↫─☫ Extra 17
↫─☫ Extra 17
Lee Chayoung foi o primeiro a chegar ao local do encontro. Ele entregou seu sobretudo ao funcionário que aguardava ao fundo e sentou-se à cadeira.
O lugar escolhido era um restaurante especializado em comida chinesa. O encontro era com sua irmã mais nova, Lee Yeyoung. Ela havia ligado dois dias antes para saber como ele estava e sugeriu que jantarem juntos, já que fazia tempo que não se viam. Por hábito, ele quase abriu a boca para recusar, mas mudou de ideia e aceitou a proposta da irmã.
Se o boato de que ele havia perdido as memórias dos últimos anos devido às sequelas do acidente se espalhasse, o assunto não apenas se tornaria fofoca por todos os lados, mas também atrairia uma multidão de pessoas tentando derrubá-lo de qualquer maneira. Por isso, ele manteve o motivo de sua licença prolongada em segredo absoluto e vinha evitando sair de casa, mas com a irmã a história era outra. Ela já sabia das sequelas do acidente e, pela sua personalidade, jamais seria alguém que tentaria prejudicar o próprio irmão.
Lee Chayoung checou o relógio de pulso. 19h03. Ele ia pegar o celular para fazer uma ligação, mas ouviu o som da porta se abrindo e Lee Yeyoung apareceu.
— Oppa!
Assim que seus olhos se encontraram, um sorriso radiante surgiu no rosto dela. Ela se aproximou rapidamente com o som de seus saltos e sentou-se no lugar oposto.
— Eu saí cedo, mas o trânsito estava horrível. Esperou muito?
— Também acabei de chegar.
— Que bom.
Lee Yeyoung tomou um copo de água para recuperar o fôlego quando, de repente, notou algo e arregalou os olhos.
— Ah, tirou o gesso?
Ao perceber que havia um funcionário aguardando bem ao lado, ela fechou a boca rapidamente. Sorrindo sem jeito, pegou o cardápio e perguntou com carinho: “Oppa, o que você quer comer?”.
Assim que o funcionário anotou o pedido e saiu, deixando os dois sozinhos na sala, Lee Yeyoung inclinou o corpo levemente para frente e retomou o assunto. Mesmo sem ninguém ouvindo, ela baixou bem o tom de voz.
— Quando você tirou o gesso?
— Na semana passada.
— Tirou super rápido. E o resto, como está?
— Melhorou muito.
— Que bom.
Ao ver a irmã sorrir com um alívio genuíno, Lee Chayoung também soltou um sorriso discreto.
Não era exagero; as feridas externas cicatrizaram muito rápido. Como alguém que nasceu com uma fisiologia superior, a velocidade de sua recuperação surpreendeu até o médico responsável, que a chamou de excepcional. Agora, por fora, ele parecia não ter problema algum, e de fato se sentia assim.
No entanto, as sequelas do acidente não haviam sumido completamente. Ele ainda sofria com dores de cabeça intensas, como se agulhas estivessem espetando seus nervos, e zumbidos constantes, como se seus ouvidos estivessem cheios de água.
Claro, o maior problema ainda era o fato de sua memória não estar completa.
Embora tivesse aceitado que era algo inevitável, ultimamente sentia ondas de irritação surgirem do nada. Ele preferia que tivessem diagnosticado um dano cerebral definitivo ou que o apagão fosse total para que pudesse desistir de vez… mas sempre que a dor de cabeça latejava, vinha acompanhada daquela sensação de estar prestes a lembrar de algo. Para alguém que gostava de tudo claro e preciso, aquela situação era desagradável e difícil de suportar.
— Com licença.
Enquanto conversavam sobre como as coisas iam, a porta se abriu e os pratos pedidos foram colocados sobre a mesa. A refeição estava satisfatória. A comida era boa e o licor branco que ele sempre pedia em restaurantes chineses descia suave e limpo pela garganta. Quando já estavam satisfeitos, Lee Yeyoung puxou assunto novamente:
— E como estão as coisas com o Gyuha?
— Estamos nos dando bem.
Embora um clima frio tivesse se instalado sem que percebessem após a transa de alguns dias atrás, felizmente não durou muito. No dia seguinte, comeram juntos, assistiram à noite ao filme que não tinham visto antes e, começando com um beijo, acabaram transando por dois dias seguidos.
No entanto, Seo Gyuha fez uma exigência com cara de poucos amigos: que ele nunca mais mencionasse a palavra “feromônio” na hora do sexo. A justificativa foi que a sintonia entre eles não era boa e que ele não queria ser controlado por esse tipo de coisa. Embora a exigência tenha sido repentina e absurda, Chayoung aceitou sem questionar, conhecendo o temperamento de Seo Gyuha. Ele sabia que o outro era perfeitamente capaz de ter um surto se fosse contrariado e, quanto ao segundo ponto, o próprio Chayoung sentia o mesmo.
Mas, por algum motivo, conforme o tempo passava, seu humor ia afundando. Enquanto seu corpo reagia fielmente e se aquecia, um canto do seu peito parecia frio, como se tivessem arrancado seu coração e o colocado sobre uma placa de gelo.
“A sintonia não é boa”, era algo que ele nunca tinha imaginado. Ele não tinha dúvidas de que, assim como a compatibilidade física, os feromônios também se encaixariam perfeitamente, então ser rejeitado na cara daquele jeito foi um choque considerável.
— …….
Seus pensamentos continuaram por mais um tempo. Depois de virar o resto da bebida que sobrava em seu pequeno copo, Lee Chayoung abriu a boca, meio por impulso.
— Antes do acidente…
— Sim?
— Gyuha e eu… não, esquece o que eu ia dizer.
Ele se arrependeu imediatamente e tentou encerrar o assunto, mas o rosto de Lee Yeyoung já estava transbordando preocupação. Logo veio a pergunta cautelosa:
— Aconteceu algum problema com o Gyuha?
— Não, nenhum.
— Não minta para mim. Eu te conheço há quanto tempo?
Assim como Lee Chayoung conhecia bem a irmã, Lee Yeyoung também o conhecia muito melhor do que os outros. Ele não era o tipo de pessoa que traria um assunto à tona, mesmo que por descuido, se realmente não houvesse nada.
Recebendo aquele bombardeio de olhares, Chayoung hesitou por um momento antes de escolher falar de forma mais indireta. Na verdade, o que ele estava prestes a dizer era algo que não poderia perguntar ou falar para mais ninguém além de Yeyoung.
— É que… eu estava curioso para saber como eu e o Gyuha vivíamos até agora.
Ele não estava perguntando sobre uma simples lista de acontecimentos. Ele já sabia, por meio de sua mãe, como eles haviam se tornado cônjuges.
Rápida como era, Lee Yeyoung percebeu imediatamente o significado oculto em suas palavras e respondeu de forma breve, porém cuidadosa.
— Vocês se davam muito bem, era bonito de ver. Não estou mentindo, é sério.
— …..
— Você conhece a sua personalidade melhor do que ninguém. Já que tocamos no assunto, eu fiquei muito surpresa quando vi você largar o trabalho para ir atrás do Gyuha e resolver tudo do casamento num piscar de olhos……. Esqueça todo o resto, o fato de você continuar vivendo com ele mesmo depois do acidente já não prova o que você sente?
Era verdade. Ele compartilhava a rotina com o outro e, para sua própria surpresa, não sentia tanta rejeição quanto imaginava; ultimamente, quando Seo Gyuha tinha algum compromisso e ele precisava jantar sozinho, chegava a sentir falta da presença dele. Se há oito anos seus sentimentos tivessem se aprofundado dessa mesma maneira, fazia sentido que ele mesmo tivesse proposto o casamento ou insistido na cerimônia, como Yeyoung disse.
Sendo assim…
— E o Seo Gyuha, como ele parecia?
— Com certeza ele sentia o mesmo que você, não?
— ……
— O fato de ele ser um ômega era um segredo tão bem guardado que nem a nossa mãe sabia. Para alguém com o orgulho dele aceitar um registro de casamento revelando que é ômega e fazer uma cerimônia com todos os nossos parentes reunidos… eu acho que seria impossível se ele não gostasse muito de você. E na época em que você recebeu alta, não foi o Gyuha que foi contra vocês viverem separados?
Ouvindo as palavras pausadas da irmã, Lee Chayoung percebeu que estava sorrindo e tocou o canto da boca, meio sem jeito.
Seu humor melhorou consideravelmente. Só de desabafar o que sentia — algo que raramente fazia — ele se sentiu mais leve. E ouvir que Seo Gyuha claramente também gostava dele fez com que a ansiedade que estava lá no fundo começasse a derreter aos poucos.
Afinal, se não houvesse sentimento, eles não teriam vivido como um casal. Se não fosse isso, Gyuha seria perfeitamente capaz de gritar “este casamento é inválido” em pleno altar ou jogar os papéis do divórcio na cara dele, estivesse grávido ou não.
Além disso, uma percepção tardia atravessou sua mente. Como as memórias de vários anos haviam desaparecido por completo, Seo Gyuha também deveria estar se sentindo frustrado, mas, até agora, ele nunca tinha demonstrado mágoa ou soltado uma única frase de ressentimento por causa disso. Logo ele, Seo Gyuha, que era mais fiel aos seus instintos e honesto com suas emoções do que qualquer outra pessoa que Chayoung conhecia.
Os cantos de sua boca se ergueram levemente em um gesto de satisfação. Sentindo como se a névoa espessa que nublava sua visão estivesse se dissipando, Lee Chayoung estendeu a mão para a garrafa.
— Aceita mais um copo.
— Com certeza.
Lee Yeyoung estendeu o copo vazio como se estivesse esperando por aquilo. Como a boa bebedora que era, ela tomava o forte licor chinês sem hesitar, até que se lembrou de algo e comentou:
— Ah, você sabe que neste sábado tem o memorial do nosso bisavô, né?
— Sim. Nossa mãe me avisou.
— Eu vou fazer o meu melhor para te dar cobertura, então fica bem grudado em mim.
Como quase todos os parentes e membros diretos da família estariam reunidos, ela quis dizer que o protegeria caso ele se visse em uma situação complicada devido à perda de memória.
A conversa continuou. Eles passaram um bom tempo juntos como irmãos, com Chayoung ouvindo histórias sobre Seo Gyuha e seus filhos que haviam sumido de sua mente, além de relembrarem memórias muito antigas.
Ao chegar em casa, para sua surpresa, Seo Gyuha já estava dormindo. A TV que ele havia pedido para colocar no quarto porque estava entediado falava sozinha, e de longe dava para ver Gyuha dormindo em uma posição estranha, exibindo o formato arredondado de sua cabeça.
Primeiro, Chayoung deu meia-volta em silêncio e foi para o banheiro. Tomou um banho refrescante, vestiu uma roupa confortável e subiu novamente para o segundo andar.
Sentou-se ao lado de Seo Gyuha, que parecia estar no meio de um sono profundo, e balançou levemente seu ombro para acordá-lo. Normalmente, ele o deixaria dormindo em paz, mas tinha trazido algo no caminho de volta e, mesmo que não tivesse, hoje sentia uma vontade estranha de avisar que havia chegado.
— Cheguei.
— …….
— Acorda um pouco.
Na segunda vez, ele falou bem próximo ao ouvido dele, o que gerou uma reação imediata. Gyuha deu um pequeno sobressalto, como se estivesse sonhando que caía de um lugar alto, e logo seus olhos se encontraram com os dele, o rosto todo retorcido em uma careta de quem foi incomodado.
— Quando você chegou?
— Agora pouco.
Como foi acordado à força, seus olhos ainda estavam pesados de sono. Antes de ser expulso com a ordem de ir dormir no próprio quarto, Lee Chayoung se antecipou.
— Comprei frango frito, quer comer?
— ……Não. Comerei amanhã.
Ainda estava entre o sono e a vigília, então, naquele momento, a vontade de dormir era maior que a de comer frango. Porém, ao ouvir o que veio a seguir, ele mudou de ideia rapidinho.
— Comprei logo aquele combo que você mais gosta. Certeza que não quer?
— Sim.
— …O de queijo com pimenta-de-cheiro e a moela picante?
Diante de uma tentação que era impossível ignorar, Seo Gyuha finalmente se levantou, todo desgrenhado.
— Onde está? Traz aqui.
— Vai comer aqui no quarto?
— Vou.
— O cheiro vai demorar para sair.
— Se eu ficar aqui o tempo todo, nem percebo.
Como não era mentira, Chayoung soltou um riso nasalado. Logo os dois estavam sentados frente a frente com o combo de frango entre eles. A expressão de Seo Gyuha ao abrir a caixa era radiante. Na verdade, quando se sentou na cadeira, ainda estava meio grogue, mas o aroma do frango o despertou na hora. Enquanto devorava uma coxa de frango com empolgação, acompanhada de nabo em conserva, sentiu um olhar sobre si. Ao levantar a cabeça, deu de cara com Lee Chayoung o observando.
— Você não vai comer?
— Sim. Comi muito no jantar, estou cheio.
— O que você comeu?
— Fui a um restaurante chinês.
Seo Gyuha sabia que Lee Chayoung tinha se encontrado com a irmã hoje, já que eles costumavam compartilhar para onde iam quando saíam. De qualquer forma, como não precisava insistir para que ele comesse, Gyuha voltou a saborear o frango sozinho, até que a voz de Chayoung surgiu novamente após um momento.
— Tenho uma curiosidade.
— O quê?
— O que você viu em mim para querer se casar comigo?
— …….
Diante da pergunta repentina, Seo Gyuha travou no lugar, interrompendo o movimento. Sua expressão dizia claramente: “O que deu nesse cara agora?”.
Sendo bem sincero, o casamento em si aconteceu meio que por pressão dos pais de ambos, mas, obviamente, só foi possível porque havia amor. Caso contrário, ele teria preferido criar os filhos sozinho como pai solteiro a escolher se amarrar a alguém.
Bonito, bem-sucedido, bom de cama, dedicado à família… o Lee Chayoung regenerado era, sem dúvida, o melhor parceiro possível. Às vezes, quando sua mãe o elogiava dizendo que “não existia outro homem como o Chayoung”, ele fingia que não ouvia, mas, na verdade, Gyuha pensava a mesma coisa.
No entanto, falar isso estando sóbrio e, pior, no meio de um balde de frango frito, era de dar calafrios de tanta vergonha. Felizmente, ele encontrou as palavras adequadas rapidamente.
— O rosto.
A expressão de Lee Chayoung mudou de forma peculiar. Teria sido uma resposta desleixada demais? Seo Gyuha, agindo com um tato raro, pensou por um instante e acrescentou mais uma coisa.
— E o sexo.
— …….
— O quê? Por que essa cara? Isso já não é o bastante?
— ……É, acho que é o bastante.
Ao vê-lo rir, Gyuha percebeu que, felizmente, ele não parecia ofendido. Ele observava aquele rosto — que, sem brincadeira, era exatamente o seu tipo ideal — como se apreciasse uma obra de arte, quando uma ideia lhe ocorreu e ele devolveu a mesma pergunta.
— E você, por que me pediu em casamento?
— Bem, como não me lembro, não sei ao certo, mas se fosse para chutar… talvez porque você engravidou?
— …..
— Mas isso provavelmente foi um motivo secundário. Eu devia querer muito não te perder. Na verdade, no começo eu também tive minhas dúvidas, mas vivendo com você, acho que começo a entender. Só de olhar para você já é divertido, engraçado e, como você disse, nossa química na cama é fenomenal. Quando você sai do banho, eu fico com tanto tesão que quero…
— Tá, já entendi. Já entendi, então para com isso.
— Ué, não foi você que perguntou porque queria saber?
— Eu já sei o suficiente, então para, caramba. Antes que eu enfie uma coxa de frango na sua boca.
— Vai me dar a melhor parte? Puxa, eu sou mesmo muito amado.
Enquanto fazia brincadeiras infantis que não combinavam com ele, Lee Chayoung conseguiu rir com sinceridade e leveza pela primeira vez em muito tempo. O que ele disse não foi apenas para agradar. Mesmo sentindo atração por Seo Gyuha, ele ainda tinha lá suas dúvidas: “Será que era o suficiente para eu abrir mão de tanta coisa e me casar?”. Mas, convivendo com ele, começava a entender por que o seu “eu” do passado havia tomado uma decisão tão drástica.
Após terminarem o lanche entre provocações, Seo Gyuha foi para o banheiro. Enquanto escovava os dentes com vigor, teve um pensamento repentino e levantou um pouco a blusa do pijama.
“Amanhã vou ter que fazer um cardio pesado.”
Não sabia se realmente colocaria o plano em prática, mas continuou a escovação com determinação. Ao voltar para o quarto, viu que Lee Chayoung, que ele pensou que já teria descido para o primeiro andar, estava deitado confortavelmente como se a cama fosse dele.
Ele sacou a intenção na hora. Seo Gyuha fechou a porta atrás de si e perguntou com um tom de desconfiança:
— Vai querer de novo hoje?
— Você não quer?
Ele perguntou de volta com aquele sorriso sedutor, e era impossível dizer não. Mal Gyuha se aproximou, uma mão envolveu sua cintura e seus lábios se encontraram.
Beijar Lee Chayoung era bom a qualquer momento. Como conheciam muito bem as zonas erógenas um do outro, apenas os toques leves trocados durante o beijo já eram suficientes para fazer as costas de Gyuha estremecerem.
Quando afastaram os lábios com um suspiro quente, a parte de cima do pijama de Gyuha já havia sido removida. A agilidade das mãos de Chayoung continuava a mesma de sempre. Como não era do feitio de Seo Gyuha apenas receber ou ser submetido, ele também estendeu a mão para a roupa de Lee Chayoung, mas parou ao ouvir o outro falar como se tivesse lembrado de algo de repente:
— Ah, verdade.
— O quê?
— Sábado agora… não, deixa para lá. Esquece que eu falei.
— Por que você começa a falar e para no meio?
— Nada, só estava curioso para saber se você vai ao café neste sábado também.
— Se me chamarem, eu tenho que ir.
Localizado em uma área nobre e movimentada, o café continuava sempre cheio. Os funcionários eram ágeis e davam conta da maioria dos pedidos, mas, se surgisse uma encomenda muito grande ou qualquer problema, ele costumava receber ligações de emergência.
— Vamos continuar.
O queixo de Gyuha foi erguido e seus lábios se encontraram novamente. Era o momento em que mais uma noite íntima e ardente começava para os dois.
•••
Lee Chayoung saiu de casa no final da tarde de um fim de semana. Era dia de passar por mais um check-up, apenas uma semana após o último. Seguindo as instruções, ele passou primeiro pelo setor de radiologia para os exames de imagem e depois subiu para o sétimo andar. Como não era horário de atendimento ao público geral, o espaço que costumava estar lotado de gente estava silencioso, como se ele tivesse alugado o andar inteiro.
Passar o tempo sem fazer nada era quase um suplício para ele. Enquanto estava sentado sozinho na sala de espera vazia, com os braços cruzados de forma relaxada, finalmente ouviu a voz do atendente:
— Sr. Lee Chayoung, pode entrar no consultório número 2.
Ao abrir a porta, um médico de cabelos grisalhos o recebeu. Com uma estrutura franzina e um sorriso gentil, ele lembrava aqueles avôs bondosos de dramas de TV, mas, na realidade, era um doutor considerado um dos maiores especialistas em neurologia.
— Como estão as dores de cabeça?
Diante do início da consulta, Lee Chayoung respondeu com total honestidade. Disse que, embora estivesse bem na maior parte do tempo, às vezes sentia dores excruciantes, como se sua cabeça fosse rachar, e que nesses momentos sempre tinha a sensação de estar prestes a lembrar de algo; porém, assim que a dor passava, não restava nada.
O médico assentia, ouvindo atentamente o paciente. Geralmente, pessoas que apresentam amnésia por mecanismos de defesa psicológica passaram por eventos terríveis e indescritíveis, mas o paciente à sua frente parecia estar longe de ser um desses casos.
Parece mais apropriado considerar como sequela do acidente de carro… De qualquer forma, como o próprio paciente demonstrava uma forte vontade de recuperar as memórias e dizia sentir que algo estava prestes a surgir, parecia valer a pena manter expectativas positivas.
No entanto, por se tratar de um julgamento extremamente subjetivo, o médico evitou dizer algo pelo qual não pudesse se responsabilizar e, em vez disso, usou o mouse para abrir uma imagem na tela.
— Esta é a imagem que tiramos hoje. Continua sem nenhum problema e os vasos sanguíneos estão limpos.
— Mas então por que a memória não volta?
— Como eu já disse anteriormente, como não é uma amnésia causada por lesão cerebral, é difícil identificar a causa exata ou sugerir um método de tratamento. Pode soar estranho vindo de um médico, mas ainda existem muitos casos relacionados ao cérebro que a medicina moderna não consegue explicar. Ainda assim, como sua vontade é forte e esse tipo de coisa pode se recuperar naturalmente a qualquer momento, como uma onda que vai e volta, tente relaxar e não ter pressa. Estresse é proibido.
Conselhos vagos como aquele dificilmente o agradariam. Mas, como o médico disse, não havia outra alternativa, então Lee Chayoung deixou um agradecimento protocolar e saiu do consultório.
O próximo destino era a casa de seus pais. Ele não estava nem um pouco a fim de ir por conta própria a um lugar cheio de parentes arrogantes estando naquela condição “defeituosa”, mas, sendo o aniversário de morte de seu bisavô, era seu dever como neto primogênito marcar presença por educação.
“Ah, verdade.”
Pensando bem, ele tinha dito a Seo Gyuha apenas que iria ao hospital. Lee Chayoung ligou imediatamente, mas não pôde ouvir a voz de Seo Gyuha. Tentou de novo, mas o resultado foi o mesmo.
Ele não estaria dormindo a essa hora, talvez tenha ido ao banheiro.
Como não era um assunto urgente, ele sabia que o outro reclamaria se visse várias chamadas perdidas, então preferiu deixar uma mensagem de voz. O telefone tocou de volta quando ele estava quase chegando à casa principal da família.
— Oi.
— Não atendi porque estava no banho. O que disseram no hospital?
O canto da boca de Chayoung, que estava levemente cerrado, curvou-se em um arco discreto. Se fosse antigamente, Gyuha provavelmente já teria esquecido que ele tinha ido ao hospital, mas o fato de não esquecer e ainda perguntar o resultado mostrava que algo definitivamente estava diferente.
— Pelas imagens não tem nada de errado. Disseram para eu não me estressar muito.
— Só isso?
— É.
— Que loucura, até eu saberia dizer isso.
O sorriso dele se alargou. Dava para imaginar perfeitamente Gyuha resmungando médico picareta mentalmente. Ele ia dizer o motivo da ligação, mas Seo Gyuha foi mais rápido.
— Acho que você vai ter que jantar sozinho hoje. É aniversário do Kim Kangsan… de um amigo meu, e combinei de encontrar com ele.
Ao ouvir a correção rápida, Chayoung entendeu a situação sem dificuldade. Assim como tantas outras coisas, esse devia ser mais um conhecido que ele deveria saber quem era, mas que agora não passava de um estranho em sua memória.
Seu humor, que estava bom até um segundo atrás, afundou. Não era só agora; às vezes, durante uma conversa, Seo Gyuha mudava de assunto ou acrescentava explicações com uma expressão de choque, e embora Chayoung soubesse que ele fazia isso para ser atencioso, não conseguia evitar uma sensação de distância ou isolamento. Por outro lado, sentia-se frustrado e até com raiva de si mesmo por ter perdido a memória sem nem ao menos ter tido uma lesão cerebral permanente.
“Ele não é um alfa, é?”
O pensamento surgiu, mas ele conseguiu segurar e não deixou escapar. Já era irritante e injusto o suficiente não se lembrar de nada; seu orgulho não permitiria que ele fizesse perguntas para checar se deveria ter ciúmes de outro alfa.
— Que horas você volta?
— Só vou saber quando chegar lá. Nem saí de casa ainda.
— Não fique até tarde. E não beba demais.
— Sim, senhor.
Ao desligar, percebeu que já estava diante de casa. Lee Chayoung saiu do carro, soltou um longo suspiro e começou a caminhar com passos largos. Em seu rosto, havia um descontentamento impossível de apagar.
•••
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna