Capítulo 18
Via-se um carro se aproximando pela estrada de terra única que levava à casa de campo, levantando poeira. Como havia apenas um visitante esperado, Dominic se virou sem pressa e se dirigiu à entrada.
Ao abrir a porta, o carro estava justamente estacionando em frente à casa. Dominic esperou que Juliet fechasse a porta do carro e caminhasse em sua direção antes de abrir a boca.
“Chegou na hora dessa vez.”
“Eu já pedi desculpas por aquele dia.” Juliet o repreendeu com um tom de desconforto. “Eu mal consegui um tempo hoje. Estava com ela até no dia em que você ligou.”
“Deve ter sido difícil convencer sua noiva.”
Às palavras de Dominic, que estava encostado no painel com os braços cruzados, Juliet respondeu secamente.
“Eu não a convenci.” Ele falou antes que qualquer pergunta pudesse ser feita. “Disse a ela que tinha uma viagem de negócios, então o fato de eu estar aqui é segredo.”
Dominic olhou para Juliet por um momento e deu um sorriso de canto.
“Que mau noivo.”
“É uma mentira inofensiva.” Juliet respondeu asperamente à piada de Dominic. “Às vezes é preciso dar um descanso para a cabeça. Só assim podemos ser mais dedicados um ao outro.”
Ao passar por Dominic em frente à entrada, Juliet olhou de relance para ele e disse:
“Leve isso em consideração.”
Dominic murmurou ao ver as costas dele entrando na casa após deixar aquele conselho descontraído.
“É, deve ser.” Sem ouvir aquela voz baixa, Juliet foi para a sala como se nada estivesse acontecendo.
Ele se jogou no sofá sem pedir permissão, mas o sinal de ansiedade era evidente.
Deixando Juliet, que apoiava os cotovelos nas coxas e olhava ao redor sem parar de agir com inquietação, Dominic se sentou em uma poltrona individual segurando um coquetel feito por ele mesmo.
“Não achei que você viria tão docilmente.”
Porque você me chantageou.
Juliet segurou a vontade de rebater e apenas fechou a boca. Em vez disso, olhou para ele cheio de ressentimento, o que fez Dominic dar uma risada.
“Relaxe. Não te disse? Quero te parabenizar.”
“Eu disse que estava tudo bem.”
“É que eu não estou bem. Eu só fico satisfeito quando faço o que precisa ser feito.” Ele acrescentou casualmente: “Desta vez, tenho que terminar isso direito.”
Mesmo perguntando várias vezes, a resposta que voltava era a mesma. Juliet não sabia o que Dominic estava planejando, mas por enquanto não tinha escolha a não ser seguir o fluxo do jogo.
“Tudo bem, obrigado.” Juliet, que falou com uma voz desanimada, logo ficou sério. “Dizendo só por precaução, meu carro tem um rastreador GPS. Se eu por acaso desaparecer, a polícia virá imediatamente.”
É melhor avisar com antecedência para se precaver de qualquer perigo.
Claro que, se Dominic realmente não tiver nenhuma má intenção, Juliet acabaria ficando envergonhado, mas é muito melhor passar vergonha do que algo ruim acontecer. Enquanto torcia para estar apenas se precipitando ao avisar, Dominic estreitou os olhos e riu sem fazer barulho.
“Acha que eu vou te matar?”
Juliet apenas virou a cabeça em vez de responder. De qualquer forma, ele deixou bem clara a sua intenção de não confiar naquele homem. Vendo que ele não baixava a guarda, Dominic falou como se tivesse se lembrado de algo.
“Mas tem uma coisa que eu quero.”
Como esperado. Juliet, que imediatamente tensionou o corpo inteiro, apurou os ouvidos. O que diabos ele vai dizer? Ou, talvez, não seja uma fala, mas uma ação?
Ele olhou de relance para as mãos de Dominic, mas uma segurava um copo de coquetel e a outra estava vazia.
Será que há algo mais…?
“Ainda falta uma última partida, não é?”
Com aquelas palavras inimagináveis, Juliet ficou com uma expressão atônita. O que foi que eu acabei de ouvir?
“……O quê?” Juliet reavaliou após uma pausa. “Última…… o quê?”
“Xadrez.” Embora tivesse ouvido claramente, ele não pôde deixar de duvidar dos próprios ouvidos.
Xadrez? De repente?
Para ele, que estava perplexo com o absurdo, Dominic continuou:
“O placar ainda está 2 a 0. Esqueceu as condições? Eu disse que quem conseguisse 3 vitórias primeiro ganharia.”
“É, eu sei. Claro que me lembro.” Juliet gaguejou como se tivesse ficado sem palavras, franziu bastante o rosto e perguntou: “O que isso tem a ver agora? Nós concordamos com a transferência e até assinamos o contrato com o escritório de advocacia, não era um assunto encerrado?”
Diante da pergunta de Juliet, cuja perplexidade era evidente, Dominic deu um risinho inesperado. Juliet não tinha a menor ideia do que aquele sorriso significava. Vendo-o confuso, Dominic abriu a boca.
“Juliet, como você sabe, eu sou o tipo de pessoa que morre de tédio com a própria vida.”
Juliet soltou um suspiro profundo e mal conseguiu conter a voz.
“É, eu sei.”
Quando ele repetiu as palavras em voz baixa, Dominic continuou com o tom sarcástico.
“Mas não sou burro a ponto de desperdiçar minha vida com coisas insignificantes. Tudo o que eu quero é xadrez. Só mais uma partida.”
O tom de voz exausto fez com que suas palavras soassem sinceras. Juliet hesitou, sem saber se o que estava sentindo estava certo ou errado.
“……Por que isso é tão importante?”
Quando ele perguntou com cuidado, Dominic respondeu sem hesitar mais uma vez.
“Eu já não disse? Não gosto de deixar as coisas sem um fim adequado.”
Ele não hesitava diante de nenhuma pergunta. Embora Juliet sentisse um certo incômodo, não podia ignorá-lo. De qualquer forma, este homem definitivamente não era alguém para se levar na brincadeira.
Mas…
Juliet logo mudou de ideia. Se este homem estivesse planejando fazer algo com ele, já teria feito a esta altura. Não haveria motivo para dar o trabalho de mencionar xadrez ou coisas do tipo.
Talvez ele esteja falando sério.
Acreditar neste homem pode ser uma escolha mais tola do que confiar em um crocodilo. No entanto, ele já tinha chegado até ali e não podia mais recuar.
“Você só quer jogar? Não tem mesmo outro motivo?” À pergunta feita com cautela, Dominic assentiu levemente com a cabeça.
“Não, não quero mais nada.” Ele tinha dito a mesma coisa quando fez a transferência, e realmente foi assim.
Dominic não tinha ganhado nada ao vir para a H&J. Este homem sempre dizia a mesma coisa. Que não queria nada.
Exceto por uma única coisa.
Pensando até esse ponto, Juliet finalmente assentiu.
“Tudo bem.”
Dominic ergueu o copo de coquetel como se fizesse um brinde e virou o resto da bebida de uma vez. Vendo Dominic se levantar da cadeira, Juliet esperava que ele fosse pegar o tabuleiro de xadrez, mas estava enganado.
“Antes disso.”
Dominic fez uma pausa proposital e deu um sorriso.
“Que tal comermos primeiro?”
***
Surpreendentemente, a mesa estava cheia de pratos.
A variedade e o empratamento deslumbrante deixaram Juliet sem palavras por um momento. Não havia como este homem ter cozinhado pessoalmente. Como se tivesse lido a dúvida de Juliet, Dominic disse:
“Eu também sei esquentar a comida.”
Como esperado.
Juliet se convenceu. Provavelmente encomendou de algum restaurante. Sendo assim, o sabor estaria garantido. Enquanto se sentia secretamente aliviado, Dominic puxou uma cadeira e fez um sinal para Juliet.
Era uma indicação para ele se sentar.
Juliet se sentiu estranho. Ele devia estar com vontade de devorá-lo vivo, mas não agiu de forma indelicada.
Afinal, ele era um homem que mantinha essas maneiras básicas.
Pensando bem, era uma pessoa fascinante. Por mais arrogante que fosse e disparasse todo tipo de sarcasmo sem hesitar, seu comportamento era extremamente educado. Talvez esse fosse o limite desse homem. Pensar assim fez com que sua guarda baixasse um pouco.
Não haveria nada com o qual não pudesse lidar. Se esse homem mantivesse a educação até o fim, o limite do que poderia fazer também estaria traçado. Embora houvesse duas suposições atreladas: ‘até o fim’ e ‘se mantiver a educação’.
“Obrigado.” Juliet resolveu seguir o fluxo por enquanto.
Como ele também tinha cometido erros, achava que devia fazer pelo menos isso, e como sentia um pouco de culpa, não foi uma tarefa tão difícil.
“O presidente não tem cérebro de jeito nenhum?” Essa foi a primeira coisa que Dominic disse após começarem a refeição.
Juliet, que estava prestes a comer a salada, ficou surpreso e acabou tossindo.
O que ele tinha acabado de ouvir?
Juliet piscou e olhou para ele, mas Dominic continuou a falar como se não fosse nada.
“Quase não sobrou cabelo nos diretores. Tome cuidado você também. Para virar diretor, talvez tenha que arrancar todo o cabelo.”
“Não pode ser!” Juliet acabou caindo na gargalhada sem querer. Ele tentou mudar de expressão rapidamente, mas não foi fácil. Juliet, que tentou fechar a boca às pressas, acabou se desmanchando em risos logo em seguida e disse: “Finja que não sabe, o presidente é muito sensível com relação ao cabelo. Você pode acabar sendo odiado.”
Quando ele fez a piada sorrindo, Dominic deu um risinho inesperado.
“Agradeço o conselho. Vou levar em consideração.”
Juliet concordou com a cabeça, dizendo que sim. Sem perceberem, a tensão que fluía entre os dois havia se dissipado. A ponto de conseguir até sentir o gosto da comida.
“Está gostoso.” Quando Juliet elogiou após colocar o prato de frango na boca, Dominic disse que era um alívio.
“Se quiser, posso te dizer qual era o restaurante. Também deve ser bom para ir a um encontro.”
Ao ouvi-lo dizer algo assim, Juliet olhou surpreso para Dominic novamente.
Vendo-o continuar a refeição como se nada tivesse acontecido, um sentimento de culpa o invadiu, mas as palavras não saíam. Era apenas uma frase, mas ela só ficava na ponta da língua. No fim, Juliet voltou a se calar e continuou comendo.
A comida estava impecável.
Apenas com a exceção de que tudo, desde o amuse-bouche até a sobremesa, estava sendo servido de uma só vez. Dominic explicou brevemente o motivo disso:
“É que eu não queria ficar indo e vindo o tempo todo para pegar a comida.”
Graças a isso, a conversa continuou sem interrupções.
Dominic não trouxe à tona nenhum assunto que deixasse Juliet desconfortável. Apenas conversas comuns sobre o tempo, um julgamento recente que virou notícia e pequenas histórias da época da faculdade. Juliet, que no início recusava a conversa respondendo apenas de forma direta, foi se suavizando aos poucos e, sem perceber, já estava conversando e rindo.
Como nos velhos tempos.
Aquele dia parecia muito distante no passado. Embora não tivessem se passado nem dois meses.
Movido pela culpa, Juliet se concentrou ainda mais no tempo com ele. Ter essa oportunidade acabou sendo algo positivo. Afinal, graças a isso, ele poderia encerrar tudo com Dominic de forma amigável.
“O que foi?”
Com a pergunta repentina de Dominic, Juliet percebeu que o estava encarando fixamente. Ele quase respondeu com um “Ah, nada”, mas parou os movimentos e ficou pensativo por um instante.
“É estranho.” Juliet fez uma pausa e abriu a boca como se tivesse tomado uma decisão. “Achei que você iria querer me matar.”
Inesperadamente, o tempo que passavam juntos agora era muito confortável e não se sentia nenhuma hostilidade. É natural não conseguir aceitar algo imprevisível que parecia impossível de acontecer. Era uma suposição extremamente racional, mas Dominic desdenhou da observação de Juliet.
“As pessoas achavam que eu com certeza já tinha cometido um assassinato antes.”
“E não?” Juliet ousadamente fez uma piada com Dominic.
Ei, espere. Não passe dos limites.
Um pequeno grito ecoou dentro dele, mas o som era tão baixo que ele simplesmente o ignorou, fingindo não ter ouvido. Esta seria a última conversa com Dominic. Esse fato o impedia de parar.
“Vejamos.” Dominic desviou com habilidade da pergunta de Juliet. “Matar alguém não é tão fácil quanto parece. Esconder o corpo é complicado e, graças ao avanço da ciência, ficou difícil escapar do cerco policial.”
Pensar que viria uma resposta tão realista vindo deste homem. Juliet piscou os olhos, impressionado.
“Que frustrante, querer matar e não conseguir.” Descobrir que existia algo impossível até mesmo para um homem que parecia capaz de tudo era uma constatação bastante nova.
Diante das palavras de Juliet, Dominic apontou com desdém: “Eu não disse que não posso matar.”
Juliet hesitou e encarou o rosto dele.
Uma tensão repentina tomou conta. Enquanto ele pensava apressadamente se havia alguma variável em que não tinha pensado, Dominic continuou:
“Se a pessoa se matar sozinha, a polícia não pode fazer nada, não é? E o corpo eles cuidam de recolher.”
“Ah……” Só então Juliet se convenceu e relaxou os ombros.
Percebendo que ele tinha ficado cauteloso por um breve momento, Dominic acrescentou: “Se você não tem a intenção de se matar sozinho, não precisa nem imaginar que eu vá te matar. Porque isso não vai acontecer.”
“Se eu achasse que isso aconteceria, nem teria vindo aqui em primeiro lugar.” Juliet deu um sorriso fingindo ousadia.
Ele é um Gamma. Não reagiria a nenhum feromônio.
Por causa disso, Dominic não conseguia movê-lo como bem entendesse. A menos que seja por meios físicos. Esse também era um dos motivos pelos quais Juliet pôde vir até aqui.
A possibilidade de Dominic usar métodos físicos contra ele a esta altura também era remota. Acima de tudo, que vantagem ele teria com isso? Afinal, os dois eram apenas parceiros sexuais.
Embora ele o tivesse usado.
Juliet pensou, sentindo a culpa novamente. Alfas Dominantes quase não sentem emoções. Dizer que o amava foi uma atitude fora dos planos de Juliet. Foi apenas um impulso de momento por se deixar levar pelo clima.
Se eu disser que o amo agora, este homem também não ficaria agitado?
A ideia de que esta era a última vez, já que tinham assinado o contrato, deixou Juliet muito empolgado. Fascinado pela bela paisagem, ele acabou soltando o pensamento que surgiu de repente sem nem refletir.
Ter Dominic reagindo a isso e acabando com o contrato que vinha se arrastando devagar não era uma sorte imensa?
Afinal, eu sou mesmo de sorte.
A reação que Dominic teve quando ele lhe contou a verdade foi inesperada, mas, de qualquer forma, alcançou o que queria. Embora não na mesma proporção de Dominic, Juliet também não havia passado por muitas provações ao longo da vida.
As poucas dificuldades que encontrava nem eram tão grandes assim e, para completar, uma sorte imprevista sempre aparecia, fazendo com que tudo se resolvesse de forma inacreditável.
Quando ele dormiu com o professor, por pouco não foi descoberto e expulso, mas, por um absurdo, estourou um caso de assédio sexual, permitindo que ele fingisse ser uma vítima forçada e escapasse da crise.
Sempre foi assim.
Juliet sempre conseguia se safar com sorte. Dessa vez não seria diferente. Ele acabou superando o que poderia ser considerado o maior obstáculo da sua vida até então. Como sempre tinha feito.
Não havia razão para ter medo nem necessidade de ficar em guarda. Daqui para a frente, o caminho da vida de Juliet seria só de prosperidade.
Aproveitando uma vida perfeita, exatamente como seus pais desejavam.
***
Após terminarem a refeição, os dois começaram o jogo.
Dominic bebia vinho, mas Juliet tomava apenas água. Desde que chegou ali, ele não colocou uma gota de álcool na boca. Por mais tarde que ficasse, Juliet pretendia voltar dirigindo o próprio carro.
Além disso, se bebesse e por ventura ficasse bêbado, não conseguiria se preparar para uma situação imprevista. Ao mesmo tempo em que fazia o seu melhor para se despedir de Dominic, Juliet tentava não baixar a guarda. Pedir desculpas a ele e se prevenir contra eventuais imprevistos eram problemas distintos.
Para a surpresa de quem estava tão cauteloso, o tempo passou de forma muito tranquila. Por fora, não parecia em nada diferente do passado. Os dois estavam sentados com o tabuleiro de xadrez entre eles, engajando-se em uma conversa fiada e banal. Quando Juliet atacava, Dominic rebatia com um ataque; quando Juliet recuava para se defender, Dominic também desacelerava o ritmo.
Agradável.
Um conforto que não sentia há muito tempo fez um sorriso surgir naturalmente em seu rosto. Mesmo pensando que não deveria fazer isso, seus lábios não paravam de sorrir.
“Se por acaso eu ganhar, você não vai mudar as regras de novo? Dizendo que este jogo não valeu.”
Ao mover uma peça e fazer uma piada, Dominic também esboçou um sorriso no canto dos lábios.
“Reconhecer a derrota também faz parte das regras do jogo. Embora da última vez tenha sido porque eu baixei a guarda.”
Diante daquela frase com um toque desnecessário, Juliet se sentiu secretamente incomodado, mas a expressão de Dominic permaneceu inalterada. Era difícil saber se ele estava se referindo ao fato de ter sido enganado e feito de bobo por Juliet, ou se era realmente apenas uma conversa sobre xadrez, mas ele sabia qual reação deveria ter nessa hora.
Fingir demência e seguir o ritmo do outro.
“Isso é reconhecer a derrota? Dizer que perdeu porque baixou a guarda e não por falta de habilidade?”
“Para mim, é.”
Quando ele debochou com ousadia, Dominic deu um leve sorriso.
“Não fique desapontado. Eu também estou impressionado por você ter chegado a esse ponto contra mim.” Levando o vinho aos lábios, ele acrescentou: “Embora não vá haver uma segunda chance.”
Juliet deu um risinho e corrigiu o que ele disse.
“Eu também não preciso de uma segunda chance, já consegui o que queria.”
“Parabéns.”
“Obrigado.” Ele respondeu prontamente às palavras sem qualquer malícia, mas logo sua expressão ficou séria.
A cada peça movida, o tempo precioso ia diminuindo aos poucos.
Agora isso também viraria lembrança.
Às vezes, ao me recordar do dia de hoje, sentiria um amargor ou me deixaria levar pela nostalgia de uma boa recordação?
Pensando bem, o tempo com ele também não tinha sido ruim para Juliet. Honestamente, ele era a única pessoa com quem podia ser ele mesmo, e o sexo era incomparavelmente melhor do que com qualquer parceiro anterior. Se a sua natureza não fosse a de um Gamma, e se ele fosse uma mulher, talvez tivesse escolhido Dominic.
No entanto, suposições não significam nada.
Juliet era um Gamma e, acima de tudo, um homem. Seus pais teriam se oposto radicalmente à escolha de Juliet. Por causa disso, só podia haver uma única conclusão.
Juliet não escolheria Dominic.
Jamais.
“Me desculpe.” Juliet deixou escapar de repente.
Dominic, que olhava para o tabuleiro de xadrez, ergueu a cabeça. Como se perguntasse o porquê daquele comentário repentino. Juliet continuou olhando para baixo e prosseguiu com a confissão.
“Estou arrependido por ter te enganado. Mas a H&J é uma boa empresa, então você vai gostar.” As últimas palavras soavam quase como uma autojustificativa.
Um homem da estatura de Dominic receberia um tratamento incomparável em qualquer lugar do mundo ou em qualquer área que fosse. Mesmo assim, dizer palavras bonitas como essa acabou sendo apenas um consolo para o próprio Juliet.
Dominic não demonstrou reação alguma.
Apenas encarava fixamente Juliet, que não tinha coragem de encará-lo nos olhos. Após um breve sorriso, ele abriu a boca.
“Você está arrependido, mas não sente remorso, é isso?”
Juliet respondeu de forma teimosa, continuando a olhar para baixo.
“É, não sinto.”
Ele devia achá-lo descarado.
Talvez fosse melhor se não dissesse nada.
No entanto, Juliet também não se arrependeu disso. Se não pedisse desculpas agora, com certeza lamentaria mais tarde por não ter dito essas palavras.
“Que bom.”
Juliet parou diante das palavras repentinas. Ele não conseguiu entender de imediato o que tinha acabado de ouvir. Enquanto olhava confuso, Dominic, sentado do outro lado, sorria olhando para ele.
“Eu também.”
“…… O quê?” Juliet apenas piscou os olhos de forma abobada.
Com o olhar fixo nele, Dominic se encostou confortavelmente no encosto da cadeira.
“O que achou da refeição? Gostou bastante?”
“Hã?” Juliet soltou apenas outra exclamação boba.
Dominic curvou os cantos da boca, deixando escapar uma risada baixa. A mente paralisada de Juliet começou a voltar a funcionar aos poucos.
Refeição? Que refeição? Ele não tinha bebido álcool. Então foi a comida? Aquela salada de antes? O bife? Será que foi o peixe? Ou talvez o pudim que comeu por último? Ou então…
Tudo.
“O que…… você fez?” Juliet, que murmura estupefato, levantando-se num pulo com atraso.
Na mesma hora, uma tontura cobriu sua visão e o teto pareceu girar fortemente.
“…… Agh.” Por pouco ele não bateu o rosto no chão.
Enquanto arfava assustado, Dominic lhe disse: “Cuidado, é hora do remédio começar a fazer efeito.”
Com uma voz surpreendentemente carinhosa, Juliet segurou no encosto da cadeira, mal conseguindo manter o equilíbrio, e olhou para Dominic com dificuldade. Em seu rosto, a descrença ainda era evidente.
“V-Você colocou…… drogas?” Ele gaguejava, pálido de susto. “Isso…… não faz sentido, você também comeu! Comeu a mesma coisa que eu……”
“Sim, comi.” Dominic admitiu com uma risada alegre, como se estivesse cantando. “Mas a sua natureza é diferente da minha.”
Um som que não se sabia se era uma exclamação de absurdo ou um gemido escapou da boca de Juliet. Ele precisava sair dali. Tinha que fugir daquele homem o quanto antes.
Rápido, agora mesmo.
“Ah, ugh, ugh.” Soltando um gemido sufocado que lembrava um grito, Juliet se moveu desesperadamente.
Ele pensou que devia correr em direção à porta, mas isso não passou de um pensamento. Seu corpo desabou miseravelmente no chão como lenha seca.
Haa, haa……
A respiração de Juliet ressoava de forma confusa em seus ouvidos. Ele tremia imaginando todas as coisas que poderiam acontecer a partir de agora.
Era isso.
Ele deveria ter desconfiado do porquê de tudo estar tão calmo; Dominic com certeza estava esperando o momento em que ele baixasse a guarda.
Perigo.
Um alarme de aviso não parava de soar em sua cabeça. Ele nem sabia que tipo de substância tinha ingerido. Mas de uma coisa tinha certeza: Dominic não tinha a menor intenção de deixá-lo ir embora.
Enquanto Juliet se debatia tentando avançar em direção à porta de qualquer jeito, Dominic se levantou calmamente atrás dele.
“Os ‘Gammas’ têm uma confiança estranha.” Movendo-se passo a passo em direção a Juliet sem pressa, Dominic falou.
Olhando pelo canto da visão de Juliet, os olhos roxos de Dominic estavam incrivelmente frios. A imagem dele rindo e trocando brincadeiras com Juliet até momentos atrás já não existia mais.
“Como não conseguem sentir o cheiro de feromônios nem são afetados por eles, acham que os Dominantes não serão nenhuma ameaça para vocês.”
“Ugh, ugh……”
Dominic olhou para baixo, encarando Juliet, que soltava gemidos de dor, ficando de pés afastados com o corpo dele entre suas pernas.
“Por que será? Mesmo sem usar feromônios existem vários outros métodos, então por que acham que só precisam tomar cuidado com os feromônios? Sendo que nem sequer vivenciaram o que é um feromônio de verdade.”
Ele inclinou a cabeça para o lado como se realmente não entendesse.
Como uma criança observando uma borboleta com as asas arrancadas, Dominic apenas ficou parado ali olhando Juliet se contorcer aos seus pés, sem oferecer ajuda alguma.
“Do, mi, nic.” Juliet puxou o ar com dificuldade e implorou por ajuda. “Por favor, eu te peço. Uma ambulância…… me leva pro hospital. Eu errei, errei……”
Ele nem conseguia terminar a frase direito. Vendo Juliet se encolher enquanto soltava respirações dolorosas, Dominic deu uma risada de canto.
“ ‘Aqui há veneno. Por você, beberei este veneno.’ ”
Era um trecho de Romeu e Julieta.
Sua voz, repetindo exatamente a fala que Julieta recitara antes de tomar o veneno, parecia conter um leve tom de deboche.
“Não se preocupe, Juliet. Julieta não morreu pelo veneno. Com você é a mesma coisa.” Ele continuou falando calmamente: “Eu já não disse? Eu não cometo assassinatos.”
Parecia que a gargalhada alta de Dominic podia ser ouvida, mas era apenas uma alucinação.
Ele estava apenas observando Juliet com um sorriso peculiar. Sentindo pavor da sensação de sufocamento e do olhar fixo sobre si, Juliet se debatia. Seu cérebro em pânico já não conseguia formular nenhum pensamento racional.
Mentira, é tudo mentira. Você está tentando me matar agora mesmo!
O olhar fixado em Juliet não se moveu nem um pouco. Ele apenas observava. Até que a respiração diante de seus olhos se cessasse. Isso o deixava ainda mais desesperado.
Viu só? Tenho certeza de que você já matou alguém.
Juliet olhou para Dominic, arfando. Em sua visão embaçada, a figura do homem aparecia vagamente antes de perder a forma e se distorcer.
Alguém, assim como eu agora……
Olhando para Juliet, cuja consciência desaparecia gradualmente, Dominic murmurou:
“Nemo me impune lacessit.”
Aquele que ousar brincar comigo certamente pagará por isso.
Com essa antiga frase por último, Juliet perdeu completamente a consciência.
***
“Parabéns, Juliet!”
“Parabéns, vocês são um casal que combina muito.”
“Sejam felizes! Ouvi dizer que vocês estão indo passar a lua de mel na Europa? Ah, que inveja! Não acredito como pôde estar com uma esposa tão bonita.”
Em meio às felicitações que se derramavam, o sócio-diretor do escritório de advocacia se aproximou e o abraçou.
“Estou tão orgulhoso de você. Não se preocupe com o trabalho por aqui, vou organizar um lugar para ir com os executivos quando você voltar, então esteja preparado.”
Para ele, que fazia brincadeiras até levantando o polegar, Juliet sorriu alto. Após trocarem um aperto de mão firme, ele se virou e seus pais estavam ali.
“Oh, meu filho.” A mãe abraçou Juliet primeiro e disse com o rosto radiante: “Como esperado, você é uma criança especial. Valeu a pena criá-lo até agora.”
Em seguida, o pai segurou a mão de Juliet com uma das mãos e deu tapinhas fortes em seu braço com a outra.
“Eu acreditei desde o início que você faria a família Dawson brilhar. Você finalmente conseguiu” Em seguida, ele sussurrou de leve em seu ouvido: “Agora só resta o cargo de CEO da H&J.”
Afastando o rosto com um sorriso, Juliet também sorriu de volta.
“Sim. Com certeza, pai.” Ele respondeu retribuindo o sorriso radiante. Eu também vou fazer isso futuramente.”
Ao lado do pai satisfeito, a mãe também sorria abertamente. Juliet continuava a sorrir e rir. Seu rosto começava a doer, mas ele tinha que aguentar. Tinha que sorrir fingindo estar feliz. Fingindo não estar cansado, fingindo que ainda transbordava energia, fingindo que podia continuar correndo sem parar.
Assim.
Pela vida toda.
***
“Argh……!”
De repente, ele recobrou a consciência num sobressalto.
Juliet abriu bem os olhos e olhou ao redor apressadamente. O barulho que antes preenchia seus ouvidos tinha sumido completamente, e o ambiente estava em total silêncio. Tudo o que conseguia ouvir era sua própria respiração descontrolada.
Nem sua mãe, nem seu pai, nem o diretor do escritório de advocacia, nem a mulher que acabara de se tornar sua esposa, nem os padrinhos, nem aquele monte de convidados.
Não se via ninguém.
Não havia nada.
Nem as flores deslumbrantes que decoravam cada canto, nem o bolo de casamento de 10 andares, nem a orquestra que tocava.
O lugar onde Juliet estava deitado era desolado ao extremo, a ponto de parecer o oposto do luxuoso salão de festas. Naquele espaço estreito que mal parecia ter o tamanho de um cômodo, havia apenas uma única lâmpada pendurada no teto iluminando vagamente o ambiente.
Ele virou a cabeça rapidamente, mas na parede de cimento grosseiramente acabada não havia nenhuma janela. Era um espaço completamente selado. Com exceção de uma única porta disfarçada como parede em um dos cantos.
Juliet girava os olhos assustado e arfava de forma pesada. Ele tentou se levantar na pressa, mas algo o impediu imediatamente.
“Argh!”
A mão que ele tentou erguer sem pensar foi segurada com força, fazendo todo o seu corpo sacudir com o impacto. Sentiu uma dor nas axilas como se fossem se deslocar. Algo apertava seus pulsos com firmeza.
Haa, haa.
Puxando o ar rapidamente até conseguir acalmar a respiração, ele ergueu a cabeça hesitante. Não pode ser, não pode ser. Não devia ser isso. Não mesmo, de jeito nenhum.
Isso jamais poderia……
“Hic……!”
Para onde direcionou seu olhar aterrorizado, Juliet acabou se apavorando.
Seus dois pulsos abertos estavam algemados e presos, cada um a uma cabeceira da cama. Ele tentou chacoalhar os braços desesperadamente, mas apenas um som desagradável de metal rangendo ecoou, sem que eles saíssem do lugar.
Não eram apenas os braços que estavam fixados sem poder se mover. Suas duas pernas também estavam na mesma situação. Ele estava preso à cama com os membros escancarados.
Para piorar a situação chocante, ele estava completamente nu, sem uma única peça de roupa íntima. Acordar completamente pelado e amarrado a uma cama não era o pior cenário inimaginável?
“N-não pode ser…… I-isso, isso não faz sentido……” Juliet entrou em pânico e gritou.
Mesmo que sacudisse o corpo inteiro e se debatesse, nada mudava. Apenas um chiado irritante ressoava ruidosamente pelo local.
“Aaaaah, aaaaaah……!” Ele gritou até rasgar a garganta, mas não obteve resposta.
O que restava naquele espaço vazio era apenas Juliet e a cama barata em que ele estava deitado.
Foi por volta do momento em que seu grito de desespero começou a se misturar a um som rouco. Ouviram-se barulhos vindos do lado de fora.
Eram os passos de alguém se aproximando.
Juliet apurou os ouvidos e olhou para a porta.
Seguiu-se um som pesado e sibilante. Atrás do barulho desagradável de metal rangendo, como se destrancassem um cadeado, a porta finalmente se abriu. No campo de visão aberto ao máximo, a figura de alguém surgiu.
A iluminação fraca revelou primeiro os pés de quem entrava, depois as pernas, a cintura, o peito e, por fim, o rosto. Os passos lentos também pararam junto com o movimento. Juliet olhou com uma expressão aterrorizada para o rosto sombrio do homem que o encarava do alto.
Dominic.
Juliet pronunciou o nome dele, mas nenhum som saiu.
Até mesmo o nome que rondava sua boca desapareceu, e ambos se encararam em silêncio.