Capítulo 23
Deep Pivot Side Story — Capítulo 23
— …E aí? Acha que se lembra de alguma coisa, Yeonwoo?
Yeonwoo hesitou, sem conseguir responder de imediato, e olhou para Seo-joon com uma expressão aflita.
— Não estou te apressando, então vai com calma. Não precisa se forçar.
Engolindo a decepção, Seo-joon sorriu e saiu do quarto. Imaginou que Yeonwoo não conseguiria olhar tudo à vontade com ele ali.
— Olha tudo o que quiser e sai quando terminar. Vamos jantar.
Falando alto na direção do quarto, Seo-joon abriu a geladeira e olhou lá dentro. Depois de passar os últimos dez dias grudado em Cha Yeonwoo, tinha largado a casa de lado — não havia nada decente para comer.
Ah, é. Foi por isso que Cha Yeonwoo tinha ido ao mercado.
— ……
Eles tinham planejado jantar macarrão ao molho rosé. Mas o Cha Yeonwoo de vinte e um anos tinha desaparecido, e quem estava agora no quarto era um adolescente que tinha esquecido todo o tempo que passaram juntos.
— Tenente.
Nesse momento, a voz de Yeonwoo veio de trás dele. Seo-joon se virou por reflexo e o viu parado diante da mesa de jantar. Vê-lo ali daquele jeito dava a sensação de que ele realmente tinha voltado.
— …Tenente?
A confusão tomou conta do rosto de Yeonwoo. Ploc. Pinga. Lágrimas caíram dos olhos de Seo-joon e atingiram o piso da cozinha. Ele enxugou os olhos com a mão, em silêncio, e olhou assustado para a palma molhada.
— Por que… por que você está chorando?
Yeonwoo olhou ao redor, afobado, enquanto se aproximava depressa. Parecia procurar lenços ou qualquer coisa para enxugar as lágrimas, mas era a primeira vez que estava ali — não tinha como saber onde ficava nada.
No fim, sem encontrar nada, ele puxou a manga da blusa e, hesitante, passou-a na bochecha de Seo-joon.
— Não chora, Tenente… Me desculpa.
E, com essas palavras, Seo-joon finalmente desabou. Desculpa por quê? Você nem fez nada. Você nem sabe de nada… Você realmente não sabe de nada…
Ao voltar para casa, tudo ali era Cha Yeonwoo.
A realidade que ele vinha evitando teimosamente enquanto ficava no Centro desabou de uma vez só. Naquela casa enorme, onde não sabia o que podia fazer nem o que devia fazer, Seo-joon foi esmagado por uma sensação avassaladora de impotência.
E se Cha Yeonwoo nunca mais voltar? Então ele ficaria preso naquele mar imenso, completamente sozinho. Todo aquele tempo em que eram tudo um para o outro, em que o mundo deles tinha virado de cabeça para baixo porque se desejavam tão desesperadamente — e se tudo aquilo desaparecesse…
Lágrimas incontroláveis escorriam pelo queixo e desciam até a garganta trêmula.
— T-Tenente, por favor, não chora. Ah, o que eu faço…
Uma voz aflita soou à sua frente. Uma mão que pairava no ar puxou Seo-joon com delicadeza para um abraço. Seo-joon balançou a cabeça e tentou se afastar do peito dele.
— Está tudo bem. Não precisa se preocupar com…
Mas Seo-joon, preso pelos braços que o envolviam com força, acabou pousando as mãos nas costas de Yeonwoo.
— ……
Um dia, Cha Yeonwoo voltaria. Disseram que era temporário — então, um dia, com certeza… ele voltaria. Ele tinha que voltar.
Mas, naquele momento, Seo-joon sentia tanta falta dele que não conseguia suportar. Se só dez dias já o tinham deixado tão louco assim, pensar no tempo muito maior que Yeonwoo tinha suportado fazia seu coração doer terrivelmente.
Respirando curto e se acalmando, Seo-joon deu tapinhas gentis nas costas dele.
— …Desculpa. Por te mostrar um lado tão patético. Já estou bem, então pode ir fazer o que você precisa.
— ……
Ao soltá-lo e erguer a cabeça, Seo-joon congelou de repente. Ploc. Pinga, pinga. Novas lágrimas escorriam pelos rastros vermelhos nas bochechas afogueadas de Yeonwoo.
— Yeonwoo…
A tristeza que ainda pairava foi varrida de repente pela surpresa. Seo-joon encarou Yeonwoo, atônito.
— …Por que você está chorando?
Snif… Um soluço ficou preso na garganta dele enquanto as lágrimas caíam por baixo dos cílios baixos.
— Porque você está chorando, Tenente…
— …O quê?
— Eu quero muito lembrar logo, mas nada volta, e é tão frustrante… Snif, mas quando eu vejo você chorando por minha causa… eu não consigo evitar chorar também…
Snif… Entre as palavras embaralhadas, vinha o som de soluços molhados. Ah, não. Seo-joon o puxou para os braços. Um Cha Yeonwoo chorando era algo com que ele estava mais do que acostumado. Por reflexo, beijou os olhos e as bochechas dele para enxugar as lágrimas.
— Não chora, Yeonwoo. Não precisa chorar por isso. Suas memórias vão voltar logo. Não é algo que se consiga forçar com força de vontade. Me desculpa. Eu devia ter cuidado melhor de você, como um adulto de verdade…
Chu. Chu. Sussurrando entre beijos suaves na bochecha e nos lábios de Yeonwoo, Seo-joon se afastou de repente.
Ah. Fiz besteira.
— ……
Yeonwoo, ainda com o rosto molhado de lágrimas, congelou. Os olhos azuis dele oscilavam de um lado para o outro, confusos. Seo-joon deu um passo para trás e se desculpou.
— Desculpa… Eu fiz sem pensar. É só costume.
Yeonwoo deu um passo à frente.
— …Você sempre me consolava assim quando eu chorava?
Seo-joon, tomado por uma estranha sensação de pânico, recuou dois passos e assentiu, hesitante.
— Bom, a gente estava… num relacionamento.
Mas, apesar da cautela de Seo-joon, Yeonwoo não se aproximou mais. Baixando um pouco a cabeça, enxugou as próprias lágrimas e murmurou baixinho, quase para si mesmo.
— …Eu devia ser muito feliz.
— Ah, Tenente… Para de gravar.
— Yeonwoo, me mostra o seu rosto. Você sabe o quanto está lindo agora?
— Estou morrendo de vergonha.
Do alto-falante do celular vinham as vozes risonhas de Seo-joon e Yeonwoo. Por causa do vento forte do mar, a maior parte dos protestos de Yeonwoo ficava abafada.
— Yeonwoo, toma o seu remédio.
Seo-joon tinha pedido alguns ingredientes às pressas e feito o macarrão de um jeito desajeitado. Ficou muito inferior ao que o Cha Yeonwoo de vinte e um anos costumava fazer, mas o Cha Yeonwoo de dezoito comeu todo feliz, dizendo que estava delicioso.
Depois de conseguir dar o jantar a ele daquele jeito, Seo-joon o deixou em silêncio olhando o álbum do celular, cheio de lembranças dos dois. Ele olhava vídeos e fotos que já tinha visto várias vezes no hospital.
— …Tenente.
Yeonwoo o chamou baixinho ao pegar o remédio da mão de Seo-joon. Com uma expressão gentil, Seo-joon afagou o cabelo dele, como se o incentivasse a continuar.
— Se eu nunca recuperar a memória… quer dizer que eu não vou mais poder fazer coisas assim com você?
Seo-joon voltou a sentir aquela pontada incômoda no peito, a mesma que o acompanhara a noite toda.
“Eu devia ser muito feliz.”
O jeito como Yeonwoo tinha dito aquilo horas antes ainda estava cravado fundo demais em seu coração. Feito um tolo. Ele não podia vacilar. Nunca deveria ter deixado Yeonwoo inseguro.
— Por que não poderia? Eu não vou desistir de você, Yeonwoo.
— Mesmo que eu fique assim por muito, muito tempo?
— De qualquer forma, daqui a dois anos você vai ser adulto.
Com um leve sorriso, Seo-joon continuou afagando com delicadeza o cabelo de Yeonwoo.
— Vou te criar direitinho pelos próximos dois anos e depois a gente se casa. A sociedade chama isso de aliciamento ou coisa parecida… Mas você é a exceção. Você nunca vai escapar de mim. Talvez você não saiba, mas a gente fez uma promessa. Você e eu, quando você era adulto, já combinamos tudo isso.
Vendo aqueles olhos sinceros ouvindo com toda a seriedade aquele discurso ridículo do começo ao fim, Seo-joon acrescentou:
— Primeiro, vamos te colocar de volta no ensino médio. Fazer você se formar direitinho. …E, depois disso, a gente começa a namorar oficialmente.
— …O quê?
A testa até então lisa de Yeonwoo se franziu. Ele repetiu a pergunta, como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir.
— Você vai… me mandar de volta para a escola?
— Claro. Você está no segundo ano, não está?
Seo-joon olhou para o rosto atordoado dele, achando graça. Yeonwoo, que vinha curtindo em silêncio o carinho no cabelo, se afastou e ficou sério.
— Mas eu já me formei no ano passado.
Ah, é? Seo-joon olhou para ele, pasmo.
— E quem você acha que conquistou esse diploma?
— Eu, c-claro.
Que absurdo. Aquele diploma tinha sido conquistado pelo Cha Yeonwoo de vinte anos. Mesmo trabalhando em campo nos Portais, ele tinha ido às aulas com dedicação. Seo-joon nem se deu ao trabalho de dizer tudo isso, mas perguntou, sério:
— Você sabe cálculo, Yeonwoo? Todo adulto que se forma no ensino médio sabe cálculo. Mas você ainda está aprendendo. Como pode se considerar adulto?
— …E você sabe cálculo, Tenente?
— Claro que sei. Cálculo é o básico para um adulto.
Um breve silêncio se instalou entre eles. Seo-joon precisou resistir à vontade de tirar na mesma hora uma foto da expressão de Yeonwoo naquele momento. Yeonwoo o encarou, franzindo as sobrancelhas de novo.
— Espera… você está tirando sarro de mim agora?
Por fim, Seo-joon caiu na gargalhada. Tenente, você é meio estranho… Yeonwoo fez beicinho e se virou bruscamente para o outro lado.
— Mas era sério quando eu disse que não vou desistir de você.
Seo-joon envolveu com os dois braços as costas viradas de Yeonwoo e falou devagar e com clareza.
— Porque eu te amo muito, muito mesmo.
— ……
— Então não tenha medo e faça tudo o que você quiser. Eu vou estar aqui, cuidando de você o tempo todo.
— …Tudo o que eu quiser fazer?
— Qualquer coisa. Agora você tem dinheiro, não tem mais dívida. Pode fazer o que quiser. Não precisa se preocupar com o que os outros vão pensar.