Capítulo 09
Deep Pivot Side Story — Capítulo 9
…Se Jeongwoo receber alta e vier para casa, que quarto eu devo dar a ele?
O segundo andar seria difícil para ele subir e descer, então teria que ser um cômodo no térreo. Um quarto espaçoso, que pegasse bastante sol, com o papel de parede trocado para a cor favorita dele. Iríamos juntos escolher os móveis.
Seo-joon, que olhava distraidamente o quarto de hóspedes, um pouco afastado da cozinha, estava se animando sozinho, organizando mentalmente coisas como o beliche e a escrivaninha dos sonhos de Jeongwoo. Nada estava confirmado ainda, mas, em seu coração, Jeongwoo já morava naquela casa — crescendo saudável, correndo por todo lado e cheio de vida, até um futuro distante.
E quando ele crescesse um pouco e começasse a defender a própria privacidade como se fosse questão de vida ou morte, poderiam mudar o quarto dele para o segundo andar. Os amigos dele provavelmente viriam visitá-lo com frequência também, então talvez não fosse má ideia montar um home theater em um dos quartos vagos.
Seria bom começar a pesquisar as escolas da região desde já, para encontrar a mais próxima… Crash! Um baque alto ecoou do quarto, como se algo tivesse caído.
— Tenente…!
Por reflexo, Seo-joon virou a cabeça na direção da sombra que saía às pressas do quarto. Yeonwoo, que em poucos passos rápidos chegou bem perto dele, agarrou seus ombros com força. Ele acordou de novo. Pego de surpresa, Seo-joon abriu a boca, sem jeito.
— Yeonwoo, você acordou—
— Aonde você estava indo sem dizer nada?!
Yeonwoo gritou de repente. Huff… Talvez tenha se assustado com o volume da própria voz — prendeu a respiração e fechou os lábios depressa.
— ……
Um silêncio repentino se instalou. Seo-joon pegou a mão dele com delicadeza e falou com toda a calma que conseguiu.
— …Só vim beber água. Para onde mais eu iria, dentro desta casa?
Os olhos de Yeonwoo vacilaram, confusos, ao baixarem para o copo na mão de Seo-joon. A mão que o segurava tremia. Ele abaixou a cabeça, soltou um longo suspiro e, depois de alguns segundos, voltou a olhar para cima.
— Você me assustou. Do nada, sem dizer nada… N-não faça isso. Eu fiquei com tanto medo. Por favor, me acorde sempre que for a algum lugar… sempre…
As palavras saíam sem ordem nenhuma. Mesmo na escuridão, dava para ver os olhos marejados e brilhantes tremendo de aflição. Seo-joon estendeu a mão e enxugou o canto do olho dele. Os lábios de Yeonwoo, cerrados como se ele estivesse segurando o choro, tremeram de leve.
— …Yeonwoo.
Quando Seo-joon, tendo finalmente entendido a origem daquela estranheza que vinha sentindo nos últimos tempos, estava prestes a dizer algo e pousar o copo—
— Ah.
Com um gemido curto, aquela sombra enorme desabou de repente. Alarmado, Seo-joon correu até ele.
— Ugh…
Yeonwoo, agora sentado no chão segurando o tornozelo esquerdo, soltou um gemido de dor, o rosto contorcido.
— É só uma torção leve, estou bem.
Seo-joon ouviu aquelas palavras irritantes vindas de cima. Ajoelhado diante de Yeonwoo, pressionava uma bolsa de gelo contra o tornozelo inchado. Yeonwoo não parava de se encolher e puxar o pé, o que o deixava ainda mais irritado.
Com um suspiro silencioso, Seo-joon segurou com firmeza o pé que tentava escapar.
— Ah, ah… Dói, dói, Tenente…
— E você ainda diz que está bem desse jeito?
Tsc. Seo-joon estalou a língua, irritado, enquanto examinava o tornozelo de Yeonwoo. Yeonwoo, agora sentado na cama e olhando para ele de cima, apertou os lábios, sem saber o que dizer.
Pela primeira vez desde que tinham voltado para casa, um silêncio frio se instalou entre os dois.
— …Você sabe que tem um problema aqui, não sabe, Yeonwoo?
— Depois que eu dormir, vai melhorar.
— Eu não estava falando do seu tornozelo.
Seo-joon, que estava enfaixando o tornozelo, levantou a cabeça para olhá-lo.
— Seria mais fácil para você se eu simplesmente me amarrasse na cama?
— ……
— Se é isso que você quer, eu faço.
Os lábios de Yeonwoo continuaram firmemente fechados, sem nenhum sinal de que se abririam, dissesse Seo-joon o que dissesse. Depois de uma longa pausa, ele finalmente murmurou, emburrado:
— …Você não precisa fazer isso. Eu aguento.
— Aguenta o quê?
— ……
— Yeonwoo, você vem aguentando todo esse desconforto sem me dizer nada?
Por mais que tentasse, Seo-joon não conseguia manter a voz suave. Terminou de dar o nó na atadura, parou um instante para se acalmar e sentou-se ao lado de Yeonwoo.
— Vem cá.
Ele abriu os braços. Yeonwoo olhou para ele e, de repente, virou o rosto.
— Anda, vem logo e me deixa te abraçar. Você acabou com os meus nervos. Meu coração está tão pequenininho agora que eu provavelmente nunca mais vou conseguir beber.
— ……
— Se você não vier até mim, eu vou até você. E, se eu for, não vai acabar só num abraço. Tudo bem para você?
Um segundo, dois, três… O corpo de Yeonwoo, que até então estava imóvel, inclinou-se devagar na direção dele. Ainda de braços abertos, Seo-joon esperou pacientemente e então envolveu com força o corpo enorme que finalmente se deixou cair em seu abraço.
Por um tempo, ele afagou as costas de Yeonwoo e passou os dedos pelos cabelos dele, de novo e de novo. Enquanto penteava com os dedos os fios macios e cacheados, Seo-joon falou num tom muito mais gentil.
— No hospital você não era tão sensível assim.
— No Centro, tinha… muita gente que iria atrás de você e te traria de volta para mim, se você tentasse fugir.
Ele disse “fugir”, e não “desaparecer”.
— Mas aqui em casa… se você for embora sem dizer nada, eu não tenho como te encontrar sozinho.
Inacreditável. Seo-joon ergueu o queixo de Yeonwoo para fazê-lo olhar em seus olhos e perguntou, meio pasmo:
— Você acha mesmo que eu iria embora? Que te deixaria para trás?
Yeonwoo o encarou com aqueles olhos redondos e gentis.
— …Você já fez isso uma vez, não fez?
Seo-joon ficou sem palavras. Yeonwoo baixou os olhos e encostou a cabeça outra vez no peito dele.
Você é mesmo rancoroso, Yeonwoo.
Seo-joon soltou uma risada curta, quase um sopro. Mas não havia o menor traço de diversão em seu rosto. De testa franzida, ele abriu a boca, consternado.
— Yeonwoo… você não confia em mim?
Desconfiança entre namorados é um problema sério. Até Seo-joon, sem nenhuma experiência amorosa, sabia disso. A ideia de que Cha Yeonwoo talvez não confiasse nele o fez sentir que estava diante de uma crise séria.
— Eu confio em você, Tenente. Se não confiasse, em quem mais eu poderia confiar…? Mas…
E então Yeonwoo deu uma resposta que ele não esperava.
— Tirando você, eu não confio em mais nada.
Yeonwoo levantou a cabeça e encontrou o olhar de Seo-joon. Seo-joon afastou devagar o cabelo que cobria a testa dele, esperando pelo que ele diria em seguida.
— É que… existem coisas demais no mundo que a gente não consegue controlar. Se um dia acontecer alguma coisa assim de novo… eu não tenho poder para te proteger.
— ……
— Eu tenho andado tão feliz ultimamente… E talvez seja por isso que estou com tanto medo, tão ansioso. Tenho medo de que tudo desapareça enquanto eu durmo.
Você não é mais um Sem-Nome, Tenente. Se você sumir, quem vai me ajudar? Ou talvez… tudo isso seja só um sonho. E se eu acordar e você não estiver mais aqui? O que eu faria então?
— Então… se algum dia chegar um momento em que você tenha que fazer aquele tipo de escolha de novo, quero que você me leve junto.
Seo-joon deu um beijo nos olhos marejados dele e soltou um longo suspiro. Claro — por mais forte que Cha Yeonwoo fosse, era inevitável que houvesse momentos como aquele.
Eles tinham passado por algo enorme, e o que aconteceu no passado não podia simplesmente ser apagado. Aos vinte anos — uma idade em que até um relacionamento comum pode parecer demais —, Cha Yeonwoo tinha suportado fardos pesadíssimos.
Seo-joon escolheu as palavras com cuidado.
— Eu já te disse… aconteça o que acontecer, eu nunca vou te largar e vou ficar ao seu lado para sempre.
Aquela promessa — que ele faria cem vezes sem se cansar — pousou suavemente ao lado dos olhos de Yeonwoo, num beijo leve.
— Eu não disse isso só para ficar bonito, sabia?
Cha Yeonwoo. Para Ji Seo-joon, aquele nome era só outra palavra para amor.
— Naquela época, eu não te abandonei. Sei que para você isso provavelmente soa como papo furado, mas…
Ele era alguém que tinha virado de cabeça para baixo todas as definições de amor que Seo-joon conhecia.
Como um Natal que surge do nada em pleno verão. Uma pessoa que cintilava como uma árvore de dezembro — agridoce e radiante. Alguém que lhe deu uma emoção que ele jamais ousara esperar, alguém que brilhava de um jeito tão ofuscante que ele não conseguia evitar querer tomá-lo nos braços.
Se fosse possível reunir todo o amor do mundo e moldá-lo numa única forma, provavelmente ela se pareceria com Cha Yeonwoo. Era isso que Cha Yeonwoo significava para Ji Seo-joon — ele era um universo inteiro em si mesmo.
— O maior motivo para eu ter feito aquela escolha foi querer criar um mundo seguro para você. …Porque, mais do que tudo, eu queria que você fosse feliz.
— ……
— Mas agora eu entendo. Aquilo foi um erro.
Sim, o fim da catástrofe, as vidas salvas por causa disso, a paz do país — esses foram os motivos que ele deu a si mesmo, e talvez fossem verdadeiros.
Mas, no fim das contas, quem Seo-joon realmente desejou, até o último segundo… foi apenas Cha Yeonwoo.
— Prefiro morrer com você a te deixar de novo.
Agora Seo-joon entendia. A felicidade de Cha Yeonwoo não vinha de uma vida segura sem ele, e sim de uma vida com ele — mesmo que essa vida fosse um inferno.
— Você acha que conseguiria ser feliz sem mim?
— ……
— Quando eu ficar velho, não vá me jogar fora. Juro que, se você fizer isso, eu te amarro e te prendo na cama de verdade.
Yeonwoo, que ouvia em silêncio, corou com aquelas palavras. E, pelo jeito como os cantos da boca dele insistiam em se curvar para cima, era evidente que ele nem tentava disfarçar. Seo-joon o olhou, incrédulo.
— Yeonwoo, fala sério. Ficar vermelho numa hora dessas? Agora quem está parecendo pervertido é você.
— Foi você quem falou uma coisa estranha primeiro…
Seo-joon soltou uma risada perplexa. Empurrado pelo peso de Yeonwoo, acabou se deitando, e os lábios dos dois se encontraram naturalmente quando Yeonwoo se inclinou sobre ele.
Eu nunca te jogaria fora, Tenente. Eu te amo tanto… Sinto que posso morrer de tanto te amar — da cabeça aos pés, cada pedacinho de você.
Tenente, Tenente… Os sussurros suaves e murmurados ecoavam contra os lábios de Seo-joon.
Então, Seo-joon se afastou de repente, com uma expressão séria.
— Juro que acabei de ouvir você me chamar de ‘Mestre’ de novo.
Com isso, Yeonwoo caiu na gargalhada. Os lábios de Seo-joon também relaxaram enquanto ele olhava para aquele rosto radiante e voltava a provocá-lo.
— Vai, gato. É só falar.
— Não.