele riu porque está feliz em te ver. Vá lavar as mãos primeiro. O banheiro é por ali.
Ao apontar com a ponta do dedo, o olhar de Seung-hwa seguiu a direção, mas logo ele se abaixou e falou com Gyu-young com um sorriso no rosto.
— Gyu-young, lembra do seu irmão aqui?
— Sim!
— Que bom. Gyu-young pode levar o irmão até o banheiro?
— Siiim!
Gyu-young, animado, liderou o caminho enquanto Seung-hwa o seguia. Observando as costas deles se afastarem, Seo Gyu-ha soltou um riso incrédulo.
— O que deu nesse garoto?
— O Seung-hwa sempre foi muito direto e fala o que sente. Ele perguntou porque ficou realmente curioso, não fique chateado. Tá?
— … —.
— Ele é um garoto prestativo e sincero, acho que vocês vão se dar bem quando ficarem próximos.
Cha-young disse que ia trocar de roupa e logo desapareceu para o closet. Gyu-ha caminhou até a sala e sentou-se no sofá com as pernas cruzadas. Suas sobrancelhas estavam levemente franzidas.
O rosto do sujeito perguntando por que ele estava rindo veio à mente. Considerando que ele também estava sorrindo, parecia que, como Cha-young disse, não foi por mal…
“Mas normalmente as pessoas não deixam passar? Eu não dei uma risada sarcástica para ele ficar ofendido.”
Momentos depois, com um clique, Choi Seung-hwa saiu. Sem que ninguém pedisse, ele se aproximou e se jogou no sofá, voltando a falar com Gyu-young.
— Gyu-young, onde está o boneco que eu te dei de presente?
— Está no meu quarto.
— Então pode mostrar para o irmão? Quero ver se ele está bem.
Gyu-young imediatamente olhou para Seo Gyu-ha com os olhos brilhando.
— Papai, posso ir para o meu quarto com o meu irmão?
O olhar de Seo Gyu-ha foi para trás. Ao cruzarem os olhares, ele viu os cantos da boca de Seung-hwa subirem ainda mais.
Diante daquela figura que apenas sorria sem dizer nada, Gyu-ha franziu o cenho novamente. Não era comum ficar encarando alguém assim tão fixamente. Geralmente, em cem por cento das vezes, a outra pessoa desviava o olhar primeiro.
— O jantar está pronto.
O duelo de olhares foi interrompido pela ajudante que saiu da cozinha. No fim, Gyu-ha foi o primeiro a desviar os olhos e olhou para Gyu-young com um sorriso forçado.
— Depois de comer, você mostra o quarto para ele.
— Siiim!
Em seguida, ele olhou para o closet, mas Cha-young não parecia disposto a sair. Soltando um suspiro curto, ele olhou novamente para Seung-hwa a contragosto.
— Vamos comer.
Mas, desta vez também, Seung-hwa fez uma pergunta bizarra.
— Mas por que você continua falando informalmente comigo? Somos praticamente estranhos, por cortesia não deveria perguntar se pode falar assim?
Esse moleque…
— Se está achando ruim, vá embora.
— Ei, por que falar assim? Parece até que não tem coração.
Justo naquele momento, a porta se abriu e Cha-young saiu para a sala. Ao encontrar os dois se encarando como se estivessem em um impasse, ele se aproximou rapidamente.
— O que estão fazendo?
— Estava me apresentando ao Gyu-ha. A senhora disse para irmos comer, onde é a cozinha?
— Venha comigo. Vamos comer, Gyu-ha.
Cha-young pegou Gyu-young no colo com um braço e começou a caminhar, sendo seguido de imediato por Seung-hwa. O perfil lateral do rapaz, que tagarelava algo, estava cheio de um sorriso sincero. Seo Gyu-ha levantou-se logo depois, contraindo os lábios cerrados.
“Dar bem uma ova.”
Pelo contrário, ele sentiu instintivamente. Seria uma sorte se não acabassem saindo no soco.
Assim que terminaram de comer, Gyu-young segurou a mão de Seung-hwa e foi para seu quarto. Como Cha-young também disse que tinha trabalho a fazer e desapareceu em seu escritório particular, Gyu-ha acabou ficando isolado novamente.
Por via das dúvidas, ele abriu a porta do quarto do filho e viu Gyu-young brincando no tapete. Ao ver os blocos espalhados e aquele sujeito com cara de marginal sentado bem perto, sentiu uma pontada de ciúme e falou casualmente:
— Gyu-young, quer que o papai brinque com você?
— Não. Quero montar blocos com o meu irmão. É divertido.
— …É mesmo?
Ao ver o sujeito sorrindo de forma irritante, Gyu-ha sentiu um nó na garganta, mas não teve escolha. Virando-se amargurado, ele entrou na sala de cinema após muito tempo.
“Pelo menos ele cuida da criança. É prático.”
Consolando-se com essa vitória mental, ele pegou o controle remoto. Ao dar play no filme que tinha parado de ver logo no início, um som barulhento ecoou rapidamente.
O enredo era fraco, mas por ser um filme de ação com muitas explosões e destruição, ele se sentiu aliviado. Meio deitado no sofá, ele colocou pipoca na boca e se concentrou na tela sem pensar em nada. Após ver até a sequência do filme, já passava da meia-noite.
— Aah… —.
Soltando um longo bocejo, ele parou ao abrir a porta. Viu Seung-hwa saindo do banheiro no corredor, a uma certa distância.
“Que timing perfeito.”
Gyu-ha hesitou por um momento e optou por simplesmente virar o rosto sem dizer nada. Ao ver aquela cara lisa, lembrou-se imediatamente de como ele o provocara perguntando por que falava informalmente sem permissão. Quando ia descer as escadas, ouviu uma voz chamando-o.
— Irmão.
Seus passos pararam involuntariamente. Como só havia os dois no segundo andar, ele certamente não estava falando com o vento. Virando-se a contragosto, Gyu-ha respondeu com uma expressão de desagrado:
— Desde quando eu sou seu irmão?
— Então devo chamá-lo de Sr. Gyu-ha? Ou Sr. Seo Gyu-ha?
— … —.
— É brincadeira, vou te chamar de irmão de forma natural. Em troca, você também pode falar informalmente comigo.
Dizendo isso como se estivesse fazendo um favor, Seung-hwa deu um sorriso radiante. Em seguida, cruzou os braços relaxadamente e começou a olhar ao redor.
— Olhando de novo, esta casa é incrível. Eu também queria morar em uma casa assim… Será que eu devia simplesmente me mudar para cá de vez?
— Ficou louco? Nem sonhe com isso.
Palavras rudes saíram sem querer, mas Seung-hwa nem piscou.
— Uau, que cruel.
— Se fosse você, diria que sim?
— Claro que não.
— … —.
— Relaxa o rosto, irmão. Se eu fizer mais uma piada, vou acabar morrendo com o seu olhar.
Embora fizesse um gesto defensivo como se estivesse assustado, o sorriso ainda permanecia em seu rosto. Como Gyu-ha não deu corda, ele logo baixou a mão e desapareceu no quarto após dizer “Boa noite”.
— Haa… —.
Gyu-ha soltou um suspiro e bagunçou o próprio cabelo com as mãos irritadas. Seus passos pesados ao descer as escadas também estavam carregados de irritação.
Ao abrir a porta do quarto, o ambiente estava escuro. Como a luz estava apagada, parecia que Cha-young ainda estava no escritório. Entrando, Gyu-ha abriu o frigobar e pegou uma lata de cerveja.
Assim que se sentou na cadeira, abriu a lata e bebeu de um gole só. Como uma lata não foi suficiente, ele ia buscar outra quando a porta se abriu e Cha-young entrou. Ao ver a lata na mão dele, Cha-young fez uma expressão de surpresa.
— Bebendo antes de dormir?
— Sinto que meu estômago vai revirar.
Embora as palavras estivessem incompletas, Cha-young logo entendeu o ponto.
— Por quê? É por causa do Seung-hwa?
Ao ouvir o nome, Gyu-ha sentiu a irritação voltar e resmungou com o rosto todo franzido:
— Sinto que ele não bate nem um pouco comigo.
— É muito desconfortável ter outra pessoa em casa?
O desconforto não era o problema. Como dissera ontem, havia quartos vazios de sobra, então ter uma ou duas pessoas hospedadas não importava.
O problema era a pessoa em questão. No pouco tempo que o viu, Seung-hwa sorria constantemente como se fosse um hábito. No entanto, ele não sentia nenhuma simpatia vindo dele.
Era verdade que Gyu-ha sempre viveu do seu jeito sem se importar com os outros, mas isso não significava que ele não tinha percepção. O olhar de Seung-hwa para ele, se não era de maldade, certamente não carregava bons sentimentos. O jeito como ele o provocava fingindo ser piada e o fato de que, ao cobrir a boca e olhar apenas para os olhos dele, não parecia que ele estava sorrindo de verdade.
— Quer que eu peça para ele sair amanhã?
Por um momento, ele sentiu vontade de dizer que sim, mas não podia simplesmente concordar. Se tivesse recusado desde o início, tudo bem, mas pedir para sair agora deixaria transparente quem tinha feito o pedido.
Além disso, ao contrário dele, Gyu-young seguia o rapaz chamando-o de “irmão”, o que também o preocupava. Ele dissera ao filho que o rapaz ficaria por alguns dias; se ele sumisse em um dia, a criança ficaria triste.
— …Deixa pra lá.
— Se estiver desconfortável, pode ser honesto. Ele não é alguém que não entenderia.
— Eu já disse que está tudo bem. São só alguns dias.
Acrescentando isso como uma desculpa, Gyu-ha voltou a inclinar a lata de cerveja. Ao sentir que estava sendo observado, olhou para frente e viu Cha-young sorrindo com a mão no queixo.
— Por que está sorrindo?
— Nada. Só porque estou feliz.
— Bobagem.
Mesmo dizendo isso, Cha-young sorriu mais abertamente ao ver que a expressão do outro havia suavizado.
Se fosse antigamente, ele estaria gritando para expulsar a pessoa ou chutando a porta dizendo que ele mesmo sairia, então vê-lo assim o fazia pensar que ele realmente amadureceu e ganhou mais paciência.
— Bom garoto.
Gyu-ha hesitou, afastou a lata da boca e perguntou:
— Por acaso, isso foi para mim?
— Sim.
— Quer morrer?
Ele rosnou perguntando se estava sendo tratado como criança, mas Cha-young apenas sorriu abertamente. “Eu vou acabar morrendo de estresse por causa dele.”
Após acertar a lata vazia no lixo, Gyu-ha entrou no banheiro. Quando saiu, Cha-young já estava deitado na cama. Ao levantar o edredom do outro lado e se deitar, sentiu mãos puxando sua cintura por trás, como se estivessem esperando.
— Sai pra lá. Está pesado.
Ele empurrou levemente, mas o braço firme como uma rocha não se moveu. Pelo contrário, sentiu o toque puxando-o para que se encaixasse perfeitamente em seu abraço.
— Boa noite, Gyu-ha.
— …Você também.
Como o dia foi bastante ocupado, ele logo caiu no sono. Ouvindo a respiração compassada, Cha-young também fechou os olhos e se entregou ao sono.
***
Kbum! Cabum-!
Com um som barulhento, três ou quatro caças explodiram em sequência no ar. Enquanto destruía com controle ágil os novos caças e aviões desconhecidos que surgiam sem parar, ouviu-se uma presença e a porta de correr se abriu. Ao levantar a cabeça, um sorriso radiante floresceu no rosto de Choi Seung-hwa.
— Você veio?
— Desculpe. A reunião durou mais do que eu esperava e acabei me atrasando. Esperou muito?
— Não, eu também cheguei agora pouco.
Ele estava matando o tempo com jogos de celular há quase 30 minutos, mas não havia necessidade de dizer isso. Assim que todos os clientes da reserva se sentaram, os funcionários começaram a trazer a comida em ordem.
— Parece uma delícia.
Seung-hwa pegou os pauzinhos imediatamente. Ele tinha ido dormir tarde da madrugada por causa de amigos com quem jogava online e, quando acordou, o sol já estava no meio do céu. A ajudante se ofereceu para preparar comida, mas ele recusou porque tinha um compromisso para o almoço. Como o tempo em jejum fora longo, ele estava com fome e começou a comer a salada vorazmente quando ouviu a voz de Cha-young à sua frente.
— Vai vir muita comida, então coma devagar. Se quiser algo mais, é só falar.
— Tá. Coma bastante também, irmão.
Após dar um sorriso largo, Seung-hwa voltou a movimentar os pauzinhos com agilidade. Durante a refeição, vários assuntos surgiram. Geralmente quem puxava conversa era Seung-hwa e, a cada vez, Cha-young soltava um riso ou concordava levemente.
Pensando bem, Seung-hwa sempre foi alguém que gostava de conversar desde criança. Quando Cha-young voltava da escola, ele corria para recebê-lo, entrava em seu quarto e tagarelava sobre sua rotina sem que ninguém perguntasse. Cha-young achava aquilo fofo e costumava beliscar sua bochecha ou acariciar seu cabelo; mesmo adulto, sua personalidade alegre e comunicativa parecia a mesma.
A porta se abriu novamente e um funcionário entrou. Ao conferir a comida colocada na mesa, Cha-young falou sorrindo:
— Veio algo que você gosta.
— Hum?
— Você gostava muito de salmão. Ah, ou será que seu paladar mudou?
— Não. Continuo gostando muito.
Seung-hwa apressou-se em pegar o salmão defumado com os pauzinhos. Enquanto mastigava, seu olhar se dirigiu brevemente para frente.
Cha-young estava de terno. Uma camisa preta de design simples com uma gravata vinho de estampa regular. Se olhasse apenas para a roupa, não havia nada de especial, mas com a pessoa que a vestia, a história mudava.
A família materna geralmente tinha boa aparência, mas Lee Cha-young era o destaque entre todos. Dizem que, ao ver alguém perfeito em tudo, “Deus criou essa pessoa com todos os atributos”, e aos olhos de Seung-hwa, seu primo era exatamente assim.
Com um rosto que herdara a semelhança da avó materna, famosa por sua beleza, estatura alta e proporções físicas quase perfeitas. Além disso, o primo era um alfa lúpus. Ele possuía uma presença que se notava naturalmente sem esforço e um poder de domínio que subjugava o ambiente, e naquele momento não era diferente.
Era natural que tal pessoa se tornasse seu modelo de vida. Ele queria ser como ele tanto quanto o admirava, e queria imitar tudo o que o primo fazia. Na verdade, Seung-hwa se formou nas mesmas escolas de prestígio que Cha-young, esforçou-se ao máximo para entrar na mesma universidade e foi absolutamente influenciado não apenas por seus hobbies, mas também por seus gostos em filmes e música.
Mesmo agora, já adulto, o primo era como seu ídolo. Ele era um homem tão perfeito e orgulhoso, então por que…
“Por que ele escolheu aquela pessoa como cônjuge?”
O olhar de Seung-hwa, que antes estava animado, tornou-se calmo e frio.
Quando soube da notícia do casamento do primo através de sua mãe, Seung-hwa ficou feliz e animado como se fosse algo seu e ligou para ele imediatamente. Após parabenizá-lo sinceramente e ter uma longa conversa, começou a imaginar por conta própria quem seria o cônjuge dele.
“A família certamente deve ser boa, e como o primo é exigente, o rosto deve ser muito bonito, né? Seria bom se a personalidade também fosse boa.”
Ele não achava que existiria outra pessoa tão perfeita quanto o primo, mas não tinha dúvidas de que seria, no mínimo, um ômega belíssimo à altura dele. Ele entrou na Coreia com grandes expectativas, mas no momento em que finalmente viu o cônjuge do primo no salão de festas, Seung-hwa entrou em estado de choque.
“Aquele homem é o parceiro do primo?”
Era inacreditável. De tão absurdo, ele não conseguia nem rir. Durante toda a cerimônia, pensamentos como “Será que é uma câmera escondida?” ou “Será que ele está sendo chantageado com algum segredo fatal?” não saíam de sua cabeça.
Ele soube dos detalhes um pouco mais tarde. Que se conheciam desde crianças, que o primo pediu o outro em casamento primeiro após saber da gravidez e que a família do outro lado não era de passar necessidade, e assim por diante.
Ao continuar com seus pensamentos, o rosto do homem chamado Seo Gyu-ha veio à mente. Sendo objetivo e deixando de lado o favoritismo, o estilo não era ruim, mas… por que ele tinha que ter nascido como um ômega e acabado prendendo o primo?
No início, ele achou que o casamento foi inevitável por causa do filho, mas após observar por alguns dias contra a sua vontade, percebeu que não era isso.
A atitude do primo com o cônjuge era sincera, e dava para sentir o afeto apenas pelo olhar ou pelo tom de voz ao chamar seu nome. Ver o primo agindo de forma ansiosa pelo outro às vezes fazia com que Seung-hwa sentisse uma emoção complexa e indescritível. Era uma imagem totalmente diferente do que ele esperava, do início ao fim.
— O que foi?
— Hum?
— A comida não está do seu agrado?
— Não, está uma delícia.
Seung-hwa deu um sorriso forçado e voltou a movimentar os pauzinhos. Pouco depois, seu olhar levemente levantado dirigiu-se a Cha-young.
— Irmão.
— Hum?
— Posso te perguntar uma coisa?
— Diga.
— …Por acaso o Gyu-ha tem algum segredo seu guardado?
— O quê?
Observando a expressão de dúvida, Seung-hwa sorriu ainda mais, como se estivesse brincando.
— Não, é que parece que você vive na palma da mão dele. Parece que você aguenta muita coisa dele.
Não era apenas “aguentar”. A expressão dele era ríspida, ele falava de modo seco e até exalava uma aura de tédio, mas o primo apenas sorria com tolerância.
Ele era alguém que desde cedo nem mesmo os adultos da família tratavam de qualquer jeito… Falando abertamente, era surpreendente que alguém que não era melhor que o primo em absolutamente nada tomasse tal atitude, e era um choque ainda maior que o primo aceitasse aquilo como se não fosse nada. Por isso, ele não podia deixar de pensar novamente: “Será que ele está sendo ameaçado?”.
Ao contrário de Seung-hwa, cujo sorriso desaparecera, um sorriso suave surgiu nos lábios de Cha-young.
— Ele é alguém que fica muito assustador quando está bravo.
Seung-hwa franziu levemente o cenho. Ao lembrar do rosto que, embora fosse bonito, não passava uma boa impressão nem por cortesia, um pensamento passou por sua mente.
— Ele usa violência quando vocês brigam?
Ao perceber que ele perguntava seriamente, Cha-young soltou um riso incrédulo.
— Como se isso fosse possível.
— Então por que diabos…
— Dizem que quem ama mais acaba perdendo.
Embora ele tenha se tornado muito mais gentil após ter o filho e viverem juntos, isso era fruto de esforço, e sua personalidade inata não havia desaparecido. Felizmente nada do tipo aconteceu até agora, mas… Cha-young sabia muito bem que, se as coisas realmente desandassem ou se ele ficasse furioso, Gyu-ha era alguém capaz de deixá-lo sem olhar para trás, independentemente do filho ou de qualquer outra coisa.
Então, o que ele podia fazer? Ele não tinha escolha a não ser tomar cuidado e prestar atenção para que tal situação nunca ocorresse.
— …Não importa o quanto eu pense, acho que você é bom demais para ele. Sinto pena do Gyu-young também.
A voz de Seung-hwa soou como um murmúrio enquanto ele mexia em seu copo. Cha-young, que não deixou a frase passar, hesitou e olhou para ele. Em seguida, um lado de sua boca se ergueu de forma enviesada.
— Nosso Seung-hwa cresceu bastante. Já sabe até falar mal de mim na minha frente.
— O quê?
Ao levantar a cabeça, Seung-hwa ficou surpreso e negou veementemente.
— Do que está falando, irmão? Eu nunca fiz isso.
— Olhar para o Gyu-ha de forma negativa é o mesmo que pensar assim de mim.
Observando o rapaz confuso, Cha-young continuou com um tom de voz baixo e firme:
— Uma única pessoa como Seo Gyu-ha é muito mais valiosa para mim do que cem ou mil pessoas comuns. Mesmo sabendo que haveria pessoas fofocando pelas costas, ele me escolheu e se tornou meu, e assumiu o risco de dar à luz ao meu filho. …E mesmo assim, você diz que eu sou bom demais? Que sente pena do Gyu-young?
Ao ver a expressão fria, Seung-hwa gesticulou apressadamente pedindo desculpas.
— Desculpe, irmão. Eu me descuidei. Eu realmente não imaginei que você se casaria com um homem ômega, bem, enfim, eu juro que não foi por mal.
— … —.
— Sinto muito mesmo. Não farei mais isso, então não fique bravo. Tá?
Cha-young olhou para o rapaz angustiado com uma expressão firme, soltou um longo suspiro e então falou com uma voz mais suave:
— Você pode não gostar ou nossas personalidades podem não bater. Mas, pelo menos na minha frente, não fale desdenhando de quem é meu.
— Sim. Nunca mais farei isso.
Após balançar a cabeça em concordância e prometer, Seung-hwa mudou de assunto rapidamente. — Mas o Gyu-young realmente parece muito com você. Ele é muito lindo, não acha? —.
Felizmente, funcionou. Ao ver Cha-young voltar a sorrir assim que o assunto mudou para o filho, Seung-hwa finalmente soltou um suspiro de alívio.
Após terminarem a refeição, Cha-young foi o primeiro a partir. Seung-hwa acenou sorrindo e só baixou a mão quando a traseira do carro desapareceu completamente de vista.
Seu rosto sorridente tornou-se inexpressivo gradualmente. Ficando sozinho, Seung-hwa pegou um cigarro e o acendeu.
— Fiuu… —.
A fumaça expelida espalhou-se seguindo o vento.
Fazia muito tempo que não almoçava apenas com o primo, pôde vê-lo de terno o quanto quis e a comida estava muito boa. Já que estava finalizando com um cigarro após a refeição, ele deveria estar de bom humor, mas sentia um aperto no peito, como se uma pedra o estivesse pressionando, e uma irritação profunda.
O motivo, claro, era aquela pessoa. Dizem que não há remédio quando se cai de amores, mas ele nunca imaginou que até Lee Cha-young seria assim. Ele nem sequer tinha xingado ou insultado o homem. Apenas dissera que o primo era bom demais, apenas mencionara de passagem que sentia pena do sobrinho por ter nascido de um homem ômega, mas a atitude ríspida do primo ao traçar um limite não saía de sua cabeça.
*Tuc.* Seung-hwa jogou a guimba no chão, esmagou-a com o pé e entrou no carro. Ele ia digitar o destino como “Casa do irmão”, mas mudou de ideia e digitou o nome de um hotel.
Seu humor estava péssimo e ele queria beber até cair, mas ainda era muito cedo para isso. Ele pretendia ficar jogado em um hotel próximo e depois ir a uma boate.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna