Capítulo 8
Dominic ficou apenas olhando para ele por um momento sem dizer nada.
Juliet, parado enquanto recebia a luz do sol que iluminava a casa inteira, parecia o mesmo do dia anterior, mas ao mesmo tempo parecia diferente. Talvez fosse por conta do cabelo ainda molhado de quem acabou de tomar banho e das bochechas levemente coradas. Dominic falou com as sobrancelhas franzidas.
“Você tomou banho na minha casa, agora?”
“Sim.” Diante da pergunta feita de forma lenta e incrédula, ele respondeu com um rosto radiante. “Como sou um Gamma, não sofro mutação facilmente, mas se por um acaso acontecer, seria um grande problema. O senhor sabe muito bem disso.” Juliet, que acrescentou as últimas palavras tal qual fosse de propósito, sorriu com uma expressão envergonhada.
Aquilo soava como se estivesse pedindo compreensão por ter sido uma situação inevitável.
É claro que não havia nada de errado em sua fala. Além de terem ficado a sós dentro do carro fechado no dia anterior, o aroma dos feromônios de Dominic estava impregnado em cada canto da casa. Se ficasse nesse espaço o dia todo, acabaria exposto a uma quantidade considerável de feromônios.
Claro que jamais seria uma quantidade suficiente para causar uma mutação. Ainda mais se tratando de um Gamma.
No entanto, ser precavido não faz mal a ninguém, não é?
Além disso, se um Gamma porventura sofrer uma mutação, sua vida corre perigo. Enquanto passava a noite neste espaço, esse homem pode ter tremido de medo sozinho. Por mais arrojada que seja sua personalidade, quando a própria vida está em jogo, é difícil simplesmente ignorar.
Como foi ele mesmo quem disse para não ir embora, não podia agora vir perguntar por que ele obedeceu ao que disse ao pé da letra. Se falasse algo assim, o próprio Dominic é quem soaria ridículo.
Inacreditável.
Dominic passou a mão pelo cabelo e encarou Juliet.
O que diabos é esse homem? Toda vez ele me passa para trás e escapa astutamente. Por ser uma personalidade que nunca tinha encontrado antes, ele se sentiu de um jeito estranho. Seria por ele ser um Gamma? Ou será que esse homem era um advogado mais competente do que imaginava?
Ele estava usando as mesmas roupas do dia anterior, mas sua aparência era totalmente diferente. O cabelo, que sempre ficava perfeitamente penteado para trás, caía despretensiosamente molhado sobre a testa de curvas suaves, fazendo-o parecer muito mais jovem do que o normal.
Passando pelas bochechas coradas — talvez pelo calor que ainda restava — e pelo pescoço longo, podia-se entrever a clavícula entre o colar aberto da camisa.
A gravata que usava no dia anterior não estava em lugar nenhum, e Dominic só então percebeu que ele havia desabotoado dois botões da camisa. Ao baixar o olhar do paletó do terno pendurado em um dos braços, viu os pés descalços expostos sob a barra da calça social.
Ele fixou o olhar ali mesmo.
Sobre os dedos dos pés, sobressaiam unhas pequenas e brancas como conchas. O aroma de feromônios se espalhou ao redor de Dominic enquanto ele observava aqueles pés, corados de rosa assim como as bochechas dele.
Se Juliet pudesse sentir o cheiro, teria sido um aroma forte o suficiente para deixá-lo pálido. Infelizmente, a única pessoa capaz de senti-lo era o próprio Dominic.
Ele então se manifestou com o tom gélido de costume.
“Não precisa ficar se resguardando com medo de sofrer mutação, afinal não sou idiota de despejar feromônios em alguém que nem consegue senti-los.”
É claro que era mentira. Ele já tinha feito isso duas vezes, exatamente com esse homem.
Com esta de agora, já são três vezes.
Dominic deu uma risada autodepreciativa e esvaziou o copo de uma vez. Para ele, que colocou o copo sobre a mesa do bar fazendo um pequeno ruído estalado, Juliet perguntou:
“Então, o que faremos agora?” Dominic serviu mais bebida em vez de responder. Percebendo o significado oculto por trás daquela atitude, Juliet sugeriu sutilmente: “Se não tiver nada especial para fazer, que tal um jogo?”
Dominic ergueu o olhar e encarou-o como se perguntasse o que diabos ele estava dizendo.
“Um jogo?”
Diante da expressão carrancuda, Juliet apenas sorriu. Eles estavam parados com a mesa do bar entre si, a apenas três ou quatro passos de distância. Como se quisesse medir essa distância pessoalmente, Juliet deu um passo à frente sem hesitar.
Dominic permaneceu imóvel, apenas observando a aproximação dele. Um passo, mais um passo, muito lentamente ele caminhou em direção a Dominic. E finalmente, parado do outro lado da mesa do bar, Juliet inclinou a parte superior do corpo sobre a mesa de mármore e abriu a boca.
“Isso é, claro…” Uma voz baixa fluiu por entre os lábios de Juliet.
Era uma distância longa demais para um beijo. No entanto, em uma distância ambígua onde seria perfeitamente possível com apenas um mínimo de esforço, Juliet inclinou a cabeça e olhou para Dominic. Seus lábios se moveram lentamente, como se estivesse confessando um segredo muito íntimo.
“Xadrez.” Dominic apenas contraiu levemente as sobrancelhas diante do sussurro suave como uma respiração.
Ele parecia quase paralisado. Juliet, ao confirmar essa reação, deu um sorriso largo, inclinou o corpo para trás e perguntou com um tom leve:
“O que acha de ser a recompensa por eu ter trazido o senhor até em casa ontem à noite?”
Dominic soltou um breve suspiro. Com as sobrancelhas franzidas de irritação, ele perguntou de volta:
“Xadrez?”
“Sim.” Diante de Dominic repetições exatamente as suas palavras, Juliet sorriu e acrescentou: “É que eu não gosto de coisas de graça.”
Ao ver aquele rosto com um sorriso radiante, Dominic desdenhou, como se estivesse apenas esperando por aquilo.
“Então você também não aceita doações?” Era um comentário evidentemente sarcástico, mas não surtiu efeito algum sobre Juliet.
“Acho que o Sr. Miller não está em posição de receber doações, está?”
Ao ver aquele rosto sorridente de sempre, quem acabou se sentindo frustrado foi quem tentou debochar. Soltando um breve suspiro desanimado, Dominic voltou a olhar para o rosto de Juliet. Encarando-o fixamente como se estivesse perdido em pensamentos, ele logo virou a cabeça. Dando a volta na mesa do bar, Dominic passou por Juliet sem hesitar.
“Espere na sala de jogos.”
Após dar uma ordem curta, ele se dirigiu ao closet. Vestindo uma camisa confortável e calças de sarja apropriadas para as férias, a expressão de Dominic não parecia muito diferente do habitual, mas sua mente estava inquieta.
Que petulante.
Um sorriso cínico surgiu em seus lábios. Aquele homem estava cruzando a linha perigosamente. Dominic sabia que provocar seus nervos não lhe traria vantagem alguma, então agia assim por puro temperamento ou por ter alguma intenção?
Ele saiu do closet e desceu as escadas. O som ritmado dos passos de Dominic ressoou pelo amplo espaço interno.
Preciso descobrir qual das duas opções é.
Ao abrir a porta da sala de jogos, ele viu Juliet se levantar de seu lugar. Ele já tinha deixado tudo preparado para jogarem.
“Já deixei tudo pronto.”
Atrás dele, que sorria abertamente para Dominic na entrada após arrumar o tabuleiro e as peças sobre a mesa de xadrez, a luz radiante do sol do meio-dia se projetava.
***
“Comecei a jogar xadrez aos 6 anos.” A voz clara de Juliet ressoou calmamente na sala de jogos silenciosa.
Ele continuou a falar com um tom suave, como se estivesse contando uma história antiga a uma criança.
“Eu era o único que não tinha irmãos ao meu redor. Meus pais eram ambiciosos, mas preferiam a qualidade à quantidade. Em vez de ter vários filhos, escolheram ter apenas um e investir tudo nele.”
Graças a isso, embora sua família fosse de classe média comum, eles podiam conceder a Juliet quase tudo o que ele quisesse.
“Então, o que mais você fez?” Dominic perguntou enquanto movia uma peça de xadrez.
Juliet, mantendo o olhar fixo no tabuleiro, soltou um leve sussurro pensativo.
“Acho que fiz quase tudo o que os outros fazem. E como eu sabia como conquistar a simpatia das pessoas desde pequeno…”
Falando de forma despretensiosa, ele moveu a torre. Dominic rapidamente varreu o tabuleiro com o olhar para entender a jogada de Juliet e disse:
“Deve ter sido bem fácil.”
“Dava bastante trabalho, na verdade.” Juliet deu uma curta risada.
Dominic percebeu que aquilo vinha do fundo do coração dele. Esse homem era completamente diferente dele, mas, em certos aspectos, também muito parecido. Sendo habilidoso nas relações sociais, com boa aparência e sem uma má oratória, a maioria das pessoas simpatizaria com ele. Fosse por uma índole natural ou por necessidade, ele devia tratar todos que se aproximavam com gentileza.
Mas a sua verdadeira intenção…
“Estou quase morrendo de tédio.”
Quando pareceu ouvir essa voz sussurrando em seus ouvidos, Juliet de repente puxou assunto:
“E você?” Juliet sorriu e falou para Dominic, que o olhava questionando o significado daquela pergunta. “Agora é a sua vez, não é? Como você era quando criança?”
Dominic deu um sorriso de canto e voltou os olhos para o tabuleiro.
“Nada de mais, eu era como todo mundo.”
“Em que sentido?” Juliet perguntou sem desistir.
Dominic respondeu enquanto movia uma peça para escapar da torre.
“Meu primeiro amor foi uma babá, como a maioria das pessoas.”
Com essas palavras, Juliet, que olhava para o tabuleiro, ergueu a cabeça. Ele trazia um sorriso distorcido, como se achasse aquilo um absurdo.
“Uma babá?”
“É.”
Quando Dominic respondeu com indiferença, Juliet fez uma breve pausa e voltou a perguntar: “E então? Como terminou o seu primeiro amor?”
Diante da curiosidade genuína dele, Dominic respondeu prontamente.
“Terminou quando a vi beijando o meu pai.” Para Juliet, que voltou a ficar em silêncio, Dominic acrescentou displicentemente: “Não é assim com todo mundo?”
Juliet, parecendo buscar o que dizer por um momento, apenas reagiu com um sorriso ambíguo. No silêncio constrangedor, o relógio na parede emitiu um som pesado enquanto o ponteiro dos minutos se movia. Era um ruído pequeno, mas quebrou um pouco da quietude da sala de jogos.
Juliet, que havia paralizado, voltou a fixar o olhar no tabuleiro. Um suspiro escapou involuntariamente de sua boca. Sentado do outro lado, Dominic o observava de forma relaxada.
Juliet parecia profundamente imerso em seus pensamentos. Embora esta fosse apenas a segunda partida deles, Dominic já havia decifrado seus hábitos. Juliet tinha o costume de sempre começar posicionando o Cavalo em F3 ao jogar xadrez. Ao vê-lo mover a peça para o mesmo lugar da vez anterior, Dominic concluiu que aquilo era um hábito dele.
Outro detalhe era que, ao pensar em uma jogada, ele dobrava o segundo dedo da mão direita e acariciava lentamente o lábio inferior com a articulação do meio.
“Quando eu era criança, eu o acariciava com a peça de xadrez.”
Somente após ser avisado várias vezes de que não deveria tocar nas peças a menos que fosse para movê-las, ele finalmente conseguiu corrigir o hábito. No entanto, parecia ter desenvolvido o costume de usar o dedo em seu lugar. Sempre que pensava no próximo passo, ele repetia a mesma ação.
Observando o dedo que acariciava suavemente os lábios mais uma vez, Dominic o substituiu mentalmente por uma peça de xadrez.
A imagem de encostar o Cavalo nos lábios e girá-lo lentamente, como se o estivesse beijando, desenhou-se nitidamente diante de seus olhos, como se fosse realidade.
Dominic entreabriu os olhos.
Se aquele hábito ainda persistisse, ele o teria forçado a jogar com as peças pretas — só para ver a peça mudar de cor e ficar embaçada por causa do hálito dele.
Ao ver o dedo finalmente se afastar dos lábios, indicando que ele havia pensado na jogada, Dominic desviou o olhar para o tabuleiro. Ele observou atentamente o tabuleiro modificado após a jogada de Juliet e pensou:
Nada mal.
A achava que ele estava demorando para pensar, mas ele havia planejado uma jogada razoavelmente boa. Juliet conseguiu sair do perigo e, ao mesmo tempo, agarrou a oportunidade para um contra-ataque. Desta vez, parecia ser Dominic quem estava acuado na defensiva.
Então foi por isso que ele sugeriu jogarmos primeiro.
Analisando o tabuleiro e simulando o jogo em sua mente, ele logo tomou uma decisão. Juliet pensaria que não havia para onde ir, mas estava errado. Dominic pegou o Bispo, que brilhava vivamente como se pedisse para ser notado, e o moveu.
“Xeque-mate.”
“Ah…” Uma exclamação escapou imediatamente quando ele escolheu o ataque em vez da defesa. Juliet soltou um suspiro e moveu o rei para o lado.
“Não é possível que você não tenha pensado nessa jogada.”
Diante do tom descontraído de Dominic, Juliet respondeu com amargura: “Havia essa possibilidade, mas a maioria escolheria a defesa numa situação dessas.”
Dominic ficou observando-o em silêncio enquanto ele dava um sorriso sem jeito. Mais uma vez, Juliet levou os dedos à boca. A mão que acariciava lentamente os lábios moveu-se para o lado, passando ajeitando a orelha. Não se sabia se a orelha estava coçando ou se fora apenas um gesto inconsciente. Mantendo a mão parada naquela posição, ele inclinou a cabeça e franziu o cenho entre as sobrancelhas; então, como se tivesse se decidido, estendeu a mão.
“Eu perdi.” Sua expressão ao admitir a derrota parecia desanimada.
E com aquilo, já era sua segunda derrota consecutiva. Agora, restava-lhe apenas uma última chance. Dominic trocou um breve aperto de mão formal e logo recolheu a sua. O rosto de Juliet, misturando decepção e ansiedade, era algo interessante de se ver. A ponto de dar um certo aperto saber que, na próxima, toda aquela disputa terminaria.
“Não há mais nada que eu possa fazer?” Juliet perguntou, parecendo incomodado em ir embora daquele jeito.
Dominic queria ficar sentado confortavelmente, fumando seu charuto e apreciando aquela expressão emaranhada, mas uma súbita tontura o impediu.
…Maldito rut.
Engolindo uma praga violenta, os pés descalços de Juliet de repente entraram em seu campo de visão. Sobre a pele macia que lembrava creme suave, as unhas dos pés perfeitamente alinhadas prenderam o olhar de Dominic, que não conseguiu desviá-lo.
“Vá embora.” Dominic falou com um tom de voz mais lento que o habitual.
Conseguindo finalmente desviar o olhar dos pés dele, ele se levantou e disse: ” O jogo acabou, então vá embora. Quero descansar agora.”
Juliet, que permanecia parado em silêncio, só abriu a boca quando viu Dominic realmente se virar e sair da sala de jogos.
“Então, se não precisa de mais nada, eu me retiro.” Ele se despediu com a cortesia de sempre e foi embora.
Dominic, parado no bar enquanto bebia, ouviu o som da porta da frente se fechando, seguido pelo ruído mecânico do carro saindo do estacionamento privativo. Só então caiu a ficha de que estava sozinho. O que restava era apenas o aroma denso de seus próprios feromônios, ainda pairando no ar.
***
O tempo já não estava bom há alguns dias e, de repente, começou a cair granizo maior do que um punho. Enquanto assistia ao noticiário barulhento que mostrava carros com buracos nos para-brisas, Dominic estava sentado confortavelmente no sofá, bebendo uísque.
Hoje era o dia em que Juliet viria jogar xadrez.
Desde aquele dia, Dominic não havia entrado em contato com Juliet nenhuma vez, e o mesmo valia para o outro. Apenas tinha chegado uma breve mensagem confirmando se não haveria alterações na agenda do dia seguinte.
No entanto, ao contrário do combinado, ele não apareceu mesmo após o horário ter passado. Seria infantil e desajeitado demais achar que aquilo era uma tentativa de provocar Dominic. A ideia de que ele simplesmente tinha fugido parecia muito mais convincente.
Ele desistiu?
Será que desistiu antecipadamente por causa da última derrota? Se for isso, significa apenas que ele não passava de um homem insignificante.
Deixando para trás o céu carregado de nuvens escuras que se refletia pela janela frontal, Dominic se levantou e foi direto para o bar. Enquanto colocava gelo no copo vazio e servia a bebida, o som do granizo batendo contra a janela podia ser ouvido de tempos em tempos. O vidro feito sob encomenda não iria quebrar nem rachar, mas não havia como evitar o barulho.
Que irritante.
Foi quando ele esvaziou o terceiro copo. De repente, ouviu-se o som mecânico anunciando a chegada de um visitante. Dominic parou a mão que servia a bebida e olhou reflexivamente para o relógio.
Já se passavam de uma a duas horas do horário em que Juliet deveria ter chegado. Será que ele realmente veio agora? Ele duvidou, mas a única pessoa autorizada a entrar no estacionamento privativo era quem tinha reserva.
Se era assim, só podia ser aquele homem.
Enquanto colocava a garrafa devagar sobre a bancada e permanecia parado do lado de dentro do bar, se passaram mais de cinco minutos. E, como esperado, ouviu-se o som da campainha da porta de entrada. Só então Dominic se moveu. Como o visitante já estava determinado, nem havia necessidade de checar o rosto na tela.
Apesar de a porta de acesso pelo estacionamento estar aberta, o motivo de ele ter feito questão de tocar a campainha era, provavelmente, para não cometer nenhuma indelicadeza indesejada. Dominic havia percebido vagamente a intenção dele, mas a situação que se desdobrou a seguir era algo que nem mesmo ele poderia ter previsto.
“Você veio bem no horário..” Dominic, que pretendia falar em tom de deboche, travou completamente ao ver o homem parado diante de si.
Com o cabelo totalmente desgrenhado, vestindo um terno em frangalhos e completamente encharcado, o homem tremia com o rosto pálido como cera. Sem conseguir conter o frio gelado que se entranhava até os ossos, Juliet encolhia todo o corpo e, movendo os lábios arroxeados, mal conseguiu articular a voz:
“D-desculpe pelo atraso, Sr. Miller.” A voz cheia de tremor parecia quase um soluçar.
Dominic, que observava atônito o estado miserável do homem, puxou-o pelo braço logo em seguida. Não era hora de ficar parado olhando. O sangue que escorria de um ferimento no lado da testa estava manchando de vermelho não apenas sua camisa branca, mas também o terno.
Ajeitando Juliet imediatamente no sofá, Dominic foi ao banheiro e voltou com uma toalha. Ao procurar a origem do sangramento, viu um corte longo. Pressionando a cabeça dele para estancar o sangue, Dominic soltou com uma voz ríspida:
“O que aconteceu?”
“D-desculpe.” Ainda tremendo devido ao frio que permanecia em seu corpo, Juliet pediu desculpas novamente. “Por causa do granizo, o vidro do carro quebrou. Foi só um de raspão, então estou bem. Isso… vai parar logo.”
A ilusão era tanta que parecia que uma respiração gelada saía de sua boca. Estalando a língua brevemente, Dominic perguntou:
“E o hospital?”
O tempo era curto demais para que ele tivesse ido ao hospital. Ao ouvir Dominic falar de forma despreocupada, Juliet respondeu sem hesitar:
“O xadrez vem primeiro.”
Pela primeira vez, Dominic ficou tão perplexo que perdeu as palavras. Já tinha ficado sem o que dizer assim antes? Não, nunca, nem uma única vez.
Afinal, o que era esse homem?
Achando que Dominic não reagia por tê-lo interpretado mal — como se estivesse diante de uma criatura estranha vista pela primeira vez —, Juliet falou rapidamente:
“M-me desculpe por não ter ligado, eu estava desconcentrado dirigindo… M-mas ainda consigo jogar xadrez.” Como ainda sentia frio, ele falava arfando e gaguejando.
Mesmo se tivesse ido ao hospital, dois atrasos de duas horas seriam excessivos. Não fazendo sentido de forma alguma, Juliet finalmente confessou a verdade contra a própria vontade.
“Como fui atingido pelo granizo, acabei desmaiando por um momento… Não foi por muito tempo, estou realmente bem.”
“…Ha.” Essa foi a única reação que Dominic conseguiu ter.
Levando a mão à testa e inclinando a cabeça para trás, Juliet não teve escolha senão observá-lo com um rosto ansioso.
“Primeiro, faça um curativo.” Como se tivesse se decidido, Dominic abriu a boca. Antes que Juliet pudesse dizer algo, ele acrescentou: “Há serviço médico dentro do condomínio. Vou chamar um médico para que faça um curativo simples em você. Jogamos xadrez depois disso.”
Ele nem se deu ao trabalho de perguntar se estava tudo bem com isso. Dominic agiu como se fosse óbvio que o outro seguiria suas ordens. Virando-se imediatamente, Dominic falou ao interfone enquanto Juliet apenas escutava, sentado em seu lugar.
***
“Pronto, terminei.” O médico, que chegou em menos de dez minutos, examinou o ferimento de Juliet e fez um curativo simples.
Enquanto dizia as frases clichês de que, felizmente, o ferimento não era grave e o sangramento havia parado, mas que ele precisava de repouso, Juliet apenas escutava comportadamente, envolto em um cobertor.
“Obrigado pela consideração.” Quando agradeceu a Dominic após a saída do médico, ele respondeu com indiferença.
“Eu só não queria jogar contra alguém que está sangrando.”
“Sim, tomarei cuidado para não sujar o tabuleiro de xadrez.” Juliet disse rindo, como se fosse algo óbvio.
Mas não pôde evitar de franzir levemente o rosto logo em seguida, como se o ferimento estivesse doendo.
Dominic olhou para ele por um momento, mas logo virou a cabeça e se afastou com passos largos. Juliet, ainda enrolado no cobertor, seguiu atrás dele a passos curtos em direção à sala de jogos.
***
Lá fora, o granizo continuava a bater contra a janela.
Como o frio parecia ter passado um pouco, Juliet não estava mais tremendo, mas ainda segurava firmemente o cobertor com uma das mãos, mantendo-o fechado na frente do corpo. Ao contrário dele, que mantinha o olhar fixo no tabuleiro como se concentrasse toda a sua atenção no jogo, Dominic não estava nem um pouco interessado.
O que ele realmente estava observando era o rosto de Juliet, totalmente concentrado.
Ele aguentava até que bem, embora às vezes franzisse a testa ou mordesse o lábio por conta do ferimento que devia estar latejando. Seu rosto, focado como se toda a sua vida estivesse naquele tabuleiro, estava mais pálido do que o normal, e seus lábios pareciam um pouco arroxeados.
Seu cabelo bagunçado ainda estava úmido e brilhava com a água em alguns pontos. Quando o olhar de Dominic se demorou na mexa de cabelo que cobria suavemente um lado da gaze em sua testa, Juliet moveu o Cavalo para trás e pegou o Peão. Dominic desviou os olhos dele a contragosto, checou o tabuleiro de xadrez e falou após uma pausa:
“Nada mal.”
“Eu me preparei bastante.” Juliet respondeu em um tom confiante ao comentário pausado dele.
Pudera, pois se a situação continuasse assim, o Peão alcançaria o fim do tabuleiro. Se tentasse impedir isso, o outro lado daria um xeque-mate.
Aquele homem confiante nem parecia o mesmo que estava encharcado e tremendo há pouco. Dominic sentiu uma certa ironia ao ver que Juliet, ao provocar Dominic daquela forma, parecia ter retornado ao seu estado normal.
Curiosamente, ele percebeu que gostava mais daquela versão petulante do outro.
No final daquele olhar, estava a testa coberta por uma gaze bastante espessa. Juliet ainda mantinha o cobertor ao redor do corpo, mas como o frio já havia passado bastante, a mão que o segurava firme agora estava relaxada.
Pela abertura do cobertor, podia-se ver a parte superior de seu corpo vestindo uma camisa fina. O sangue que havia encharcado a gola da camisa deixava marcas vermelhas secas. O cansaço no rosto pálido do homem era evidente, mostrando de relance as dificuldades pelas quais ele havia passado para chegar até ali por causa de uma simples partida.
Nessas horas, Dominic sabia qual jogada fazer para contra-atacar. Ele calculou rapidamente a posição das peças no tabuleiro, mas, em vez de mover uma peça, apenas abriu a boca:
“É, você ganhou.” Diante da generosa declaração de derrota, Juliet cobriu a boca com uma das mãos.
Ele mal conseguiu conter um grito indiscreto de vitória, mas não pôde evitar que seu rosto se iluminasse inteiro enquanto falava.
“Finalmente consegui alcançar um ponto.”
Dominic olhou fixamente para o rosto radiante de Juliet e concordou levemente com a cabeça.
“É, bom trabalho.”
Juliet piscou os olhos surpreso. O espanto em seu rosto era evidente, como se duvidasse de seus próprios ouvidos ao ser elogiado por aquele homem. No entanto, Dominic ignorou essa reação e se levantou da cadeira.
“Acho que o granizo parou, consegue dirigir?”
A julgar pelo ferimento dele, o para-brisa do carro com certeza havia quebrado. Não haveria mais o perigo do granizo caindo e o atingindo novamente, mas era certo que dirigir não seria fácil. Diante da pergunta de Dominic, Juliet respondeu imediatamente:
“Sim, claro. Hoje, muito obrigado por…” Juliet, que havia se levantado seguindo Dominic, parou de falar de repente.
Naquele instante, Dominic viu os olhos castanho-claros dele perderem o foco e ficarem turvos.
“Dawson…”
Ele caiu pesadamente nos braços que Dominic estendeu rapidamente.
Dominic permaneceu imóvel no lugar, segurando o inconsciente Juliet em seus braços, carregando aquele corpo completamente amolecido com uma expressão fechada no rosto.