Capítulo 05.4
Capítulo 05 – Parte 4
— Você disse que fez as que dessem para usar.
— Isso. Nos atletas.
Eu não sou atleta. Jiheon falou rindo.
— Porque o meu trabalho é gerenciar e cuidar dos atletas. Eu e o meu trabalho são coisas separadas.
Depois de dizer aquilo, Jiheon hesitou um pouco e acrescentou que queria separar com clareza trabalho e vida privada.
— Não quero trazer a vida privada para o trabalho, nem quero que o trabalho se meta na vida privada.
Jiheon queria que Jaekyoung percebesse aquela nuance sutil de recusa. E, se possível, queria que o outro também recolhesse os sentimentos de forma discreta, sem alarde, em silêncio.
Mas:
— Você já trouxe a vida privada para o trabalho à vontade e vem com essa. Sendo que fugiu largando o trabalho no dia seguinte assim que ouviu o que eu disse.
Não havia como justamente Kwon Jaekyoung ter uma atitude tão madura. Porque, por mais que o outro se esforçasse para dizer as coisas de forma indireta, ele era um sujeito que só se satisfazia dizendo tudo o que queria.
Ainda assim. Ir tão sem freio assim.
Naquele ponto ele se sentiu um idiota por ter se esforçado tanto para falar de forma indireta. Ele até quis, já que o assunto veio à tona, colocar tudo em pratos limpos abertamente, mas se conteve.
Não podia trazer aquele assunto agora. Isso talvez fosse exatamente o que Jaekyoung queria. Porque aquele moleque também devia saber que, naquele momento, ele jamais conseguiria recusá-lo na cara dele.
Cair numa armadilha cujo resultado era mais que evidente também seria idiotice. Jiheon se esforçou para se acalmar e se desculpou por alto: “Está bem, está bem, a culpa foi minha”.
— E é por isso que estou pagando com o corpo agora, então já pode desfazer a raiva, sim? Atleta Kwon Jaekyoung.
Falando de forma irônica, ele pressionou de propósito o grande dorsal com um pouco de dor. O grande dorsal é usado como músculo motor principal em todos os quatro estilos, então quanto mais fosse relaxado, melhor. Com essa desculpa ele apertou de propósito com força, mas o músculo era tão duro que, exagerando um pouco, os dedos quase ricochetearam.
— Ei, isso aqui está inacreditável.
Jiheon falou surpreso, pressionando aqui e ali o grande dorsal com a ponta dos dedos.
— Isso não é fáscia contraída, é músculo mesmo, né?
— Como assim fáscia contraída, a esta altura?
Jaekyoung falou como se aquilo fosse um absurdo.
Ele tinha razão. Tinha razão, mas…
— E por que o nível de lactato subiu tanto a esta altura?
Jiheon falou de propósito como quem ironiza. Ele queria dizer que, portanto, ele não devia se descuidar nem confiar demais em si mesmo e cuidar incondicionalmente das próprias condições — mas, antes que ele chegasse ao ponto principal, Jaekyoung falou primeiro:
— Não subiu.
— O quê?
— Estou dizendo que o nível de lactato não subiu.
— Que conversa é essa? Hoje deu 11 milimoles em você.
Jiheon pensou que aquele moleque, a esta altura, com vergonha, queria fazer de conta que nada acontecera. Ou então que não conseguira se conformar e tivera uma dissonância cognitiva momentânea.
Será que isso causou um dano tão grande assim? Foi no instante em que Jiheon, tardiamente, ficava sério sozinho e se preocupava:
— É mentira, claro.
— …O quê?
Jiheon perguntou tirando a mão das costas de Jaekyoung sem se dar conta.
— É mentira?
— Sim. É mentira.
Nem medi o nível de lactato. Jaekyoung falou com naturalidade, ainda de bruços, virando apenas a cabeça para o lado.
— Não, que conversa é essa? O Minwoo claramente…
Jiheon parou no meio da fala. Foi porque se lembrou tardiamente de que, durante toda a ligação, Minwoo respondia hesitante e com a voz sumindo. Na hora ele achou que o garoto estava desconcertado por enfrentar aquela situação pela primeira vez. Que ele estava assustado porque as condições do atleta estavam no chão faltando pouco para a competição.
— Eu disse a ele para te ligar e falar exatamente o que eu mandasse. Para começar, não faz sentido medir tempos a esta altura.
Naquele instante saiu da boca de Jiheon um “ah, que loucura”. Justamente por não entender aquilo, ele tinha estranhado sozinho e se perguntado por que diabos haviam feito aquilo.
E era mentira, os tempos nem foram medidos desde o início.
— Ei, com que ideia você…
— Só assim você vinha.
Jaekyoung falou interrompendo Jiheon.
— Ei…
Enquanto Jiheon, perplexo, não conseguia continuar a falar, Jaekyoung falou com naturalidade, ainda deitado de bruços na cama:
— Que as minhas condições não estavam boas é verdade. Se tivesse feito a coleta, teria dado uns 8, 9 milimoles.
— Ei, não venha com essa. Como se você fosse fazer isso.
Jiheon soltou com aspereza. Ao se lembrar do coração despencando quando atendeu ao telefone, parecia que palavras pesadas sairiam de sua boca a qualquer instante. Jiheon respirou fundo com as duas mãos na cintura. Depois de regular a respiração várias vezes, conseguiu finalmente voltar a falar:
— Você é mesmo… ainda assim, contar uma mentira dessas?
Quando ele falou tentando se acalmar a duras penas, Jaekyoung rebateu como se esperasse exatamente por aquilo:
— Você também mentiu dizendo que estava ocupado com o trabalho e fugiu, hyung.
— Ei, que fuga que nada? Eu estava mesmo ocupado com…
— Se estivesse mesmo ocupado, não teria tempo de estar aqui fazendo isso agora.
Aquilo era a resposta certa.
Sem ter o que dizer, Jiheon se virou. Ia pegar a gravata que jogara sobre a escrivaninha e sair do quarto quando Jaekyoung, por trás, agarrou depressa a barra de sua camisa.
— Não vá.
— Solte.
Ele tentou se soltar, mas Jaekyoung não soltou. Pelo contrário, apenas apertou com mais força e o puxou na própria direção, dizendo:
— Não vá. Se você for agora, acaba tudo de verdade.
O que acaba? Jiheon pensou mesmo naquilo. O que diabos acaba? A medalha de ouro? Ou o contrato com a empresa? Ou então…
— Não vá. Eu falei claramente.
Tanto fazia o que fosse. O importante ali era que, fosse o que fosse, ele não tinha escolha.
— Hyung.
Jaekyoung continuava deitado de bruços na cama. Naquela posição, apenas esticando um dos braços de forma desconfortável, segurava a barra da roupa de Jiheon. E, ainda assim, tinha tanta força. A ponto de, por mais que tentasse, ele jamais conseguir se soltar. Aquilo não era simplesmente uma questão de força de preensão.
Jiheon também sabia. Naquele momento ele jamais conseguiria vencer Jaekyoung. E não se tratava apenas de inferioridade física. Em todos os aspectos, em qualquer aspecto, era a mesma coisa.
— …
Era preciso agir de forma racional. Naquele momento não era questão de vencer ou perder. Era preciso pensar no que era mais importante.
— …Está bem.
No fim Jiheon soltou um breve suspiro.
— Eu não vou. Não vou, então solte um pouco. A camisa vai ficar toda amassada.
Isto é de marca, é caro. Jiheon falou como quem intimida. É claro que Jaekyoung nem fingiu escutar.
— Ei, a roupa vai amassar.
No fim, Jiheon foi ele mesmo quem se aproximou da cama. Ele achou que aquilo já provava suficientemente que não tinha intenção de ir embora, mas para Jaekyoung, pelo visto, não. Ele o puxou assim mesmo, segurando a camisa de Jiheon. E, quando Jiheon se sentou na beira da cama, quase desabando, só então soltou a barra da camisa que segurava.
— Ei, moleque. Você é mesmo…
O que você vai fazer com isto? Jiheon falou por fim, mostrando a barra da camisa completamente amassada.
— Compre uma nova.
Jaekyoung falou isso e se afastou para o lado, abrindo espaço para que Jiheon se sentasse mais confortavelmente. E, deitando-se de barriga para cima, olhando o teto, disse:
— Eu compro para você.
— Deixa, não preciso.
Jiheon recusou de forma cortante.
— Não preciso de camisa, então não conte mais esse tipo de mentira. Você tem noção do quanto eu me preocupei?
— Por quê? Com medo de eu não ganhar medalha?
— Ei, Kwon Jaekyoung.
Jiheon estalou a língua. Jaekyoung fingiu não ouvir, se ergueu e se sentou apoiando as costas no estofado da cabeceira.
— De qualquer forma, não se preocupe com o ouro. Isso eu vou ganhar aconteça o que acontecer.
Jaekyoung falou apoiando o braço sobre um dos joelhos, que ele dobrara.
— Se eu perder esta, tenho que esperar três anos.
Jiheon perguntou “o quê?”, mas ele mesmo percebeu antes a resposta.
— O Grand Slam?
Como o Campeonato Pan-Pacífico era realizado a cada três anos, se ele não ganhasse o ouro daquela vez, a próxima chance de Grand Slam seria obrigatoriamente dali a três anos.
— Você estava mirando isso a sério?
Diante da pergunta de Jiheon, Jaekyoung fez uma expressão de “o que mais seria?”.
— Não, é que eu achava que você tinha simplesmente ido participando de cada competição internacional e assim acabou chegando até aqui. Não que estivesse mirando o Grand Slam de propósito.
— Por que você achou isso?
— Sei lá. É que, de algum modo, você dá a impressão de não se apegar muito a esses títulos?
— É verdade que, tirando o Grand Slam, eu não tenho interesse.
Era um tom de que o resto tanto fazia. Mas o Grand Slam em si já significava conquistar Olimpíadas, Jogos Asiáticos, Pan-Pacífico e Mundial, então, na prática, com aquele único título todos os demais vinham automaticamente.
O único título que Jaekyoung ainda poderia acrescentar era um só.
Jiheon aproveitou a deixa e perguntou discretamente:
— E o bicampeonato olímpico?
— Não tenho interesse.
Como era de se esperar, Jaekyoung falou de forma cortante.
— Como assim não tem interesse? Isso também é algo tão descomunal quanto o Grand Slam.
— Porque nunca me falaram disso.
— O quê…?
Jiheon perguntou de novo, achando que tinha ouvido errado.
— Nunca fizeram o quê?
— Estou dizendo que nunca me disseram para eu ser bicampeão olímpico.
Ele não havia ouvido errado. Jaekyoung dissera exatamente aquilo.
— Não, ei, que conversa é essa?
Jiheon, achando aquilo absurdo, chegou a segurar e sacudir a perna de Jaekyoung enquanto falava:
— Todo mundo só fala disso agora. Não só a federação, mas até o Comitê Olímpico Coreano vive pressionando a gente dizendo que você tem que competir nas Olimpíadas no ano que vem. E o presidente Cho também, quando eu fui cumprimentá-lo, a primeira coisa de que falou foi disso.
Quando ele perguntou como assim ninguém tinha falado, Jaekyoung o observou fixamente e logo deu uma risadinha. Diante daquele sorriso parecido com um suspiro, o coração de Jiheon despencou por um instante.
Ele conhecia aquele sorriso. A boca de Jaekyoung, sempre rígida, às vezes, raramente, desenhava uma curva suave ao sorrir. Mas não era a sensação de um riso de alegria. Era antes um sorriso que transmitia algo autodepreciativo e solitário.
— Você realmente não se lembra de nada do que a gente conversou, né, hyung?
Ele sempre ficara curioso sobre quem era a pessoa que fazia Jaekyoung ter aquela expressão. Que tipo de pessoa faria aquele moleque tão talentoso, aquele moleque que só pensava em si mesmo, sorrir daquele jeito? Por que estaria fazendo ele sofrer assim? Ele até chegara a sentir um pouco de ressentimento.
Mas agora ele podia saber. A pessoa que fazia Jaekyoung sorrir daquele jeito era ninguém menos que ele mesmo. Jaekyoung fazia aquela expressão sempre por causa dele.
Aquele fato, percebido tardiamente com o corpo inteiro, alimentou a culpa de Jiheon. Ele sentia muito por não ter percebido antes, mas sentia ainda mais que, mesmo tendo percebido agora, nada mudaria.
— Eu te disse uma coisa dessas?
Jiheon se recompôs e perguntou em um tom forçadamente natural.
Jaekyoung não respondeu. Apenas sorriu ainda mais fundo do que antes. Diante daquela reação de quem nunca criara expectativas, o coração de Jiheon doeu ainda mais.
— Deixa, hyung, pode ir agora.
Jaekyoung falou isso e voltou a se deitar na cama.
— Jaekyoung.
Jiheon chamou o nome dele baixinho.
— Eu sinto muito por não me lembr…
— Isso não importa.
Jaekyoung falou fechando os olhos.
— De qualquer forma eu nem imaginei que você fosse lembrar, e por isso eu não fico bravo. Com a sua personalidade, hyung, você devia dizer isso a todos os garotos da turma de atletas do fundamental.
— Não, ei, por mais que seja eu, eu não digo esse tipo de coisa a qualquer um.
Jiheon falou apressadamente. Era verdade. Mesmo palavras boas precisam ser escolhidas; um elogio tão absurdo assim só faria baixar a moral.
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e raws Belladonna, revisão Nat ◆