↫─☫ Extra 16
↫─☫ Extra 16
Restando pouco tempo para receber alta após as duas semanas de tratamento e recuperação, e após discutir com seu pai, Lee Chayoung decidiu tirar uma licença médica prolongada da empresa e trabalhar remotamente. No papel, parecia prático, mas na realidade ele estava sobrecarregado, tentando enfiar na cabeça uma quantidade colossal de dados e o progresso atual dos projetos. Tudo seria resolvido facilmente se ele recuperasse a memória, mas o problema era não saber quando — ou se — isso aconteceria. No pior dos cenários, ele poderia nunca mais se lembrar, então não podia se dar ao luxo de apenas sentar e esperar.
Quanto tempo havia se passado? Sentindo uma leve pontada de dor de cabeça, Chayoung tirou os óculos e pressionou as têmporas com força.
Os hematomas do acidente desapareceram rápido, e seu braço, a lesão mais grave, estava cicatrizando bem. No entanto, por algum motivo, aquela dor de cabeça insistia em não ir embora. Acontecia agora, enquanto se concentrava, e também durante o sono, fazendo-o acordar de forma desagradável com pontadas intermitentes.
Embora tentasse aceitar a situação com calma, era impossível não se irritar de vez em quando. Segundo o médico, parecia ser uma sequela do acidente, mas como os exames não apontavam nada de errado e não havia um tratamento específico, ele se sentia sufocado, como se caminhasse por um túnel sem fim.
Claro, o que era ainda mais terrível era o fato de oito anos de sua vida terem sido simplesmente apagados.
Ele havia retornado de um longo período de estudos no exterior, estava aprendendo os negócios na empresa do pai e, quando tinha tempo, aproveitava os prazeres da vida. Embora o trabalho ocupasse a maior parte do seu tempo, ele levava uma vida que, com certeza, qualquer um invejaria. Além disso, tinha um parceiro sexual com quem se dava perfeitamente bem. Seo Gyuha era a cereja do bolo: era divertido estar com ele, sua identidade era garantida já que as famílias se conheciam bem e, acima de tudo, ele sabia que Gyuha não era do tipo que ficaria implorando por atenção ou grudado nele depois. Mas parava por ali; ele não tinha a menor intenção de evoluir para algo além de parceiros casuais. Casamento era algo que, teoricamente, deveria ser feito com alguém do mesmo nível social e, crucialmente, Seo Gyuha era um Beta. Por mais que se dessem bem, ele nunca cogitou um vínculo legal, o que parecia inclusive impossível na prática.
……E agora, descobrir que já estava na casa dos trinta e cinco anos era algo difícil de acreditar, como se fosse uma mentira. E havia fatos ainda mais inacreditáveis: aquele mesmo Seo Gyuha era um ômega masculino — cuja probabilidade de manifestação era menor do que ganhar na loteria — e ele estava casado com esse cara há oito anos.
Além disso, ouvir que tinham dois filhos o fazia apenas soltar risadas secas de incredulidade. Ele tinha acabado de reconhecer, a duras penas, que sentimentos além da amizade por Seo Gyuha haviam surgido, mas já tinha concluído que, devido às condições realistas, seria impossível desenvolver uma relação séria.
O problema era que quem lhe contou tudo isso, com cautela, foi sua própria mãe. Ela não era de fazer piadas sem sentido e, muito menos, brincaria com um filho que acabara de passar por uma cirurgia após um acidente grave.
Mesmo assim, incapaz de acreditar, ele buscou confirmação até com o pai. Chegou a abordar não apenas o acompanhante, mas qualquer pessoa que cruzasse com ele fora do quarto do hospital para verificar o relógio e a data no celular de estranhos.
Como resultado, ele não teve escolha a não ser aceitar aquela situação absurda como realidade. Seja pela presença de eletrodomésticos desconhecidos no quarto do hospital ou, acima de tudo, pelo fato de que o rosto de seus pais e o seu próprio reflexo no espelho pareciam sutilmente diferentes.
Sem se deixar levar pelas emoções e baseando-se no julgamento que lhe restava, Lee Chayoung ponderou sobre o que deveria fazer. Se fosse um sonho, seria uma sorte; se fosse uma pegadinha, seria ótimo, mas as chances eram nulas. Se aquilo era realmente a realidade, concluiu que seria mais sensato aceitar e absorver tudo rapidamente, em vez de desperdiçar tempo com negações inúteis.
A partir daí, suas prioridades tornaram-se claras. Como sua saúde se recuperaria gradualmente com o tempo, a urgência era alcançar o ritmo de trabalho, onde um abismo enorme havia se formado involuntariamente.
E… o fato de ser um homem casado ainda era difícil de engolir, mas, como também era uma realidade inegável, decidiu usar um pequeno truque mental. Ele excluiu conscientemente o fato de estar casado com Seo Gyuha e criou um refúgio psicológico, pensando que eram apenas amigos e parceiros de foda que haviam se tornado um pouco mais íntimos do que antes.
A escolha foi excelente. Embora a casa onde moravam juntos fosse estranha no início, após passar vários dias nela, começou a se acostumar, e as refeições ou conversas com Seo Gyuha continuavam sendo agradáveis.
Graças a isso, o estresse de ter perdido a memória — que ele tentava esconder no começo — diminuiu, e sua perspectiva mudou. Enquanto estava no hospital, ele achava que recuperar a memória era uma obrigação absoluta; agora, surgiu uma nova opção: “Se eu recuperar, ótimo; se não, paciência”.
Quanto ao trabalho, que era o maior problema, ele sentia que poderia resolver se esforçando até a morte; o mesmo valia para o seu relacionamento com Seo Gyuha. Por enquanto, estavam se dando bem sem grandes conflitos, mas, se algum dia surgisse um desgaste ou se ele finalmente percebesse que era incapaz de aceitar a existência dos filhos, bastaria que cada um seguisse seu caminho de forma limpa. Como já havia dito repetidas vezes, Seo Gyuha não era o tipo de homem que, com aquele orgulho todo, se humilharia implorando para alguém ficar, e ele próprio também não era assim.
Havia apenas um detalhe: aquele tempo que parecia ter sido roubado era um desperdício, mas, uma vez que aceitou que aquela era uma área fora de seu controle, sentiu-se em paz. Graças a isso, conforme os dias passavam, seu coração pendia cada vez mais para a segunda opção. Viver assim, exatamente como estava, não parecia ser tão ruim quanto imaginara.
Desde idosos com idades avançadas até crianças que pareciam ainda não frequentar a escola primária. O buffet do hotel, no horário do jantar, estava absolutamente lotado.
— Tem gente pra caralho aqui.
Esquecendo-se por um momento de que ele mesmo era uma daquelas “pessoas pra caralho”, Seo Gyuha começou atacando o balcão que parecia mais vazio. Ao retornar para a sala privativa com o prato cheio de variedades, Kim Moran já estava devorando tudo em uma velocidade impressionante. Ela sugou um tipo de macarrão não identificado e, ao ver o prato de Seo Gyuha, demonstrou interesse imediato.
— O que é isso? Parece carne.
— Não sei. Parecia bom, então peguntei um pouco.
— Por que eu não vi isso?
“Por que será? Provavelmente porque seu prato já estava transbordando antes mesmo de você chegar naquele balcão.”
Era óbvio, mas Seo Gyuha sabia que, se dissesse isso, só ganharia um olhar fulminante. Ele sabiamente preferiu guardar as palavras.
O prato de carne misterioso ostentava um sabor ambíguo. O tempero era estranho: não era exatamente gostoso, mas também não era intragável. Ele mastigava por inércia quando a voz de Kim Moran ecoou novamente.
— Parece que seu rosto deu uma emagrecida, come direito.
— Estou comendo.
— Isso é comer? Você está beliscando. Espera aí um pouco.
Kim Moran limpou o canto da boca com o guardanapo e se levantou. Momentos depois, ao sentir sua aproximação, Gyuha ergueu a cabeça distraído e ficou horrorizado. Ela trazia um prato enorme, com vários tipos de carne empilhados como uma montanha.
— Por que trouxe tanto?
— Se você vem a um buffet, tem que comer nesse nível. Em vez de ficar forçando essa comida ruim com cara de quem mastigou bosta, come isso aqui.
Um bife do tamanho da palma da mão de uma criança foi depositado no prato de Seo Gyuha. Em consideração ao esforço dela, ele cortou um pedaço e comeu; Kim Moran sorriu satisfeita, como se ele tivesse feito um bom trabalho, e continuou sua refeição.
O padrão das conversas deles, sempre que se encontravam, era parecido.
Primeiro, Kim Moran reclamava que estava morrendo de tanto trabalhar; Seo Gyuha retrucava com desdém, perguntando se ela achava que ganhar dinheiro era fácil, e levava uma bronca; depois perguntavam se o café estava indo bem e trocavam informações sobre novos restaurantes que descobriram. Hoje, porém, havia um tópico extra.
Após terminarem a refeição que durou quase uma hora, enquanto tomavam café de sobremesa, Kim Moran começou a falar em um tom mais contido do que o habitual.
— E o Lee Chayoung? Continua na mesma?
Sabendo que a pergunta era sobre a memória dele, Seo Gyuha respondeu secamente.
— Sim.
— E como vocês dois estão se dando?
— ……Às vezes ele me dá nos nervos, mas não temos grandes problemas.
— Menos mal.
Embora não fosse do tipo que faz contato visual profundo ou segura a mão do outro — gestos que fariam ambos sentirem calafrios de horror —, Kim Moran ofereceu palavras de conforto à sua maneira sincera.
— Já que aconteceu, tente focar apenas no lado bom. Pense na sorte que é o fato de ele ainda ter memórias da época em que vocês se davam relativamente bem.
Seo Gyuha concordava plenamente. Se a memória tivesse retrocedido apenas um pouco mais, para antes do reencontro ou para a época em que aproveitavam o “ménage à trois”, a situação seria absolutamente impossível de contornar.
Embora considerasse isso uma grande sorte, ainda havia pontos que o deixavam frustrado. Ele sentia uma mágoa interna quando o outro agia apenas conforme a própria vontade ou quando, no meio de brincadeiras bobas, demonstrava uma atitude de quem impõe limites de forma sutil e imperceptível.
Havia também outra preocupação. No início, ele pensou de forma leve: “Já que as coisas ficaram assim, e como ele me escolheu há oito anos, é só fazer ele me escolher de novo”……. Mas isso foi um equívoco complacente e arrogante.
Embora passassem tempo juntos em casa trocando piadas e tivessem sexo com frequência, parava por aí. O fato de nunca terem conversado seriamente sobre o futuro ou sobre as crianças — que ainda estavam na casa dos avós — gerava uma ansiedade crescente.
A atitude de Lee Chayoung contribuía para isso. Ele parecia extremamente relaxado e em paz, como se nunca tivesse ficado confuso ao descobrir a perda de memória. Ele puxava conversa sem estranheza e sorria com facilidade, mas, por trás dessa aparência impecável, era impossível saber o que ele realmente pensava.
Seo Gyuha amassou o guardanapo sem culpa antes de tomar coragem e confessar seus sentimentos com sinceridade.
— No começo, achei que ficaria tudo bem se continuássemos assim… Mas, conforme o tempo passa, sinto que não é bem assim. E se ele ficar desse jeito para sempre?
— O que mais você faria? Teria que viver assim.
— …..
— Mas ele é um cara ganancioso demais, vai recuperar a memória rapidinho. E, mesmo se não recuperar, não acho que você tenha com o que se preocupar.
Era, literalmente, uma convicção sem provas. Kim Moran, ignorando por uma vez o olhar de censura de Seo Gyuha, continuou:
— Você sabe bem que tipo de cara ele é. Se ele não tivesse sentimentos por você, quando soube da gravidez, teria tentado resolver com dinheiro ou poder; ele nem teria cogitado casamento. Quando ele me deu o convite, ele estava sorrindo tanto que eu quase dei um soco na cara dele.
— …….
— O ser humano é engraçado: às vezes a pessoa sempre escolhe a opção A, mas aí decide mudar e escolhe a B. Depois, ela esquece disso e, quando a mesma situação se repete, ela pensa exatamente da mesma forma: “Vou mudar desta vez” e acaba escolhendo a B de novo.
A expressão de Seo Gyuha se contorceu levemente. Parecia ser algo bom para dar esperança, mas, como não era uma expressão direta, ele não entendeu de imediato. Em vez de fingir que compreendeu, ele preferiu perguntar honestamente.
— O que você quer dizer com isso?
Diante daquele jeito que nunca mudava, Kim Moran soltou uma risadinha. Ela vivia cercada por hienas e precisava agir como se não tivesse sangue ou lágrimas por causa dos velhos conservadores da empresa, que focavam apenas no fato de ela ser uma alfa dominante “feminina” para tentar menosprezá-la ou provocá-la; porém, desde os velhos tempos, ela acabava baixando a guarda naturalmente na frente de Seo Gyuha.
Ela jamais admitiria isso em voz alta, nem que morresse e nascesse de novo, mas Gyuha era um amigo verdadeiramente precioso para ela. Não era exagero dizer que ele era a única pessoa com quem ela podia se encontrar de cara limpa e roupa de treino, a quem podia confessar quando as coisas estavam difíceis e diante de quem podia comer até se fartar, sem a menor preocupação com as aparências, como fizera hoje. E ela tinha certeza de que, para Lee Chayoung, era a mesma coisa.
Kim Moran deu um gole no café e, com um sorriso suave, usou um tom de voz ainda mais gentil:
— O que eu quero dizer é que, como ele já se gamou em você uma vez pra valer, vai acabar acontecendo o mesmo desta vez. Por isso, não se apresse e dê um tempo a ele. Ou então…
Ela deixou a frase morrer no ar e murmurou baixinho, com a expressão rígida:
— Talvez isso seja meio pesado. Se fizessem comigo, eu ficaria puta da vida.
— Por que está falando sozinha de repente?
— Bem, se estou falando comigo mesma, o que mais eu estaria fazendo se não falando sozinha? Enfim, se nada mais funcionar, acho que tentar provocar um pouco de ciúme pode ser uma boa.
A explicação que ela acrescentou foi a seguinte: “É chato admitir isso, mas eu e o Lee Chayoung temos personalidades parecidas. Não suportamos perder o que é nosso e o nosso apego é absurdo. Se ele sentir um senso de crise, talvez caia na real rapidinho.”
— Mas ele também vai precisar de um tempo, então deixe isso como último recurso… Realisticamente, já que não tem o que fazer agora, tente pensar pelo lado positivo: finja que você também voltou aos vinte e oito anos e aproveite o namoro. Sabe aquele ditado, ‘se não pode evitar, divirta-se’?
— ……Sim.
— Se entendeu, então comece a comer logo isso aí. Vai derreter tudo.
Ela apontou com o queixo para o sorvete de chocolate que Seo Gyuha tinha pegado de sobremesa. Enquanto levava uma colherada à boca antes que derretesse de vez, Gyuha pensou que realmente tinha sido uma boa ideia encontrar Kim Moran hoje.
Não sabia se era pelo doce do chocolate ou pelos conselhos sinceros, mas, embora nada tivesse sido resolvido de fato, ele sentiu o coração mais leve e aquela autoconfiança sem fundamento começou a surgir novamente.
“Certo, que seja. Vou levar isso como se estivesse namorando de novo e aproveitar.”
Infelizmente, porém, havia um detalhe que Seo Gyuha estava ignorando.
Para que pudesse reviver o clima de namoro, ele precisaria da cooperação de Lee Chayoung, mas o fato era que a memória do sujeito ainda estava estagnada em algum lugar entre parceiros de foda e amantes.
Passava das nove da noite quando Seo Gyuha finalmente voltou para casa. O interior estava silencioso. Era o horário em que a governanta já teria ido embora há muito tempo, e parecia que Lee Chayoung estava, novamente, enfiado no escritório. Ele caminhou até lá e deu uma batida leve na porta.
— Sou eu. Está aí dentro?
— Sim.
Como esperado, veio a resposta. Ao abrir a porta e entrar, viu o outro sentado diante da mesa.
— Comeu bem no jantar?
— Sim.
— A Kim Moran não falou mal de mim?
— Falou horrores…
Naquele instante, algo entrou no campo de visão de Seo Gyuha. Diante do rastro de silêncio repentino em sua fala, Lee Chayoung perguntou com um tom estranho:
— O que foi?
— ……Nada. E você, já jantou?
— Sim.
— O que você comeu?
— O que a senhora preparou.
Apesar de ter essa cara de quem só procura massas gordurosas ou bifes, ele continuava gostando de comida caseira. De qualquer forma, como havia um motivo para ter entrado no escritório, Seo Gyuha escondeu o sentimento de desânimo e continuou:
— Tem muito trabalho para fazer?
— Sempre tem.
— Mesmo que tenha, é sexta-feira, então para com isso e vem logo. Comprei pezinho de porco apimentado.
Embora ainda não tivesse nem digerido o jantar, o motivo de ter parado o carro em frente à loja de jokbal no caminho de volta foi para criar um tempo de conversa com Lee Chayoung.
Ele precisava vê-lo e interagir constantemente para que isso servisse de estímulo para recuperar a memória ou para que se tornassem mais íntimos; porém, como Lee Chayoung passava a maior parte do dia enfiado no escritório e agora dormiam em quartos separados, era difícil até ver o rosto dele fora das refeições.
O único momento em que ficavam cara a cara por muito tempo era durante o sexo, o que não era exatamente a situação ideal para bater papo. Mesmo que quisesse conversar, assim que os lábios se tocavam, os pensamentos sumiam da cabeça e, quando terminavam, ele estava exausto demais e só queria apagar.
Após muito pensar, Seo Gyuha usou o lanche noturno como desculpa para bater à porta do escritório. A chance de sucesso era de cinquenta por cento. Às vezes, Chayoung recusava dizendo que sentia muito, mas estava ocupado; outras vezes, levantava-se da cadeira sem dizer uma palavra.
Hoje ele estava para a segunda opção, então os dois se sentaram frente a frente na mesa de jantar. Assim que o plástico da embalagem foi removido, o cheiro picante subiu de uma vez. Seo Gyuha estreou os hashis imediatamente. Ao vê-lo comendo com gosto, fazendo até embrulhos com as folhas de alface, Lee Chayoung soltou um riso nasalado.
— Você não tinha ido a um buffet no jantar?
— Não tinha pezinho de porco lá. Come logo você também.
Lee Chayoung hesitou por um instante, mas pegou os hashis. Originalmente, ele quase nunca comia lanches tarde da noite e nem gostava tanto assim de jokbal, mas, estranhamente, aquilo parecia bem apetitoso.
Seo Gyuha não ficou para trás e movimentava os hashis com agilidade. Estava macio, apimentado e com aquele toque defumado de fogo: simplesmente impecável. Enquanto mastigava mais um pedaço, sentiu Lee Chayoung esticar subitamente a mão e passar a ponta dos dedos no canto de sua boca.
— O que foi?
— Hein?… Não, é que estava me incomodando.
Um rastro de confusão do tipo “por que eu fiz isso?” surgiu no rosto de Lee Chayoung, mas ele o apagou tão rápido que Seo Gyuha não chegou a notar. Em vez disso, Gyuha franziu as sobrancelhas para a palavra “incomodando” — uma escolha de vocabulário realmente incômoda — e resmungou para si mesmo:
— Já começou de novo.
— O quê?
— Você é limpo pra caralho, hein.
— É que você está comendo e se sujando que nem uma criança.
Foi uma observação sem segundas intenções, mas, para quem ouvia, não soou assim. Mesmo tendo decidido agir como se também tivesse voltado para oito anos atrás, ele acabava esquecendo esse fato vira e mexe. Quando Lee Chayoung demonstrava esse comportamento de antigamente — como não tolerar que alguém deixasse cair comida ou que estivesse com o rosto sujo, como agora —, Seo Gyuha sentia uma pontada familiar no peito. Depois que Gyuyoung nasceu, Chayoung havia se tornado muito mais tolerante com essas coisas, e ver aquele rigor de volta era a prova real de que ele tinha dado um “reset”.
O pior é que, apesar desse jeito, ele ainda usou o dedo para limpar o canto da sua boca, o que só aumentava a confusão. No passado, ele teria apenas jogado um lenço umedecido e pronto.
Nada garantia que ele não faria o mesmo na rua. Seo Gyuha apertou os hashis na mão, sem perceber, e resolveu lembrar Lee Chayoung mais uma vez da realidade em que ele se encontrava.
— Você lembra que o termo de compromisso está na minha mão, né? Nem pense em sair por aí balançando o pau ou fazendo merda. Eu vou arrancar cada centavo de pensão e fazer seu nome sair em todos os meios de comunicação possíveis.
— Assim, do nada?
Lee Chayoung olhou para Seo Gyuha com uma expressão de quem achava aquilo um absurdo, mas logo abriu um sorriso de canto e disparou:
— Você gosta mesmo de mim, hein.
Não era mentira. Mas, como não tinha temperamento para concordar docilmente e sentindo um tom de deboche na voz do outro, Seo Gyuha rebateu na hora, irritado:
— Tá se achando, é? Não ouviu o que a sua mãe disse? Foi você quem ficou implorando, agarrado na minha perna para casar, então por que continua com esse papinho?
— Pois é, não me lembro disso.
Mesmo agora, era impossível vencer Lee Chayoung no argumento. Ainda assim, em uma atmosfera que não era nada ruim — na verdade, era até bem agradável —, os dois continuaram conversando sobre diversas coisas. Perguntaram um ao outro se o trabalho estava fluindo bem, o que tinham falado com Kim Moran, e entre perguntas e respostas, o pezinho de porco logo acabou.
A limpeza, como sempre, ficou por conta de Lee Chayoung. Seo Gyuha ficou ao lado dele, mexendo no celular, e sugeriu fingindo desinteresse:
— Ainda são só dez horas. Topa um filme?
— Quer sair agora?
— Não, aqui em casa mesmo.
Graças ao fato de não terem economizado um centavo na sala de cinema, era possível desfrutar de uma tela e um som que não perdiam em nada para os cinemas de verdade. Desta vez, Lee Chayoung hesitou por um instante, mas aceitou sob uma condição:
— Vou só terminar o que estou fazendo e já vou. Pode ir subindo na frente.
— Subir na frente o quê? Deixa isso para amanhã.
— Você sabe que eu detesto deixar as coisas pela metade.
Ele sabia muito bem. Ao contrário de Seo Gyuha, que adiava até o último segundo as tarefas chatas ou que não queria fazer, Lee Chayoung tinha uma personalidade de quem precisava terminar o que começou, gostasse ou não, para conseguir relaxar. Esse traço também permanecia intacto, então, mesmo com uma expressão insatisfeita, Seo Gyuha perguntou:
— Quanto tempo vai demorar?
— Não sei, uns trinta ou quarenta minutos?
Era um tempo razoável, melhor do que ele esperava. Entre tomar banho e jogar um pouco, o tempo bateria certinho, então ele aceitou o acordo sem relutar.
— Se demorar mais que isso, pode ter certeza de que vou trancar a porta.
— Por mim, tudo bem.
Desgraçado.
— Enfim, não consegue deixar passar uma, né?
Depois de lançar um olhar que valia por mil xingamentos para o sujeito que não parava de sorrir, Seo Gyuha deu as costas e saiu primeiro.
Lee Chayoung também retornou imediatamente para o escritório. No silêncio recuperado, voltou a analisar o relatório de análise corporativa em que estava trabalhando há dias.
Sua capacidade excepcional de concentração funcionava como uma vantagem na maioria das vezes, mas, em raras ocasiões, acabava criando situações complicadas.
Como no dia em que abriu um livro na biblioteca para passar o tempo após o almoço e acabou perdendo a aula da tarde, ou quando foi a um museu durante uma viagem, ficou fascinado pelas obras e mandou para o espaço todo o restante do itinerário planejado para o dia.
Hoje não foi diferente. Ele pretendia levantar após terminar apenas um capítulo, mas, enquanto enfiava os dados necessários na cabeça e realizava análises comparativas com outros materiais, os trinta minutos prometidos voaram num piscar de olhos.
Por um instante, pensou: “Já que chegou a esse ponto, melhor continuar trabalhando”, mas logo mudou de ideia e fechou o arquivo. Hoje, ele planejava ir para a cama com Seo Gyuha. Sendo um Alfa dominante, nem precisava dizer, e como Gyuha também era do tipo que não recuava e era bem ativo, o sexo entre os dois era sempre satisfatório. No entanto, o gênio do outro não era brincadeira; se ele se recusasse a ver o filme e sugerisse apenas dormir juntos, a chance de ser expulso debaixo de xingamentos pesados era de cem por cento. Portanto, o plano era fingir que assistiria ao filme e depois levá-lo para o seu próprio quarto.
Lee Chayoung pegou duas latas de cerveja na geladeira e subiu as escadas para o segundo andar. Como sabia que o outro estava lá dentro, abriu a porta da sala de cinema em silêncio, sem bater.
No escuro, vozes altas e luzes brilhantes vinham apenas da parede onde ficava a tela, enquanto Seo Gyuha estava sentado no sofá oposto, dormindo com a cabeça levemente inclinada.
“Com razão. Ele é do tipo que cobraria por ligação ou mensagem, e o celular estava quieto demais.”
Lee Chayoung aproximou-se com passos largos e o acordou balançando seu ombro.
— Acorda.
— …….
— Não disse que íamos ver um filme juntos?
— ……Não vou ver nada. Vê você sozinho.
A voz resmungada estava carregada de sono. Com o rosto de quem claramente acabara de ser acordado, ele chegou a abrir os olhos de fenda por um instante, mas logo se ajeitou no sofá e se deitou de vez.
“Olha só para isso.” No começo ele não tinha notado, mas, agora que o som do filme havia cessado, podia ouvir até o ronco suave de Gyuha. Uma expressão de incredulidade surgiu no rosto de Lee Chayoung. Ele passou a mão pelo cabelo, parando por um momento enquanto o observava com um olhar de “o que eu faço com você?”, antes de falar baixinho mais uma vez:
— Se não acordar, eu vou fazer o que eu quiser, hein?
Como era de se esperar, não obteve resposta. Ele pegou o sujeito nos braços como se fosse uma carga e saiu da sala de cinema. Com preguiça de descer para o primeiro andar, abriu a primeira porta que viu e soube imediatamente que era o quarto onde Seo Gyuha estava ficando. A cama desfeita, as roupas espalhadas e as bugigangas largadas sobre a mesa entregavam o dono.
Embora a cama fosse um pouco pequena, não parecia ser um problema para transar. Depois de depositar o outro, que continuava em um sono profundo, Lee Chayoung despiu a camisa dele e, em seguida, removeu a calça e a cueca sem a menor hesitação.
Seu olhar demorou-se por um instante no corpo inteiramente nu à sua frente. Um rosto que, nem por gentileza, poderia ser chamado de delicado, músculos bem definidos e uma estrutura óssea que de forma alguma parecia a de um ômega. Mesmo olhando de novo, estava longe de ser o seu tipo ideal; no entanto, estranhamente, bastava ver as costas dele para que o desejo sexual despertasse às vezes.
Agora não era diferente. Ele chegava a soltar um riso seco ao sentir a virilha latejar só de olhar para o pau do outro, ali em repouso.
Após tirar a própria roupa, Lee Chayoung subiu em cima de Seo Gyuha e começou com beijos leves. Não se deu ao trabalho de acordá-lo formalmente, pois sabia que, em pouco tempo, ele despertaria por conta própria.
E sua previsão foi certeira. Enquanto ele acariciava e passava a língua pelos mamilos protuberantes, não demorou para que uma voz levemente rouca ecoasse vinda do travesseiro:
— O que você está fazendo?
— Estou te dando um pouco de carinho.
Ao perceber que ele havia acordado, Lee Chayoung buscou novamente os lábios de Seo Gyuha. Mesmo com o cenho franzido e claramente ainda lutando contra o sono, Gyuha retribuiu o entrelaçar das línguas, o que fez Chayoung soltar um riso baixo. Quando se separaram após o beijo curto, porém intenso, um fio de saliva se esticou entre eles.
— Vamos transar.
Seo Gyuha estremeceu com o toque em sua orelha sensível. No instante em que sentiu o volume pesado pressionando contra sua parte de baixo, engoliu em seco involuntariamente.
— E se eu disser que não quero, você vai parar?
— O que você acha?
— ……Cretino do caralho.
Irritado, Seo Gyuha puxou o pescoço de Lee Chayoung e, desta vez, tomou a iniciativa de selar seus lábios. Ele mordiscava e explorava a boca do outro com intensidade, como se quisesse provar que o beijo anterior tinha sido apenas uma brincadeira.
Lee Chayoung não ficou apenas na defensiva. Eles se devoravam como se estivessem em uma luta, e quando finalmente interromperam o beijo por falta de ar, seus lábios estavam dormentes.
Erguendo o tronco, Lee Chayoung estendeu a mão sem hesitação para o pau de Seo Gyuha. Assim que segurou o tronco do membro, sentiu uma onda de satisfação. O pau que estava mole quando ele o despiu agora já se encontrava ereto e completamente rígido.
Seo Gyuha também estendeu a mão para o centro de Lee Chayoung. Como de costume, apertou com força o membro robusto que mal cabia em sua mão e desceu um pouco mais.
Ao massagear o saco escrotal macio e pesado como se estivesse amassando uma massa de pão, um suspiro misturado com um gemido escapou da boca de Lee Chayoung. Logo em seguida, enquanto seus dedos tateavam a entrada traseira do outro, veio a pergunta com intenção explícita:
— Não tem lubrificante?
— Não tem.
— E camisinha?
— Acha que teria?
Ele já tinha se masturbado depois de casado, é claro. Quando Lee Chayoung viajava a trabalho, eles faziam sexo por vídeo ou, para uma estimulação mais forte, às vezes se masturbavam um na frente do outro.
Mas isso era coisa do passado. Desde que Lee Chayoung recebeu alta e voltou para casa, ele não tinha tido motivo para fazer nada sozinho. Além disso, os itens mais íntimos ficavam guardados apenas nas gavetas do quarto do casal.
— Devíamos ter ido para o meu quarto.
A vontade de retrucar perguntando por que aquele seria o quarto “dele” subiu à garganta, mas Seo Gyuha sabia que, se dissesse isso agora, o outro nem daria ouvidos. Ele engoliu a irritação, repetiu para si mesmo que deveria ir “devagar” e respondeu logo em seguida:
— Então desça agora, se quiser.
— É perda de tempo. Vamos fazer aqui mesmo.
Como o tesão já tinha batido forte, ele não queria perder nem um segundo. No entanto, sabendo que forçar a entrada em um lugar seco resultaria em uma confusão generalizada, ele sugeriu outra alternativa:
— Fica de bruços.
Com o tempo que passaram juntos, ele entendeu na hora o que aquilo significava. Sem dizer nada, Seo Gyuha deu as costas e empinou levemente a bunda. Como esperado, Lee Chayoung afastou as duas nádegas e começou uma carícia sem hesitação, lambendo sua entrada.
Diante daquela sensação explícita, Seo Gyuha entreabriu os lábios e agarrou com força a fronha do travesseiro. Embora ainda vivesse como um Beta, não sabia se era porque seu corpo era de um ômega ou se era por ter transado tanto com Lee Chayoung, mas seu rabo já tinha se tornado uma zona erógena há muito tempo. Agora, bastava ele esfregar a entrada com a mão para que tudo começasse a ficar úmido por dentro. Somando-se a isso a saliva que Lee Chayoung deixava escorrer, a sensação era impossível de descrever com palavras.
Pouco depois, Lee Chayoung ergueu a cabeça e, de uma vez só, enfiou três dedos dentro do buraco. Ao sentir a parede interna apertando-se ao redor deles, seu pomo de adão oscilou enquanto ele engolia em seco. Como sabia exatamente o quão bom era invadir aquele lugar, a impaciência tomou conta naturalmente.
O pau ereto pulsava e latejava como se fosse um ser vivo clamando por atenção. Lee Chayoung, que observava as escápulas salientes enquanto preparava a entrada, finalmente retirou os dedos após pouco tempo e, como se fosse substituí-los, posicionou a ponta do pau na abertura. Sentindo o movimento, Seo Gyuha olhou para trás com uma expressão surpresa.
— Já vai colocar?
— Vou.
Junto com a resposta, Lee Chayoung impulsionou o quadril. Conforme vencia a resistência interna e penetrava, um gemido escapou do fundo de sua garganta. A sensação da carne interna latejando e se agarrando a ele era tão boa que o deixava louco.
Nas primeiras estocadas, ele se moveu devagar, por cortesia, mas logo começou a aumentar o ritmo. Não era exatamente intencional; era mais como se o corpo estivesse agindo por conta própria, movido pelo instinto.
— Ah, ah, hngh!
Os gemidos que Seo Gyuha soltava a cada estocada serviam apenas para atiçar ainda mais a excitação. Era curioso pensar que um cara que costumava ser famoso como “ativo” nas boates agora entregava a retaguarda assim, gemendo sob seu corpo; isso despertava um estranho desejo de conquista e superioridade.
— Se você recebe tão bem assim, como conseguia ser ativo antes?
— Cala a boca, seu merda… Aaah!
Seo Gyuha perdeu o fôlego quando o outro estocou com força propositalmente. E a tirania de Lee Chayoung não parou por aí. Ele agarrou a cintura de Gyuha firmemente com as duas mãos e começou a foder o interior dele sem piedade, como um cachorro no cio.
Com o movimento violento, a cama começou a ranger e chiar. Lee Chayoung não se importou. A verdade era que ele estava tão imerso no sexo que não tinha espaço mental para prestar atenção em mais nada.
Em meio ao prazer que dominava seu corpo como um incêndio, Lee Chayoung instintivamente liberou seus feromônios em busca de um êxtase ainda maior. No entanto, pouco tempo depois, o toque de um celular ecoou de algum lugar.
Ele olhou para a mesa de cabeceira e franziu o cenho. O nome brilhando na tela do aparelho despertou um sentimento de amargura. Ele virou o celular para baixo em silêncio e recusou a chamada.
Seu olhar caiu sobre a nuca de Seo Gyuha. Enquanto continuava a se mover por hábito, seus pensamentos divagaram por um momento. Embora o outro tivesse dito com a própria boca que não tinha o menor interesse em mulheres, parecia continuar se dando muito bem com Kim Moran até hoje. Teve o fato de terem se encontrado assim que ela voltou de viagem e, antes disso, ele também vira Gyuha passar um bom tempo ao telefone com ela durante um jantar.
“É por ser um ômega, afinal?”
O fato de Seo Gyuha ser um ômega e não um beta ainda era algo que, sinceramente, não parecia real. Embora ele recebesse muito bem por trás e, em termos chulos, a compatibilidade fosse fenomenal, não havia muita diferença de transar com um beta……. Espera um pouco.
No meio de sua linha de raciocínio, Lee Chayoung finalmente percebeu algo estranho. Ele se deu conta de que, apesar de terem transado várias vezes — incluindo preliminares pesadas —, ele nunca, em nenhum momento, sentira os feromônios de Seo Gyuha.
Quanto mais pensava, menos sentido fazia. Não importava o quão baixo ou fraco fosse o nível, era impossível que ele, um Alfa dominante de elite, não sentisse os feromônios de um ômega. Além disso, o fato de Seo Gyuha conseguir ocultar seus feromônios com tamanha perfeição também era intrigante. Para um cara que era tão vulnerável ao prazer a ponto de se sujeitar a ser o passivo… Ou será que ele era um beta e mentira ser um ômega?
Não, isso era impossível. Mesmo forçando muito a barra para aceitar o casamento legal, a existência dos filhos era algo difícil de acreditar — para ser mais exato, como não conseguia acreditar que Gyuha era um ômega, ele solicitou um teste de DNA das crianças, e o resultado confirmou que elas eram, sem dúvida, fruto dos dois.
Sendo assim…….
*Trrrrrr— Trrrrrr—*
O celular, que estava quieto, tocou novamente. O remetente era, sem falta, Kim Moran. Lee Chayoung quase desligou o aparelho de vez, mas, em um estalo, algo lhe veio à mente; mudando de ideia, ele estendeu o telefone para Seo Gyuha.
— Atende. É a Kim Moran.
— Atender agora, desse jeito?
— Você conhece o jeito dela.
No momento em que ouviu a palavra “jeito”, Seo Gyuha estendeu a mão como se estivesse enfeitiçado. Era o resultado de uma experiência aprendida. Ele quase apertou o botão de atender por reflexo, mas, percebendo a tempo que sua respiração estava ofegante, esperou alguns segundos antes de atender.
— Oi.
— Estava dormindo? Por que demorou tanto para atender?
Como esperado, a reclamação veio no instante em que ele atendeu. Tentando controlar a respiração, Seo Gyuha forçou uma voz calma.
— Por que ligou?
— Está passando uma churrascaria de carvão na TV e parece deliciosa. Tenho um horário livre amanhã no almoço, se não tiver nada para fazer, vamos comigo.
Foi nesse momento, enquanto ele ouvia em silêncio. Sentiu Lee Chayoung recuar o quadril lentamente, saindo de dentro dele. Gyuha olhou de relance para trás e voltou a cabeça para a posição original.
Ele pensou que o outro teria a cortesia de esperar um pouco, mas foi um erro. Chayoung aproveitou o espaço que criou para estocar tudo de uma vez, com tanta força que um grito escapou da boca de Gyuha involuntariamente.
— Ah!
Ele cobriu a boca às pressas, mas já era tarde. Ouviu a voz assustada de Kim Moran do outro lado.
— O quê? O que foi isso?
— Ahn? Uma… uma barata. Eu vi uma barata.
Surpreendentemente, ele conseguiu inventar uma desculpa de improviso e olhou rapidamente para trás, xingando Chayoung com o olhar. Do celular, a voz de Kim Moran continuava:
— Quê? Tem barata na sua casa? Não viu errado, não?
— Não sei. Enfim, amanhã a gente… ah, hngh!
Outro impacto intenso atingiu sua parte de baixo. Não foi apenas uma estocada simples. O desgraçado teve a audácia de mirar e pressionar exatamente o seu ponto sensível com uma técnica irritante; em um instante, sua visão ficou turva e o gozo espirrou do seu pau com tudo.
O celular escorregou da mão sem força de Seo Gyuha, mas Lee Chayoung o pegou antes que caísse e o levou ao próprio ouvido. Enquanto isso, seu quadril continuava a se mover, moendo contra o interior do outro de forma persistente.
— O que quer a essa hora?
Kim Moran percebeu rapidamente que a pessoa do outro lado da linha havia mudado e perguntou:
— Por que é você que está atendendo de repente?
— Por que você acha?
Após uns dois segundos de silêncio, deu para ouvir Kim Moran soltando um palavrão.
— Vocês dois não estavam dormindo em quartos separados?
Pensar que eles tinham compartilhado até esse tipo de detalhe trivial o deixou um pouco mal-humorado. Enquanto pressionava firmemente a nuca de Seo Gyuha, que tentava se levantar, Lee Chayoung respondeu com uma calma que contrastava com seu íntimo:
— Mesmo em quartos separados, o que tem que ser feito, tem que ser feito.
— Então por que diabos você atende a porra do telefone?
A irritação na voz de Kim Moran ficou ainda mais nítida. Por mais próxima que fosse dos dois — ou melhor, justamente por ser próxima —, ela não tinha o menor interesse em saber da vida sexual deles, e estava claro que aquela não era uma situação adequada para uma ligação. Amaldiçoando a si mesma por ter ligado sem pensar um minuto atrás, ela disparou as palavras rapidamente:
— Diga a ele que eu ligo de novo amanhã.
A ligação caiu imediatamente. Desta vez, Lee Chayoung desligou o aparelho de vez e o jogou em qualquer lugar em cima da cama. Fez isso porque se lembrou de que não era apenas Kim Moran; o celular vivia tocando ou recebendo notificações de mensagens de diversos lugares, mesmo tarde da noite.
Liberando seus feromônios mais uma vez, ele sobrepôs seu corpo ao de Gyuha. Mordiscou com os dentes a nuca que estava pressionando até agora e moveu os lábios para a orelha dele, dando uma leve mordida.
— Por que você é tão popular, hein?
— Ah, hngh!
O corpo de Seo Gyuha deu um solavanco e ele sentiu o interior apertar com força novamente. Lee Chayoung usou a língua de forma explícita enquanto, simultaneamente, movia o quadril de forma circular e persistente.
No entanto, naquele momento, ele se lembrou do fato que havia esquecido brevemente durante a ligação. Sem interromper o movimento do quadril que explorava as paredes internas, Lee Chayoung disse com uma voz suave:
— Libera seus feromônios também. Assim eu te faço sentir um prazer ainda maior.
Ele disse isso confiante de que, sendo Gyuha vulnerável ao prazer, aceitaria prontamente. Mas, ao contrário do esperado, Seo Gyuha respondeu de forma ríspida:
— Se quiser liberar, libera você.
— Por que, é porque você é mais fraco que eu? Tudo bem.
— Não quero.
— Eu já disse que está tudo bem. É óbvio que esse nível…
— Ah, cara. Não entende que eu não quero? Cala a boca e só continua metendo logo.
A expressão de Lee Chayoung endureceu um pouco. Ele percebeu que não era apenas uma hesitação passageira, mas que Gyuha estava genuinamente irritado.
Não era algo impossível de entender. Ele mesmo, para não ser controlado pelos feromônios de um ômega, preferia dormir com betas, e na maioria das vezes fazia sexo com a mente clara, sem liberar seus próprios feromônios.
Portanto, sua cabeça entendia que Seo Gyuha poderia agir da mesma forma, mas ouvir aquela recusa o deixou em um estado de desânimo que o surpreendeu. Após uma breve pausa observando a nuca de Gyuha, Lee Chayoung voltou a mover o quadril com rapidez.
Ao mesmo tempo, ele liberou seus feromônios sexuais com força, como se os despejasse por todo o corpo do outro. Era um ato deliberado, um desafio para ver se Gyuha conseguiria resistir.
— Ah, hngh, ah…!
Os gemidos de Seo Gyuha ficaram um pouco mais altos. Pela forma como ele agarrava o lençol, a ponto de as veias saltarem em suas mãos, e pelo modo como seu interior latejava e apertava com ainda mais força, era óbvio que ele estava reagindo intensamente.
Enquanto continuava a estocar, Lee Chayoung deixou escapar uma voz suave mais uma vez, como se estivesse tentando seduzi-lo:
— Libera seus feromônios, vai?
Sua expressão transparecia um desejo impossível de esconder. Vendo como a compatibilidade física era tão perfeita, era óbvio que, mesmo sem saber, a sintonia entre os feromônios também seria fenomenal. Não, deixando de lado qualquer outra razão, ele estava simplesmente curioso para sentir o feromônio de Seo Gyuha.
— Já disse que não quero, seu merda.
Mas, novamente, Seo Gyuha foi inflexível. O que veio a seguir foi uma frase que o irritou ainda mais.
— Eu não libero a qualquer hora como você.
Ao ouvir isso, Lee Chayoung sentiu a veia da têmpora saltar instantaneamente. Ora, quem ele pensava que ele era?
— Ah, é? Peço desculpas por ser o único no cio aqui.
Com um rosto que sorria mas não demonstrava alegria, ele rangeu os dentes e agarrou a cintura de Seo Gyuha novamente. Segurando com tanta força que deixaria marcas, começou a estocar o interior dele mais uma vez.
Ao mesmo tempo, despejou seus feromônios de alfa até o limite. A diferença de antes era que, agora, uma fúria desconhecida se misturava à excitação sexual.
Após foder com uma intensidade que parecia querer revirar tudo por dentro, Lee Chayoung retirou o pau subitamente. Ao ver o tronco do membro completamente ensopado, como esperado, ele retorceu os lábios em um sorriso de escárnio.
— Pelo visto você é mesmo um ômega. Está todo molhado aí dentro, uma verdadeira bagunça.
Ele empurrou novamente até a base, como se estivesse vedando o interior, e puxou os braços de Seo Gyuha para trás. Por dentro, praguejava baixinho. Tinha tirado o pau por um momento apenas para zombar dele ao ouvir o som úmido da junção dos corpos, mas seu orgulho ficou ferido ao perceber que ele próprio ficou ainda mais excitado ao ver a entrada se abrindo logo em seguida.
Em certo ponto, a conversa desapareceu. Em meio aos sons de respiração ofegante e ao ruído úmido vindo de baixo, eles continuaram o sexo com gestos um tanto raivosos.
Devido às penetrações profundas e repetidas, a vontade de gozar surgiu rapidamente. Enquanto ele diminuía o ritmo para controlar o passo, ouviu Seo Gyuha arquejar:
— Haa… solta meus braços. Está puxando e dói.
Como ele já pretendia mudar de posição de qualquer forma, Lee Chayoung soltou os braços e retirou o pau sem resistência. Deitado de lado, ele puxou o corpo de Seo Gyuha, que ainda respirava com dificuldade de bruços, para perto de si. Ele penetrou novamente por trás e continuou o sexo, mantendo uma das pernas de Seo Gyuha enganchada em seu braço.
O movimento, que antes era lento, começou a acelerar gradualmente de novo. Ele repetia o ciclo de retirar quase até a cabeça e enfiar profundamente, antes de começar a balançar o quadril em estocadas mais curtas e rápidas.
— Ah, hngh, ahn, ah…!
Seo Gyuha se contorcia toda vez que o outro penetrava como se quisesse enfiar até o saco. Talvez pela posição por trás ou por estarem fazendo no pêlo, mesmo que o pau não estivesse inchado como no rut, ele sentia um peso fora do comum e sua entrada ardia como se estivesse pegando fogo. Ainda assim, seu pau continuava ereto e soltando gotas de lubrificação; ele mesmo se achava um caso perdido por isso.
A sensação de que o clímax estava chegando tomou conta. Entre os gemidos que escapavam a cada estocada, Seo Gyuha desceu a mão e agarrou o próprio membro.
Aquela posição desgraçada acabou ajudando nesse momento. Geralmente, quando transavam por trás, ele ficava agarrado aos lençóis sem conseguir tocar no pau, e quando faziam de frente, Chayoung sempre o impedia dizendo para ele “gozar só por trás”. Hoje, porém, parecia que finalmente conseguiria gozar pela frente e por trás ao mesmo tempo.
Lee Chayoung também estava chegando ao seu limite. Ele estocou o buraco com tanta força que parecia que a cama ia quebrar, até que finalmente despejou o gozo com vontade no fundo do corpo de Seo Gyuha. Quase no mesmo instante, uma massa de prazer também jorrou do pau de Gyuha.
— Haa, haa…
A perna que estava sendo mantida aberta à força no ar finalmente desceu para a cama. Mas ainda era cedo para relaxar. Enquanto tentava recuperar o fôlego com o peito subindo e descendo, ele sentiu Lee Chayoung se mover novamente logo em seguida.
— Vai fazer de novo?
— Quando foi que você me viu parar na primeira?
— …Grande coisa.
— É uma grande coisa, sim.
Como de costume, ele respondeu com sarcasmo enquanto continuava o sexo, desta vez na posição de papai-mamãe.
Como brasas que nunca se apagam, o corpo dele se aqueceu rapidamente, e a sintonia entre os dois continuava impecável. No entanto, a mente de Lee Chayoung permanecia fria; ele se sentia mal, como se estivesse observando algo sutilmente fora do lugar. Em qualquer outra ocasião, ele teria usado expressões explícitas como as de antes para esquentar o clima, mas, dessa vez, concentrou-se apenas no ato em si, sem dizer nada.
Independentemente das emoções, o corpo avançava firmemente em direção ao clímax, como se uma barra de energia estivesse sendo preenchida. No momento em que atingiu o limite, Chayoung, como sempre, estocou fundo, despejou tudo dentro dele e retirou o pau lentamente.
Dava para ver o gozo escorrendo do buraco entreaberto. Pensando bem, ele tinha esquecido de usar camisinha e nem sequer passou pela sua cabeça que deveria gozar fora.
Se é que se pode chamar de sorte… havia um fato que ele descobriu ao consultar seu médico particular: no ano passado, ele havia feito uma vasectomia.
Ao saber que a data da cirurgia coincidia com a época em que descobriram a espera do segundo filho, ele soltou um suspiro profundo seguido de um riso seco. Era inacreditável pensar em como tinha vivido até ali ou o que o teria enfeitiçado para chegar ao ponto de fazer tal cirurgia. De qualquer forma, sentindo-se aliviado por saber que não haveria outro filho, Lee Chayoung abriu a boca:
— Vou te ajudar a limpar.
— Deixa para lá. Não encosta em mim.
— Está falando sério?
— Sim. Se já terminou, cai fora.
Ele sentiu o olhar de Chayoung sobre si, mas não durou muito tempo. Pouco depois, ouviu o som dos passos se afastando. Só então Seo Gyuha tirou o braço que cobria seus olhos e observou o quarto. Pela primeira vez em muito tempo, ele rangeu os dentes enquanto soltava um xingamento pesado:
— Filho de uma puta…
Ele mandou ir embora e o cara foi mesmo?
Pensou em ir atrás dele e pegá-lo pelo colarinho, mas acabou apenas soltando um suspiro e cobrindo os olhos novamente.
Sua cabeça estava um caos. Claramente o clima estava bom quando comiam o lanche, e mesmo tendo ficado confuso ao acordar e ver Lee Chayoung em cima dele, uma expectativa sutil surgiu logo em seguida. Isso porque o sexo com Chayoung continuava sendo incrivelmente bom e extremamente satisfatório. No entanto, no momento em que ouviu certas palavras saindo da boca dele durante o ato, sentiu o coração despencar.
“Libera seus feromônios.”
Sabendo que ele não conseguia liberar feromônios, Lee Chayoung nunca havia mencionado nada parecido até então. Mas vê-lo agir assim hoje foi a confirmação de que a memória dele realmente tinha voado, e, por outro lado, uma onda de mágoa inexplicável o atingiu. Ele poderia ter dito francamente que havia feito a cirurgia de remoção, mas, fosse por orgulho ou qualquer outra coisa, as palavras simplesmente não saíam.
— Porra, você transava muito bem comigo mesmo quando achava que eu era um beta…
Mesmo sem ter ninguém para ouvir, Seo Gyuha murmurou sozinho enquanto enterrava o rosto no travesseiro. Ao contrário de sua respiração, que já havia voltado ao normal, seu coração continuava batendo de forma irregular e incômoda.
“Deveria ter apenas ido dormir.” O arrependimento tardio veio com força. Era uma noite em que ele não conseguia afastar o pensamento de que, ao contrário de seus planos, algo continuava sutilmente fora dos eixos.
•••
↫─☫ Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna