Capítulo 17
Um silêncio assustadoramente pesado se instalou. Dominic não conseguiu entender de imediato o que tinha acabado de ouvir.
“Vou me casar.”
Certamente não havia nenhuma palavra desconhecida ali, era uma frase simples e sem margem para mal-entendidos.
Será que ouvi errado?
Pela primeira vez, ele duvidou de si mesmo. Diante de um Dominic completamente paralisado e frio, Juliet encarava a parede de forma ereta. Como se tivesse soltado uma bomba e não tivesse nada a ver com aquilo.
Dominic, que o observava, moveu os lábios devagar.
“…O quê?”
Será que ele sabia que eu ia pedi-lo em casamento?
Talvez quisesse tomar a iniciativa por também querer fazer o pedido primeiro. Afinal, ele devia sentir o mesmo que Dominic.
Absurdamente, um pensamento descabido passou por sua cabeça. Se não fosse isso, como algo assim faria sentido? Juliet vai se casar, então a outra pessoa só poderia ser ele próprio, claro.
Por acaso pensaram a mesma coisa ao mesmo tempo.
Se não fosse isso, simplesmente não fazia o menor sentido…
“Vou me casar, no mês que vem.”
Com um tom de voz rígido, Juliet despedaçou todas as expectativas de Dominic. Não dá mais para negar. Juliet vai se casar. Com outra pessoa, não com Dominic.
Evitando o rosto de Dominic, de onde todo o sentimento havia desaparecido completamente, Juliet continuou a falar.
“Por isso estou muito ocupado com os preparativos do casamento agora. Vim aqui para te dizer isso.” A comida nem tinha começado a ser servida direito, mas Juliet já se preparava para se levantar apressadamente. “Hoje é o último dia em que nos vemos. Foi divertido durante esse tempo todo. Se cuide, tchau.”
Ele falou o que queria, como bem entendeu e já ia saindo. Mas aquilo era um absurdo. Dominic não tinha a menor intenção de deixá-lo ir embora assim.
“Espere.”
Juliet, que estava prestes a se levantar, parou.
Hesitou e voltou a se sentar meio sem jeito, mas ainda assim evitou olhar para Dominic. Olhando fixamente para Juliet, que teimosamente desviava o rosto, Dominic abriu a boca.
“O que você acabou de dizer? Casamento? Com quem?”
Juliet deu um leve dar de ombros e respondeu como um suspiro.
“Com a filha do advogado sênior da H&J.”
Dominic franziu a testa e abriu a boca, mas não conseguiu falar nada de imediato. Olhou para outro canto, esperou alguns segundos em silêncio e voltou a encarar Juliet.
“……Desde quando?” Como se não conseguisse entender de jeito nenhum, Dominic balançou a cabeça e perguntou. “Você não estava dormindo comigo até recentemente? Desde quando, afinal?”
O olhar hesitante de Juliet finalmente se voltou para Dominic. Não precisava mais enganá-lo. Já tinha conseguido tudo o que queria.
“Eu dormi com você para poder me casar com ela.” Então ele finalmente confessou.
Sua verdadeira intenção.
“Você mesmo me perguntou, não foi? O que eu ia ganhar em troca para me esforçar tanto. É isso. Me casar com a filha do dono do escritório de advocacia.” Juliet parecia extremamente aliviado por finalmente poder revelar o segredo que guardava.
Seu rosto voltado para Dominic esteve tenso e cheio de culpa antes, mas isso não durou muito.
Juliet fechou os olhos por um instante e, ao abri-los, parecia diferente. Ao contrário de antes, começou a encarar Dominic bem nos olhos.
A mudança foi tão drástica que parecia até que ele estava atuando.
Seus olhos brilhavam com um desejo que Dominic nunca tinha visto antes.
“Com o passar do tempo, quando o sócio se aposentar, eu vou assumir a empresa. A H&J vai ser minha. Se for por isso, transar com você não é nada.” Ele deu uma pausa proposital e acrescentou: “Não é grande coisa, é?”
Naquele instante, nada vinha à mente de Dominic.
Na verdade, tantas ideias o atropelaram de uma vez que seria mais correto dizer que tudo simplesmente evaporou de vez.
“E o que significava quando você dizia que me amava?” Depois de um longo tempo, Dominic falou.
Sem saber se a pergunta era um último fio de esperança ou uma acusação contra Juliet, este apenas deu um sorriso debochado, como se fosse uma pergunta fútil.
“Porque era o último sexo.” Na verdade, era uma resposta mesquinha.
Era só isso? Dominic ainda não conseguia acreditar.
“Como uma lembrança?” Ele perguntou em voz baixa.
Parecia até estar tremendo levemente.
“Não.” Juliet fez uma pausa e acrescentou: “Achei que assim você ficaria mais excitado.”
Dominic pareceu até parar de respirar. Juliet continuou a falar, como se tivesse largado de mão de tudo.
“Como era a última vez, eu queria que fosse o mais prazeroso possível. E acabou sendo.” Ele torceu o nariz de forma brincalhona e perguntou: “Eu estava certo, não estava? Aquele sexo foi algo que você nunca mais vai ter na vida, não acha?”
Ele perguntou como se fosse uma brincadeira, mas é claro que Dominic não riu.
Juliet, tentando de tudo para mudar aquela situação constrangedora, desviou o olhar rapidamente. Dominic encarava o perfil do rosto de Juliet, que novamente o evitava.
Parecia estar brincando, mas por que continuava desviando o olhar?
Dominic achava que conseguia ler os pensamentos de qualquer pessoa, mas isso não servia de nada com Juliet diante de seus olhos.
A atitude de desviar o olhar combinada com o jeito descontraído de quem faz uma brincadeira.
Ele não conseguia nem imaginar qual dos lados era atuação.
Mas havia algo mais claro do que qualquer outra coisa.
Juliet o havia enganado.
Não, a palavra “brincado” seria mais apropriada.
A presença do anel que ele ainda não tinha tirado do bolso parecia sufocar Dominic com força. Ele não queria aceitar a realidade, mas não podia deixar de perguntar.
“Eles sabem? Que você dormiu comigo para se tornar genro do dono?”
Era um fato que serviria perfeitamente como chantagem, mas Juliet não se abalou nem um pouco. Como se fosse uma pergunta que já esperava, ele voltou o olhar para Dominic.
“Não. Mas você não vai contar, vai?”
Dominic o encarou de volta sem sequer piscar os olhos e perguntou novamente:
“Por quê?”
Juliet respondeu com um sorriso nos lábios.
“Porque você não vai querer espalhar para o mundo que foi um idiota que caiu em um jogo de sedução e trocou de escritório por causa disso.”
O silêncio voltou a se instalar.
Dominic, que ficou calado por um tempo, abriu a boca. O som veio logo em seguida.
“Por que, afinal?” Ele perguntou com o rosto contorcido. “Por que chegar a esse ponto?”
A expressão sumiu do rosto de Juliet. Aquele rosto sem nenhuma emoção parecia, na verdade, dizer muito mais coisas.
“Eu já disse.” Ele sorriu, contorcendo os cantos da boca. “Meus pais são muito gananciosos.”
Eles queriam coisas demais de seu único filho.
Uma vida de lutar e correr para realizar esses desejos. Sem se importar com os meios ou métodos, eliminando rivais impiedosamente, até mesmo dormindo com um professor por causa de notas.
Ele chegou até aqui assim.
“Não sinto muito.” Juliet disse com obstinação. “Você também viveu pisando em inúmeras pessoas até agora. Desta vez, foi apenas a sua vez.”
Eram palavras verdadeiras.
Mas as palavras de Juliet soavam como uma autojustificativa desesperada.
Diante da reação silenciosa de Dominic, Juliet revelou a verdade como se já não se importasse com mais nada.
“Já que chegamos a isso, vou te contar tudo. Encontrar você naquele hospital naquele dia também não foi coincidência. Eu fui até lá sabendo que você estava lá.” E então, ele revelou mais um de seus segredos. “Eu tinha instalado um rastreador no seu carro.”
Acrescentando uma piscadela leve, Juliet resmungou como se falasse sozinho.
“Deu um certo trabalho recuperar aquilo do carro destruído sem ser pego. Enfim, tem mais alguma coisa que queira saber? Pode falar, vou responder tudo. É a sua última chance.” Juliet soltou um suspiro profundo, como se estivesse aliviado.
O rosto dele sorrindo parecia extremamente relaxado. Não era para menos, afinal, a única pessoa que enganou Dominic Miller e o fez de bobo, tanto no passado quanto no futuro, só poderia ser Juliet.
Dominic, que permaneceu em silêncio, finalmente abriu a boca após um longo tempo.
“Valia a pena arriscar a vida? Não pensou que poderia sofrer uma mutação por causa dos meus feromônios?”
Com uma voz calma, Juliet franziu os olhos e o encarou.
“Imagina, não precisei arriscar a vida. Eu tenho uma alta resistência a feromônios.” Em seguida, ele riu, como se achasse graça. “Eu não seria idiota de dormir com você sem ter essa confiança.”
Tudo tinha sido um plano.
Dominic caiu completamente nos cálculos de Juliet. O motivo era simples. Como nunca imaginou que alguém pudesse brincar com ele dessa forma, sua própria arrogância acabou rasteirando e o derrubando.
Tão absurdamente assim.
Juliet, que ficou observando Dominic do outro lado da mesa por um tempo, se preparou para se levantar.
“Já falei tudo o que tinha para falar, então vou indo. Tem muita coisa para fazer nos preparativos do casamento, estou ocupado para caramba esses últimos dias.”
“E se…” Dominic o fez parar, chamando Juliet, que se apressava como se estivesse fugindo.
Para Juliet, que não teve escolha a não ser esperar, ele perguntou com uma voz tão grave quanto o silêncio pesado de antes.
“O que você teria feito se eu não tivesse caído na sua armadilha?”
Juliet soltou uma risada fútil, como um balão esvaziando.
“Mas você caiu.”
Dominic não disse mais nada.
Juliet não esperou mais e se dirigiu à porta. Segurando a maçaneta e a girando, ele parou como se tivesse se lembrado de algo e olhou para trás. Para Dominic, que ainda o observava, ele deu um tchauzinho leve.
“Tchau, Dominic. Espero que se dê bem no novo escritório. Como você não é um dos diretores, não devemos nos ver de novo.” Deixando essas últimas palavras, ele saiu da sala privada.
E Dominic acabou ficando completamente sozinho.
Junto com o anel de noivado que tinha guardado no bolso do terno.
***
O som do cravo¹ (harpsichord) ressoando por toda a sala de música era mais alto e imponente do que o habitual, exalando uma atmosfera densa e sinistra. A fumaça do charuto, que deixava o ambiente nebuloso, também contribuía para isso.
No cinzeiro já havia várias bitucas de charutos totalmente queimados acumuladas, mas Dominic as ignorou e acendeu um novo charuto.
Soltando no ar a fumaça tragada do fundo dos pulmões, ele levou o charuto lentamente à boca. Em sua mente, cada momento desde o primeiro encontro com Juliet se passava, um por um. Tão vívido como se tivesse acontecido ontem.
“Clássico é o melhor, não é mesmo?”
Pensando bem, ele já tinha declarado isso com firmeza desde o começo. Que tudo aquilo era intencional.
Desde quando esbarrou nele com uma cara ingênua, até o dia em que foi ao escritório e moveu uma peça de xadrez para atrair o interesse de Dominic; quando apareceu diante dele corado após tomar banho como se não fosse nada, dizendo que havia risco de mutação; e quando insistiu em ir até ele para jogar xadrez, mesmo sangrando por ter sido atingido por granizo.
…E até quando chamava seu nome docemente na cama.
“Não gostaria de tentar uma nova experiência?”
Sim, ele certamente tinha dito isso.
Seria esse também o novo mundo de que você falava? Se me fazer de trouxa também faz parte do novo mundo que você queria me mostrar, então parabéns, você conseguiu perfeitamente.
“Eu dormi com você para me casar com ela.”
Por mais que remoesse isso, o resultado não mudava. Juliet o usou e, assim que perdeu a utilidade, o descartou.
Isso era tudo.
Desviando o olhar que estava fixo no ar, ele encarou o objeto em sua palma. Um anel de diamante rosa que lembrava flores de cerejeira. Um anel feito sob medida para Juliet, mas que agora não passava de um pedaço de pedra.
Dominic, que ficou olhando para aquilo por um tempo, lentamente fechou a mão ao redor do anel. Quando ele colocou tanta força a ponto de as articulações dos dedos ficarem brancas, seus olhos roxos de repente se tornaram dourados.
Quando abriu a mão devagar, o anel estava impiedosamente amassado, tendo perdido completamente sua forma.
A resposta era cristalina.
Assim como este objeto miserável em sua mão.
Brincou comigo.
Contorcendo o rosto em uma expressão feroz de repente, Dominic arremessou o anel. O pedaço de pedra sem valor algum fez um barulho desagradável ao colidir contra a parede antes de cair sobre o tapete. A música com cravo corria em direção ao seu ápice.
***
“O quê? Nos encontrar?” Surpreso, Juliet repetiu exatamente as palavras de Dominic.
Olhando rapidamente para trás, viu sua noiva conversando com um funcionário sobre alguns produtos. Ele se escondeu às pressas para que ela não ouvisse. Logo em seguida, a voz familiar de Dominic veio do outro lado da linha.
“— Sim, ainda tenho um assunto para tratar com você.”
“Que assunto?” Para Juliet, que franziu o testa, Dominic respondeu com seu tom indiferente de sempre.
“— O seu casamento… Não consegui te dar os parabéns direito daquela vez.”
Era algo imprevisível.
Dar os parabéns? Esse homem? Para mim?
“Ah… Não, deixa para lá. Não precisa fazer isso…”
“— Não, eu preciso.” O tom de Dominic não era tão firme, mas por algum motivo transmitia uma sensação de pressão.
Quando Juliet se calou, surpreso, Dominic continuou.
“— De qualquer forma, assinei um contrato com a H&J e vamos trabalhar na mesma empresa. Eu não sou um dos diretores agora, mas quem sabe? A minha cabeça pode mudar. Seria melhor evitar situações desconfortáveis, já que as pessoas achariam estranho se nosso relacionamento parecesse distante.”
Não era uma mentira.
Além disso, se esse homem quisesse, poderia se tornar diretor a qualquer momento. Ele sempre dizia que não precisava disso, mas o coração das pessoas pode mudar a qualquer momento.
Contudo, ele não podia simplesmente concordar com a cabeça.
Esse homem se importando com a reputação social dele? Impossível. Não haveria algum outro plano por trás disso?
Em meio a um conflito interno sem saber como responder, Dominic disparou de repente:
“— É claro que não seria fácil deduzirem que você chegou ao ponto de vender o próprio corpo para mim só para se casar com a filha do representante.”
No mesmo instante, o rosto de Juliet congelou. O que esse homem estava dizendo de repente?
“Do que você… está falando agora…?” Com dificuldade para falar, ele olhou apavorado ao redor e, após confirmar que a noiva estava longe conversando com o funcionário, sussurrou indignado: “Você está me ameaçando?”
“— Imagina. Você me conhece, não é? Sabe que eu jamais sairia por aí dizendo por conta própria que fui um idiota. E mais.” Dominic negou o que ele disse com a maior cara de pau. “— Eu não disse que ninguém chegaria a deduzir isso?”
Era apenas um jogo de palavras de péssimo gosto. Mas quantas pessoas no mundo não tomariam aquilo como uma ameaça?
Na mente tomada pelo medo de Juliet, os rostos do representante e dos outros diretores passaram como um raio. A noiva furiosa, os funcionários o olhando com desprezo, ele próprio sendo demitido da empresa sem nenhum outro escritório para aceitá-lo e, por fim, seus pais chorando e gritando de raiva.
No momento em que imaginou isso, Juliet fechou os olhos.
Que desgraça…
Reticente em soltar um palavrão, Juliet mordeu os lábios e encarou o teto. Por mais que pensasse, a conclusão era uma só. Ele não tinha para onde fugir. A única opção era atender às exigências daquele homem.
Mas e se ele fizer outra ameaça dessas da próxima vez?
Vou ter que viver assim para sempre? A vida toda?
Naquele momento, Juliet percebeu. O erro terrível que cometeu. Ele tinha provocado, sem o menor medo, a pessoa que jamais deveria ter provocado.
Como se pudesse ver o rosto de Juliet pálido de pavor diante de si, Dominic falou:
“— Juliet, não sei o que você está pensando, mas o que eu quero é bem claro. Só quero te dar os parabéns pelo seu casamento da forma adequada.”
“Por que isso é tão importante?”
“— É importante para mim.”
Juliet perguntou impaciente, como se estivesse cobrando uma explicação, mas a resposta que veio foi completamente vazia. O que ele quer fazer afinal? Com o rosto contorcido de ansiedade, Juliet não teve escolha a não ser perguntar num tom contido:
“Quer dizer que você só quer me dar os parabéns pelo casamento e pronto?”
Hesitando ao perguntar, Juliet acrescentou de propósito:
“Adequadamente.”
Dominic reagiu à palavra enfatizada.
“— Isso.”
Juliet tentou interpretar aquelas palavras da forma mais favorável possível. Talvez Dominic estivesse se arrependendo por ter ficado apenas desorientado naquele momento. Como é um homem de grande orgulho, talvez achasse que tinha feito papel de ridículo.
Sim, provavelmente devia ser isso.
Se quisesse fazer algum mal a Juliet, não usaria um método tão trabalhoso. Afinal, Dominic conhecia dezenas, aliás, milhares de maneiras legais e evidentes de destruí-lo.
Não haveria razão para se dar a todo esse trabalho.
Juliet já tinha visto vários tipos de pessoas que não se importavam com os sentimentos alheios, mas não toleravam ter a própria dignidade manchada, e o ponto em comum entre elas era pertencerem à alta sociedade.
Pessoas que não suportam agir “fora do protocolo”.
Tipos que conseguem sorrir e falar sobre o tempo mesmo estando frente a frente com alguém em quem gostariam de cravar uma faca no pescoço. E Dominic Miller era exatamente um deles.
“O primeiro amor é uma piada.”
De repente, ele se lembrou das palavras dele. E da frase que veio logo em seguida.
“Não é assim para todo mundo?”
Dizer que ter senso de humor não é algo comum. Juliet fez uma expressão de descontentamento, mas logo acalmou suas emoções. De qualquer forma, ele não tinha opção de escolha. Sendo assim, o mais sensato era pensar no que poderia tirar de proveito dessa situação.
E, na verdade, ele também não deixava de sentir um pouco de culpa. Afinal, era verdade que o tinha enganado e usado, por mais vilão que o outro fosse.
…Será que ele era tão vilão assim?
A consciência voltou a incomodá-lo.
Objetivamente falando, Dominic era claramente uma má pessoa. Um homem que destruía a vida dos outros no dia a dia, sem nem precisar de dinheiro, apenas como um entretenimento para sua vida entediante.
Mas, com Juliet, ele tinha sido carinhoso.
Dizer que alguém que faz mal aos outros é uma boa pessoa só porque foi gentil comigo não é correto, mas nem por isso Juliet podia culpá-lo. Embora houvesse diferenças de gravidade, Juliet não tinha feito a mesma coisa?
Ele relembrou os momentos que passaram juntos um a um, mas, ironicamente, apenas as memórias boas ganharam vida. Especialmente as palavras e atitudes carinhosas dele para consigo.
Eu não devia ter dito que o amava.
Juliet soltou um suspiro, profundamente arrependido. Se não tivesse dito aquilo, não sentiria tanta culpa agora. Por que foi falar aquilo naquela hora? Fazer algo tão impulsivo não combinava nada com ele, além de não trazer benefício nenhum.
Sentindo uma dor de cabeça se aproximar, ele fechou os olhos. Já que foi ele quem começou aquilo, precisava dar um fim.
Soltando um longo suspiro, ele abriu a boca.
“Tudo bem. Onde e quando?”
Quando Juliet perguntou, tendo tomado sua decisão, Dominic disse com um tom de voz burocrático.
“— Venha para a casa de campo onde transamos pela última vez.”
Quando ele franziu a testa diante da expressão vulgar que não combinava com o tom de voz, Dominic debochou em seguida.
“— Ou será que você não se lembra porque fez ‘lobby’ com pessoas demais?”
Ele propositalmente arrastou a palavra para dar ênfase. Juliet rastejou os dentes, segurando a vontade de surtar. Como era verdade que usou o próprio corpo para alcançar seus objetivos, não tinha o que discutir, mesmo que aquele homem o tratasse como um prostituto.
Mas nem por isso tinha motivos para aceitar aquele termo.
Juliet ignorou o tom sarcástico dele e respondeu de forma ainda mais fria.
“Tudo bem, então nesse lugar.”
Cair em uma provocação dessas era coisa de criança de cinco anos.
Juliet, encarando a provocação com maturidade, acrescentou: “Tchau, Dominic.”
Após se despedir brevemente, ele desligou a ligação primeiro. Soltou um suspiro profundo e inclinou a cabeça para trás, quando viu alguém se aproximando. Arrumou a postura, virou-se e viu que ela vinha caminhando em sua direção em linha reta.
“Ashley, o que foi? É uma ligação da empresa?”
Juliet sorriu para a noiva. Como se quisesse tranquilizá-la.
“Não é nada demais, não precisa se preocupar. Encontrou algo que tenha gostado?”
Quando Juliet mudou de assunto imediatamente, a noiva pareceu pensar por um momento, mas logo balançou a cabeça com um sorriso no rosto.
“Quero olhar mais alguns outros produtos. Tudo bem?”
Já era a quinta loja em que entravam. Juliet quase fez uma cara de tédio, mas rapidamente forçou um sorriso nos lábios. Vendo-o assim, a noiva fez uma expressão de desculpas.
“Desculpe, é que se algo não me agradar de verdade, eu nem dou atenção. Fico rodando por todas as lojas até encontrar o item perfeito para mim. Às vezes fico o dia todo andando e não compro nada.” Ela continuou a falar com um tom suave, quase cantado. “Não me importo se for usado. Afinal, não importa por quantos donos já passou, no fim das contas eu não saberei de qualquer forma, não é? Se for assim, para mim é o mesmo que novo.”
Por que ela está dizendo esse tipo de coisa? Quando ele sentiu um clima meio enigmático, ela disse:
“Mas, se eu descobrir quem foi o dono anterior, eu jogo a coisa fora. Pensar que era algo novo e estimado, mas na verdade era algo que já andou na mão de vários, rodando por aí por conta própria… me dá nojo, sabe?” A noiva deu um sorriso aberto para Juliet.
Juliet retribuiu o sorriso. Como se concordasse 100% com o que ela disse. Aparentemente satisfeita com a reação dele, a noiva mudou o tom de voz e perguntou:
“O que acha de comermos primeiro? Estou com fome.”
“Claro, posso fazer uma sugestão? Conheço um ótimo lugar de frutos do mar.” Mesmo guiando-a naturalmente, Juliet sentiu um suor frio escorrer pelas suas costas.
“É claro que não seria fácil deduzirem que você chegou ao ponto de vender o próprio corpo para mim só para se casar com a filha do representante.”
As palavras que Dominic tinha dito há pouco passaram pela sua cabeça.
Tudo bem, ela não sabe.
Juliet tentou se acalmar. Ela estava apenas fazendo uma advertência. Dizendo para não deixar que ela descubra o que quer que tenha acontecido no passado.
O único motivo para ela ter dito algo assim de repente foi a ligação dele tentando desconversar. Quer ela tenha boa intuição ou estivesse apenas dando um tiro no escuro para assustá-lo, o fato certo era que ela jamais poderia saber do que aconteceu com Dominic.
Jamais.
Juliet deu mais um passo, reafirmando sua determinação. Junto com a sensação incômoda de que alguém estava constantemente puxando seus tornozelos para trás.
*
. Cravo¹(harpsichord): é um instrumento musical de cordas dedilhadas com teclado, muito popular na Europa entre os séculos XVI e XVIII, sendo um dos símbolos da música barroca.