↫─☫ Extra 14
↫─☫ Extra 14
— Ei, espera um pouco! Ah, não. Não!
Com um grito agudo, Seo Gyuha abriu os olhos abruptamente, como se tivesse um espasmo. O som de sua própria respiração, ofegante e pesada, ecoava em seus ouvidos. Ele permaneceu estático por um momento, como alguém que tivesse perdido a alma, antes de se levantar lentamente.
A paisagem que entrava em seu campo de visão era familiar. À sua frente, havia uma TV de tela grande e um sofá; na janela de vidro que ocupava mais da metade da parede esquerda, as cortinas estavam abertas apenas um palmo, exatamente como na noite anterior, antes de ele adormecer.
— Ufa…
Junto com um suspiro, ele passou a mão pela nuca, sentindo a palma da mão úmida de suor frio. Rugas leves se formaram em sua testa lisa. Já havia ido dormir tarde por ter sido atormentado por Lee Chayoung e, para piorar, acabou tendo um pesadelo.
A pessoa que apareceu no sonho não era ele, mas sim Lee Chayoung. Em um lugar desconhecido, onde uma chuva torrencial caía do céu e o matagal se estendia por todos os lados, Lee Chayoung fugia desesperadamente de algo que emanava uma energia sombria e sinistra, como um buraco negro.
Seo Gyuha não estava no mesmo espaço que ele. A imagem de Lee Chayoung fugindo era desenhada em sua mente como se assistisse a um filme em uma tela e, no momento em que ele foi finalmente engolido por aquela massa escura, Gyuha acordou gritando.
A cena era tão real que parecia ainda estar vívida diante de seus olhos.
“Ah.”
Ao virar a cabeça subitamente, percebeu que o lugar ao seu lado estava vazio. Por causa daquele sonho, ficou momentaneamente tenso, mas o som fraco de água vindo do banheiro soou como um sinal para que se acalmasse.
Ao verificar o relógio no celular, sentiu-se ainda mais aliviado. 06h34min. Para Seo Gyuha, era praticamente o meio da noite, mas para Lee Chayoung, era o horário em que ele estaria se preparando para o trabalho.
Exalando mais um suspiro, ele massageou a nuca rigidamente contraída. Sua expressão permanecia de desagrado.
O motivo era o sonho ridículo que acabara de ter. Originalmente, ele não costumava sonhar muito e nem era do tipo que se apegava a esse tipo de coisa, mas talvez por ter sido tão vívido, o gosto que ficou na boca não era nada bom. Para usar uma metáfora, era uma sensação incômoda e sinistra, como se tivesse pisado descalço em fezes enquanto caminhava pela rua.
Felizmente, havia um bom método para esses momentos. Seo Gyuha abriu o aplicativo de buscas no celular e digitou imediatamente as palavras na barra de pesquisa.
[Sonhar sendo engolido por algo]
No entanto, os resultados não foram nada satisfatórios. Ele tentou mudar os termos de busca pouco a pouco para encontrar uma interpretação, mas parecia não haver ninguém que tivesse tido o exato mesmo sonho. Ao encontrar uma pergunta minimamente similar e clicar nela, viu um comentário deixado por alguém que se autointitulava “Grande Xamã Baksu”, oferecendo o que seria a interpretação do sonho.
[Embora a maioria dos pesadelos costume ter uma interpretação oposta, o sonho que o autor descreveu parece ser um presságio de que um grande desastre ou má sorte ocorrerá em um futuro próximo. Recomendo que tome cuidado com suas atitudes por enquanto e não baixe a guarda com o que está ao seu redor.]
— …… Esse cara é um tremendo vigarista.
Deveria ter percebido no momento em que ele se autointitulou xamã. Ter cuidado com as atitudes e ficar alerta com o que está ao redor; até ele seria capaz de dizer algo assim. Além disso, como era claramente um conteúdo negativo, o agradou ainda menos.
”Vou procurar mais uma vez?”
Moveu os dedos novamente no mesmo instante em que pensou. Enquanto apagava tudo o que havia digitado e tentava pensar em palavras alternativas, a porta do banheiro se abriu com um estalo e Lee Chayoung saiu. Como se quisesse provar que acabara de se lavar, ele usava apenas uma cueca boxer em seu corpo firme.
Ao encontrar Seo Gyuha sentado sozinho na cama, uma expressão de surpresa surgiu no rosto de Lee Chayoung. Ele se aproximou com passos largos e o encarou nos olhos.
— Por que acordou tão cedo?
— ….. Por nada.
Seo Gyuha coçou a bochecha e economizou nas palavras. Havia acordado assustado por causa daquela porcaria de sonho, mas não queria falar sobre isso.
— Seu corpo está bem?
— Você acha que estaria?
A partir de hoje, Lee Chayoung teria um cronograma de viagem de negócios ao exterior por duas semanas e, usando isso como desculpa, Seo Gyuha teve que ser atormentado por ele até tarde da madrugada. Como ele não perdia o velho hábito de morder aqui e ali enquanto metia impiedosamente, sua parte de baixo ainda estava latejando.
— Quer fazer mais uma vez? Ainda tenho um tempinho.
— Se tiver confiança de que consegue terminar em uma única vez, vá em frente.
O tempo mudava as pessoas gradualmente, e Seo Gyuha não era exceção. Se fosse antigamente, ele teria ficado sério dizendo para nem sonhar com isso ou teria xingado com o olhar, mas agora já tinha a desenvoltura necessária para rebater à altura.
De qualquer forma, ele achou que o outro iria para o closet agora, mas, ao contrário do esperado, Lee Chayoung sentou-se na beira da cama. Ele abraçou levemente a cintura de Seo Gyuha por trás e apoiou o queixo em seu ombro.
— Não quero ir trabalhar.
Ao ouvir a voz baixa, Seo Gyuha olhou de soslaio com uma expressão que dizia: “O que deu nesse desgraçado?”.
Tanto no passado quanto agora, Seo Gyuha desfrutava de uma vida tranquila sem mudanças. Se não houvesse algo especial, ele aparecia no café apenas duas ou três vezes por semana e, graças à governanta e à babá, vivia livre do fardo das tarefas domésticas ou da criação do filho.
Diferente dele, Lee Chayoung não dava brechas em sua vida corporativa. Não se sabia se era por sua tendência perfeccionista ou pela pressão de um dia assumir o posto de próximo líder do grupo, mas mesmo nos dias em que passava a noite em claro no escritório por causa do trabalho ou naqueles em que os dois rolavam na cama até tarde da madrugada, ele saía de casa pontualmente assim que a manhã chegava.
É claro que havia momentos em que ele dizia “não quero ir trabalhar”, mas isso só acontecia quando o rut estava próximo, e mesmo assim não passavam de palavras ditas por brincadeira. Na realidade, ele nunca havia se atrasado sequer uma vez; então, ouvir aquele cara dizer que não queria ir para a empresa, mesmo não sendo época de rut, trouxe uma sensação estranha.
A umidade que restava no cabelo de Lee Chayoung passou para o pijama de Seo Gyuha, deixando um rastro molhado em seu ombro. No entanto, em vez de se irritar ou empurrá-lo, Seo Gyuha falou com uma voz raramente séria.
— Que horas é o seu voo hoje?
— Quatro e meia da tarde.
— Você tem mesmo que ir?
— Tenho.
A segunda pergunta era uma para a qual ele já sabia a resposta. Lee Chayoung não era o tipo de pessoa que empurraria seu trabalho para os outros e, mesmo que quisesse, Seo Gyuha sabia bem que não havia ninguém que pudesse substituí-lo.
— Por quê? O que fizemos ontem não foi o suficiente?
— Que porra você está falando?
Desta vez, ele não conseguiu rebater com naturalidade e o repreendeu, mas, no fundo, pensou que preferia que fosse apenas por esse motivo. Após soltar um curto suspiro, Seo Gyuha moveu os lábios novamente. Ele deixou escapar, sem jeito, palavras desconhecidas que quase nunca havia dito antes.
— Tome cuidado na viagem. Não se distraia e cuide bem do que tem entre as pernas.
Envergonhado, acabou acrescentando algumas palavras desnecessárias. Lee Chayoung, que era rápido em perceber as coisas, em vez de brincar ou arrumar briga, aceitou o comentário com suavidade.
— Não se preocupe. Eu ligo antes de partir.
Após deixar um beijo rápido, Lee Chayoung finalmente saiu do quarto. Mesmo depois que a porta se fechou, Seo Gyuha ficou olhando para lá por um tempo; logo em seguida, cobriu-se com o edredom e tentou dormir novamente. Sua expressão ainda carregava um leve franzido.
Quando abriu os olhos outra vez, a sensação residual desagradável permanecia a mesma. Felizmente, não teve o mesmo sonho de novo, mas sentia-se cansado e com o corpo todo pesado, como alguém que tivesse vagado por um labirinto nublado a noite inteira.
— Que sensação de merda.
Foi bem no momento em que expressava seus sentimentos sem filtros que o choro de um bebê começou a ecoar pelo quarto silencioso. A fonte era o tablet sobre a mesa de cabeceira. Seo Gyuha esticou o braço e pegou o aparelho.
Na tela, viu a babá pegando no colo o bebê que chorava alto na cama, tentando acalmá-lo com carinhos. Como não queria aparecer com remela nos olhos, ele lavou o rosto de qualquer jeito e seguiu para o quarto do bebê.
Aham, após pigarrear e abrir a porta, ele viu exatamente o que tinha acabado de ver na tela: a babá embalando o bebê. Um sorriso bondoso se somava ao seu rosto marcado pela experiência.
— Olá… Gyuchan, olha, o papai chegou!
Uma risadinha escapou dos lábios de Seo Gyuha. Originalmente, a expressão padrão do bebê já era meio emburrada, mas, talvez por ter acabado de acordar, Gyuchan estava com uma cara de quem estava realmente de mau humor. Ele se aproximou e cutucou de leve as bochechas fofas do bebê, sem machucar.
— Dormiu bem?
— Wu.
Então, como se tivesse aprendido com alguém, o bebê virou o rosto bruscamente para o lado oposto. Seo Gyuha foi para aquele lado e cutucou a bochecha do bebê novamente; quando ele desviava, Gyuha ia para o outro lado e repetia a mesma brincadeira.
O bebê esperto expressou sua clara recusa com um som de “ubububu”. Depois de algumas repetições, ao ver os lábios úmidos de saliva começarem a tremer, Seo Gyuha finalmente retirou a mão. Ele já havia aprendido por experiência que, se desse mais um passo, o pequeno explodiria em um choro desesperado.
A babá, que esperou até que ele terminasse sua própria forma de demonstrar afeto, dirigiu-se a Seo Gyuha com um sorriso gentil.
— Vou preparar a papinha do Gyuchan, quer que eu o leve comigo?
— Não. Pode me dar ele aqui.
— Vem com o papai — disse Seo Gyuha, estendendo as duas mãos. Embora não pudesse se comparar a uma babá veterana, sua postura ao segurar o bebê não era nada mal, já que tinha experiência prévia.
O irmãozinho que Kyuyoung tanto desejava nasceu há nove meses, em um dia de março, quando a primavera morna estava prestes a começar. Os mais velhos de ambas as famílias ficaram extremamente felizes ao saberem da segunda gravidez e não pouparam cuidados, enviando todo tipo de alimento revigorante. Talvez por isso, o segundo parto tenha sido relativamente tranquilo. É claro que, por alguns dias após a cirurgia, ele sentiu como se fosse morrer de dor, mas o tempo, que nunca deixa de passar, serviu como remédio.
No fundo, Lee Chayoung parecia desejar que o segundo fosse uma menina, mas, assim que viu o bebê, não hesitou em se tornar um pai bobo e coruja. Parte disso era por ser seu próprio filho, mas, para ser bem sincero, parecia haver outro motivo. Como diz o ditado “quem planta colhe”, por algum capricho da genética, o segundo filho, Gyuchan, era a cópia fiel de Seo Gyuha quando criança.
Se fosse apenas o rosto parecido, ele nem falaria nada. Mas o pequeno acordava e chorava por qualquer coisa, abria o berreiro se algo o desagradava minimamente, reclamava quando era tocado e chorava de novo se perdesse alguém de vista; mesmo sendo do tamanho de uma noz, já tinha uma teimosia que não era brincadeira. Até o jeito de descontar a raiva puxando o boneco de apego era idêntico.
“Como pode ser tão igual a você quando era pequeno?”
Às palavras de sua mãe, Seo Gyuha deu um pulo dizendo que ela não sabia do que estava falando, mas, conforme o bebê crescia, ele não conseguia afastar a ideia de que realmente parecia ser o caso.
— Uuu, uuuung.
Até agora era assim. Ele parecia estar quietinho no colo, mas não passou nem um minuto antes de começar a se contorcer para ser colocado no chão.
— Tá bom, tá bom, seu moleque.
Ao dobrar os joelhos e colocá-lo no chão, o bebê sentou-se com um baque de sua bunda de fralda. Após olhar ao redor por um instante, Gyuchan logo começou a balançar o corpo em direção a algum lugar. Era o local onde ficavam reunidos todos os seus brinquedos e bonecos.
— Quer ir ali?
— Ung.
Quando tentou pegá-lo no colo novamente, o bebê recusou balançando a cabeça e esticou as duas mãos para frente. Vendo aqueles dedos curtos e gordinhos com um significado tão claro, Seo Gyuha soltou uma risada incrédula. Era surpreendente como, sendo apenas um pingo de gente que nem tinha um ano ainda, ele já tinha uma autoafirmação tão firme.
Primeiro, ele ajudou a criança a se levantar e segurou suas duas mãos como desejado. Embora os passos fossem instáveis, com a ajuda de Seo Gyuha, ele felizmente não caiu e chegou em segurança ao destino.
Sentando-se com um baque novamente, Gyuchan imediatamente mostrou interesse nos brinquedos. Ele tocou em blocos macios, rolou uma pequena bola e, logo em seguida, olhou para Seo Gyuha balbuciando sem parar. Não dava para entender o que dizia, mas parecia significar que estava de bom humor. Bem, se não fosse, tanto faz.
— Tá feliz?
Ao perguntar com um sorriso de canto, o bebê virou o rosto bruscamente e voltou a explorar os brinquedos. Parecendo ter encontrado algo de que gostou, ele engatinhou sobre os joelhos, agarrou um boneco de girafa comprido e soltou uma gargalhada rara.
Era fofo vê-lo brincando bem com o que considerava dele e, por outro lado, uma vontade de brincar surgiu em Gyuha. Ele esticou a mão de mansinho para pegar a perna da girafa, mas, infelizmente, naquele momento a porta se abriu e a babá reapareceu.
— Gyuchan, vamos comer a papinha.
— Mama, mama!
Assim que entendeu a palavra “papa”, Gyuchan mexeu o bumbum para cima e para baixo, reagindo com animação. Seo Gyuha o pegou no colo para acalmá-lo e o sentou na cadeirinha da mesa de jantar. Assim que colocou o pote com a papinha na sua frente, Gyuchan imediatamente pegou um punhado e levou direto à boca.
Ver ele comer bem, mesmo babando um pouco, era sinal de que, felizmente, estava gostando do sabor. Mesmo assim, com sua generosidade típica, resolveu dividir a comida e passou a papinha na boca do ursinho de pelúcia, repetindo isso várias vezes antes de, de repente, parar os movimentos e dizer “papa” enquanto olhava para a babá. O significado era claro: agora que estava com preguiça de comer sozinho, queria que ela o alimentasse.
A babá, já acostumada com essa situação, habilmente pegou a papa com a colher, deu uma colherada para ele e rapidamente limpou a mão do bebê. Seo Gyuha, que observava essa cena bem à sua frente, soltou uma risada repetida e incrédula.
— A quem você puxou para ser assim?
— Aba.
— Hã, sério… o papai vai embora agora, tá?
Independentemente do que ele dizia, toda a atenção de Gyuchan estava voltada apenas para a comida. Após dar um leve beliscão na bochecha gordinha — para não dizer inchada — do pequeno, Seo Gyuha levantou-se com a mão na cintura e foi para a sala. Sabendo que o café estaria movimentado por ser quase época de Natal, ele pretendia comer algo rápido e sair.
Após preparar as bebidas e apertar o botão de chamada, um cliente apareceu de algum lugar e se aproximou do balcão de retirada. “Aproveite”, cumprimentou por hábito e, após colocar o pager de volta no lugar, Seo Gyuha sentou-se em seu banco exclusivo e cruzou os braços relaxadamente.
A multidão de clientes que surgiu no horário de almoço já havia ido embora, e agora o local estava bem tranquilo. Seo Gyuha olhou para onde os funcionários estavam e sugeriu um pequeno agrado.
— Vamos beber algo também?
— Seria ótimo.
Pouco depois, Seo Gyuha seguiu para a sala de descanso nos fundos, segurando uma caneca com latte quente. Após colocar a xícara sobre a mesa, ele se esparramou no sofá e esticou as pernas.
— Ai, minhas costas…
Um gemido de dor escapou involuntariamente. Pensar que passaria por uma abstinência forçada de duas semanas sem Lee Chayoung fez com que tivessem uma noite mais intensa que o normal, e o impacto disso estava durando bastante. Como não havia ninguém olhando, ele soltou um longo bocejo abrindo bem a boca e tirou o celular do bolso de trás da calça. No entanto, havia apenas notificações inúteis de aplicativos; a mensagem que esperava não aparecia. Como ele disse que o voo era por volta das 16h30, provavelmente ligaria após chegar ao aeroporto.
Sentindo as pálpebras pesarem só de estar deitado, Seo Gyuha se levantou novamente. Quando morava sozinho, não importava se dormia jogado ali ou se passava a noite em claro, mas agora sua situação era diferente.
Enquanto bebia o café, que já havia esfriado um pouco, o celular vibrou brevemente. Ao puxar a barra de notificações, viu uma mensagem enviada por Park Chanwoong no chat em grupo.
[O que estão fazendo? Estou voltando de um trabalho externo e está nevando pra caramba.]
Ao ver a mensagem, ele virou o rosto distraidamente para a janela e notou que ali também nevava. Seo Gyuha se levantou e se aproximou do vidro. Céu nublado, flocos de neve bem grossos; não parecia que ia parar logo. Havia caído uma nevasca prematura há pouco tempo e, por algum motivo, hoje parecia que seria igual.
Enquanto isso, o celular em sua mão vibrou mais uma vez.
[Quem foi que leu agora? Vou conceder a oportunidade especial de tomarem uma comigo hoje à noite, kkk.]
— O que será que ele comeu de errado no almoço?…
Parecia um convite para beber, mas, infelizmente, ele já tinha outros planos para aquela noite. Não sabia como ou onde ela tinha descoberto sobre a viagem de Lee Chayoung, mas sua mãe havia ligado pedindo para ele levar as crianças para jantar; então, depois de muito tempo, ele passaria na casa dos pais.
[Eu não posso.]
[Ah, por que? Por que, por que? Queria comer um buchinho com soju hoje.]
[Tenho compromisso.]
[É mais importante que eu????]
[S]
Preguiçoso demais para digitar até a segunda letra, ele enviou apenas uma e voltou para o sofá, recostando as costas de forma bem relaxada. Se dependesse da sua vontade, ficaria ali descansando até a hora de sair, mas mudou de ideia ao se lembrar de Kim Miseon. Trabalhando com dedicação há anos, ela agora era a orgulhosa gerente do café e também uma gestante no quinto mês de gravidez.
A força do tempo era mais impressionante do que parecia e conseguiu mudar Seo Gyuha um pouco. Na época em que era um jovem imprudente, ele reconhecia que vivia de forma arrogante e totalmente focado em si mesmo; agora, conseguia notar minimamente as situações e circunstâncias alheias e, dependendo da ocasião, até sabia o que era ter consideração.
“Claro que, na maioria das vezes, ainda não tenho.”
Como as reclamações contínuas por mensagem estavam barulhentas, ele colocou o aparelho no silencioso e a paz reinou. Após descansar mais um pouco bebericando o resto do café, Seo Gyuha segurou a cintura, que ainda latejava, e retornou ao salão.
O tempo passou rápido. Atendendo os clientes que entravam esporadicamente e jogando conversa fora com os funcionários, o crepúsculo logo caiu e as ruas lá fora escureceram.
Foi no momento em que pegou o celular para ver que horas eram. Assim que ligou a tela, os olhos de Seo Gyuha se arregalaram levemente.
— Secretário Yeom (3)
— Mãe (16)
— Sogra (4)
No curto intervalo em que deixou o aparelho no silencioso, várias chamadas perdidas haviam entrado de todos os lados. Mãe e sogra ele até entendia, mas o contato do Secretário Yeom era inesperado.
Isso porque ele era o primeiro secretário particular de Lee Chayoung e, embora tivesse o número salvo como um tipo de contato de emergência, nunca haviam trocado uma ligação sequer até então.
— …….
Naquele momento, por um motivo desconhecido, o pesadelo sinistro da madrugada — no qual Lee Chayoung era perseguido e engolido por algo monstruoso — surgiu de repente em sua mente. Sua testa se franziu involuntariamente. Ele tentou ligar primeiro para o Secretário Yeom, mas a tela do celular mudou abruptamente e sua mãe ligou novamente.
— Alô, mãe.
— O que você estava fazendo para não atender o telefone esse tempo todo?
Ao ouvir a voz subitamente irritada assim que atendeu, Seo Gyuha franziu o cenho, afastou o celular um pouco e depois o levou de volta ao ouvido.
— Eu estava trabalhando, então deixei no silencioso. Aconteceu alguma coisa?
Ele resmungou enquanto mexia na outra orelha, mas o sentimento durou pouco; às palavras seguintes de sua mãe, ditas com uma voz misturada entre soluços e tremores, Seo Gyuha acabou paralisado onde estava.
— O Chayoung… *snif*… sofreu um acidente de carro grave e foi levado para o hospital.
— …Um acidente de carro?
— A Taesun me ligou, e eu estou vindo de Daejeon com seu pai agora mesmo, então…
Não ouviu mais nada depois disso. Seo Gyuha simplesmente chutou a porta e saiu da cafeteria.
Mesmo sendo tarde de um dia útil, o grande hospital estava lotado a ponto de transbordar. A frente dos elevadores estava igualmente congestionada. Após conferir os andares em cada elevador várias vezes, Seo Gyuha acabou soltando um breve palavrão e começou a subir correndo pelas escadas de emergência.
À medida que subia os andares, sentia o fôlego ficar cada vez mais curto e sua energia se esgotar rapidamente. No entanto, não conseguia parar. Segurando no corrimão e continuando a subida, finalmente alcançou o oitavo andar, onde ficava o centro cirúrgico.
Enquanto vasculhava freneticamente a sala de espera dos acompanhantes, seus olhos se encontraram com um rosto familiar que se virava naquele momento. Era a mãe de Lee Chayoung.
— Gyuha!
Aproximando-se a passos largos, Seo Gyuha abriu a boca apressadamente, com a respiração ainda descompassada.
— E o Chayoung?
Diante da aparência dele, que parecia prestes a desmaiar de cansaço, Choi Taeseon respondeu em um tom calmo, porém rápido, tentando tranquilizá-lo:
— Ele fraturou o braço direito e acabou de entrar no centro cirúrgico. Meu Deus, olhe o quanto você está suando.
Ela tirou um lenço da bolsa e o estendeu para Seo Gyuha. Enquanto ele agradecia e limpava a testa de qualquer jeito, o Secretário Yeom, que havia trazido água a pedido de Choi Taeseon, ofereceu o copo a ele. Graças a isso, após recuperar um pouco o fôlego, Seo Gyuha perguntou novamente:
— O que aconteceu?
— Disseram que um caminhão, cujo motorista dormiu ao volante, bateu na traseira dele. Como o braço fraturou, ele entrou agora há pouco para a cirurgia.
Ao recordar o momento em que recebeu a ligação, Choi Taeseon sentiu o coração palpitar novamente. A cena do acidente, que viu por fotos ao chegar ao hospital, foi devastadora o suficiente para fazer sua vista escurecer por um instante. Segundo o Secretário Yeom, houve até uma segunda colisão com um veículo de outra faixa; ter sofrido apenas uma fratura foi, na verdade, algo próximo a um milagre divino.
— E em outros lugares? Disseram que ele está bem?
— ……Sim. Ele tem algumas contusões, mas disseram que não são graves.
— Que alívio.
Ao vê-lo genuinamente aliviado, Choi Taeseon pensou que fez bem em medir as palavras. Na verdade, quando o filho foi levado ao hospital, ele se queixou de tontura, por isso fizeram primeiro uma ressonância magnética, que não indicou nenhuma anormalidade. Não havia necessidade de mencionar isso e deixar ainda mais ansioso o rapaz que já havia chegado pálido de susto.
— De qualquer forma, então a mor…
Ele quase deixou escapar um suspiro pesado, mas desta vez Seo Gyuha freou rapidamente e suavizou a expressão.
— Tirando o ferimento no braço, ele está bem, não está?
— Sim. Um professor que conhecemos bem está realizando a cirurgia, então não precisa se preocupar tanto.
Ao ver a expressão e o olhar firme dela, Seo Gyuha finalmente se deixou cair sentado em uma cadeira, como se desabasse.
Enquanto ainda tentava controlar a respiração ofegante, sentiu algo estranho e, ao olhar de relance para baixo, viu as pontas de seus dedos tremendo freneticamente, como se fossem um massageador elétrico.
Ele cerrou o punho com força uma vez e o abriu, limpando com a palma da mão a nuca encharcada de suor por ter subido as escadas correndo. Por dentro, resmungou tardiamente:
“Minha mãe nem sabe direito e disse que o acidente foi enorme ou algo assim, me matando de susto…”
Como se pudesse ler seus pensamentos, Choi Taeseon acariciou as costas de Seo Gyuha e o acalmou com uma expressão de desculpas.
— Você ficou muito assustado quando recebeu a notícia, não foi?
— ……Um pouco.
Na verdade, ele tinha ficado tão apavorado que sua vista escureceu e suas pernas tremeram, mas como acabara de ouvir que ele não estava gravemente ferido, tentou se fazer de forte tardiamente.
— Quer um tônico para os nervos?
— Não, vou ali beber um pouco de água.
Seo Gyuha saiu, virou dois copos de papel cheios de água seguidos e retornou à sala de espera. Ao sentar-se novamente na cadeira, só então notou o monitor que mostrava o status das cirurgias, algo que não tinha visto antes.
Embora o último caractere do nome estivesse oculto por um asterisco, era óbvio para qualquer um que se tratava de Lee Chayoung; as palavras “Cirurgia em andamento” apareciam logo ao lado do nome dele. Ele sentiu os batimentos cardíacos, que mal haviam se acalmado, acelerarem um pouco mais uma vez.
Fiel à sua personalidade meticulosa, Lee Chayoung fazia check-ups completos todos os anos e era o tipo de pessoa que se cuidava mais do que qualquer um. Em todos os anos morando juntos, Seo Gyuha nunca o vira sequer com um resfriado comum… O fato de ele estar em um centro cirúrgico, e não apenas em uma consulta simples, causava um enjoo desagradável.
Logo, o olhar de Seo Gyuha se voltou para Choi Taeseon, ao seu lado.
— Ele realmente machucou apenas o braço, não foi?
— Sim. Eu o vi pessoalmente antes de ele entrar para a cirurgia e também ouvi do médico responsável que não havia outras anormalidades graves além da fratura. Ah, e o Chayoung pediu para te dizer que, quando você chegasse, não era para se preocupar porque ele estava bem.
— A boca dele continua afiada, pelo visto…
Murmurou com insatisfação, mas, obviamente, não era o que sentia de verdade. Enquanto vinha para o hospital, mil pensamentos passaram por sua cabeça; saber que ele não havia se ferido gravemente era um alívio imenso.
Os detalhes do acidente, que ouviu de forma mais minuciosa através do Secretário Yeom — que estava na viagem de negócios com ele —, foram os seguintes:
— Devido à neve, a pista estava escorregadia, então seguíamos para o aeroporto respeitando rigorosamente o limite de velocidade. Dizem que um caminhão, cujo motorista cochilava ao volante, estava correndo na mesma faixa. O carro que estava logo à frente do caminhão percebeu algo estranho e desviou rapidamente para a esquerda, mas nós, que estávamos à frente dele, fomos atingidos pelo caminhão sem chance de escapar e fomos empurrados, sofrendo ainda uma segunda colisão com um carro que vinha na faixa ao lado. Foi por isso que o Vice-Presidente se feriu bastante.
Enquanto dizia estar mortificado e curvava a cabeça, o Secretário Yeom exibia vários arranhões profundos pelo rosto e estava com a mão engessada.
Se fosse antigamente, Seo Gyuha teria perdido a paciência impensadamente, questionando por que ele, como acompanhante, estava em melhor estado, mas agora ele havia se tornado alguém capaz de ter esse nível de discernimento. Sabendo que o Secretário Yeom também era uma vítima daquele acidente imprevisto e que apenas tivera um pouco mais de sorte, Seo Gyuha apenas ouviu a explicação e o mandou embora, dizendo para que fosse descansar.
Naquele momento, a cirurgia de Lee Chayoung havia terminado e ele fora transferido para a sala de recuperação; Seo Gyuha voltou para lá para ficar ao seu lado.
Ele ouviu do médico responsável que a cirurgia fora um sucesso e, embora o braço estivesse todo enrolado em bandagens, não parecia haver outros ferimentos graves visíveis externamente. Além disso, o rosto de Lee Chayoung, que estava de olhos fechados, era exatamente igual ao que via ocasionalmente na cama, quando ele dormia profundamente ao seu lado.
No entanto, seu coração, que havia sofrido um grande solavanco, não conseguia se acalmar, e uma ansiedade incômoda continuava presente. Tanto a roupa azul de hospital com o nome da instituição quanto a agulha da injeção inserida na veia eram cenários estranhamente desconhecidos.
Seo Gyuha continuava observando Lee Chayoung, mas lançava olhares furtivos ao redor o tempo todo. Graças a isso, conseguiu uma oportunidade rapidamente. Aproveitando o momento em que Choi Taeseon se afastou para atender uma ligação, ele levou a mão depressa ao rosto de Lee Chayoung. Era para verificar a respiração.
— Ufa…
Ele sentiu alívio com a exalação que fez cócegas de leve em sua palma. Só então passou a confiar no monitor médico, do qual antes duvidava se estava funcionando corretamente. Agora, tudo o que restava era Lee Chayoung despertar da anestesia e abrir os olhos.
Quanto tempo teria se passado?
Após lutar contra a ansiedade que surgia repentinamente, mesmo enquanto tentava se convencer de que estava tudo bem, finalmente chegou o momento que Seo Gyuha tanto esperava. As pontas dos dedos que repousavam sem forças sobre a cama deram um leve sobressalto e, por trás das pálpebras que estavam firmemente fechadas, as íris castanho-escuras revelaram-se lentamente.
— Acordou?
Ele perguntou com pressa, quase gritando, enquanto Choi Taeseon, que acabara de voltar do banheiro, correu ao ver que o filho havia aberto os olhos.
— Chayoung! Está me ouvindo? Consegue reconhecer a mamãe?
— Claro.
Ele deu um sorriso curto diante da pergunta inesperada, mas logo franziu o cenho e levou a mão à testa devido a uma dor aguda, como se uma broca estivesse perfurando sua cabeça, algo que sentia antes mesmo de recobrar totalmente a consciência. Ao ver a cena, Choi Taeseon perguntou novamente com a voz urgente:
— O que foi? Sua cabeça está doendo?
— Um pouco. A propósito, parece que estou no hospital… O que aconteceu?
— Não se lembra? Você sofreu um acidente de carro a caminho de uma viagem de negócios e foi trazido para a emergência.
Uma expressão de quem ouvia aquilo pela primeira vez surgiu em seu rosto, que continuava levemente franzido. Choi Taeseon, esquecendo-se até de apertar o botão de chamada da enfermagem, saiu apressadamente do quarto dizendo que aquilo não podia continuar assim. Seo Gyuha olhou brevemente naquela direção e depois voltou a atenção para Lee Chayoung, puxando assunto.
— Você está bem?
— Não sei, ainda estou meio atordoado. Nem caiu a ficha de que sofri um acidente… Mas o que você está fazendo aqui? Veio visitar alguém?
— O quê?
Diante da pergunta desconcertante, Seo Gyuha retrucou sem querer e, em seguida, percebendo a situação, soltou uma risada sem fôlego. Como ele tinha insistido tanto na noite anterior antes de viajar, parecia que estava brincando por estar sem graça de se encontrarem em um hospital em menos de um dia.
— Vim como seu acompanhante. Algum problema?
Esperando que ele risse de forma brincalhona e dissesse algo como: “Problema nenhum, obrigado”, Seo Gyuha respondeu de propósito com o tipo de frase que Lee Chayoung costumava gostar. No entanto, a brincadeira sem graça continuou.
Ele viu uma leve preocupação surgir no rosto rígido do outro.
— Acompanhante? Alguém da sua família se machucou?
— É.
Após responder brevemente, apontando para Lee Chayoung com o queixo de forma óbvia, Seo Gyuha desabafou com a voz carregada de sinceridade.
— Foi um alívio imenso não ter sido pior. Você tem ideia do susto que eu tomei quando recebi a ligação?
— Que tipo de ligação você recebeu? Alguém se machucou seriamente?
Como se realmente não tivesse se ferido com gravidade, Lee Chayoung insistia em continuar com aquela brincadeira sem sentido. Ainda assim, o fato de ele ser um paciente que acabara de sair de uma cirurgia não mudava, então Seo Gyuha exercitou sua paciência mais uma vez.
— Tá bom, chega de brincadeira. E o braço, está doendo?
Ele achou que Lee Chayoung finalmente teria entendido, mas novamente estava enganado. Seo Gyuha notou as sobrancelhas escuras se franzirem levemente. Ele sabia muito bem que o outro fazia aquela expressão quando algo não o agradava ou quando estava irritado.
Massageando a nuca com a mão esquerda, que estava cheia de arranhões e hematomas, ele continuou com um tom de voz que se tornou um pouco frio.
— Você é quem continua falando coisa com coisa. Eu estou perguntando porque estou preocupado com os outros, você quer fazer brincadeira mesmo numa hora dessas?
— Ah, qual é. Já perdeu a graça, para com isso.
Brincadeira tem limite… Sentindo que aquilo não era típico de Lee Chayoung, sua voz começou a subir de tom, mas Choi Taeseon, que retornava ao quarto com uma enfermeira naquele momento, aproximou-se apressada e assustada ao ver a cena.
— O que está acontecendo com vocês dois? Hein?
Palavras rudes subiram até sua garganta, mas Seo Gyuha as engoliu e tentou manter a voz calma.
— Ele começou a brincar, eu dei corda e agora ele não para… Não é nada demais.
Ao ouvir isso, Lee Chayoung soltou uma risada sarcástica, com uma expressão de incredulidade.
Já não bastasse o corpo todo doer, a cabeça parecer que ia explodir e ainda não entender por que seu braço estava naquele estado, o outro continuava a provocá-lo assim que abriu os olhos; sua paciência tinha limite.
— Quem foi que começou com a brincadeira aqui? Honestamente, já é bem confuso você estar aqui, e você ainda quer ficar fazendo piadinhas sem graça com alguém que nem recuperou a consciência direito?
Uma tensão palpável, que não podia mais ser confundida com brincadeira, tomou conta do ar. Ao ver Seo Gyuha trincar os dentes, Choi Taeseon apressou-se em intervir.
— Parem vocês dois. Chayoung, eu entendo que você não quer preocupar o Gyuha, mas agora não é momento para isso.
Choi Taeseon também estava igualmente desconcertada. Mesmo que Gyuha tivesse resmungado primeiro, Chayoung era o tipo de rapaz que pediria desculpas e o confortaria, mas ela mesma sentia que o clima estava estranho.
Ao se lembrar de como vira Gyuha na sala de espera — pálido e visivelmente ansioso —, ela não teve coragem de repreendê-lo e, sem alternativa, repreendeu o próprio filho em voz baixa.
— Você tem ideia de como o Gyuha veio correndo para cá, completamente fora de si?
O olhar de Lee Chayoung voltou-se novamente para Seo Gyuha. Ele continuou a observá-lo com desaprovação até que, de repente, soltou um pequeno “ah”, como se tivesse se lembrado de algo. Pressionou as têmporas por causa da dor de cabeça persistente e, com o olhar franzido, continuou:
— Você disse que foi um acidente de trânsito, não foi?
— Foi.
— Então, foi uma colisão entre o meu carro e o seu, ou nós estávamos juntos quando sofremos o acidente? ……Não consigo me lembrar do que aconteceu.
Um silêncio absoluto se seguiu assim que ele fechou a boca. O rosto de Seo Gyuha foi ficando rígido aos poucos. Ele não sentia mais vontade de perguntar se ele tinha ficado louco ou de gritar para que parasse com aquilo de uma vez. Isso porque não havia vestígio algum de brincadeira no olhar de Lee Chayoung; pelo contrário, havia uma sensação estranha de que ele estava traçando um limite entre os dois.
Aquele olhar cínico não lhe era totalmente estranho. Afinal, Seo Gyuha já vira Lee Chayoung fazer aquela mesma expressão algumas vezes, há muito tempo.
Era, literalmente, coisa de muito tempo atrás. Quando os dois eram apenas parceiros de foda, se algo não o agradasse ou o irritasse, ele costumava demonstrar dessa forma sutil.
No momento em que percebeu isso, sentiu como se um suor frio escorresse por sua espinha. Mesmo sabendo que era um pensamento absurdo, moveu os lábios inconscientemente para forçar a voz a sair.
— Ei.
— O quê?
— Quantos anos você tem agora?
— ……O quê?
Diante da expressão ainda mais franzida, Seo Gyuha continuou apressadamente para impedir que outra discussão começasse.
— Não estou tentando arrumar briga, apenas responda.
Embora soasse como uma exigência, na realidade, era algo mais próximo de um súplica. No entanto, os lábios de Lee Chayoung, firmemente cerrados, não pareciam que iriam se abrir tão cedo.
“Esse desgraçado ficou louco? Por que diabos ele está agindo assim?”
Ele o encarou por um momento como se tentasse sondar suas intenções com aquele olhar e, soltando um suspiro audível, abriu a boca a contragosto, sem esconder o incômodo.
— Vinte e oito, oras. Não sabe nem a sua própria idade?
— O quê?
A reação partiu primeiro de Choi Taeseon. Assim como seu filho, ela observava Seo Gyuha com uma expressão de “por que ele está agindo assim?”, mas, ao ouvir a resposta do rapaz, arregalou os olhos de espanto. Logo, sua voz surgiu carregada de uma agitação impossível de esconder:
— O-o que você está dizendo agora? O que deu em você, Chayoung, hein?
Dona de um alto status social, raciocínio rápido e um temperamento calmo, porém frio, Choi Taeseon raramente perdia sua expressão impassível em qualquer situação. Tanto que, quando recebeu a notícia de que seu filho — que ela acreditava piamente que teria um casamento arranjado com a filha de uma família de mesmo nível — havia se envolvido repentinamente com o amigo de infância, ela apenas se surpreendeu por um instante e logo aceitou a situação.
Ela conhecia bem a história que os dois construíram desde pequenos, mas esse não era o único motivo. Ao que parecia, ela teria que permitir de qualquer maneira; expressar decepção ou dar um sermão seria apenas um desperdício desnecessário de tempo e energia emocional.
No entanto, nem mesmo ela conseguia manter a compostura neste momento. Quando voltou ao quarto e viu os dois batendo boca, achou que Chayoung estava brincando de propósito por se sentir mal por ter preocupado Gyuha, mas, conforme o tempo passava, um pressentimento sinistro começava a florescer lentamente.
Mesmo assim, a pergunta direcionada a Seo Gyuha — “o que você está fazendo aqui?” — soou como se ele tivesse cruzado uma linha. Acima de tudo, o cenho franzido e o tom de voz estranhamente hostil pareciam sinceros, e não uma mentira.
Pelo menos na frente dela, ele jamais havia tratado o próprio cônjuge daquela maneira… Diante dessa situação, ouvi-lo responder que tinha vinte e oito anos ao ser questionado sobre a idade fez o coração dela disparar.
— Ah…
Antes mesmo que pudessem processar totalmente a situação, Lee Chayoung subitamente trincou os dentes e agarrou os próprios cabelos com as duas mãos, como se fosse arrancá-los. Vendo que ele parecia incapaz de suportar a dor, Choi Taeseon virou-se sem hesitar e elevou a voz para a enfermeira que ainda estava no local:
— Chame o dr. Choi, por favor! Agora!
• • •
— Podem entrar no consultório agora.
Ao ouvir as palavras da funcionária que veio pessoalmente da recepção, Choi Taeseon e Seo Gyuha levantaram-se de um salto, como se tivessem combinado. Após baterem na porta por educação, entraram no consultório. Sentando-se na cadeira, Choi Taeseon tentou manter a calma enquanto perguntava ao médico:
— Quais foram os resultados?
O médico responsável, ao ouvir a pergunta, respondeu calmamente:
— Analisamos novamente com cautela a ressonância magnética e as radiografias tiradas anteriormente, e não há nenhuma anormalidade. Não há trauma craniano e, como podem ver nesta imagem aqui, não há absolutamente nenhuma lesão no cérebro em si.
— Você precisa dizer algo que faça sentido. Como é possível que ele não se lembre de nada após um período específico se não há nada de errado?
— Embora seja raro, casos assim não são inexistentes. O corpo humano é intrinsecamente forte, mas também pode sofrer grandes impactos com pequenos estímulos; às vezes, surgem sintomas ou doenças que são, literalmente, de causa desconhecida. No caso deste paciente, parece que ocorreu um transtorno de memória parcial devido ao impacto do acidente de trânsito… Felizmente, não há lesão cerebral e, como a perda de memória temporária costuma ser recuperada naturalmente com o passar do tempo, precisaremos observar o estado dele por enquanto.
Seo Gyuha, que ouvia a conversa em silêncio, finalmente moveu os lábios. Diante daquela situação que ainda parecia absurda, ele não conseguia manter as mãos paradas e vinha ferindo a cutícula ao redor das unhas desde cedo; continuava fazendo o mesmo agora.
— Não existe outro método de exame? Pode haver um problema que vocês simplesmente não conseguiram detectar.
— Não há essa possibilidade. Com uma ressonância magnética, quase qualquer anormalidade seria detectada, e não há problema algum. Se estiverem muito inseguros, realizar exames periódicos parece ser o melhor caminho no momento.
— Então, doutor…
Choi Taeseon continuou com outras perguntas, enquanto Seo Gyuha ouvia vagamente, acabando por cobrir os olhos com a palma da mão. Sua cabeça pulsava como se os olhos fossem saltar, como se a dor de cabeça de que Lee Chayoung se queixara tivesse passado para ele. De repente, um pensamento lhe ocorreu e ele deu um beliscão forte na própria coxa.
— Argh…
— Sim?
— Nada, podem continuar conversando.
“Dói pra caralho”, murmurou para si mesmo, esfregando a coxa que acabara de beliscar com força para aliviar a dor. Como sentia dor, aquela era, infelizmente, a realidade e não um sonho.
Era tão absurdo que ele não conseguia nem soltar uma risada seca. Há poucas horas, haviam acordado na mesma cama, e ele até tinha dito para o outro ir com cuidado — uma despedida que não costumava fazer.
Mas o que diabos estava acontecendo? Ele não tinha memórias depois dos vinte e oito anos?
“Que situação de merda é essa…”
Não parecia haver outra forma de descrever o que estava vivendo. Seria mais fácil aceitar se tivessem encontrado algum problema no cérebro, mas ver algo que só acontece em filmes ruins se tornar real o fazia apenas suspirar.
Ele desejou que, ao abrir os olhos, Lee Chayoung risse e dissesse: “Na verdade, é brincadeira”, como num passe de mágica. Mas, para seu azar, isso não aconteceu. Após passarem um dia extremamente confuso, o sol nasceu novamente na manhã seguinte e o sintoma de perda de memória de Lee Chayoung permanecia o mesmo.
Ao menos, um fato reconfortante era que o ponto em que ele perdera a memória fora muito tempo depois do reencontro dos dois. Quando Seo Gyuha voltou ao hospital no dia seguinte, Lee Chayoung mencionou primeiro o que era o evento mais recente em sua memória.
— Qual o motivo de você não ter atendido minhas ligações esse tempo todo?
— Quem, eu?
Ele sentiu aquele olhar de “quem mais seria se não você?”, mas, infelizmente, era impossível lembrar de imediato algo de oito anos atrás. “Explique melhor”, ele pediu, e Lee Chayoung soltou um suspiro, continuando com o rosto levemente franzido:
— Você me chamou para encontrar em uma cafeteria, mas só disse coisas sem sentido sobre gravidez e depois saiu furioso, não foi?
— ……Ah.
A expressão de Seo Gyuha também mudou, como se tivesse mastigado algo amargo. Ele se lembrou instantaneamente do evento, sem precisar hesitar. Parecia que ele estava falando daquela época em que Seo Gyuha tentou dar umas pistas antes de revelar a gravidez, mas acabou não conseguindo nada, levou um choque como se tivesse levado um soco no estômago e simplesmente desapareceu.
“Que desespero.”
Era realmente de enlouquecer. Se ele tivesse memórias de depois do casamento, ou se ao menos soubesse da gravidez, as coisas seriam muito mais fáceis; mas o fato de ele não se lembrar de nada justamente a partir daquele momento deixava Seo Gyuha completamente sem rumo.
Enquanto Seo Gyuha forçava o cérebro a pensar, Lee Chayoung apressava uma resposta com o olhar. Fingindo que ainda estava refletindo, apesar de já ter entendido, Seo Gyuha decidiu primeiro evitar a situação de forma superficial. Invertendo os papéis, se ele estivesse confuso e Lee Chayoung de repente dissesse: “Nós temos dois filhos e somos casados”, ele mesmo certamente não acreditaria.
— Só… não atendi porque não quis. Eu tinha algumas coisas para pensar.
— ……Ha.
Ao ouvir a resposta evasiva, Lee Chayoung soltou uma risada anasalada carregada de desdém. Ele estava de mau humor porque todas as suas ligações foram ignoradas por dias, mas aceitou prontamente o pedido para se encontrarem e foi até a cafeteria. No entanto, no meio da conversa, o outro de repente ficou bravo, saiu batendo o pé e voltou a ignorá-lo unilateralmente.
A situação era como levar um tapa estando parado; primeiro ele ficou perplexo, depois achou um absurdo e, por fim, chegou a refletir se tinha feito algo errado. Mas o motivo do sumiço repentino ser apenas “porque não quis”… E o quê? Tinha algumas coisas para pensar? Desde quando ele pensava tanto assim?
Ele guardou esses pensamentos para si, pois sabia que, se os dissesse em voz alta, o outro reviraria os olhos e começaria uma briga. Suspirando repetidamente e passando a mão no cabelo de forma impaciente, Lee Chayoung continuou:
— E o que aconteceu depois disso?
Desta vez, após hesitar por um momento, ele respondeu com um tom de reclamação:
— Você insistiu tanto que continuamos nos vendo bem até agora.
— ….
— É verdade.
— ….
— Ah, é verdade! Pergunta para as pessoas ao seu redor.
Ao vê-lo resmungando que não acreditavam em sua palavra, Lee Chayoung sentiu uma sensação estranhamente convincente, embora não quisesse admitir.
As pessoas para quem eu tomava a iniciativa de ligar podiam ser contadas nos dedos e, para ser sincero, Seo Gyuha não era exatamente um talento indispensável para os negócios ou algo do tipo. Embora fossem conhecidos desde a infância, não havia uma necessidade absoluta de manter o relacionamento, então eu poderia simplesmente ter cortado laços. No entanto, enquanto estávamos sem contato, senti uma ansiedade desconhecida e, indo além, até mesmo um senso de crise.
Como havíamos passado meses nos pegando apenas os dois como parceiros de foda, achei que fosse algo semelhante ao apego por um objeto querido… Mas ao ouvir que “eu havia insistido”, de repente me ocorreu que talvez tivesse sido exatamente isso.
Seo Gyuha, interpretando mal sua expressão rígida por causa da concentração, descruzou os braços às pressas e examinou o semblante de Lee Chayoung.
— Não está se sentindo bem? Quer que eu chame a enfermeira?
— ……Não. É que eu também tenho algumas coisas para pensar.
— Pense depois. Você já está com a cabeça machucada, caramba.
Ele disse aquilo por preocupação, mas Lee Chayoung não parecia disposto a parar de refletir.
Na verdade, ele continuou ponderando sobre seu relacionamento com Seo Gyuha e, em pouco tempo, chegou a uma conclusão clara. Além do que acabara de ouvir sobre “ter insistido”, havia outra frase dita por Seo Gyuha.
“Continuamos nos vendo bem até agora.”
Pelo tom, não parecia que eram apenas amigos que se davam bem; dava a entender que mantinham a relação de parceiros de foda até hoje. O fato de terem passado tanto tempo juntos o surpreendeu um pouco, mas, graças a isso, conseguiu organizar seus pensamentos rapidamente.
A realidade desoladora de ter anos de memórias completamente apagados, a responsabilidade ainda maior por ter sido promovido a vice-presidente e a confusão de pensar em todos os conhecidos envolvidos eram coisas que faziam sua cabeça latejar; porém, se havia algo positivo, era que ao menos um ponto havia se tornado claro.
Como era fato que sentia atração por ele, manteria o relacionamento com Seo Gyuha por enquanto; se mais tarde sentisse que não era o que queria, resolveria a situação na hora.
Após concluir seu raciocínio, o olhar de Lee Chayoung moveu-se lentamente em direção a Seo Gyuha mais uma vez.
— Seo Gyuha.
— O quê?
— Pode ser que você se sinta um pouco frustrado por eu não ter minhas memórias… mas, de qualquer forma, conto com você. Daqui para frente também.
Um sorriso que escondia suas verdadeiras intenções surgiu em seus lábios. Foi um momento em que ele sentiu uma gratidão repentina pelo fato de que o outro era alguém com a autoestima alta o suficiente para jamais se humilhar implorando por atenção.
• • •
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna