࿔Capítulo 14
࿔*:・゚ Capítulo 14
Naquele dia, provavelmente, o pequeno Wonwoo tinha apanhado à vontade outra vez. Não lembrava se quem batera tinha sido o primeiro hyung, o segundo ou o pai. Ah, talvez tivesse apanhado dos três. Apanhar era algo frequente, mas desta vez tinha sido especialmente difícil. Doía, ele se sentia injustiçado e queria fugir.
Saíra de casa correndo, sem plano nenhum, e não tinha um tostão no bolso. Com o rosto cheio de hematomas, baixou bem a cabeça e se enfiou pelas ruas sem gente. Como não sabia para onde ir, ficou agachado num canto de um beco deserto. E então ela apareceu. Sentou-se de uma vez ao lado de Wonwoo e, de repente, perguntou:
— Você gosta de lugares frios?
A voz era seca, mas a pergunta era tão estranha que o medo de uma desconhecida ficou de lado por um instante. Talvez ele tenha conseguido baixar a guarda porque ela não se sentou de frente para ele, e sim olhando na mesma direção. Por isso, em vez de fugir, Wonwoo a observou com cautela.
— Quando faz tanto frio que tudo congela, às vezes parece que eu sou a única coisa viva, mas não é de todo ruim. Você não sabe como é gostoso comer lámen sentado na frente do aquecedor.
Quem seria ela para dizer essas coisas? Diante de Wonwoo, intrigado, ela virou a cabeça. Só então ele viu o rosto, que estava escondido sob o capuz bem puxado. O rosto dela estava cheio de cicatrizes retorcidas. Era uma aparência que deveria assustar, mas Wonwoo não sentiu medo. Os olhos que encontraram os dele eram calorosos. Um calor que nunca tinha sentido desde que nascera.
— Quer ir comigo para o Norte?
Surpreso com a proposta repentina, ele não conseguiu dizer nada. Ela acrescentou, como quem tenta convencer:
— O Ji Geuno deve te dar comida direitinho, mas, de qualquer jeito, você não consegue comer em paz, não é?
Ao ouvir o nome do pai, Wonwoo ficou na defensiva, atrasado, e se afastou para o lado.
— A senhora… sabe quem eu sou?
— Sei que é filho do Ji Geuno.
— Se me sequestrar, meu pai não vai deixar a senhora em paz.
Ha, ela soltou uma risada curta.
— Não me importo. Não tenho medo dele. E, se fosse sequestro, eu nem estaria te perguntando se quer vir comigo. Você não sabe o trabalho que dá cuidar de uma criança.
Ela dizia que dava trabalho, mas num tom tão casual que, em vez de mágoa, ele sentiu curiosidade.
— Então por que quer me levar? Por pena?
— É. Dá um pouco de pena.
O tom continuava casual. Wonwoo franziu os olhos, mas, por outro lado, gostou de alguém perceber sua dor, mesmo que fosse por compaixão. Porque, por mais que apanhasse, naquela casa enorme como um palácio, ninguém lançava a Wonwoo um olhar de pena.
Mas não queria admitir esse sentimento. Fere seu orgulho. Foi então que ela disse algo que permitiu a Wonwoo preservar o orgulho.
— Mas o verdadeiro motivo é que acho que você pode ser útil.
— Útil… para quê?
— Preciso encontrar uma pessoa, então vivo saindo de casa. Quero que você cuide da casa. Consegue?
Cuidar da casa, ora. Wonwoo assentiu de leve.
— Para isso, você também tem que comer direito.
Uma condição estranha foi acrescentada. Não, aquilo era mesmo uma condição? Wonwoo, intrigado, respondeu “sim” por enquanto, e ela logo acrescentou mais:
— Não fique doente e faça tudo o que quiser fazer.
— …
— Não consegue?
— …Consigo. Mas as condições da senhora são estranhas.
— Estranhas por quê? É preciso ter corpo e mente saudáveis para cuidar bem da casa.
Será? Mas eram estranhas mesmo. Eram todas fáceis, e todas para o bem dele. Quando Wonwoo desconfiou, ela pensou um pouco e impôs uma restrição.
— Então não fale palavrão.
Os olhos de Wonwoo se arregalaram por um instante.
— E-eu não falo palavrão. Nunca imitei meu hyung.
— Isso, e continue não falando.
Quando Wonwoo assentiu, ela se levantou.
— Então vamos.
Ela não era muito alta, mas, naquele momento, de pé, pareceu uma gigante, como se fosse tocar o céu. O pequeno Wonwoo, de tanto sofrer violência, era um medroso calado que se encolhia com facilidade, mas, por algum motivo, naquele instante criou coragem. A outra podia ser uma traficante de pessoas, e mesmo assim ele segurou sem hesitar a mão que ela estendeu.
Só mais tarde soube que a pessoa que ela procurava tinha rancor de Ji Geuno e que, por isso, ela vigiava os arredores da casa dele. E que, por isso, tinha acabado seguindo Wonwoo quando ele saiu de casa.
Quando soube disso, não dava para dizer o quanto ficou grato por o pai ter feito tantos inimigos. Graças a isso, pôde conhecê-la. Nos primeiros meses, Wonwoo vivia tremendo de medo de que o pai e os irmãos o encontrassem e o levassem de volta. Toda vez, ela dizia:
— Quando o medo for tão grande que te faz tremer, vamos parti-lo em pedaços. É que talvez, em algum momento do futuro, seu pai te encontre, certo? Esqueça esse futuro e pense só no dia de hoje. Acha que vão te levar hoje? Não, né? O sol já se pôs, você acha que eles vêm?
— Bom, mesmo que venham, você não conseguiria escapar? Você já se acostumou com este lugar, conhece bem os becos e até decorou as passagens subterrâneas, não é? É só se esconder lá. E então, consegue fugir? Então pronto. Pense só no medo de hoje, que ficou pequeno. Corte as preocupações com o futuro na sua cabeça, como quem corta um bolo com a faca, e empurre para bem longe.
— Sabe de uma coisa? Não existe ordem para a gente partir desta vida. Pode ser que você só viva hoje. Então de que adianta ter medo daqui a dias, meses, anos? Se preocupar com futuro demais é desperdiçar o presente.
— Não está conseguindo partir o medo? Claro que não. Se qualquer um conseguisse logo de cara, para que existiriam psiquiatras e religiões? Então pratique, pratique.
Wonwoo praticou como ela disse, mas parece que não fez direito. Porque, muito tempo depois, teve que ouvir a mesma coisa mais uma vez, por telefone.
— Você sente muita solidão. Se ela te assusta, parta de novo. Um dia você aguenta, não aguenta? Então pense só um dia de cada vez. Não deixe um futuro que nem chegou te devorar. Ignore o que não tem forma. Assim, mesmo sem mim, você vai conseguir viver.
Esse foi o último telefonema dela antes de morrer.
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— Encontraram um ovo se mexendo! Precisamos que os Espers verifiquem!
O grito apressado de alguém trouxe de volta sua mente, que estivera por um instante no passado. A entrada da fazenda continuava agitada, com muita gente trabalhando, mas, ao ouvirem falar em ovo se mexendo, todos pararam as máquinas pesadas ao mesmo tempo. Graças a isso, como se ganhassem um descanso, as pessoas foram embora como a maré baixando.
Wonwoo lamentou um pouco que o tumulto diminuísse. Sentia que todo aquele barulho preenchia o vazio de estar sozinho. A mulher que salvara Wonwoo dissera para praticar partir a solidão quando ela fosse grande, mas isso não fazia muito efeito.
Depois que a guerra acabou, quando todos partiram e ele ficou realmente sozinho, por mais que partisse, a solidão de cada dia era pesada a ponto de sufocar.
Ao lembrar do passado, sentiu-se de novo esmagado por aquele peso e fechou os olhos por um momento. Enquanto tentava esvaziar a mente, sentiu o vento fresco que soprava. A franja voou e o cheiro de terra característico da fazenda o envolveu. E, com a mente um pouco mais vazia, abriu os olhos devagar, voltou a olhar para baixo e parou.
Sentiu, bem fraca, a energia de um Esper. Na fazenda já havia inúmeros Espers, mas aquela era estranha. Não conseguia descrever em palavras, mas podia lembrar de casos parecidos. Os Espers que queriam sua vida no campo de batalha. Era muito semelhante aos inimigos que o observavam prendendo a respiração.
Assim que percebeu, Wonwoo virou a cabeça na hora. Onde? No prédio em frente… no telhado? Mas lá estava escuro, e com visão comum não dava para ver nada. Tentou liberar seu poder para sentir se havia um Esper, mas não captou nada. Ainda assim, Wonwoo não considerou um engano aquela energia fraca que sentia. Fora graças àquele sexto sentido sutil que tinha sobrevivido até agora.
Isso significava que alguém o observava de longe. A primeira coisa que lhe veio à mente foi o tarado que invadira sua casa, mas todos os Espers do Centro Leste tinham voltado para dentro da fazenda. Por pouco não lhe escapou um palavrão, coisa que ele quase nunca usava. Não, tem outro tarado?
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Porra. O Bruto, que observava Wonwoo do telhado, quase soltou um palavrão. Ele virou a cabeça bruscamente, de repente, e olhou exatamente na direção onde estava. No mesmo instante, ele recolheu completamente a energia, prendeu até a respiração e se escondeu imóvel na escuridão.
Wonwoo ficou um bom tempo olhando, como se examinasse o lugar, e então virou a cabeça, mas, talvez por achar perigoso, se moveu. Foi então que uma voz nada bem-vinda atrapalhou.
[— Vice-chefe, pela rede de informações que plantamos no Centro Leste, confirmamos que o senhor Ji Wonwoo está em segurança. Agora, volte, por favor.]
O chefe de gabinete Jeong avisou com firmeza, mas o Bruto o ignorou e seguiu com os olhos Wonwoo, que saía do terraço. Por algum motivo, lamentou que ele sumisse. Achou estranho sentir aquilo, mas logo deixou passar. É o filho do inimigo. É natural que eu me preocupe. E o Ji Wonwoo também tem utilidade.
— Ainda não.
[— Como ainda não? O senhor não terminou o que tinha para fazer?]
— Não.
O Bruto murmurou, se levantou e foi até a beirada do telhado. Era uma posição precária, como se fosse cair, mas dali dava para ver a janela do quarto de Wonwoo.
[— O senhor Ji Wonwoo não está em segurança?]
— Você continua falando besteira.
[— …Posso não ser bom em outras coisas, mas costumam dizer que sou inteligente.]
— Eu mandei pegar o tarado.
Ouvindo um pequeno “ah” de compreensão, o Bruto perguntou com frieza:
— Encontrou?
[— Ainda estamos investigando os Espers ao redor.]
Uma risada curta e desdenhosa escapou da boca do Bruto. Talvez sentindo-se inquieto com a risada, o chefe de gabinete Jeong tentou detê-lo depressa.
[— Vice-chefe. Não pode. Volte agora mesmo.]
— Você sabe o que eu vou fazer?
[— Não sei. Mas quanto mais tempo ficar aí, maior a probabilidade de ser exposto ao inimigo.]
— É uma probabilidade que não se aplica a mim.
O chefe de gabinete Jeong ia retrucar, mas lembrou da habilidade do outro e se calou. Não deixava de ser verdade. Mas isso só valia se ele estivesse em condições de usar a habilidade direito, com guiamento. Como também não podia mencionar o guiamento, depois de um bom tempo perguntou, como quem desiste:
[— O que pretende fazer?]
— Nada. Vou só observar.
Uma luz fraca se acendeu no quarto de Wonwoo, no segundo andar. A cortina estava fechada, mas, diferentemente da casa dele, era de tecido fino, então dava para ver vagamente a silhueta se movendo lá dentro. Até que, em certo momento, Wonwoo parou num ponto e não se mexeu mais. Com certeza tinha visto o comunicador que ele deixara sobre a mesa. O Bruto acrescentou, como se falasse sozinho:
— E, se der, ouvir um pouco da tagarelice dele.
✧˖°. ༄ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna,Yuki&Faby