↫─☫ Extra 11
↫─☫ Extra 11
Atrás da parede, um homem estava de pé. Com o rosto escondido por um boné preto e uma máscara, ele começou a se mover silenciosamente, a passos furtivos. Em sua mão, protegida por uma luva de couro, brilhava uma lâmina afiada.
Parado diante da porta, um outro homem não tinha a menor ideia do perigo. Enquanto ele apertava o teclado da fechadura eletrônica com o rosto exausto, o agressor com a faca se aproximava cada vez mais, centímetro a centímetro…
*Bzzzzzz—*
— Uau!
Com o som da vibração repentina, Seo Gyu-ha deu um pulo de susto, quase saindo do chão. No processo, ele acabou soltando o balde que segurava, espalhando pipoca para todos os lados.
O culpado por quase lhe causar um ataque cardíaco era o celular sobre a mesa de vidro. Ao pegar com cuidado o aparelho que acendera sozinho, viu a mensagem enviada por Lee Cha-young.
[Ainda está assistindo ao filme? Já passa da uma da manhã]
Como Cha-young disse, o relógio do celular já marcava 1h44 da madrugada. Naquele instante, suas sobrancelhas se franziram ainda mais. Já estava com o coração na mão por ser um filme de suspense e terror, e a mensagem ainda chegava exatamente aos 44 minutos.
[Vou dormir depois que terminar de ver isso]
[Entendido. Não fique acordado até tarde demais, venha logo]
[Ok]
Após enviar uma resposta curta, ele voltou os olhos para a tela, mas o clímax já havia passado. O homem que abria a porta da frente estava caído no chão com os olhos arregalados, cercado por uma poça de sangue vermelho-escuro.
A cena mudou e o flash de uma câmera disparou. Observando os detetives da perícia tirando fotos no local, Gyu-ha voltou a se concentrar no filme.
Como amanhã era seu raro dia de folga, ele emendou com a sequência do filme, e logo as 4h da manhã estavam batendo à porta. Seu rosto estava tomado pela sonolência. Ele resistiu até o fim por curiosidade sobre o desfecho, mas o sono era tanto que sentia que desmaiaria assim que encostasse na cama.
— Aah…
Soltando um bocejo, ele parou ao abrir a porta e sair. Ao longe, no corredor oposto, viu Choi Seung-hwa se aproximando com uma postura desleixada, com as mãos enfiadas nos bolsos.
“Por que diabos tenho que cruzar com ele de novo?”
Pelas roupas, não parecia que ele acabara de sair do quarto após dormir. Choi Seung-hwa, que também parara por um breve momento, voltou a caminhar. À medida que a distância diminuía, o cheiro forte de álcool atingiu Gyu-ha, fazendo-o franzir o cenho sutilmente.
“Chegando em casa agora? Que horas são?…”
Ele já havia esquecido há muito tempo que, em sua juventude, era ainda pior. De qualquer forma, como seus olhares se cruzaram, seria estranho apenas passar direto, então ele falou por cortesia.
— Chegou tarde.
— …
— Vá tomar banho e dormir.
Choi Seung-hwa não deu resposta alguma. No momento em que Gyu-ha ia passar por ele, sentiu seu braço ser agarrado com força. Assustado, olhou para trás e viu uma mão grande e clara apertando seu antebraço.
— O que foi?
— …Preciso falar com você um minuto.
O rosto à sua frente parecia perfeitamente lúcido. O rapaz, que ainda era um pouco mais alto que ele e tinha feições bonitas — em um sentido ligeiramente diferente de Lee Cha-young —, não possuía uma única imperfeição na pele. No entanto, o cheiro de bebida que emanava de todo o seu corpo permanecia, então Gyu-ha recusou o pedido sem hesitar.
— Deixe para amanhã. Parece que você bebeu demais.
Tentando ser paciente, ele buscou soltar a mão do rapaz. No entanto, o outro agarrou com ainda mais força e continuou, falando em um tom baixo e quase sussurrado.
— Você é mesmo um ômega?
Um olhar intenso, nada condizente com alguém bêbado, atingiu seu rosto. Diante da pergunta repentina, Gyu-ha ficou paralisado por um momento antes de retrucar com uma expressão de nítido desagrado.
— O que quer dizer com isso?
— …É que, sabe como é. Não é que não existam ômegas homens, então aceito o fato de você ter nascido assim. Mas, por mais que eu olhe, não consigo acreditar. Você não é pequeno nem bonito, tem um gênio terrível e não tem nem sombra de delicadeza…
Os olhos estreitados de Seung-hwa percorreram Gyu-ha de cima a baixo.
Ha. Um riso sarcástico escapou dos lábios de Gyu-ha. Fazia muito tempo que não ouvia ofensas tão gratuitas e sem fundamento; em vez de raiva, o que sentia era perplexidade.
Sem se importar, Seung-hwa continuava a tagarelar palavras que feriam o orgulho alheio.
— Não importa o quanto eu pense, não consigo entender. O Cha-young que eu conheço é extremamente exigente, e deve ter recebido inúmeras propostas de união de famílias ilustres. Não sei o que deu nele para escolher você e deixar uma mancha em seu próprio currículo. …Ficar preso por causa de uma criança.
As sobrancelhas de Gyu-ha tremeram visivelmente. A última frase foi quase um sussurro para si mesmo, mas, devido à proximidade, chegou clara aos seus ouvidos.
“O que eu faço com esse sujeito?”, pensou ele, mas em vez de mover o punho cerrado, acabou apenas soltando um suspiro.
“Aguente. Dizem que quem está bêbado não reconhece nem os próprios pais; eu, como alguém generoso, devo ser paciente.”
Discutir com alguém que não estava em seu juízo perfeito só traria cansaço. Com um pouco de intenção pessoal, ele finalmente soltou o braço do rapaz com força e se virou, mas os disparates não pararam por ali.
— Ouvi dizer que seus feromônios também estão estragados.
— …O quê?
— Eu ouvi tudo. Que você fez uma cirurgia de remoção ou algo assim e não consegue exalar feromônios. Além de ser um ômega homem, isso é realmente o pior cenário possível.
Quebrando a tensão sutil, Choi Seung-hwa deu um passo à frente. Encarando diretamente o rosto franzido do outro, ele continuou lentamente.
— Se você é mesmo um ômega… durma comigo também.
Naquele instante, Seo Gyu-ha sentiu como se seus fusíveis tivessem queimado após muito tempo. “Desgraçado, esse filho da puta.” Antes mesmo de pensar, sua mão agiu e agarrou o colarinho de Choi Seung-hwa. No momento em que ia desferir um soco com a mão direita fechada…
— Oh, o-o quê?
O corpo do rapaz, que estava cambaleando, subitamente cedeu para baixo, e Gyu-ha, que segurava seu colarinho, acabou perdendo o equilíbrio também. Sem tempo para se recompor ou soltar a mão, ambos caíram no chão do corredor com um grande estrondo.
— …Ai, caramba…
Ao tentar se levantar apoiando-se nos braços, ele se assustou ao ver o rosto de Choi Seung-hwa logo à frente. Olhando de cima para o rapaz com as costas eretas, viu que os olhos que o encaravam fixamente segundos atrás agora estavam firmemente fechados.
— Ei.
Sua voz saiu carregada de insatisfação. Mas o rapaz permanecia imóvel. Gyu-ha o observou por um momento e deu tapinhas leves em seu rosto, mas as pálpebras fechadas não se moveram nem um milímetro.
— Fiuuu—
Logo em seguida, o som de uma respiração leve escapou por entre os lábios entreabertos. Diferente do rapaz, que parecia estar na maior paz, Gyu-ha estava absolutamente boquiaberto.
— Abra os olhos, seu moleque.
— …
— Vai falar toda essa merda e simplesmente dormir?
Sua voz saiu com um riso incrédulo, mas não havia como o rapaz, que já caíra em um sono profundo como se tivesse desmaiado, ouvi-lo. A expressão de Gyu-ha, ao olhar para aquele rosto liso, foi endurecendo aos poucos.
Como ele estava totalmente vulnerável, agora era a oportunidade perfeita para uma retaliação. Ele chegou a fechar o punho repetidamente, mas acabou virando o rosto e estalando a língua com irritação.
— Droga.
O gesto de bagunçar o próprio cabelo para aliviar a frustração foi bastante bruto. Ele baixou o olhar mais uma vez e viu que Choi Seung-hwa ainda emitia aquela respiração leve, dormindo um sono profundo e irritante.
Quando sorria, ele tinha um ar cínico que disfarçava, mas dormindo parecia bem jovem. De repente, Gyu-ha lembrou-se de alguém dizendo que ele tinha vinte e quatro ou vinte e cinco anos e franziu o cenho novamente. “Não é que ele parece jovem, ele é só um pirralho mesmo.”
— Haaa…
As diversas emoções que fervilhavam dentro dele se dissiparam em um instante. Após soltar um longo suspiro que pareceu esvaziar seus pulmões, Gyu-ha levantou-se lentamente da posição em que estava, montado sobre a cintura de Choi Seung-hwa.
Ele agarrou o braço do rapaz ainda apagado, colocou-o sobre os ombros e, segurando firmemente sua cintura, começou a caminhar passo a passo.
O corpo inerte pesava mais do que ele imaginava. Após um grunhido de esforço, Gyu-ha moveu-se novamente, entrou no quarto de hóspedes e deitou o rapaz na cama.
“Deitar” era um eufemismo, já que ele praticamente o arremessou, mas Choi Seung-hwa continuou sem abrir os olhos. — Hum… —. Desviando o olhar do rapaz que se encolhia na cama, Gyu-ha se virou para sair.
O terno ficaria terrivelmente amassado, mas isso não era problema dele. Se ele estivesse no auge de sua impulsividade, teria dado uma surra no sujeito adormecido e o deixado jogado no corredor, então, apenas por tê-lo levado para o quarto por ser um convidado, Gyu-ha já sentia que tinha feito o seu máximo.
Massageando o braço dolorido, ele desceu para o andar de baixo. Ao abrir a porta do quarto, a luminária de cabeceira emitia uma luz fraca.
Gyu-ha aproximou-se cautelosamente, abafando o som dos passos. Assim que apagou a luz e se deitou, um braço vindo de trás envolveu sua cintura.
— Chegou?
— Você não estava dormindo?
— Acordei agora há pouco. Durma bem.
Não demorou muito para que o som de uma respiração compassada fosse ouvido. Gyu-ha também se acomodou e fechou os olhos, mas, por algum motivo, o sono não vinha rápido como de costume.
Após afastar levemente o braço de Cha-young de sua cintura, ele se deitou olhando para o teto. Chegou a virar apenas a cabeça para olhar para Cha-young, mas, devido à escuridão total, não conseguia ver nada.
De repente, uma memória antiga veio à tona. Alguns dias antes do casamento, quando ele sabia que não tinha mais para onde fugir e ainda assim desejava escapar, Cha-young segurou sua mão com força e disse:
— “Eu entendo que você ainda não confia totalmente em mim. Talvez eu sentisse o mesmo se estivesse no seu lugar. …Não posso negar que percebi meus sentimentos depois de saber que você, Gyu-ha, era um ômega, mas, desde criança, você foi a única pessoa com quem eu quis fazer amizade sem condições e por quem senti uma simpatia pura. Mas, como eu pensava que você era um beta, minha mente estava bloqueada… Eu nem sequer cogitei que pudesse haver um sentimento além da amizade. Fui um idiota.” —.
O rosto de Cha-young ao dizer aquilo parecia mais sério e desesperado do que nunca. Graças a isso, ele nunca mais duvidou dos sentimentos do outro… mas as palavras lançadas por aquele moleque maldito o deixaram inquieto após muito tempo.
— “Não sei por que ele escolheu alguém como você e deixou uma mancha em seu currículo. Ficar preso por causa de uma criança.” —.
— “Um ômega homem é o pior cenário possível. Ouvi dizer que seus feromônios também estão estragados.” —.
Instantaneamente, seu cenho se franziu profundamente. Droga, estragados uma ova.
Já era irritante um pirralho que mal saiu das fraldas vir falar de ômegas homens, mas lembrar que ele o tratara como um objeto defeituoso o deixava furioso novamente.
“Eu devia ter dado pelo menos um soco nele.”
Com o cenho tão franzido que as rugas ficaram profundas, ele virou-se de lado novamente. “Vamos dormir.” Tentou se acalmar respirando fundo, mas ainda teve que se revirar na cama por um bom tempo.
***
Na manhã seguinte, Gyu-ha saiu de casa após comer uma colherada de arroz já tarde. Isso porque ele ainda ia ao hospital regularmente todos os meses para diversos exames.
O que o médico que lhe informou da gravidez dissera — que seu sistema de feromônios poderia entrar em colapso total — felizmente não aconteceu, mas houve um novo sintoma anômalo que surgiu após o parto.
Durante o período do heat, seu corpo já ficava naturalmente exausto e letárgico, mas, além disso, sua sensibilidade física tornava-se extrema. Ele mal conseguia suportar até mesmo os feromônios de Cha-young, que eram liberados de forma mínima e natural como a respiração — algo que um ômega comum nem notaria —, a ponto de precisarem dormir em quartos separados durante o heat.
Segundo as palavras de Oh Tae-seok, seu médico assistente, parecia ser resultado da exposição contínua a feromônios potentes de um alfa e da gravidez por knotting; em resumo, era culpa de Lee Cha-young.
— Chegou?
Ao abrir a porta do consultório e entrar, Oh Tae-seok recebeu o paciente com um rosto bastante amigável. Ele mexeu no mouse fazendo alguns cliques e, ajeitando os óculos, continuou:
— Hum, está bom. Parece que você continua tomando os remédios regularmente.
Como ele suspeitava. O frasco de remédio ficava em um lugar visível na mesa de jantar e, se ele esquecia e se levantava, a ajudante ou Cha-young sempre o lembravam, como se estivessem esperando por aquele momento.
— Que dia quer marcar para o mês que vem?
Seguiu-se a pergunta que ele ouvia todas as vezes ao final. Normalmente, ele responderia com um desinteressado “Qualquer hora à tarde”, mas hoje a situação era diferente. Sentado com as mãos levemente entrelaçadas e uma expressão firme, Seo Gyu-ha levantou um pouco a cabeça e chamou Oh Tae-seok.
— Doutor.
— Diga.
— …Eu, por acaso, posso liberar meus feromônios?
Oh Tae-seok parou o que estava fazendo e desviou o olhar. Ele fez uma expressão de quem não acreditava no que acabara de ouvir, mas, ao ver o rosto de Gyu-ha, percebeu que o clima não era de piada ou brincadeira. Logo, sua voz soou séria, como quando trata de um paciente comum.
— Por que isso de repente?
— Nada demais. É que eu fiz a cirurgia muito cedo, então nem eu mesmo sei como são meus feromônios. Fiquei curioso.
Mesmo tentando disfarçar, havia uma leve expectativa em sua voz. No entanto, a resposta de Oh Tae-seok, enquanto coçava o queixo, foi totalmente contrária ao que Gyu-ha esperava.
— Não pode.
— …!
— Se você tivesse inserido um dispositivo ou estivesse controlando apenas com medicamentos, não haveria grande problema, mas você, Gyu-ha, fez uma cirurgia que afetou diretamente as glândulas, o que torna a restauração difícil. E já faz muito tempo… Mesmo que a cirurgia fosse bem-sucedida, acredito que a probabilidade de surgirem efeitos colaterais imprevistos seria muito alta. Se você subitamente começasse a sentir os feromônios que os outros exalam, teria dificuldade de adaptação.
— …E liberar temporariamente, só por um momento? Isso também não dá?
— É ainda mais difícil. Como eu disse, teríamos que mexer diretamente nas glândulas de novo, não é algo simples.
Oh Tae-seok respondia com uma atitude profissional, mas por dentro estava inquieto. A cadeira confortável parecia um assento de espinhos. Ver aquele sujeito, sempre tão atrevido e confiante, tão desanimado e exalando decepção, fazia o médico se sentir como se tivesse feito algo terrível a uma criança.
— Aconteceu alguma coisa?
Ao perguntar cautelosamente para sondar, Gyu-ha balançou a cabeça negativamente.
— Nada. O mês que vem, marque qualquer dia que você quiser. Estou indo.
— Ei, Seo Gyu-ha!
Ele chamou o nome por reflexo, mas Gyu-ha saiu do consultório sem olhar para trás. A porta se fechou com um estalo e sua silhueta desapareceu rapidamente; Oh Tae-seok olhou para a porta por um instante e pegou o celular para ligar para Gyu-ha.
Mas foi em vão. Ele apertou o botão de chamada duas ou três vezes seguidas, mas no fim não conseguiu ouvir a voz do rapaz.
***
— Hum…
Choi Seung-hwa abriu os olhos com uma sede insuportável. Levantando o corpo que estava jogado de qualquer jeito na cama, ele sentiu uma dor de cabeça latejante assim que recuperou a consciência e pressionou as têmporas com as pontas dos dedos.
— Ai, minha cabeça.
Apenas ao respirar, o cheiro de bebida velha exalava forte. Ele quase não tinha amigos na Coreia, então lembrava de ter chamado os primos de sua idade para uma boate e feito uma festa regada a álcool. Ele aguentava bem a bebida, mas como misturou tudo o que via pela frente, a ressaca estava sendo pesada.
Ficou sentado com o rosto todo contorcido por um tempo antes de finalmente baixar as mãos e abrir os olhos novamente. A vista do quarto onde estava hospedado há três dias, e com a qual já se familiarizara, entrou em seu campo de visão. Ele ainda vestia o terno de ontem. Bebera bastante, mas parecia ter conseguido encontrar o quarto certo para entrar.
Abriu a geladeira, mas não havia nada como um remédio para ressaca. “Haa, eu vou morrer.” A dor de cabeça persistia. Para pelo menos tirar o cheiro de bebida, Seung-hwa tirou as roupas e entrou no banheiro.
— Já acordou?
Ao descer para o andar de baixo após um banho rápido, a ajudante que limpava a sala falou com ele de forma amigável. Diante da oferta de preparar uma refeição, ele foi para a mesa e se sentou, recebendo um grande copo de vidro.
— Beba isso primeiro.
— O que é isso?
— É um chá gelado feito de sementes de Hovenia, é bom para a ressaca. O patrão pediu para eu preparar para o senhor.
— O patrão?
— Sim. Vou preparar sua comida agora mesmo.
Seung-hwa olhou para o copo de vidro solitário e lentamente o levou à boca. O gosto de ervas era mais forte do que ele esperava, mas não era impossível de beber.
“Foi o Cha-young que pediu para prepararem?”
Os cantos de sua boca se ergueram sozinhos. Ele ia dar mais um gole quando, de repente, parou involuntariamente. Uma cena cruzou sua mente como um relâmpago.
— “Preciso falar com você um minuto.” —.
Espere. Só um momento…
— “Não importa o quanto eu olhe, não consigo acreditar. Você não é pequeno nem bonito, tem um gênio terrível e não tem nem sombra de delicadeza.” —.
— “Se você é mesmo um ômega… durma comigo também.” —.
— Aaaagh!!!
Com o grito repentino, a ajudante se assustou e deixou cair a colher. Sem se importar, Seung-hwa continuava a gritar como um louco. Em seguida, enterrou o rosto na mesa, cobrindo a cabeça com as duas mãos.
— …Estou ferrado.
Não era apenas estar “ferrado”. Ele queria acreditar que fora um pesadelo enquanto dormia, mas as lembranças, desde descer do carro e entrar em casa até encontrar Seo Gyu-ha no corredor do segundo andar, reviviam em sua mente com nitidez.
As palavras que ele soltara sem pensar, e o olhar do homem que o observava com o cenho levemente franzido.
— Haaa…
Inúmeros palavrões rondavam sua boca. Ele murmurava alguns como se fossem um mantra, com a visão completamente turva.
Era verdade que, por admirar e gostar tanto de Cha-young, ele não gostava do parceiro dele, e era verdade que ele o provocava de propósito fingindo que não era nada.
Mas tudo tinha um limite. Por mais que seu estômago doesse e ele não quisesse admitir, bastava olhar para os olhos de Cha-young ou lembrar do que ele dissera ontem para sentir que ele amava o parceiro de verdade. A ponto de agora ele querer saber que tipo de charme o outro tinha para deixá-lo tão fascinado.
E mesmo assim… a maldita bebida foi o estopim. Com a razão nublada, ao ver o rosto de Seo Gyu-ha, os pensamentos que estavam guardados no fundo de sua mente saíram em disparada sem passar pelo cérebro. E ainda por cima, dizer “durma comigo também”.
— Eu perdi o juízo de vez.
Naquele instante, ele certamente não estava em seu juízo perfeito. Do contrário, por mais bêbado que estivesse, jamais teria dito algo assim.
“Será que ele contou para o Cha-young?” Só de pensar, sentiu um calafrio. Pelo fato de o primo ainda estar agindo normalmente, parecia que não… mas ele estava enlouquecendo.
Vários pratos foram colocados na mesa, mas ele não tinha a menor vontade de comer. Com a mão na testa e soltando suspiros profundos, ele notou a ajudante prestes a sair e falou rapidamente:
— Ei, senhora!
— Sim?
— …O Gyu-ha está em casa?
— Não, ele saiu agora há pouco.
— Sério?
Um sorriso sem graça surgiu e desapareceu rapidamente. Ele franziu o cenho repetidamente, pressionando a testa com a ponta dos dedos.
Ele bebera como um náufrago, então por que as memórias inúteis eram tão nítidas? O rosto de Seo Gyu-ha visto ontem não parava de rondar sua mente.
Logo, ele começou a examinar o próprio corpo e a tocar o rosto com as mãos. No entanto, não parecia haver nada dolorido ou problemático. Por isso mesmo, seu coração estava inquieto. Se o outro o tivesse espancado até a morte, ele estaria com a consciência mais tranquila. Haa.
“Devo… pedir desculpas.”
Não havia outro jeito. Havia a opção de fingir que não lembrava de nada, mas o problema era que a história poderia chegar aos ouvidos de Lee Cha-young mais tarde. Ele já tinha recebido um aviso ontem; se o primo soubesse o que ele fizera, certamente não deixaria passar.
Suspirando profundamente e bagunçando o cabelo, ele levantou a cabeça e perguntou à ajudante:
— Sabe quando ele volta?
— Sim?
— O Gyu-ha.
— Ele disse que ia ao hospital e depois buscaria o Gyu-young, então…
*Bip-bip-bip-bip—*
Como se para interromper a fala, ouviu-se o som do teclado da fechadura eletrônica vindo de longe. — Parece que ele chegou —, disse a ajudante com um sorriso, saindo da cozinha a passos rápidos.
— Chegamos!
Uma voz fofa e adorável foi ouvida. Em seguida, a voz do homem em quem Seung-hwa não parava de pensar também chegou aos seus ouvidos.
— Lave as mãos do Gyu-young e dê um lanche para ele, por favor.
— Sim, entendido.
— …E aquele sujeito?
Seung-hwa estremeceu novamente e ficou paralisado. Ele sentiu que o “sujeito” se referia a ele.
— Ele está almoçando agora.
— Entendi. Vou para o quarto descansar um pouco.
A conversa terminou ali. Ele continuou apurando os ouvidos, mas não ouviu mais nenhum som ou sinal de presença.
Após olhar para a mesa com um olhar vazio, Seung-hwa finalmente se levantou da cadeira. Admitir erros e pedir desculpas de forma direta era uma das grandes qualidades de Choi Seung-hwa. Pensou que era melhor enfrentar a situação logo de uma vez; era melhor resolver agora antes que a relação piorasse ou que algo chegasse aos ouvidos de Lee Cha-young.
Chegar à porta do quarto foi fácil, mas ao ver a porta firmemente fechada, ele não teve coragem de agir. Cerrou e abriu os punhos algumas vezes e, tomando coragem, bateu devagar na porta.
— Tem alguém aí?
Não houve resposta lá dentro. Será que bati muito baixo? Pensando nisso, ele fechou o punho e bateu com mais força desta vez.
— Irmão, sou eu, o Choi Seung-hwa, uau!
De repente, a porta se abriu abruptamente e Seo Gyu-ha apareceu. Com um rosto que, mesmo por cortesia, não exibia um sorriso ou uma boa expressão, ele perguntou:
— O que você quer?
— É que… preciso falar com você um minuto.
— Não tenho nada para falar com você.
— Espere um pouco!
Ao ver a porta se fechando, Seung-hwa estendeu a mão rapidamente para impedi-la. Amanhã já era o dia de voltar para a Inglaterra. Pensando que não podia perder aquela oportunidade, ele foi direto ao ponto sem hesitar.
— Me desculpe.
— …
Diante do pedido de desculpas repentino, a sobrancelha de Gyu-ha tremeu. Após observar por um instante o olhar que o encarava sem desviar, ele retrucou com um riso sarcástico.
— Deixe de conversa fiada. Não diga coisas que não sente.
— É verdade! Eu não tive a intenção de dizer aquilo… Devo ter perdido o juízo por causa da bebida.
— Imagino que sim.
Gyu-ha não pôde deixar de ser sarcástico.
Pelo que ele tagarelara sobre Lee Cha-young ser seu modelo e tudo mais, ele até aceitava ser tratado como um incômodo, mas, se estivesse em seu juízo perfeito, jamais diria algo como “durma comigo também” para o cônjuge do primo. Especialmente conhecendo a personalidade de Lee Cha-young como ninguém.
— Sinto muito mesmo, irmão. É sério.
— Acha que é só esfaquear alguém e pedir desculpas?
— …Mesmo assim, sinto muito. Quer que eu me ajoelhe?
Outro riso sarcástico escapou. Ouvir sobre ajoelhar o lembrou de um episódio passado. Lee Cha-young também implorara daquele jeito uma vez; será que as pessoas daquela família não têm orgulho?
— Papai!
Foi nesse momento. Ao ouvir o chamado, ele virou a cabeça e viu Gyu-young, que acabara de lavar as mãos no banheiro. Seung-hwa também olhou para o menino e sorriu abertamente antes de voltar a olhar para frente e perguntar:
— Quer que eu me ajoelhe?
— Cala a boca, por favor.
Sua voz saiu irritada, mas por dentro ele se sentiu surpreso.
Ele achou que o rapaz, por ter desmaiado no final, não lembraria de nada ou que, mesmo lembrando, fingiria que nada aconteceu. “Pedir desculpas imediatamente ao perceber o erro também é coisa de família?”
Choi Seung-hwa continuava parado ali como uma estátua. Pensando que a teimosia de ficar até conseguir o que quer também era idêntica, Gyu-ha voltou a encará-lo com uma expressão mais amena.
— Se não tem nada para fazer, vá brincar com o Gyu-young. A professora dele chega daqui a pouco.
— Então você me perdoa?
— Isso faz alguma diferença?
— Claro que faz. Somos pessoas que vão continuar se vendo no futuro, e eu odeio que fiquem sentimentos… hum… *emotional baggage* (bagagem emocional).
— Por que diabos começou a falar em inglês de repente?
Nesse meio tempo, Gyu-young aproximou-se e estendeu os braços pedindo colo. No lugar de Gyu-ha, Seung-hwa pegou a criança com força e a girou no ar como se fosse um brinquedo. Parou em um momento oportuno e mencionou o assunto mais importante com cautela.
— Você não vai contar para o Cha-young, vai?
— E se eu contar?
— De jeito nenhum! Se contar, talvez eu nunca mais possa olhar na cara dele.
— Essa é a melhor coisa que eu ouvi hoje.
Gyu-ha pensou novamente em como o rapaz à sua frente era jovem. Ele não era uma criança que correria para a mãe dizendo: — “Ele me provocou” —, e ele não contaria para Lee Cha-young que um moleque muito mais novo que ele o desafiara sob o efeito do álcool.
Especialmente o que ele dissera por último — sobre dormir com ele —, era algo que o próprio Gyu-ha queria pedir para que não fosse mencionado. Não importava se a relação entre os primos azedasse, mas Lee Cha-young perderia a cabeça só de saber que alguém dissera algo assim. Em resumo, havia cem por cento de chance de o problema sobrar para ele também.
— Ah, irmão! Por favor.
— Saia da frente.
— Hein? Irmão.
— Segure a criança direito.
Gyu-young, sem saber de nada, ria alegremente enquanto abraçava o pescoço de Seung-hwa. Parado diante da porta, Seung-hwa era extremamente persistente.
— Por favor, por favor.
— Vai me soltar ou não?
Após um impasse, Seo Gyu-ha foi o primeiro a se render. Choi Seung-hwa continuou grudado como um carrapato enquanto segurava Gyu-young, e Gyu-ha só conseguiu se livrar dele após prometer firmemente que não contaria nada a Lee Cha-young.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna