Capítulo 22
Deep Pivot Side Story — Capítulo 22
Os olhares se cruzaram num instante — aquele tipo de olhar acidental que não tinha nada de acidental.
Aqueles olhos azul-claros, impossíveis de decifrar, fitavam Seo-joon diretamente, cheios de algo que ele não conseguia identificar.
— Hã… Vamos dar mais uma volta, Yeonwoo.
Seo-joon olhou fixo para a frente de propósito enquanto falava.
Mas o olhar de Yeonwoo continuou preso ao perfil dele, inabalável.
— Hum, Tenente…
A voz hesitante de Yeonwoo chegou até ele e, com o canto do olho, Seo-joon viu o leve movimento da garganta dele engolindo em seco.
— Você disse… que a gente namorava.
— …
— Então… por que você não segura a minha mão?
Seo-joon se virou para olhá-lo.
Yeonwoo, que o encarava tão fixamente um segundo antes, baixou os olhos na mesma hora.
Os olhos dele, avermelhados nos cantos, vacilaram enquanto ele continuava, baixinho:
— …E você também não me beija.
Seo-joon entreabriu a boca — mas as palavras não vieram.
Aquele era o mesmo Cha Yeonwoo que tinha sangrado pelo nariz da última vez que ele o provocara só um pouquinho. Não dava para arriscar que acontecesse de novo.
— Yeonwoo, no momento você ainda é menor de idade.
— Mas o meu corpo é de adulto.
Vinte e um, ele resmungou numa vozinha minúscula — quase inaudível, mas o suficiente para dar a Seo-joon vontade de gritar para o nada.
Ele respirou fundo e respondeu com toda a calma que conseguiu:
— A sua cabeça ainda é de menor. Que tipo de cara você acha que eu sou, para fazer alguma coisa com um estudante do ensino médio?
É verdade que, quando Yeonwoo tinha vinte anos e ainda não sabia de nada, Seo-joon tinha feito todo tipo de coisa.
Mas com aquela versão — um garoto de dezoito anos, puro e sem noção? Ele não queria nem segurar na mão.
…Além disso, não estava pronto para outra rodada da fúria de Hee-min.
— Eu estive pensando — disse Yeonwoo, de repente.
— …Lá vem — murmurou Seo-joon, baixinho.
Com vinte ou com dezoito, a cabeça de Cha Yeonwoo vivia cheia de pensamentos demais.
— Você disse que você e eu fizemos… mais do que beijar.
Não. Não, não, não.
Seo-joon balançou a cabeça antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
— Então eu fiquei pensando… e se a gente tentasse fazer tudo de novo, uma coisa de cada vez? Talvez me ajude a lembrar?
— …
— Sabe… as coisas que a gente fazia.
Yeonwoo baixou os olhos e deslizou de leve um único dedo pelas costas da mão de Seo-joon.
Aquele toque leve, que fazia cócegas, fez Seo-joon virar a cabeça bruscamente para a frente e soltar um suspiro longo e silencioso.
— Yeonwoo.
— Sim?
— Desce. Agora mesmo.
— Hum… Tenente… você está bravo comigo?
Do banco do passageiro, Yeonwoo olhou cauteloso para Seo-joon, que dirigia em silêncio, concentrado. Era impressão dele ou o carro estava andando de um jeito um pouco mais brusco do que antes?
Mexendo no cinto de segurança, Yeonwoo não conseguia evitar lançar olhares preocupados na direção dele.
Por fim, o carro parou.
Seo-joon entrou no estacionamento subterrâneo do centro de pesquisa e, enquanto soltava o cinto, finalmente falou.
— Eu não estou bravo.
— …
— Vamos. Vou te levar de volta para o quarto.
Seo-joon desceu do carro, e Yeonwoo o seguiu em silêncio, saindo pelo lado do passageiro.
Enquanto esperavam o elevador, Seo-joon ignorou de propósito o par de olhos cravado nele.
Ding.
Quando as portas do elevador se abriram, Seo-joon entrou e olhou para aquela versão de dezoito anos de Yeonwoo com o coração pesado.
A memória, que deveria voltar em poucos dias… não dava nenhum sinal de retorno, e já fazia quase dez.
Ding-dong.
Uma notificação suave vibrou no celular — era o lembrete da estreia de um filme que ele tinha reservado havia muito tempo para ver com Cha Yeonwoo. Era a continuação do último que tinham assistido juntos — não havia como levar aquele Yeonwoo mais novo.
Esqueci de cancelar isso também.
O mesmo tinha acontecido com a viagem para a pousada, reservada com bastante antecedência. Ele não tinha adiado a tempo.
Em parte, porque não sabia quando a memória de Yeonwoo ia voltar.
Mas, sinceramente… ele simplesmente tinha esquecido. Por completo.
A verdade era que, por fora, a vida de Seo-joon parecia estar bem, mas por dentro estava tudo uma bagunça.
Era patético o quanto ele estava perdido sem Yeonwoo — a rapidez com que tudo tinha desmoronado.
Ele guardou o celular de volta no bolso e soltou o ar devagar.
— Agora, quem está mais desesperado… sou eu, Yeonwoo.
Yeonwoo tinha suportado silêncios muito mais longos, com paciência.
Seo-joon, por outro lado, não tinha aguentado nem dez dias sem entrar em parafuso.
— Se você nunca recuperar a memória… então você e eu não somos namorados. Não somos nada. Uma memória que só um dos dois tem não faz um relacionamento. Não acha?
Ding.
Seo-joon saiu do elevador primeiro. Atrás dele, os passos leves de Yeonwoo se apressaram para alcançá-lo.
— Descanse um pouco. Eu volto de manhã—
Ele se virou na porta do quarto — e parou de repente.
Yeonwoo estava bem ali, tão perto que quase trombaram. Seo-joon deu um passo para trás por instinto e ergueu os olhos para ele.
— Eu também quero recuperar logo a minha memória, Tenente.
— …
— Quero saber tudo sobre o que a gente teve.
Os olhares se encontraram e se sustentaram.
Por um instante fugaz, Seo-joon sentiu como se aqueles olhos azul-claros estivessem prestes a enxergá-lo por inteiro.
Então—
Bico.
Os lábios de Yeonwoo se projetaram só um pouquinho.
— Então para de me tratar como criança.
Ele passou por Seo-joon e entrou no quarto. O jeito como se movia deixava bem claro: estava emburrado, sem dúvida.
Clac.
A porta se fechou, deixando Seo-joon sozinho no corredor.
— …
Seo-joon soltou uma risada sem fôlego, preso em algum lugar entre a incredulidade e o carinho.
Dia 11 de internação.
A equipe médica que acompanhava o quadro de Yeonwoo finalmente autorizou a alta.
Acreditavam que voltar a um ambiente familiar poderia ajudá-lo a recuperar a memória mais depressa.
— Tenente, o Doutor Kang Hee-min me deu isto mais cedo.
Seo-joon se virou e baixou os olhos.
Yeonwoo estava ali, estendendo as duas mãos — e, entre elas, havia um anel.
— Disseram que eu estava usando no momento do acidente.
Os olhos arregalados dele fitavam Seo-joon, completamente abertos e sinceros.
— Isto é… um anel de casal, não é?
Seo-joon o tirou das mãos dele sem hesitar.
— É. Mas eu só coloco de volta em você quando a sua memória voltar.
— A-agora não?
Yeonwoo, assustado, foi atrás dele quando Seo-joon se virou para sair, com os olhos arregalados de consternação.
— Que tipo de homem de trinta anos usa anel de casal com um menor de idade que largou o ensino médio, Yeonwoo?
Seo-joon lhe lançou um olhar sério, duro de propósito — e Yeonwoo murchou na mesma hora.
— …Você é muito malvado mesmo.
Como ele consegue ser exatamente igual ao de antes?
Seo-joon não conseguiu deixar de achar aquela frase tão familiar ao mesmo tempo adorável e um pouco ridícula.
— E se eu recuperar a memória? Aí você vai fazer o quê?
…Um pouco atrevido também.
Seo-joon respondeu enquanto arrumava as coisas de Yeonwoo.
— Como assim, fazer o quê? Se isso acontecer, você vai ver só. Não vou pegar leve com você.
Depois de fazê-lo passar por todo aquele estresse e preocupação, Cha Yeonwoo mereceria, sem dúvida nenhuma, uma bronca que durasse a noite inteira.
— …O que quer dizer “não vou pegar leve com você”?
Aquela pergunta, vinda de trás, fez Seo-joon congelar. Devagar, ele se virou para olhar Yeonwoo.
Assim que os olhares se encontraram, Yeonwoo desviou depressa os olhos, com as orelhas ardendo de vermelho, e se remexeu sem jeito na cadeira.
Então até Cha Yeonwoo já tinha passado por uma fase meio duvidosa, é?
Pelo visto, ele não tinha sido tão inocente a vida inteira quanto Seo-joon imaginava.
— Ah, você quer saber o que eu quis dizer com isso?
Os olhos arregalados de Yeonwoo voltaram-se rápido para ele — e logo fugiram de novo.
Seo-joon começou a caminhar devagar na direção dele.
— Está curioso?
— O-o quê? Não, eu…!
Assustado com o quanto Seo-joon tinha chegado perto de repente, Yeonwoo recuou em pânico.
Seo-joon se inclinou até ficar colado ao rosto dele.
Os olhos azuis de Yeonwoo se fecharam com força. Os lábios dele se moveram de leve, como se esperassem alguma coisa. Seo-joon o olhou por um instante—
E então agarrou os lábios dele e torceu.
— Uurgh—! Ai, ai! Dói! Agh! Mmhp—!
— Matando aula para aprender coisa estranha? O que você acha que quer dizer “não vou pegar leve”? Quer dizer que você vai levar bronca até chorar, é isso.
— Aaaagh…
Lágrimas brotaram nos olhos apertados e franzidos de Yeonwoo.
Os lábios dele, ainda num leve biquinho, estavam agora marcados de vermelho pelos dedos.
Seo-joon pegou a mão dele e a puxou para a frente com delicadeza.
Então tirou do bolso o anel de casal — e o colocou na mão esquerda de Yeonwoo.
— Só por enquanto. Fica com ele.
— …Só por enquanto?
Os olhos marejados de Yeonwoo piscaram para ele, brilhando como vidro.
Seo-joon bagunçou o cabelo dele e se virou.
Ele sempre tinha preferido usá-lo na mão direita.
Mas essa parte ele guardou só para si.
— Nossa… eu nunca entrei numa casa tão grande assim.
Yeonwoo, enfim em casa, olhava ao redor com os olhos arregalados de espanto.
Ofego…
Ele prendeu a respiração ao ver a TV enorme na sala.
— O Jeongwoo ia pirar se visse isso.
No começo, ele ficou colado em Seo-joon, sem saber muito bem como agir. Mas não demorou para começar a explorar a casa com mais liberdade, fuçando curioso em cada canto.
Apesar do corpo de adulto, o rosto dele se iluminava como o de uma criança numa loja de brinquedos — e Seo-joon precisou segurar o riso.
— O quarto é por aqui.
Yeonwoo seguiu Seo-joon, passo a passo.
Quando viu a cama — a mesma em que os dois costumavam dormir juntos —, ele parou onde estava.