Capítulo 19
Deep Pivot Side Story — Capítulo 19
Parecia que Hee-min só tinha explicado a Yeonwoo as partes que considerava importantes. Muito provavelmente, Yeonwoo não tinha entendido nada.
Seo-joon, vendo os olhos de Yeonwoo escaparem para o lado e a voz dele ficar cada vez mais baixa, interrompeu de repente.
— Yeonwoo, você sabe quem eu sou.
Ofego…
Uma inspiração curtinha. Yeonwoo virou a cabeça para o outro lado, e dava para ver sua garganta se mover quando ele engoliu em seco.
— N-não. E-eu não… Estou te vendo pela primeira vez.
O suspiro que escapou dos lábios de Seo-joon era uma tempestade de emoções. O alívio o inundou — e, logo atrás, veio a irritação.
Como ele podia fingir que não o conhecia? Por quê?
— Yeonwoo, quem foi que te tirou daquele orfanato?
Seo-joon lançou a pergunta para o rosto virado de Yeonwoo.
— Fui eu. Você esqueceu mesmo o seu salvador?
Seo-joon entendeu a situação mais rápido do que qualquer um.
Yeonwoo tinha perdido a memória? Então bastava arrancar essa memória de volta à força, custasse o que custasse.
— Não finja que não me conhece. Agora eu me lembro. Da primeira vez que a gente se viu… quando você tinha treze anos.
A cabeça de Yeonwoo se virou devagar para Seo-joon, e o choque que tomou conta daqueles olhos arregalados foi exatamente o que Seo-joon esperava.
— C-c-como… Como você sabia?
Observando aquele rosto que parecia prestes a parar de respirar a qualquer momento, Seo-joon disse friamente:
— Você me perseguiu, Yeonwoo. Perder a memória não quer dizer que nada disso aconteceu.
— E-eu…? Eu fiz isso…?
Uma expressão de total devastação tomou o rosto de Yeonwoo, dez vezes mais intensa do que antes. As mãos trêmulas cobriram a boca, os olhos correndo para todo lado. As palavras que vieram em seguida pareciam mais um gemido do que uma frase.
— Eu realmente… acabei fazendo uma coisa dessas…
Seo-joon quase caiu na gargalhada, e só por pouco conseguiu se segurar. Como assim, “acabou fazendo” uma coisa dessas?
— M-me desculpa… Eu nunca mais vou fazer isso. Não sei por que eu fiz isso, ou talvez eu saiba, mas mesmo assim… não sei o que dizer. Me desculpa, de verdade… Me desculpa…
Mesmo com o corpo debilitado, Yeonwoo se endireitou para se sentar direito e fez várias reverências, pedindo desculpas. Seo-joon colocou com cuidado um travesseiro atrás das costas dele e desfez depressa o mal-entendido.
— Eu estava brincando. Você nunca me perseguiu, Yeonwoo.
— …O quê?
Yeonwoo piscou para ele, atordoado. Seo-joon mordeu o lábio com força. Sabia que não devia fazer aquilo, mas, sempre que via aqueles olhos gentis e sem noção, não conseguia resistir à vontade de mexer com ele.
— Na verdade… quem te perseguiu fui eu, Yeonwoo.
— …
Dessa vez, Yeonwoo não disse nada. Piscou algumas vezes e, em silêncio, beliscou as costas da própria mão. Seo-joon observava, achando graça. Fofo. Com esses olhinhos brilhando, tão fofo.
Não era exatamente uma situação para ficar enternecido, mas Seo-joon não conseguia deixar de pensar:
Se Yeonwoo estava mesmo preso na cabeça de um aluno do segundo ano do ensino médio… não seria essa uma oportunidade de ouro para provocá-lo sem parar?
Depois de um longo silêncio, Yeonwoo finalmente falou, com a voz baixa e contida.
— Você… me perseguiu?
— Aham.
— …P-por que você faria isso?
Seo-joon usava cada gota de paciência para não rir. Com isso, o rosto dele ficou mais frio e sereno do que nunca.
— Porque você era bonito demais. Eu fiquei obcecado. Corri atrás de você feito um louco. Te enchi de presentes, joguei dinheiro em cima de você, implorei para você namorar comigo.
— …Mas eu tenho dezoito anos.
— E agora você tem vinte e um. Não se lembra? No último ano, eu ia à sua escola todo santo dia. Bem na frente do Colégio Myeonghyeon — lembra como o trânsito era horrível lá?
Seo-joon não tinha nenhum problema em fazer o papel de um pervertido descarado que perseguia menores de idade, se isso servisse para mexer com Yeonwoo.
Os olhos azul-claros de Yeonwoo tremiam descontroladamente, indo e voltando entre Seo-joon e o nada.
Então ele virou a cabeça de uma vez. Seo-joon viu quando ele beliscou escondido as costas da mão outra vez. Quando Yeonwoo finalmente se virou para ele, disse:
— E-então… agora também? Até agora, você…
— Até agora, a gente namora. Eu e você.
Atropelando a tentativa hesitante de Yeonwoo de entender a situação, Seo-joon olhou nos olhos dele com a maior seriedade.
— N-namora… — murmurou Yeonwoo, sem expressão, repetindo a palavra, e então congelou.
— Até sua memória voltar, sou eu que vou cuidar de você. Todo mundo no Centro sabe que somos um casal.
— …
Seo-joon mexeu o mingau, pegou uma colherada e a estendeu diante de Yeonwoo. Incentivou-o a abrir a boca com um “Aaah” cheio de expectativa, mas Yeonwoo fechou os lábios e virou a cabeça levemente para o lado.
— …Obrigado, mas eu consigo comer sozinho.
— Abre a boca.
Seo-joon repetiu com calma, ainda com a colher estendida, ignorando a vozinha relutante de Yeonwoo. No fim, Yeonwoo, a contragosto, entreabriu os lábios trêmulos e aceitou a colherada.
— Você fica bonito até comendo.
Cof!
Yeonwoo tossiu com tanta força que o mingau voou. Seo-joon limpou tudo com a maior naturalidade e depois secou os cantos da boca de Yeonwoo.
— E continua bonito até babando desse jeito.
— …
— É por isso que eu vivia correndo atrás de você, Yeonwoo. Quando sua memória voltar, você vai ver o quanto eu gostava de você.
Sem se abalar com o jeito como Yeonwoo baixava a cabeça e se remexia, aflito, Seo-joon lhe deu pacientemente colherada após colherada até esvaziar a tigela.
Yeonwoo foi ficando cada vez mais calado. Até quando ele foi escovar os dentes, Seo-joon o seguiu como uma sombra. Num dado momento, chegou a tentar segui-lo até o banheiro, mas foi recebido com um “Me desculpa, mas eu consigo me lavar sozinho!” — pouco antes de a porta se fechar na cara dele.
…Uma experiência que Seo-joon raramente, ou talvez nunca, tinha vivido.
Mesmo assim, cuidou de Yeonwoo com total dedicação, por mais desconfortável que o deixasse. Conseguiu até enfiar o termômetro no ouvido de Yeonwoo, apesar da timidez dele, mediu sua temperatura e deu tapinhas delicados em seu peito para convencê-lo a se deitar.
— Hum… Eu tenho uma pergunta.
Yeonwoo, deitado na cama com as mãos cuidadosamente cruzadas, exatamente como Seo-joon as tinha arrumado, se remexeu um pouco enquanto falava.
— Como eu devo… te chamar?
— …
Seo-joon o olhou em silêncio.
— Jagiya.
Disse isso sem mudar a expressão, sem o menor sinal de hesitação.
— Você me chamava de jagiya.
— …O quê?
Yeonwoo piscou, atônito, mas Seo-joon não deu trégua.
— A gente namora — de que outro jeito você me chamaria?
Ele observava Yeonwoo com atenção, curioso. Será que Cha Yeonwoo chegaria mesmo a chamá-lo assim? Estava morrendo de vontade de descobrir.
— O-os outros… eu ouvi eles te chamarem de “Tenente Ji”… — gaguejou Yeonwoo.
— Por enquanto, vou te chamar só de Tenente Ji Seo-joon. Só até… minha memória voltar.
Como era de se esperar: mesmo com amnésia, Cha Yeonwoo continuava sendo Cha Yeonwoo.
E, de algum modo, esse pensamento trouxe certo alívio a Seo-joon. Ele assentiu em silêncio, engolindo um suspiro.
— Tudo bem. Me chame do jeito que você se sentir mais à vontade.
— Hum… Tenente… eu queria dormir agora.
— Pode dormir.
— E-eu… me desculpa mesmo, mas… eu queria ficar sozinho.
Era um apelo silencioso — que pelo menos o deixassem descansar em paz.
Seo-joon queria muito envolvê-lo num abraço e fazê-lo dormir em seus braços, mas nem ele era descarado a ponto de ficar grudado num namorado machucado.
Talvez seja hora de parar de provocá-lo.
Ele se levantou e afastou com delicadeza o cabelo de Yeonwoo.
— Tudo bem, Yeonwoo. Eu vou sair. Durma bem.
Aqueles olhos grandes e claros — tingidos de medo — o fitavam, ansiosos. Seo-joon engoliu a dor no peito e lhe deu um sorriso suave.
— Espero que sua memória volte logo.
— …Sim.
De olhos baixos, Yeonwoo respondeu em voz baixa.
— …Desculpa.
Infelizmente, a memória de Cha Yeonwoo também não voltou no dia seguinte.
Seo-joon suspirou olhando para Yeonwoo, que estava ainda mais calado do que na véspera e evitava o olhar dele o tempo todo.
O que eu posso fazer para ajudá-lo a lembrar?
E se… ele nunca mais recuperar a memória?
Mas as preocupações não duraram muito. Mesmo com amnésia, Yeonwoo tinha um jeito de, sem querer, cutucar o lado travesso e sádico de Seo-joon.
— Hum… Tenente Ji Seo-joon…
Depois de passar a manhã toda calado, comendo quietinho o mingau que Seo-joon lhe dava e engolindo os remédios que ele lhe entregava, Yeonwoo de repente o chamou.
Seo-joon, que tinha acabado de fechar as cortinas para proteger o quarto do sol forte da manhã, virou-se para olhá-lo.
— Você disse… que a gente namora.
— Disse.
— Então, hum…
As pontas das orelhas de Yeonwoo foram ficando vermelhas devagar. Seo-joon se aproximou e se sentou ao lado dele, incentivando-o a falar à vontade.
Virando o rosto, Yeonwoo evitou os olhos dele e começou, hesitante.