Capítulo 56
↫─Capítulo 56
Conforme se aproximavam da mansão da família Frost, o estômago de Karlyle deu uma pontada. Ele pensou que sua condição tivesse melhorado bastante, que a dor tivesse ficado para trás, mas parecia que esse não era o caso. Encontrar seu avô nunca era fácil.
Tornar-se acostumado à dor não significava que ela não machucava mais; Karlyle simplesmente havia aprendido a suportá-la. E agora ele havia cometido talvez a maior transgressão de sua vida. A pressão era insustentável.
— Lyle.
Estacionando no pátio em frente à mansão, Karlyle virou a cabeça. Ver o rosto de Ash ajudou a acalmar um pouco seu interior.
— Você está bem? — Ash perguntou.
Karlyle soltou o aperto no volante, abrindo os lábios. Ele estava feliz por Ash estar ao seu lado, mas o pensamento de que essa pessoa maravilhosa pudesse ser ferida por causa de seu avô o aterrorizava totalmente.
— Estou bem. É só que…
Aos olhos de Karlyle, Ash parecia alguém que havia crescido recebendo nada além de amor, já que sorria como quem tinha visto apenas coisas positivas em um ambiente feliz, ao contrário de si mesmo. Mas Karlyle agora sabia que havia um significado mais profundo por trás daquele sorriso. Quando Ash compartilhou sua infância, Karlyle entendeu pela primeira vez o que significava ter o coração despedaçado. Para alguém que carregava tais feridas, Karlyle queria mostrar apenas as coisas boas da vida de agora em diante. No entanto, seu avô com certeza diria palavras crueis.
— Como mencionei antes, meu avô…
No dia em que deu a pintura a Ash, Karlyle havia compartilhado um pouco sobre si mesmo. Para falar a verdade, ele não soubera o que dizer. Embora seu passado fosse diferente do de muitos outros, não era particularmente extraordinário também.
Com isso em mente, ele havia falado sobre as coisas que lhe foram ensinadas desde jovem, com apenas uma breve menção ao seu avô como um modelo de nobreza.
— Ele se comporta de uma maneira muito mais aristocrática do que Lorde Gordon. Está fora de lugar nos dias de hoje, mas ele atribui um valor imenso às linhagens de sangue…
Karlyle nunca havia discutido a respeito de sua família com os outros. Explicar sobre seu avô para outra pessoa tornava difícil encontrar as palavras certas.
— Então é por isso que você está preocupado? Eu vou ficar bem.
— Mesmo assim… temo que ele diga algo indelicado.
Expressar sua inquietude em voz alta apenas aumentou a dor em seu estômago. Ele mordeu o lábio. A preocupação surgiu no rosto de Ash.
— Está doendo de novo? Devemos voltar? — ele perguntou, estendendo a mão.
— Não, não é nada.
— Como você vai conseguir quando está com tanta dor assim? Você parece que está prestes a desmoronar.
Por um momento, a dor diminuiu, substituída pelo constrangimento. Desmoronar? Apesar de mostrar suas fraquezas recentemente, Karlyle era um alfa forte que não tinha ficado doente nenhuma vez desde que se tornara adulto.
— Isso não é verdade.
— É por isso que hesito em tocar em você.
— Garanto a você, estou bem.
— Lyle, percebi que você tem uma tendência a dizer que está bem quando claramente não está.
A mão de Ash descansou suavemente no estômago de Karlyle. Ao movimento reconfortante de sua palma, os músculos de Karlyle se contraíram.
— Ash…
— Não se preocupe comigo. Sou bastante durão quando se trata de ataques pessoais. Além disso, não é como se eu fosse vê-lo com frequência, certo?
Karlyle sabia que a resiliência de Ash provavelmente vinha de sua infância difícil. Triste com o pensamento, ele cobriu a mão de Ash com a sua. Ele queria dizer: eu te amo.
No entanto, essas palavras não eram ditas tão facilmente; fazer isso exigia uma preparação considerável toda vez. Seus sentimentos eram tão excessivamente profundos que era difícil formar as palavras. Até o mero ato de pronunciar a frase enviava um calafrio por todo o seu corpo.
— Se você estiver disposto, podemos simplesmente fugir juntos — disse Ash com uma piscadela travessa. O gesto adoravelmente atrevido coloriu as pontas das orelhas de Karlyle de rosa. “Ele piscava assim para os outros também?” Mesmo naquele momento, ele sentiu uma pontada de ciúme. — …Que tal a França? Viveremos em Marselha, apenas nós dois. Eu lhe oferecerei a alegria de cem pessoas, para que você nunca se sinta sozinho, Lyle. — Ash virou a mão que descansava no estômago de Karlyle para entrelaçar seus dedos enquanto guiava a mão de Karlyle em direção aos seus lábios. — Mon Chéri — ele murmurou em francês.
Esta era a primeira vez que Karlyle ouvia Ash falar francês; sua voz era baixa e suave. Até agora, ele nem sequer havia percebido o quão sedutor “meu querido” podia soar. As palavras eram realmente poderosas. Lentamente, a ansiedade que o havia engolfado começou a diminuir. Com Ash ao seu lado, ele sentia como se tudo fosse ficar bem. A sugestão de fugirem juntos, por mais fantasiosa que fosse, de alguma forma parecia viável.
— Você está falando sério?
— Eu nunca minto.
Se isso era verdade, então talvez o comentário anterior dele sobre ser trancado também fosse sincero. O pensamento trouxe um leve sorriso aos lábios de Karlyle. Ao contrário de momentos antes, quando sua expressão estava rígida de tensão, ele agora se sentia relaxado o suficiente para entreter tais ideias. Tudo o que foi preciso foram algumas palavras de Ash.
— Eu entendo. — Desta vez, foi a vez de Karlyle oferecer palavras de tranquilidade. Firmemente, ele puxou as mãos entrelaçadas de volta para si. Com uma reverência silenciosa, ele baixou a cabeça para roçar suavemente os lábios contra os nós dos dedos de Ash antes de erguer lentamente o olhar. — Já que você disse isso, Ash… acho que vou ficar bem.
Ash, que estava olhando para ele com uma expressão neutra, estreitou os olhos em um sorriso preocupado.
— Lyle.
— Sim?
— Estou sinceramente aliviado por não termos muito tempo agora.
Karlyle franziu a testa, sem certeza do que Ash queria dizer. Com um suspiro pesado, Ash passou a mão pelo cabelo.
— Porque se tivéssemos, estaríamos em apuros.
— Apuros?
— Meu parceiro é inocente demais. Temos um longo caminho pela frente.
A mão de Ash, ainda presa pelo aperto gentil de Karlyle, esfregou-se contra seus próprios lábios, o movimento deliberado carregado de um desejo que Karlyle podia sentir claramente demais.
— Vamos, então? — Ash perguntou.
Os olhos deles se encontraram, e Karlyle respondeu com um sorriso sutil. As portas do carro clicaram abrindo-se em uníssono.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr