Capítulo 9
O ressonhar do cravo fez o ar vibrar.
Dominic bebia uísque enquanto repousava um livro sobre as coxas, folheando entre as letras. O granizo havia se transformado em chuva e batia contra a janela, mas o único som audível no recinto era o do antigo instrumento de teclas.
— Exílio? Tende compaixão! Diga antes que eu morra. O exílio é pior do que a morte. Não fale em exílio.”
— Você foi exilado de Verona. Acalme-se. O mundo é vasto e qualquer coisa pode acontecer.”
— O mundo fora de Verona é para mim uma tortura, o próprio inferno. Ser exilado de Verona é o mesmo que ser abandonado pelo mundo. Isso significa a própria morte…
O garoto, que não passava de um adolescente, lamentava-se em prantos. Implorava para que o matassem de uma vez, dizendo que não suportaria partir e deixar para trás o seu amor, que era o seu mundo inteiro.
— O céu é esta Verona onde Julieta mora. Para todos os gatos, cães, pequenos ratos e até para a mais insignificante estátua, Verona é o céu. Pois eles podem vê-lo. Mas eu não posso! Até as moscas que comem carne podre têm mais vitalidade, são mais abençoadas e muito mais românticas do que eu. Elas podem tocar as mãos alvas de Julieta e roubar o beijo de seus doces lábios. Embora ela seja uma virgem pura, quando elas o tocarem, sua face se corará, pois considerará isso um pecado. Mas Romeu não pode tocar sua mão, não pode beijá-la. Nem mesmo o que até as moscas podem fazer…
“Já chega.” Com o rosto franzido, Dominic observava a figura do garoto banhado em lágrimas que se desesperava.
Sem aguentar mais, ele fechou o livro. Já não se sentia bem por conta de uma febre persistente e, ter que ler os absurdos de uma criança resmungando, só lhe dava uma dor de cabeça insuportável.
Juliet ainda estava em seu quarto. Já fazia um bom tempo que ele havia dormido, então logo seria hora de se levantar. Em breve, ele iria embora.
Soprando a fumaça do charuto, Dominic entregou-se aos seus pensamentos. Era uma história simples. Não havia motivo para se complicar mais.
Exceto pelo fato de ser terrivelmente entediante.
Ah… Foi no momento em que ele suspirou e fechou os olhos. De repente, um som estranho se misturou à música. Com um batimento de atraso, Dominic virou a cabeça devagar. Juliet estava parado do outro lado da porta entreaberta, olhando para ele. Quando seus olhares se cruzaram, ele deu um sorriso sem jeito, demonstrando certo constrangimento.
“Acho que atrapalhei.”
Achando que havia feito papel de bobo diante de um importante parceiro de negócios, ele desviava o olhar repetidamente. Havia vestígios evidentes de que havia tentado arrumar de qualquer jeito as roupas amassadas e bagunçadas, mas não surtiu muito efeito. Mexendo no cinto com desconforto, sem conseguir esconder sua aflição, ele finalmente abriu a boca aproveitando a pausa da música.
“Peço desculpas pelo incômodo. Muito obrigado por hoje. Não esquecerei a ajuda que me deu.”
Dominic nem sequer olhou para ele enquanto ele proferia palavras genéricas em um ritmo nem tão rápido, mas nem tão lento. Diante da reação indiferente e do clima constrangedor, Juliet pareceu ficar sem jeito e voltou a falar.
“Bem, eu já vou…”
No momento em que ele fez uma saudação educada e se preparou para sair, Dominic perguntou abruptamente:
“Certeza de que está tudo bem?”
“Como?”
Quando Juliet perguntou de volta, confuso, Dominic apenas virou a cabeça, fixou o olhar nele e continuou: “Se você andar por aí desse jeito, todo mundo vai pensar que dormiu comigo.”
Sem saber se aquilo era um tom sarcástico ou um aviso, o som indiferente fez Juliet hesitar por um instante, mas logo ele abriu um sorriso como se não fosse nada demais.
“Não é a verdade, então não há problema.”
Dominic encarou-o com uma expressão inexpressiva. Ele não pretendia deixá-lo ir assim que recuperasse a consciência? Uma voz tênue ressoou em algum lugar de sua mente, mas Dominic a ignorou.
Seu olhar obstinado permaneceu pregado no rosto de Juliet.
Um silêncio desconfortável se prolongou. Juliet o observava intrigado, enquanto Dominic se movia lentamente, tirando as pernas que estavam apoiadas no pufe. Ele pegou o controle remoto sobre a mesa e apertou o botão; a música que tocava parou de repente, dando lugar a um silêncio abrupto.
No silêncio constrangedor, o homem ergueu o corpo e olhou para Juliet. Mesmo estando a alguns passos de distância, Juliet mantinha uma expressão tensa.
Um homem com mais de dois metros de altura por si só já causava uma sensação de intimidação nos outros. Além disso, Dominic tinha ombros que pareciam o dobro dos de Juliet e um tórax muito mais largo. Qualquer um que estivesse diante de um homem assim reagiria da mesma forma que Juliet.
Dominic olhou para ele, que prendia a respiração em silêncio, e aos poucos moveu os lábios.
“Seu corpo?”
“Como?” Com a voz excessivamente grave, por um segundo Juliet pensou ter ouvido errado.
Para ele, que havia perguntado de forma distraída, Dominic questionou novamente com a voz ainda baixa:
“Descansou bem? Seu corpo está bem?”
“Ah, sim.” Só então Juliet recuperou a postura e respondeu sorrindo: “Graças a você, descansei muito bem. A cama era excelente.”
Ele acrescentou de forma descontraída. Diante dessa atitude habitual, Dominic falou em um tom suave:
“Imagino que não esteja com tontura e que sua cabeça esteja bem limpa.”
“Ah, sim. Completamente.”
Quando ele aceitou o que foi dito sem ao menos entender o significado da conversa, Dominic estreitou os olhos.
“Não haverá problema em jogarmos uma partida, certo?”
“……O quê?” Juliet acabou perguntando de novo.
Logo em seguida, veio uma sensação de déjà-vu.
Era a reprodução exata, porém invertida, da proposta que ele havia feito a Dominic da última vez. Achando a situação um tanto absurda, Juliet soltou uma risada fraca e perguntou:
“Está falando de xadrez?” Ao ouvir o tom brincalhão da voz dele, Dominic se inclinou para frente de repente.
Quando Juliet se encolheu e recuou involuntariamente, Dominic estreitou os olhos. Com o rosto na sombra, ele sussurrou com um sorriso frio que parecia escárnio.
“Querido, o que mais seria?”
Os olhos de Juliet se arregalaram. “Querido” — isso era algo que absolutamente ninguém poderia ter previsto. Olhando para Juliet, que parecia completamente estupefato, Dominic ordenou:
“Siga-me.”
Rapidamente retornando à sua habitual expressão impassível, ele deu passos sem hesitar e caminhou à frente. Juliet encarou as costas do homem que acabara de passar por ele e, com um leve atraso, moveu-se quase correndo.
***
Como de costume, eles se sentaram na sala de jogos com uma pequena mesa entre si. Na sala silenciosa, o único som audível era o tique-taque regular do relógio.
A disputa estava acirrada.
Embora tivesse vencido no dia anterior por sorte, Juliet não podia se dar ao luxo de relaxar. Se não ganhasse hoje de forma consecutiva, tudo estaria acabado. Era um confronto crucial no qual se definiria se ele teria mais uma oportunidade ou se todos os seus esforços até então seriam em vão. A cada peça que movia, ele era forçado a concentrar toda a sua atenção.
Diferente de Juliet, que encarava o tabuleiro de xadrez fixamente com as sobrancelhas franzidas, Dominic apenas apoiava o queixo com uma das mãos e observava o rosto dele. Para ele, essa partida pouco importava. Mesmo que perdesse este jogo, ainda restava mais uma chance. Por isso, ele se pegava pensando em outras coisas com total tranquilidade.
Por exemplo…….
“Sr. Miller.” Juliet, que havia movido o bispo abrindo mão da defesa para passar ao ataque, chamou por ele.
O rosto dele entrou no campo de visão de Dominic, que estava imerso em seus pensamentos.
“Está tudo bem?”
“O quê?” Com a pergunta indesejada, Dominic perguntou de volta, e Juliet fez uma expressão constrangida. Dominic voltou a franzir o cenho e perguntou novamente. “O que você quer dizer com ‘está tudo bem’?”
Com uma forma de falar lenta e enfatizando cada palavra separadamente, Juliet pareceu hesitar por um instante, mas logo deu um sorriso despreocupado.
“Não é nada, acho que me enganei. Peço desculpas.”
Depois de soltar palavras de sentido incerto e encerrar o assunto rapidamente com um breve pedido de desculpas, ele deu uma leve piscadela. Como quem diz que agora era a vez dele.
Dominic encarou-o fixamente antes de voltar o olhar para o tabuleiro. Infelizmente, no ritmo em que as coisas estavam, Juliet iria perder. É claro que havia uma jogada genial capaz de reverter o jogo, mas se este homem conseguiria pensar nisso já era outra história.
Será que este homem realmente está apostando tudo neste jogo?
De repente, surgiu uma dúvida.
É claro que sim. Afinal, ele veio até aqui enfrentando a chuva de granizo e sangrando.
A resposta veio imediatamente, mas desta vez uma dúvida diferente surgiu em sua mente.
Afinal, para quê?
Seja para ser sócio do escritório de advocacia ou por um salário alto, razões não faltariam.
No entanto, Dominic viu. Por um brevíssimo instante, bem no fundo daquele homem, adormecido e prendendo a respiração, havia algo exatamente igual a si mesmo:
Um tédio sem fim.
Talvez essa fosse a verdadeira face deste homem. Escondida sob uma aparência polida e amigável……
O verdadeiro Juliet.
〈Você não gostaria de tentar uma nova experiência?〉
De repente, uma sensação desagradável, como se seu estômago estivesse se revirando, começou a borbulhar. Ele percebeu de repente por que aquela pergunta havia ficado tão gravada em sua memória.
Juliet havia perguntado sabendo de tudo. Vendo através de tudo. Porque ele também era assim.
No entanto, aquele homem jamais deve ter sentido uma sede tão dolorosa quanto a minha.
É claro, afinal ele é uma ‘caixa preta’. E por isso apenas o tédio está terrivelmente desgastado. Por alguma razão, eu e aquele homem, provavelmente, não, com certeza.
Passaríamos a vida inteira vivendo assim, apenas remoendo o quão entediante a vida pode ser.
No mesmo instante, os olhares dos dois se cruzaram e todos os movimentos pararam. As pupilas roxas, quase negras, encaravam Juliet fixamente. Um aroma adocicado espalhou-se densamente ao redor deles, mas Juliet não percebeu. Ele apenas encarava diretamente as pupilas do homem, onde cintilavam reflexos dourados.
Agir dessa forma era apenas sua personalidade ou havia uma intenção por trás?
Ele achava que agora sabia perfeitamente a resposta para a dúvida que havia surgido no passado.
E agora era a vez de Dominic tirar a máscara desse homem.
“Juliet.” Dominic chamou o nome dele como se estivesse sussurrando em tom baixo.
“Sim, Sr. Miller.” Juliet respondeu imediatamente, como se estivesse esperando por aquilo.
Sem ter a menor ideia do que Dominic iria dizer. O maior, cujos olhos longos se estreitaram levemente, abriu a boca.
“Está divertido?”
“Como?”
Diante da pergunta feita em tom de zombaria, Juliet piscou os olhos parecendo confuso. Observando-o, Dominic perguntou novamente em tom sarcástico.
“Se é divertido, esse jogo.”
“Ah, sim……” Juliet respondeu com um sorriso educado, como de costume. “É divertido.”
“É mesmo?” Dominic, que respondeu de forma simples, franziu o cenho. Diante da reação incomum que deixou Juliet tenso, ele fez uma expressão séria. “Que pena, porque eu não estou achando graça nenhuma.”
“O quê?” Juliet fez uma expressão surpresa mais uma vez.
Dominic o ignorou, tirou um charuto do porta-charutos, cortou a ponta e o acendeu. Durante essa sequência de ações, Juliet esperou em silêncio por um longo tempo. Somente depois de tragar profundamente a fumaça e soltá-la é que Dominic finalmente falou.
“Juliet.”
“Sim?” Desta vez ele também respondeu rapidamente.
Dominic levou o charuto à boca e perguntou: “Você está satisfeito com a sua vida agora?”
Com a voz calma dele, Juliet piscou os olhos. Diante da pergunta feita do nada, ele hesitou como se estivesse escolhendo a resposta com cuidado.
“O que quer dizer com isso?”
Juliet fingiu inocência, mas Dominic não se deixou enganar.
“Eu não disse agora pouco? Que é entediante. Pois é, o jogo, a minha vida, tudo é chato e sem graça. A ponto de ser insuportável.” Ele soltou as palavras sem hesitar e encarou Juliet. “E você?”
Juliet apenas inclinou a cabeça para o lado. Sem se importar com essa atitude, Dominic continuou a falar: “Estou perguntando como é para você.”
“Como assim, o quê?” Juliet continuou se fazendo de desentendido.
Se Dominic fosse um homem sem convicção sobre si mesmo, talvez tivesse duvidado de si próprio, pensando que poderia estar errado.
No entanto, ele tinha certeza absoluta de que estava certo e nunca havia hesitado. Desta vez não era diferente. Para Juliet, que resistia teimosamente, Dominic perguntou diretamente:
“Seja sincero, você também não acha incrivelmente chato e um saco jogar xadrez comigo agora?”
Juliet acenou com a mão fingindo surpresa.
“Imagina, como seria possível? De forma alguma.” Ele alegou inocência, mas falhou.
A reação exagerada parecia mais uma confirmação, fazendo Dominic soltar um riso debochado.
“Certo, vamos fingir que sim.” Dominic deixou a mentira dele passar facilmente, deixando apenas uma breve risada que parecia o sopro do vento.
Juliet voltou a fechar a boca.
O ponteiro dos minutos do relógio de parede se moveu novamente. No silêncio, um ruído mecânico e opaco ressoou brevemente. Como se estivesse imerso em pensamentos profundos, Juliet permaneceu calado. Ficou sentado por um tempo olhando para a parede com o rosto franzido, soltou um suspiro profundo e finalmente abriu a boca:
“Então o que o senhor quer dizer é para eu te entreter?”
“Isso, finalmente entendeu.”
“E o xadrez?” Juliet franziu as sobrancelhas, parecendo cheio de insatisfação na face franzida. “Como fica o xadrez? O jogo ainda não acabou.”
Afinal, era um confronto decisivo que envolvia a questão crucial de Dominic se transferir ou não para o escritório de advocacia onde Juliet trabalhava. O resultado ainda não havia sido decidido, e Juliet achou um absurdo ele querer abandonar as regras do jogo de repente alegando que não estava divertido.
Mas as regras deste lugar eram ditadas por Dominic Miller.
Como esperado, Dominic apenas soprava a fumaça do charuto entre os lábios com uma postura arrogante.
Sua atitude parecia transmitir também que a objeção de Juliet era ridícula. Porém, Juliet não tinha a menor intenção de recuar.
“Por favor, me diga primeiro como vai ficar o confronto. Eu quero uma garantia certa.”
Dominic encarou o rosto teimoso de Juliet fixamente e baixou o olhar.
Olhando de relance para o tabuleiro de xadrez, ele levou o indicador até a cruz no topo do seu próprio rei.
Juliet observou a cena surpreso.
O dedo de Dominic empurrou o rei suavemente, derrubando-o.
Ao ver o rosto de Juliet ficar atônito por um instante, Dominic abriu a boca.
“Xeque-mate.” Em uma palavra, foi uma desistência.
Provavelmente, na disputa contra Juliet, ele teria agarrado a vitória facilmente desta vez também. Se assim o fizesse, seria a derrota de Juliet. Sendo a terceira derrota, não haveria mais motivos para se encontrarem.
No entanto, Dominic Miller deu a vitória ao adversário ao derrubar o próprio rei.
Como isso deveria ser interpretado?
Juliet estava confuso e, ao mesmo tempo, surpreso. Por isso, talvez estivesse olhando para ele com um olhar um pouco perdido. Dominic estreitou os olhos.
Atipicamente muito gentil, ele acrescentou uma palavra para Juliet, que ainda não havia compreendido totalmente a situação.
“Pronto, agora é a sua vez.”
“……”
Significava que, já que ele lhe dera a vitória em uma partida, agora, em troca, Juliet deveria entregar o que ele queria.
Dominic encarou Juliet, que olhava fixamente para o rei caído, e esperou pacificamente por sua reação.
Ele sabia que, de qualquer forma, ele não fugiria. Sendo assim, não era difícil dedicar um pouco do tempo de sobra neste momento.
Foi quando Dominic levou a mão à boca para tragar profundamente a fumaça do charuto mais uma vez. Juliet fez algo inesperado e, ao ver aquilo, Dominic parou seus movimentos.
Juliet estava tirando as roupas do corpo, uma a uma.
Uma, duas, o som das roupas caindo no chão ressoou pelo quarto silencioso. Foi quando Juliet levou a mão à gola para desfazer os botões da camisa.
Dominic zombou de Juliet, achando aquilo absurdo.
“O que você está fazendo? Acha que sexo vai ser algo novo para mim?” O tom sarcástico em sua voz era evidente. Diante de um Dominic desacreditado, o homem à sua frente deu um sorriso leve e disse com firmeza.
“Claro. Afinal, eu sou uma caixa preta.”
A essa altura, Juliet já havia se levantado, completamente nu.
Ele ficou de pé diante de Dominic sem nem tentar cobrir o corpo. A linha do pescoço longo que se estendia até os ombros desenhava uma linha reta e elegante. O peitoral esbelto tinha músculos na medida certa, e os mamilos estavam ligeiramente avermelhados. Provavelmente por conta de uma inevitável vergonha.
No entanto, mesmo sabendo perfeitamente do olhar explícito de Dominic, longe de cobrir o corpo, ele caminhou audaciosamente até a frente dele.
Dominic observou o que ele fazia em silêncio. A mão de Juliet tocou suavemente o ombro dele. E então, com o corpo nu, ele subiu e se sentou sobre as coxas de Dominic.
Como uma borboleta.
*
[N/T]: Livro citado é do clássico o Ato 3 de Romeu e Julieta.
. Caixa Preta¹: Originalmente é um aparelho super resistente usado em aeronaves, ajudando a investigar possíveis acidentes. Ser “uma caixa preta”, refere-se a metáfora para alguém altamente misterioso, fechado e indecifrável.