Capítulo 24
Deep Pivot Side Story — Capítulo 24
— Então…
Yeonwoo olhou de lado, espiando Seo-joon para tentar ler sua expressão, antes de abrir a boca, hesitante.
— Posso comprar Churu?
— ……
— Quero andar com eles por aí e dar para os gatos que eu encontrar.
Seo-joon levou um bom tempo para recuperar a voz. Realmente não esperava aquela resposta. O jeito cauteloso como Yeonwoo perguntou fazia aquilo parecer um sonho impossível, e Seo-joon se pegou assentindo com a mesma seriedade.
— …Claro. Pode andar com uns cem, se quiser. Mesmo que você quisesse montar pontos de alimentação com Churu pelo país inteiro, eu não te impediria.
— Hmm, então…
Dessa vez, a pausa durou um pouco mais. Parecia que ele estava tentando pensar em algo maior ou mais difícil de pedir, então Seo-joon esperou pacientemente, sem pressioná-lo. Se Yeonwoo pedisse um tênis edição limitada de alguma marca, ele compraria. Se pedisse o celular mais moderno, Seo-joon também estava pronto para isso.
Mas os desejos do Cha Yeonwoo de dezoito anos não seguiram exatamente a direção que Seo-joon tinha previsto.
— …Posso comprar sorvete na loja de conveniência todo dia?
— ……
Mais uma vez desconcertado por aquele sonho inesperadamente grandioso, Seo-joon perdeu o compasso antes de, por fim, assentir num silêncio atordoado.
— Se você quisesse comprar a loja de conveniência inteira, eu ainda diria que sim.
— Não precisa tanto…
— Só quer dizer que você pode ter tudo o que quiser, Yeonwoo.
Yeonwoo virou levemente a cabeça, e um rubor rosado surgiu em sua bochecha arredondada. Seguiu-se um longo silêncio. Então, chegando um pouquinho mais perto de Seo-joon, ainda evitando seus olhos, Yeonwoo falou com cuidado.
— Bom, tem uma coisa que eu quero muito fazer… com você, Tenente…
— Pode falar. Quando se trata de você, eu tenho a mente totalmente aberta, Yeonwoo.
Feito um gênio da lâmpada, Seo-joon assentiu sem hesitar. Que coisa fofa ele ia pedir dessa vez? Se dissesse que queria ir a um parque de diversões ou a um restaurante familiar, Seo-joon poderia levá-lo naquele mesmo instante.
Finalmente, Yeonwoo ergueu os olhos e o encarou diretamente. Os olhares se encontraram a poucos centímetros de distância. Foi só então que Seo-joon percebeu que eles tinham chegado perto demais sem que ele sequer notasse.
— ……
O clima entre os dois ficou tenso de repente. Seo-joon se inclinou um pouco para trás. O rosto de Yeonwoo se aproximava, de olhos bem fechados, com uma intenção inconfundível.
Os narizes se tocaram, a respiração quente passou pelos lábios — bem no instante em que as bocas estavam prestes a se encontrar…
— ……
Tap. Seo-joon se afastou e cobriu a boca de Yeonwoo com a mão.
— Nada dessa gracinha. Só toma o seu remédio, Yeonwoo.
Por cima da mão, Seo-joon via os olhos de Yeonwoo piscando, cheios de uma decepção inocente.
— Só quando você recuperar a memória. De jeito nenhum antes disso.
Seo-joon se levantou. Estava ocupado arrumando as coisas e seguindo para o banheiro quando ouviu um sonzinho atrás de si.
— …Tsc.
É justo nesse tipo de momento que um beijo traz as memórias de volta… Você nem sabe de nada… Seo-joon o ouviu resmungando às suas costas enquanto fechava a porta do banheiro e cerrava o maxilar, se recriminando.
Aquele rosto se aproximando de olhos fechados — ele quase o beijou ali mesmo, só porque era adorável demais. Devia tê-lo impedido antes. Não — nem devia ter deixado o clima chegar àquele ponto, para começo de conversa.
…Meu Deus, Ji Seo-joon, como você pode ter tão pouco autocontrole?
Seo-joon, que acordou antes de Yeonwoo, preparou o café da manhã. Era o quarto dia seguido em que o dorminhoco de sempre acordava cedo. Não tinha jeito — precisava alimentar Yeonwoo na hora certa para que ele tomasse os remédios.
Antes, tinha queimado os ovos mexidos todas as vezes, mas agora já estava acostumado o bastante para que saíssem bons. Enquanto passava os ovos prontos para um prato, inclinava a cabeça de um lado para o outro.
Como vinha dormindo mal no quarto de hóspedes, deixando o quarto de casal para Cha Yeonwoo, estava com o corpo todo dolorido. Yeonwoo parecia querer, em segredo, que dormissem juntos, mas Seo-joon não queria se deixar levar para nenhuma situação lamentável.
Não era que ele não confiasse em Cha Yeonwoo — era que não confiava em si mesmo. Não queria cruzar nenhum limite, ainda mais com alguém cuja pior transgressão tinha sido um beijo.
Reprimindo os pensamentos inquietos, Seo-joon ergueu a voz na direção do quarto.
— Yeonwoo, hora de levantar e comer. Você precisa comer agora para tomar os remédios no horário.
A luz do sol entrava no quarto silencioso.
— ……
Banhada por aquela luz, a figura sentada em silêncio na beirada da cama permaneceu imóvel por um longo tempo. Tlim, tlec. À medida que os sons agitados vindos de fora se aproximavam, a figura finalmente se mexeu, tirando um anel da mão esquerda.
Seo-joon, agora colocando os ovos mexidos no prato, acrescentou torradas que tinham acabado de sair da torradeira. Suas habilidades na cozinha eram limitadas, então as opções de cardápio eram poucas.
Talvez devesse finalmente procurar algumas receitas. Realmente devia ter assistido àqueles vídeos de culinária com Cha Yeonwoo, quando ele gostava tanto deles.
Nesse momento, sentiu alguém atrás de si.
— Acordou? Pode sentar. Já está tudo pronto.
— …Parece que hoje você não queimou os ovos, Mestre.
— Claro que não. Na verdade, eu cozinho muito bem. Só cometi alguns erros nos últimos dias—
Seo-joon se virou no meio da frase. Cha Yeonwoo estava ao lado da mesa, olhando para ele em silêncio.
— ……
Tap. Seo-joon pousou o prato que tinha na mão, e seus olhos desceram até a mão de Yeonwoo — a mão direita, onde ele usava o anel.
— …Yeonwoo.
Seo-joon soube por instinto. O homem diante dele…
Cha Yeonwoo estava de volta.
Finalmente, o Cha Yeonwoo de vinte e um anos tinha voltado.
Seo-joon correu e o abraçou. Yeonwoo o abraçou com a mesma força, quase o sufocando, e lhe deu um beijo nos lábios.
— Dormiu bem, Tenente?
— Agora há pouco você me chamou de Mestre.
— Não chamei, não.
Yeonwoo, que em resposta teve os lábios mordidos com força, soltou uma risada. O rosto ainda era jovem, mas já não era de menino. O olhar límpido era muito mais profundo e firme — os olhos do Cha Yeonwoo de vinte e um anos.
Seo-joon, tomado pela emoção, continuava chamando o nome dele, com a voz embargada. Yeonwoo… Yeonwoo…
— Senti sua falta.
— Eu também.
Yeonwoo deu um leve sorriso e franziu a testa enquanto fazia Seo-joon se sentar à mesa com delicadeza. Parecia que a enxurrada repentina de lembranças o estava deixando um pouco tonto.
Seo-joon, segurando as bochechas de Yeonwoo, as cobriu de beijos. Minha cabeça está doendo muito agora, Tenente. Vamos comer primeiro e depois ir ao ambulatório. Eles trocavam essas palavras entre os lábios.
— Mas, Tenente, você foi muito malvado.
— O que eu fiz?
— Você não me deu nem um beijo. Eu fiquei superchateado.
— Mais um dia e eu teria virado um canalha que dorme com menor de idade.
Até parece… Yeonwoo fez beicinho e afundou o rosto no peito dele. Seo-joon, abraçando aquelas costas quentes e familiares, finalmente sentiu o alívio que tanto desejava.
Enfim parecia que ele tinha voltado por completo ao seu mundo. O mundo de Cha Yeonwoo e Ji Seo-joon. O nosso mundo, o nosso universo.
No caminho de volta do Centro, depois de receber da equipe médica a confirmação de que Yeonwoo tinha se recuperado totalmente, os dois tiveram um pequeno cabo de guerra antes de Seo-joon acabar ficando com o volante.
— Yeonwoo, nem pense em dirigir sozinho de novo.
— E como eu não vou dirigir? Se você for a algum lugar, eu tenho que ir te buscar.
Aquela expressão fofa e meio teimosa lembrou Seo-joon do Cha Yeonwoo de dezoito anos. Uma pontada repentina de ternura atingiu seu peito.
“Eu devia ser muito feliz.”
— …Eu devia ter sido mais gentil com você.
— Hã?
— Quer dizer, com você de dezoito anos. Me sinto péssimo pensando no quanto ele estava numa situação de dar pena.
Yeonwoo virou a cabeça para ele, perplexo.
— …Aquele ainda era eu, Tenente.
— Eu sei.
— É por isso que eu disse que fiquei chateado.
— Certo.
— …Fala sério.
Yeonwoo se virou totalmente para ele e soltou uma risada perplexa.
— Você devia sentir pena de mim, não dele.
— E o que foi que eu disse?
Seo-joon afivelou o cinto de segurança e lhe deu um beijo rápido. Tenente, você é muito estranho… murmurou Yeonwoo ao lado dele, e Seo-joon riu baixinho.
Nos últimos quinze dias sem Cha Yeonwoo, Seo-joon tinha sentido o quanto seu mundo ficara pequeno e vazio. Sem Yeonwoo, a vida dele era uma poça rasa e estreita. Só com Cha Yeonwoo ela finalmente se tornava um universo de verdade, completo.
Ele tinha aprendido que o café da manhã deixa o dia mais longo. Descobriu o encanto de cafés de sobremesas que jamais teria visitado sozinho. Percebeu que alugar cabanas de madeira — lugares que jamais teria considerado — era, na verdade, bem legal. Passou a esperar ansioso pelos lançamentos de filmes só porque faziam parte de uma série que os dois assistiam juntos.
Foi só com a ausência de Yeonwoo que Seo-joon entendeu de verdade o quanto o mundo em que vivia tinha se expandido aos poucos por causa dele.
— Você é uma pessoa muito forte, Yeonwoo.
— …Por que isso agora, do nada?
Yeonwoo olhou para ele, confuso, mas Seo-joon apenas sorriu, sem explicar nada.
— Espera… é o seu jeito de dizer que me ama?
Nem precisava abrir a boca: o parceiro dele sempre acabava dizendo alguma coisa fofa de qualquer jeito.
— FIM DA SIDE STORY 01