03.
O rosto do homem ficou vermelho e uma expressão de desconcertamento apareceu. Sem saber o que fazer, ele olhou ao redor e depois encarou Dominic com um olhar de incredulidade.
“E-Eu… vim para fazer… uma proposta.” Ele tentava continuar falando, mas sua boca já estava completamente seca e sua respiração estava tão pesada que ele não conseguia formar uma frase direito.
Ele tentou se levantar com as pernas prestes a dobrar e olhou para a porta. Ele aguentou até achar que não conseguiria mais suportar. Porém, sua mente já estava dominada pelos feromônios, tornando impossível tomar qualquer decisão racional.
Ele se virou apressadamente em direção à porta, mas já era tarde demais.
Em apenas dois passos, ele desabou, o corpo caindo no chão enquanto arfava pesadamente. Um olhar desesperado e úmido voltou-se para Dominic. Agora, restava apenas uma coisa em sua mente.
Arrastando-se de joelhos como se estivesse varrendo o chão, ele rastejou de volta para Dominic. Suas mãos trêmulas agarraram a barra da calça dele, forçando o corpo a se erguer. Abraçando as pernas de Dominic e conseguindo mal levantar a cabeça, o homem olhou para ele com um rosto cheio de súplicas.
Dominic… por favor…
…
“Sr. Miller?” O homem chamou seu nome novamente com um ar de estranhamento.
Dominic permanecia de boca fechada, apenas encarando-o. O outro em sua frente não estava desabando no chão. Não estava agarrado às pernas de Dominic, nem implorando com o rosto cheio de lágrimas. Ashley Dawson estava de pé, firme em suas duas pernas sem vacilar, ainda olhando para Dominic com um sorriso profissional. Como se nada estivesse acontecendo.
Tudo continuava exatamente como antes.
Exceto pelo denso aroma dos feromônios de Dominic que pairava no ar.
“Você.” Pela primeira vez, Dominic abriu a boca.
O homem manteve o sorriso no rosto, mas, sem conseguir esconder os ombros ligeiramente tensos, esperou pelas próximas palavras. Dominic manteve os olhos fixos naquele rosto e perguntou:
“Qual é o seu segundo gênero?”
Com uma voz baixinha e calma, o homem respondeu sorrindo, com total naturalidade.
“Sou Gamma.”
Dominic ficou em silêncio novamente.
Então era por isso. Por isso ele não reagiu aos feromônios.
Agora ele entendia por que o escritório de advocacia havia enviado este homem. A única natureza capaz de suportar os feromônios de um Dominante é o Gamma. Mesmo um Beta teria mostrado uma reação de desconforto diante de uma quantidade de feromônios tão avassaladora despejada sobre ele.
Mas os Gammas são diferentes.
Essa natureza dificilmente é afetada por aromas, mesmo sob a influência dos feromônios de um Dominante. A menos que fosse exposto a uma quantidade massiva de feromônios por um longo período, um Gamma não sofreria mutação. Portanto, era quase impossível.
Quem se daria ao trabalho de trancar um Gamma e despejar feromônios nele só para forçar uma mutação, correndo até o risco de cometer um crime de nível extremo?
Por causa dessa peculiaridade de suas naturezas, eles quase sempre trabalhavam na área de segurança privada. Especialmente no caso dos Dominantes, por sua resistência, eles frequentemente contratavam seguranças e pagavam salários altos para Gammas, tornando essa característica uma grande vantagem.
No entanto, isso não significa que eles sejam totalmente imunes à mutação. Mesmo entre os Gammas, a sensibilidade varia muito e, se tiverem a má sorte de ter alta sensibilidade aos feromônios, existe um risco — ainda que raro — de sofrerem mutação durante o trabalho de proteção.
Por esse motivo, as equipes de segurança costumam ser divididas em dois times. Eles trabalham por um determinado período e depois tiram folgas curtas para neutralizar o tempo de exposição aos feromônios.
Se negligenciarem essa medida e, por azar, sofrerem uma mutação, os Gammas morrem.
Mesmo que tivessem a sorte de sobreviver, seus corpos nunca mais seriam os mesmos. Em uma situação dessas, o corpo fica tão debilitado a ponto de mal conseguirem andar, reduzindo drasticamente sua expectativa de vida.
Se porventura engravidarem após a mutação, a chance de sobrevivência se tornava ainda mais remota. Não morrer naquele estado é quase um milagre.
Para ser mais simplório, aquele homem estava ali arriscando a própria vida. Ou talvez estivesse ali por ter a total confiança de que jamais sofreria uma mutação. Pela atitude do homem, Dominic tinha certeza de que era a segunda opção.
“É a primeira vez que vê um Gamma que não seja um segurança?” O homem perguntou, ainda com um sorriso no rosto.
Dominic continuou em silêncio, mas o homem prosseguiu como se já soubesse de tudo.
“É de se esperar, afinal a maioria das pessoas da minha natureza trabalha na segurança dos Dominantes. Muitos se surpreendem quando ouvem sobre o meu segundo gênero.”
Depois de dizer tudo o que queria, ele olhou para o rosto de Dominic como se estivesse avaliando a situação. Contudo, Dominic permanecia calado, e o homem concluiu que seria difícil obter uma resposta hoje.
“Da próxima vez, farei um agendamento formal.”
Ele era alguém que sabia a hora de recuar e a hora de avançar. Ao perceber que era momento de recuar, acrescentou enquanto dava passos para trás sem hesitar:
“Se tomar uma decisão antes disso, por favor, entre em contato.” Após fazer esse último apelo, ele se virou.
Dominic pensou que ele sairia direto do escritório, mas, surpreendentemente, o homem parou de repente. Seus olhos se fixaram não na porta, mas na mesa, e ele caminhou de forma inesperada naquela direção. Olhando com interesse para o tabuleiro de xadrez, ele de repente virou a cabeça.
“Com licença.” Depois de começar a falar, o homem hesitou um pouco, como se estivesse demorando a tomar coragem, e perguntou com um sorriso sem jeito: “Posso mexer em uma peça?”
Diante do pedido inusitado, Dominic franziu as sobrancelhas, mas levantou e abaixou a mão como quem diz para fazer o que quisesse. Como ele já tinha decorado a posição de todas as peças, não importava se o homem as colocasse em um lugar absurdo.
Recebendo a permissão, o homem pegou uma torre como se estivesse esperando por isso e a mudou de lugar. O inesperado veio a seguir. Naquele instante, Dominic viu claramente: o rosto do homem olhando para o tabuleiro com uma expressão cheia de provocação.
Logo em seguida, ele se despediu mais uma vez e saiu do escritório com passos leves. Depois que a porta se fechou, Dominic permaneceu de pé naquele lugar por um tempo e, finalmente, virou a cabeça.
Assim como o homem havia feito, ele se dirigiu à mesa, parou exatamente onde Ashley esteve e olhou para o tabuleiro de xadrez. Então, ele congelou, mantendo o olhar fixo e penetrante.
Era xeque-mate.
***
Ouvindo Passacaglia¹ ecoar pelas caixas de som, Dominic escolheu um charuto dentro do umidor. Tirando uma unidade, sentiu o aroma, cortou a ponta com o cortador e acendeu com cuidado.
Fuuu……
Após dar a primeira tragada, ele se afundou na cadeira de descanso, apoiou as pernas compridas no pufe e fechou os olhos. A música de cravo é sempre ótima. Não apenas para aliviar a fadiga do dia ou acalmar os ânimos exaltados, mas especialmente para organizar os pensamentos.
Os preparativos para as férias estavam todos prontos. Se fosse como de costume, ele tiraria folga no dia seguinte e iria para uma casa de campo isolada, onde o contato de ninguém o alcançaria. No entanto, desta vez surgiu uma variável.
Ashley J. Dawson.
Ele encarou fixamente os documentos que segurava. Ali continha todas as informações sobre o homem que, em pouco tempo, havia mexido completamente com ele.
O homem era filho único, nascido em uma família comum de classe média. Um dos seus pais era Gamma, e herdou essa mesma natureza. Ele se formou em uma faculdade de direito de renome, tornou-se advogado e, por sorte, conseguiu um emprego em um grande escritório de advocacia, onde estava atuando.
Este trabalho devia ser o seu primeiro “caso” de verdade. Considerando que nunca tinha ouvido seu nome antes, é provável que até agora ele só tivesse atuado como assistente ou pegado casos irrelevantes que ninguém mais queria. Nesse cenário, se lhe prometessem uma recompensa astronômica caso conseguisse fechar este negócio, tudo fazia sentido.
Era um clichê óbvio, mas isso não interessava a Dominic. No entanto, havia uma outra variável.
Fazer uma jogada daquelas…
A imagem do tabuleiro de xadrez não saía de sua cabeça. Por que ele próprio não tinha pensado naquela jogada? Quando percebeu, viu que era uma jogada extremamente simples. Embora estivesse extremamente ocupado por causa do julgamento, era uma jogada que ele não tinha conseguido resolver durante uma semana inteira, mas aquele homem, com apenas um olhar, criou um xeque-mate simples.
Isso era mesmo possível?
O sorriso ingênuo que ele deu no final não saía de sua mente. Ele havia dito palavras indelicadas várias vezes, mas perto disso, aquilo não era nada.
No tribunal, ele também devia ser assim, tão arrogante.
Ele queria arrastá-lo para o tribunal e destruí-lo miseravelmente. Ao imaginar o rosto dele ficando vermelho e desabando em choro após perder o julgamento, de repente, a parte de baixo do seu corpo esquentou.
Dominic franziu o entrecenho e baixou o olhar.
Ao ver o volume saliente na parte da frente da calça, um suspiro incrédulo escapou entre seus dentes.
A música continuava mudando. Porém, Dominic apenas permaneceu sentado ali, imerso em pensamentos profundos.
***
Com o toque curto da campainha que ressoou no início da noite, Dominic parou o movimento de servir a bebida e olhou de relance em direção ao som.
Era o alarme da recepção avisando sobre a chegada de um visitante. Como ele já havia avisado previamente que o homem viria, a entrada dele devia ter sido liberada sem problemas.
Dominic conseguia imaginar com clareza, como se estivesse vendo bem diante dos seus olhos, o homem informando seu nome e identidade na recepção e subindo pelo elevador privativo sob a orientação do segurança.
Como esperado, em pouco tempo ele chegou ao andar mais alto. O som da porta de entrada se abrindo foi ouvido e, logo depois, o barulho de passos usando chinelos prosseguiu.
“Sr. Miller, é o Dawson.” Na voz um pouco aguda, que transparecia tensão, havia um leve vibrato.
Dominic bebeu sua bebida sem pressa e esperou até que o homem o encontrasse. O som dos passos vagando pelo interior da vasta cobertura parecia se aproximar aos poucos, até que finalmente o homem o encontrou bebendo no balcão do bar.
“Aqui estava você.” O homem falou, soltando um pequeno suspiro de alívio. Sua voz, que quase parecia um murmúrio, logo ganhou força e mudou para um tom confiante. “Obrigado por me convidar. Fico muito feliz que tenha me contatado tão rápido.”
O homem, parado a uma boa distância, cumprimentou-o com o rosto levemente corado. Apesar do contato repentino, ele respondeu ao chamado imediatamente. Ansioso, entusiasmado e de prontidão, como um cão que passa o dia inteiro esperando pela atenção do dono. Os ombros um pouco tensos e os olhos brilhantes revelavam abertamente seus verdadeiros sentimentos.
Dominic o observou devagar.
Assim como no primeiro encontro, ele estava perfeitamente vestido em um terno sem uma única ruga. Descendo o olhar a partir do cabelo alinhado, que parecia não tolerar nem um único fio fora do lugar, e do rosto alinhado logo abaixo, o pescoço fino e longo como o de um cervo entrou em seu campo de visão.
E se ele colocasse uma coleira de cachorro nele e o fizesse deitar nu no chão? Será que aquele homem aceitaria isso com naturalidade também?
Quando Dominic estreitou os olhos compridos, o homem tomou a palavra.
“O fato de ter me convidado para a sua residência significa que posso interpretar que está pensando positivamente sobre o contrato que propusemos?”
É claro que era muito natural ele ter essa expectativa.
Afinal, criar uma ocasião como essa significava que o lado tinha certo interesse. Embora ele não conseguisse esconder a empolgação, quanto mais demonstrava isso, mais aquilo se tornava sua fraqueza.
“Ora, será mesmo?” Dominic recuou em tom de provocação, mas o homem não se deixou intimidar e respondeu com entusiasmo.
“Estamos prontos para aceitar qualquer coisa.” Dominic apenas deu um sorriso enigmático.
Sem dizer uma palavra, virou-se, pegou um copo vazio, serviu a bebida e o estendeu ao homem. Consciente da pasta de documentos que carregava, o homem ficou um pouco desconcertado e olhou ao redor, mas não podia pousar suas coisas sem a permissão do proprietário.
Além disso, a outra pessoa era alguém a quem ele precisava agradar a todo custo. Em vez de correr o risco de cair em desgraça por uma ação desnecessária, ele optou por se desconfortar. Segurando a pasta em uma das mãos, o homem caminhou até Dominic e, com a mesa do bar entre eles, estendeu a mão vazia.
“Obrigado.” Deixando-o com seu sorriso extremamente cortês, Dominic serviu bebida em seu próprio copo também.
Ao ver Dominic esvaziar o copo de uma só vez, o homem ficou um pouco tenso, mas não fugiu da missão que lhe fora dada. Sem nem perguntar que tipo de bebida era, ele levou ao copo à boca sem hesitação. Como se Dominic tivesse escolhido exatamente a bebida que ele mais desejava.
Dominic observou em silêncio enquanto o homem inclinava a cabeça para trás e esvaziava todo o copo, fazendo seu pomo de adão, localizado no centro do pescoço longo, subir e descer várias vezes. Logo em seguida, quando ele soltou uma breve respiração e pousou o copo vazio, Dominic lhe disse:
“Você bebe muito bem, sem nem saber o que tinha aí dentro.” No tom suave de sua fala, havia um tom explícito de deboche.
A intenção era zombar da atitude servil do homem, mas ele não se importou.
“O senhor também não bebeu?”
A pergunta veio como se isso servisse de garantia, mas Dominic apenas zombou dele.
“Você é um Gamma.” Aquelas palavras pareciam carregar muitos significados ocultos, mas no fim das contas davam na mesma.
Não havia nada em comum entre ele e aquele homem, além do fato de ambos serem humanos. Quando o homem se lembrou tardiamente de que a natureza de Dominic era a de um Dominante especial entre os Alfas, e que seu organismo era imune a remédios e venenos, seus olhos acabaram se voltando inconscientemente para o copo vazio.
Será que aqui dentro……
Uma tensão completamente diferente do incômodo silêncio de antes se instalou entre os dois.
*
. Passacaglia: Uma forma musical do século XVII originada na Espanha.