Capítulo 20
Deep Pivot Side Story — Capítulo 20
— Então… a-a gente, hum, d-dá as mãos… e b…
Seo-joon cerrou os dentes, engolindo a risada que borbulhava. Ficou em silêncio de propósito, esperando. Yeonwoo, com os lábios travados no “b”, finalmente conseguiu forçar o resto num sussurro quase inaudível.
— A gente… também se b-beija…?
Só de dizer isso, o rosto inteiro dele ficou vermelho, como se fosse explodir. Uma mão grande subiu devagar para cobrir o rosto — mas, claro, não escondeu o vermelho intenso das orelhas.
Seo-joon estalou a língua diante daquele Yeonwoo adolescente e inocente. Não é à toa que eu vivo querendo mexer com ele.
— A gente não só se beija. A gente faz muito mais.
Yeonwoo baixou a mão devagar, encarando-o com uma incredulidade atordoada.
— …
Alguns segundos de silêncio se passaram.
Seo-joon encarou aqueles olhos azuis arregalados e trêmulos e disse, sem rodeios:
— Somos adultos. O que você acha que adultos que namoram fazem?
Ploc. Pinga.
Foi aí que aconteceu. Gotas de um vermelho vivo começaram a cair na camisola branca de hospital de Yeonwoo.
Seo-joon prendeu a respiração.
Um instante depois, Yeonwoo, piscando confuso, levou a mão ao nariz e à boca.
O sangue escorria por entre os dedos longos.
Agindo rápido, Seo-joon puxou lenços de papel da mesinha e os apertou contra o nariz de Yeonwoo.
Com a voz abafada e fanhosa, Yeonwoo despejou uma enxurrada frenética de desculpas.
— E-e-eu não sei o que está acontecendo… Desculpa, isso não costuma acontecer. Juro que não. É a primeira vez. Eu devo estar doente, Tenente… Acho que estou doente…
— Tá bom, tá bom. Para de falar.
Que déjà vu.
Inacreditável.
Mesmo sem memória, Cha Yeonwoo continuava sendo Cha Yeonwoo.
…Certo. Agora ele realmente precisava parar de mexer com ele.
— O que diabos você fez com aquele garoto inocente?!
Hee-min estava praticamente explodindo, andando de um lado para o outro, furioso. Seo-joon esfregou a testa, tentando não fazer careta.
— Hein? Ji Seo-joon, seja sincero comigo. Eu ainda me lembro do dia em que o Yeonwoo fez o primeiro teste — ele teve sangramento no nariz, lembra? O que foi que você acabou de fazer com ele?
— …Nada.
Era verdade — ele não tinha nem encostado um dedo nele. Quando Yeonwoo tinha vinte anos, um único beijo tinha bastado para fazer o nariz dele sangrar. Mas agora, aos dezoito, parecia que só pensar no assunto já era suficiente.
— Eu não achava que você fosse desse tipo, mas, nossa… pelo visto você é um completo sem-vergonha, hein?
Seo-joon soltou um longo suspiro e apertou a palma da mão contra a testa.
— Eu realmente não fiz nada. …A gente só conversou. Só isso.
— Vocês conversaram e ele começou a sangrar?!
Exatamente. Foi só isso que fizeram. Só… conversaram.
— O Yeonwoo precisa de descanso, não de mais agitação. Eu entendo que você esteja frustrado, Seo-joon, mas não dá para esperar até a memória dele voltar? Seu autocontrole é tão ruim assim?
Hee-min quase estremeceu ao encará-lo com um nojo indisfarçado.
Era óbvio que ele tinha entendido tudo errado e, mesmo assim, Seo-joon não conseguiu se defender.
Tudo bem. A culpa é toda minha.
Ele tinha sido impaciente demais, inquieto demais. Tinha pressionado Yeonwoo demais, tudo porque não suportava ser esquecido.
— …Vou tomar mais cuidado daqui para a frente.
— Não é para tomar cuidado. É para não fazer nada! O Yeonwoo não é mais só o seu Yeonwoo. Ele é de todo mundo. Entendeu?
Então Hee-min emendou um sermão completo sobre como Cha Yeonwoo tinha cuidado de Seo-joon com total dedicação durante todos os meses em que Seo-joon não conseguia nem comer sozinho nem falar direito.
— Cresça, Ji Seo-joon. Sério.
Seo-joon assentiu em silêncio, levando uma bela bronca e se sentindo um criminoso.
Quando voltou para o quarto, Yeonwoo dormia profundamente sob o efeito de um antitérmico.
Haa…
Seo-joon suspirou fundo e se sentou ao lado da cama.
O rosto pálido do namorado, dormindo em paz, alheio ao mundo, apertou seu coração. Ele afastou com delicadeza os cabelos de Yeonwoo e segurou a mão dele entre as suas.
Tinha saído só por um instante, para resolver a papelada do seguro relacionada ao desaparecimento de Cha Kyungsoo. Não queria deixar Yeonwoo sozinho, mas não havia como evitar — e, justamente nesse meio-tempo, aquilo tinha acontecido. A culpa era esmagadora.
Por que eu o deixei ir ao mercado sozinho…? Eu nunca deveria tê-lo deixado dirigir. Deveria tê-lo mantido em casa — nunca ter deixado que ele tirasse carteira, para começo de conversa.
Toda a preocupação e o arrependimento dele se transformaram em pensamentos extremos.
— …Me desculpa, Yeonwoo.
A culpa é minha. Mesmo que suas memórias voltem devagar, só… fique bem. É só isso que eu peço.
Essa sempre tinha sido a única coisa que Seo-joon realmente quisera dele.
E, sinceramente, isso nunca tinha mudado.
— Tenente…
A mão aninhada em silêncio na dele se mexeu levemente. Yeonwoo, com os olhos entreabertos numa névoa de sono, murmurou, sonolento:
— Tenente…
Então, com um sorriso fraco e sonolento, voltou a mergulhar num sono tranquilo.
Naquele instante fugaz, pareceu que Yeonwoo tinha voltado a se lembrar dele — e o coração de Seo-joon despencou com um baque surdo.
Com os olhos presos àquelas pálpebras que se fechavam devagar, Seo-joon não conseguiu desviar o olhar dele nem por um segundo.
A sensação de alguém tocando de leve seu ombro despertou Seo-joon. Na escuridão, seus olhos encontraram Yeonwoo. Pelas cortinas entreabertas, dava para ver que a noite já tinha caído. Ele devia ter cochilado.
— …Yeonwoo, você acordou? Desculpa… acho que eu cochilei.
Ele se endireitou, ainda grogue, e arrumou depressa a cadeira.
— Vou sair para você dormir à vontade. Te vejo de manhã, Yeonwoo.
— …Tenente.
Seo-joon parou quando uma mão agarrou a manga dele — não a mão dele, mas a manga. Aos vinte ou aos dezoito, o jeito como Cha Yeonwoo estendia a mão para os outros não tinha mudado nada.
— Eu dormi demais mais cedo… Acho que não vou conseguir dormir de novo.
— …
— Se não tiver problema para você, a gente pode conversar mais um pouco? …Quero saber mais sobre você.
À luz da lua que entrava pela janela, os olhos dele brilhavam suavemente enquanto olhavam para Seo-joon. Com o soro ainda pingando devagar ao lado dele, Yeonwoo parecia sonolento — provavelmente grogue por causa dos remédios, apesar do que dizia.
No fim, Seo-joon voltou a se sentar ao lado dele.
O que ele poderia dizer a um Cha Yeonwoo de dezoito anos?
Ele não conhecia os detalhes da vida que Yeonwoo levava naquela época.
— …No verão em que você fez vinte anos.
Mas o que Seo-joon sabia era que a vida de Yeonwoo nunca tinha sido fácil.
— Você foi avaliado como Guia… e formou dupla comigo.
Os olhos claros de Yeonwoo se arregalaram de curiosidade, cintilando na penumbra.
Seo-joon escolhia as palavras com cuidado. Afinal, para o Yeonwoo de dezoito anos — que só conhecia a escola, os bicos e as visitas ao irmão no hospital —, tudo aquilo era novo, uma história de um futuro que ele jamais tinha imaginado.
— Você era tão bom no seu trabalho que o Diretor Kang transferiu o tratamento do seu irmão para dentro do próprio Centro…
Ao saber que Jeongwoo tinha conseguido receber um tratamento adequado no Centro, Yeonwoo se iluminou de verdade. Os olhos dele se curvaram de alegria, e Seo-joon se pegou sorrindo também.
Ele explicou tudo da forma mais simples e calma possível: como os dois tinham se tornado namorados, o quanto ele gostava de Yeonwoo de verdade.
Resumido assim, tudo entre eles de repente parecia uma história de amor comum, igual a mil outras.
— …Mas eu cometi um erro enorme. Achei que estava fazendo o melhor, mas não era o que você queria.
Contou tudo a ele: que tinha quebrado a confiança de Yeonwoo, que Yeonwoo tinha arriscado a própria vida para salvar alguém tão egoísta quanto ele.
— Eu prometi que ia te fazer feliz… Me desculpa. Eu te deixei sozinho e acabei causando tudo isso de novo.
Seo-joon o olhava com uma expressão serena, contendo a onda de emoção que crescia por dentro.
Revisitando o passado dos dois daquele jeito, sentiu uma onda de culpa que tinha enterrado havia muito tempo sob o conforto do amor que compartilhavam.
— Eu só estou vivo por sua causa. Você me fez quem eu sou — tudo, da cabeça aos pés… tudo começou com você.
Yeonwoo olhou atentamente nos olhos de Seo-joon.
Seo-joon, sempre melhor do que Yeonwoo em esconder os próprios sentimentos, sorriu depressa.
Afinal, tinha sido justamente essa habilidade de enganar tão bem que, um dia, o levara a machucar Yeonwoo.
— …Você deve ter sido uma pessoa muito boa — disse Yeonwoo baixinho.
A mão dele foi se aproximando da de Seo-joon e enganchou de leve os dedos mindinhos.
— Eu achei que você seria. Eu sabia que você seria uma boa pessoa…
Na verdade, eu te via bastante, sabia? Todo dia…
Eu sempre achei que você parecia uma pessoa muito gentil… Achava mesmo…
A voz dele flutuava numa névoa suave e onírica — como alguém que fala dormindo.
Seo-joon não conseguiu retribuir o gesto. Abaixou a cabeça.
Queria dizer: Eu não sou uma pessoa tão boa assim. A pessoa boa… era você.
Mas a garganta se fechou, e nenhuma palavra saiu.
A voz de Yeonwoo, baixa e límpida, continuou.
— Estou muito feliz por ter te encontrado de novo… agora que estou mais velho.
— …
— Quero me lembrar de você logo também.
O mindinho que ele segurava escorregou devagar.
O soro ao lado dele continuava pingando lentamente.
Sem conseguir resistir mais aos remédios, Yeonwoo foi voltando aos poucos a dormir.
— …Boa noite, Yeonwoo.
Seo-joon, sem coragem de tocá-lo, apenas puxou o cobertor em silêncio para cobri-lo.