↫─☫ Extra 15
↫─☫ Extra 15
Lee Chayoung, cuja mente permanecia presa no passado, demonstrava sem reservas aquele seu lado “gentil e babaca”, exatamente como era naquela época. Por trás de um rosto sorridente, ele fingia que nada estava acontecendo enquanto fazia o outro de empregado para tudo, ou até pedia por sexo casual no quarto do hospital assim que o acompanhante saía por um instante.
— Use um pouco mais de força nas coxas. Empine mais a bunda.
— Ah, cacete, então paga logo um curso de ioga para mim.
— Não pensa em aprender balé?
— Quer morrer?
Enquanto isso, o tempo fluía de forma justa para todos. Após repetir a rotina de bater o cartão no hospital todos os dias, a data prevista para a alta de Lee Chayoung finalmente chegou.
Tump — um som surdo ecoou quando o porta-malas do carro foi fechado. Além de assumir o volante, Seo Gyuha carregou pessoalmente a mala e seguiu em direção à entrada principal. Lee Chayoung o acompanhava logo atrás, em um passo relaxado, e perguntou:
— Quer que eu leve?
— Esquece.
Ele ainda estava com o braço engessado e, embora não tivesse a menor intenção de carregar nada, falava bonito. Ao chegarem diante da porta da casa, Seo Gyuha levantou a tampa da fechadura eletrônica e começou a digitar a senha. Foi quando se lembrou de algo, virou-se e disse:
— A senha é 020811.
A expressão de Lee Chayoung mudou sutilmente. Assim que ouviu, pareceu entender uma parte. 0208 devia ser a data de seu aniversário.
— E o que é o 11? Colocou só por colocar?
Seo Gyuha soltou um “o quê?”, mas logo percebeu que ele se referia à senha e sentiu o coração apertar.
Originalmente, a senha tinha oito dígitos com a combinação dos aniversários dos dois, mas como era um saco digitar tudo, ele tirou os dois últimos números e mudou para seis dígitos… Ele realmente esqueceu de tudo. Desgraçado.
Sempre que se deparava com situações assim, que traziam o passado à tona sem aviso prévio, sentia um certo desamparo, mas tentava recuperar o foco.
O especialista havia diagnosticado o transtorno de memória e, mesmo assim, Seo Gyuha tentou armar várias armadilhas por não conseguir descartar a suspeita, mas Lee Chayoung não caiu em nenhuma. Diante da postura dele, que remetia consistentemente a oito anos atrás, Seo Gyuha finalmente decidiu mudar sua mentalidade.
Negar não mudaria a realidade… Com as coisas já nesse estado, o importante era o que faria daqui para frente. Seguindo o conselho do médico de que recuperar a memória naturalmente era a prioridade número um, Seo Gyuha traçou um plano simples e direto.
Ele agiria como se os dois tivessem voltado aos velhos tempos, fazendo com que Lee Chayoung se apaixonasse novamente por seu charme e se sentisse atraído por ele. Achava que, assim, ele mesmo ficaria mais tranquilo e Lee Chayoung sofreria menos estresse.
Se os outros ouvissem, poderiam achar que ele estava sendo absurdamente otimista e sem noção. Para ser sincero, nem ele mesmo transbordava confiança. Mas o que poderia fazer? No momento, não havia outra forma de recuperar as memórias. Ele não podia simplesmente dar uma paulada na cabeça do outro com um taco de beisebol.
— Pode entrar.
Enquanto Lee Chayoung esteve internado, Seo Gyuha explicou aos poucos as coisas que aconteceram entre eles durante o período que ele não lembrava. Já as partes difíceis de dizer — como o fato de terem tido um filho porque ele simplesmente gozou dentro, o que os levou a um casamento um tanto apressado —, a mãe de Lee Chayoung cuidou de explicar com sua fala refinada.
Lee Chayoung ficou extremamente confuso com o tempo que desapareceu de sua mente e com o fato de estar casado com o amigo que era seu parceiro de foda, além de já ter dois filhos. Houve um dia em que ele chegou a recusar a visita de Seo Gyuha, dizendo que precisava de tempo para pensar.
Felizmente, ele demonstrou aceitar a realidade mais rápido do que o esperado, mas, por outro lado, isso trazia uma certa insegurança. Embora parecesse aceitar bem a situação por fora, era impossível prever o que ele realmente estava pensando por dentro.
De qualquer forma, os dois continuaram conversando e Seo Gyuha lhe explicou muitas coisas, mas ainda restavam partes que precisavam de mais detalhes ou nas quais ele precisava ajudar. Apresentar a casa era uma delas. Após largar a mala e as bolsas de viagem perto da entrada de qualquer jeito, Seo Gyuha começou a mostrar cada cômodo como se fosse um corretor de imóveis.
— Ali é a cozinha, ali o banheiro, para aquele lado fica o seu escritório e ali é o quarto.
Ao ver Lee Chayoung prestes a abrir a boca, Seo Gyuha se antecipou:
— Só para constar, só tem um quarto. Você implorou dizendo que um casal jamais deveria dormir em quartos separados.
— …….
Percebendo algo insolente na expressão dele, Seo Gyuha perguntou em um tom ríspido:
— Por que está me olhando assim?
— Nada, é que é estranho ouvir a palavra “casal” saindo da sua boca.
Tinha isso, mas também havia outro motivo. O Seo Gyuha que ele conhecia era o tipo de pessoa que passaria direto por alguém desmaiando ao seu lado sem nem notar, seguindo seu próprio caminho; vê-lo considerando a posição alheia e se voluntariando para ajudar era bizarro. Vendo-o assim, ele certamente parecia diferente do cara que conhecia, mas, embora fosse um pouco estranho, não sentia repulsa, o que era um alívio.
— Não fui eu quem disse isso, foi você.
Seo Gyuha rebateu resmungando e massageou a nuca, sem jeito. Parando para pensar, ele mesmo admitia que aquela era uma versão de si que seria inimaginável há dez anos.
— Então a gente dividia a cama também?
Havia uma energia negativa na pergunta, que soou como um monólogo. Como esperado, o que veio a seguir não foi nada agradável:
— O que acha de dormirmos em quartos separados por enquanto? A casa em si já é estranha para mim, e não consigo me imaginar dormindo com outra pessoa… Acho que preciso de um tempo para me adaptar.
O tom era indiferente. Diante daquela atitude natural, como se estivesse pedindo algo óbvio, Seo Gyuha sentiu algo borbulhar novamente em seu interior, mas controlou-se através do autocontrole mental.
“O que está na minha frente é o Lee Chayoung de 28 anos. É o Lee Chayoung de 28 anos. Vinte e oito… Ah, cacete.”
— Que seja. Você vivia grudado em mim e era um saco, para mim também vai ser ótimo dormir em quartos separados.
Com frases que não vinham do coração, ele buscou uma vitória moral que só deixava feridas e continuou a apresentar a casa. Ao chegarem diante da escada, a preguiça de subir falou mais alto, então ele apenas apontou para o segundo andar e explicou:
— Ali é a sala de cinema, lá é a academia, logo ao lado fica um banheiro e o lado oposto é todo de quartos de hóspedes.
— Onde fica o closet? Quero trocar de roupa primeiro.
Apesar de ter esquecido o que era realmente importante, a personalidade desnecessariamente metódica continuava a mesma. Como ficava no caminho para o quarto, Seo Gyuha disse para ele o seguir e mudou de direção. Quando estavam próximos, Lee Chayoung subitamente o fez parar.
— O que é aquele lugar ali?
Seo Gyuha virou a cabeça distraidamente e encarou. O dedo de Chayoung apontava para o espaço de leitura e brinquedoteca de Gyuyoung.
Gyuyoung não havia herdado apenas a aparência idêntica à de Lee Chayoung, mas também a personalidade. Ele preferia estudar ou ler livros a correr e suar; demonstrava uma maturidade que Seo Gyuha jamais teria imaginado para si mesmo quando tinha aquela idade.
— Ali é…
No instante em que ia responder com um tempo de atraso, o celular no bolso de seu casaco tocou ruidosamente. Ele conferiu quem estava ligando, pediu um momento e atendeu imediatamente.
— Oi, Gyuyoung.
— Papai! O que você está fazendo?
— Acabei de chegar em casa. E você, o que está fazendo?
— A vovó me deu um lanche e eu estou comendo!
Ao ouvir a vozinha tagarela, Seo Gyuha sorriu relaxado pela primeira vez em muito tempo. Dizem que a falta de alguém é sentida muito mais do que a presença de um novo integrante, não é? Ele não tinha certeza se era exatamente esse o ditado, mas, ao passar por isso, sentiu que era a mais pura verdade.
No terceiro dia após o acidente, decidiram que os avós cuidariam das crianças por um tempo e as levaram. Mesmo que Chayoung tivesse aceitado que havia um problema com sua memória, viver a realidade fora do hospital era muito diferente e poderia ser difícil; acima de tudo, não havia lembrança alguma dos filhos na mente de Lee Chayoung.
Foi uma decisão com a qual ele mesmo concordou… Mas, assim que deixou as crianças na casa dos pais e voltou sozinho, sentiu um silêncio indescritível. Sentia falta de Gyuchan, que vivia emburrado mas de vez em quando sorria mostrando seus dentinhos como grãos de arroz, e especialmente do primogênito, Gyuyoung. Talvez por ser um pai de primeira viagem que lutou para criá-lo por sete anos, o vazio em um canto do seu coração era ainda maior.
Ao encerrar a ligação, Seo Gyuha virou a cabeça bruscamente para Lee Chayoung e soltou as palavras rápido, como um murmúrio:
— Recupera logo a memória, seu desgraçado.
— O quê?
— …Que você se acha demais.
— Como se isso fosse novidade.
Vendo-o responder com tanta naturalidade, sem ter a menor ideia do que ele estava sentindo por dentro, sentiu a raiva subir, mas resolveu contê-la com um suspiro. Com o “poder dos vinte e oito” — ou melhor, repetindo para si mesmo que a mente daquele sujeito estava nos 28 anos —, não tinha escolha a não ser ser generoso por enquanto.
No entanto, havia pontos que precisavam ser deixados bem claros. Seo Gyuha fez Lee Chayoung se sentar no sofá e caminhou rapidamente para abrir a porta do quarto. Ao voltar, trazia nas mãos um papel e uma caneta, com marcas evidentes de que ele havia passado um bom tempo pensando naquilo, apesar de não combinar muito com ele.
— Assine.
Diante do papel e da caneta colocados sobre a mesa e da ordem repentina para assinar, Lee Chayoung perguntou com uma expressão que não escondia a perplexidade:
— O que é isso?
— Se ler, vai saber.
Respondeu acompanhado de um gesto com o queixo. Lee Chayoung, então, desviou o olhar lentamente para a mesa. Viu a caligrafia rabiscada no papel branco:
[Se Lee Chayoung fingir que não é casado e flertar ou trair com outra pessoa (incluindo traição emocional), deverá dar a Seo Gyuha 80% de todo o seu patrimônio e 50% de suas ações como pensão.]
Enquanto isso, Seo Gyuha fingia indiferença, mas, por dentro, observava Lee Chayoung em um estado de pura tensão.
Embora ele parecesse ter aceitado o fato de serem um casal casado, não havia garantia de que ele não teria ideias erradas, já que todo o tempo que construíram juntos havia desaparecido da sua memória. Como tinham um histórico de se pegarem intensamente quando eram apenas parceiros de foda, e sabendo o quão insaciável era o desejo sexual de Lee Chayoung, era necessário despertar nele algum senso de responsabilidade, nem que fosse de forma simbólica.
Momentos depois, o olhar de Lee Chayoung também se voltou para Seo Gyuha. Ele pensou que, por serem condições absurdas, o outro poderia ignorá-lo ou ficar furioso, mas, para sua surpresa, Lee Chayoung estava calmo.
— Foi você mesmo quem escreveu?
— Foi.
— Deve ter pensado bastante nisso.
Havia um leve rastro de riso em sua voz. Em seguida, ele pegou a caneta com a mão esquerda e assinou sem hesitar ao lado de seu nome no rodapé. A falta de hesitação foi tamanha que o próprio Seo Gyuha se surpreendeu, mas logo recobrou a postura e disparou uma ameaça:
— Não estou brincando. Se você se desviar ou se engraçar com outro cara, vou te fazer passar a maior vergonha do mundo e arrancar uma pensão do caralho de você.
— Eu vou me esforçar para que isso não aconteça. Mas eu também tenho uma exigência a fazer. Para sermos justos.
A palavra “justo” pesou no ar de uma forma inesperada. Como não tinha pensado até ali, Seo Gyuha engoliu em seco e perguntou:
— O que é?
— Quando eu ligar, atenda na hora.
Ele esperava algo grandioso, à altura da sua própria exigência, mas o pedido foi surpreendentemente simples. No instante em que estava prestes a dizer “ok” sem nem pensar, foi como se seus ancestrais o iluminassem e um estalo de lucidez atingiu seu cérebro.
— Você está louco? Isso é injusto pra caralho.
— Injusto? Por quê?
— Eu posso não atender porque estou dormindo ou porque estou cagando. Acha que faz sentido colocar isso no mesmo nível de uma traição? Puta que pariu, por pouco eu não caí no seu golpe.
Percebendo que ele tinha pegado o ponto, Lee Chayoung corrigiu levemente a fala de Seo Gyuha:
— Não vou colocar condições de pensão, então não se preocupe. E não estou falando de quando você não puder atender por algum motivo real; o que eu quero é que você não ignore minhas ligações de propósito.
Para ele, a experiência de sentir o sangue secar devido à evasiva unilateral do outro já tinha sido suficiente. Sendo simples como era, Seo Gyuha concordou prontamente ao entender do que se tratava. Ele também aceitou a exigência de deixar aquilo registrado e assinou o termo de compromisso improvisado.
Com esse obstáculo superado, ele finalmente sentiu um pouco de paz de espírito.
Depois de dobrar o termo de compromisso de qualquer jeito e enfiá-lo no bolso da calça, Seo Gyuha guiou Lee Chayoung de volta ao quarto. Como o médico havia dito que expor o paciente à sua realidade atual poderia ajudar a recuperar as memórias mais rápido, ele pretendia ceder ao outro o quarto principal, que estava repleto de vestígios dos dois, mesmo que fossem invisíveis para Chayoung agora.
— Você fica com este aqui.
Lee Chayoung ficou surpreso por ele estar cedendo o quarto principal, que era visivelmente o melhor. Achou que Gyuha diria que ficaria com ele.
— E você, onde vai dormir?
— Em qualquer lugar.
— Eu posso te ceder o puff, se quiser.
— O que é isso?
— Aquele ali, o que parece um apoio para os pés no pé da cama.
— Ah, vai se foder!
Após desferir um golpe de cotovelo como punição, Seo Gyuha deu meia-volta dizendo para ele descansar. Seus passos se dirigiram à escada que levava ao segundo andar. Ao chegar ao patamar e olhar para baixo pelo corrimão, viu que Lee Chayoung já havia desaparecido, provavelmente entrando no quarto.
Terminou de subir os degraus restantes e abriu a porta do quarto mais próximo. Assim que se jogou na cama, o cansaço pesou sobre seu corpo como chumbo. Por um momento, ficou encarando o teto fixamente, até que o rosto de Lee Chayoung surgiu naturalmente em sua mente.
—”Se for um sonho, eu aproveito; se for o Show de Truman, eu também aproveito; se for a realidade, o jeito é aceitar.”
Quando Seo Gyuha perguntou se ele estava bem, preocupado por ele ter aceitado a situação rápido demais — considerando que oito anos de memórias haviam sumido —, foi exatamente isso que Lee Chayoung respondeu.
Para Seo Gyuha, aquilo era obviamente algo positivo. Teria sido uma dor de cabeça sem fim se ele se recusasse a acreditar ou se exigisse que mantivessem distância. Mas isso era apenas um alívio relativo; o problema fundamental da memória incompleta continuava ali.
“Ele é um cara inteligente… Vai se lembrar logo.”
Confortando-se com essa ponta de esperança, Seo Gyuha decidiu fechar os olhos por um momento. Embora tivesse agido com indiferença na frente de Lee Chayoung, a verdade era que seus nervos estavam à flor da pele pela primeira vez em muito tempo, e ele precisava de um instante para relaxar.
No escritório, onde todo ruído externo era perfeitamente bloqueado, não se ouvia nem o tique-taque de um relógio comum. Em meio ao silêncio pesado, apenas o conteúdo dos arquivos no monitor mudava gradualmente conforme Lee Chayoung movia, com certa dificuldade, sua mão esquerda.
Seu rosto, enquanto estava sentado à mesa, transbordava concentração. No espaço vazio da mesa, havia apenas uma xícara de café e, em outro canto, uma montanha de documentos que o Secretário Yeom havia impresso e trazido para ele.
•••
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna