Capítulo 05.3
Capítulo 05 – Parte 3
— Não estou falando do cigarro.
— …
Jiheon fechou a boca e ligou o carro. Assim que conferiu o espaço atrás, deu ré sem hesitar e disse: “Jaekyoung”.
— Eu disse que entraria na sua equipe de gestão exclusiva; não disse que ficaria grudado em você. Não quebrei promessa nenhuma. Na empresa eu também estava o tempo todo trabalhando em coisas suas.
— Que honra.
Jaekyoung ironizou com o braço apoiado no batente da janela.
— Quer que eu me ajoelhe e faça uma reverência? Agradecendo por trabalhar tanto por mim?
— Jaekyoung.
Jiheon suspirou. Conduzindo o carro na direção da saída dos fundos do ginásio, ele disse:
— Eu não vim para brigar; vim porque estava preocupado com você.
— Deve ter vindo preocupado com a medalha, não comigo.
Jaekyoung falou sem sequer rir. Diante daquele tom mordaz, Jiheon também começou a ficar irritado. Ora, ele diz que veio preocupado e o outro age assim.
— Está bem, pense o que quiser.
Jiheon falou como quem cospe. Eu também não vou mais me importar. Jurando isso internamente, ele saiu do ginásio.
Mas não havia como aquilo funcionar. Ele não estava longe, estava sentado bem ao lado; como não se importar? E ainda por cima daquele tamanho. Mesmo olhando claramente só para a frente, a presença que sentia ao lado era descomunal. Talvez fosse ainda mais assim porque ele se esforçava para não olhar.
Assim eu vou acabar batendo mesmo.
Jiheon, que estalava a língua internamente sem parar, no fim foi ele quem falou primeiro com Jaekyoung:
— Está bem, é claro que eu me preocupo com a medalha. Mas, por pior que estejam as suas condições, você acha que não consegue nem uma medalha? De um jeito ou de outro você tira uma. Seja no nado livre, seja onde for, basta um ouro para você completar o Grand Slam. Falando abertamente, nós fechamos contratos publicitários vendendo o seu título, então, mesmo que você não faça cinco títulos, se garantir um único ouro não há problema nenhum.
Está entendido, atleta Kwon Jaekyoung? Jiheon falou pisando com força no acelerador. E, quando o carro entrou em segurança na estrada em direção a Yangjae, reduziu um pouco a velocidade e voltou a falar:
— Então não fique tão atravessado. Eu vim mesmo preocupado. Do contrário eu teria simplesmente falado com o Minwoo, mandado encerrar o treino na hora e te levar ao hotel, e pronto.
Jaekyoung não deu resposta alguma. Ele já não olhava para Jiheon. O corpo, que estava meio voltado para o lado do motorista, em algum momento se virara para o lado oposto. Nessa posição, fitando apenas a paisagem do lado de fora da janela, ele disse de repente:
— Feche a janela. Está entrando vento quente.
— …Quando o cheiro de cigarro sair todo.
— Não tem cheiro.
O seu cheiro de cigarro nem é tão forte, hyung. Jaekyoung falou ainda olhando para fora.
Jiheon fechou as janelas do motorista e do carona. Baixando um pouco mais a temperatura do ar-condicionado, ele disse “então” em tom bastante mais suave:
— Como estão as suas condições agora?
— Estou bem.
Jaekyoung falou sem um instante de hesitação. Sei, muito bem. Respondendo mentalmente, Jiheon voltou a acelerar um pouco.
— Ainda assim, hoje descanse. Não faça mais nada.
— Não tem mais o que fazer.
E era verdade. O programa de treino previsto para aquele dia já havia sido todo cumprido e as massagens e terapias manuais que ele recebia todas as noites haviam sido encerradas na semana anterior. Por mais insano que Cha Seonghyeon fosse, ele não chamaria o garoto de novo a cinco dias da competição, então, voltando agora, não havia o que fazer além de descansar o dia inteiro.
Mas, se ali ele dissesse “está bem, entendi” e fechasse a boca, Jaekyoung não diria mais nada. Naquela situação, o silêncio era mais insuportável do que xingamentos e acusações.
— O que você costuma fazer nos descansos?
Jiheon falou depressa, tentando de todo jeito não dar chance ao silêncio de se emendar.
— Durmo, ora.
Jaekyoung respondeu com indiferença.
— E quando não dorme?
— Não faço nada.
Jaekyoung falou ainda secamente. E então, talvez sentindo que o próprio tom era ríspido demais, acrescentou tardiamente:
— Fico deitado ouvindo música. Ou assisto a filmes.
Diante da resposta inesperadamente comum, Jiheon ficou um pouco surpreso. Ouvir música ou assistir a filmes. Na verdade a maioria das pessoas do mundo devia passar o tempo livre assim, mas, sendo Jaekyoung, aquilo lhe pareceu algo muito novo.
— Que tipo de filme você assiste?
— Catástrofe, ação, enfim, blockbuster.
— Você gosta de coisas de grande escala.
Bem, a maioria dos homens dessa idade é assim. Mesmo sabendo, ele achou aquilo um pouco curioso.
— Mas qual é a graça de assistir a filme de catástrofe? Eu sei que é filme, mas, quando vejo um monte de gente morrendo e prédios desabando, fico meio mal e acabo não assistindo.
— Eu assisto justamente por isso.
Jaekyoung falou ainda impassível.
— Sobre gente morrendo eu não sei, mas, quando vejo prédios desabando, terremotos e maremotos, dá uma sensação meio de iluminação, como dizer. Porque eu me sinto uma existência como poeira do universo.
— …E isso é bom?
Quando Jiheon perguntou com uma expressão de quem não entendia, Jaekyoung deu, pela primeira vez naquele dia, uma risadinha e disse: Eu gosto.
— O coração fica leve e coisas como pressão e preocupação também desaparecem. Como não se sabe quando o mundo vai acabar, dá vontade de parar com pensamentos complicados que só dão dor de cabeça e simplesmente fazer o que eu tenho que fazer, fazer o que eu quero.
— O quê, que jeito estranhamente pessimista mas positivo de pensar é esse?
— E daí?
Jaekyoung falou realmente em tom de “e daí?” e se recostou no banco, fechando os olhos. Jiheon soltou uma risada parecida com um suspiro ao vê-lo. Isso, e daí? De qualquer forma, se é positivo, está bom.
Aliás, então esse aí também sente pressão. Voltando a olhar para a frente, Jiheon pensou.
Bem, é claro. Ele é gente. Não é robô de verdade nem um homem de aço; ele deve sentir todo tipo de emoção tanto quanto os outros. Pressão, sofrimento, frustração, tristeza, tudo.
— …
Por mais que ele tivesse se esforçado, bastou perder o momento por um instante para que um silêncio pesado começasse a se instalar. O jeito de quebrar o silêncio era simples. Bastava puxar conversa com Jaekyoung. Bastava puxar conversa diligentemente, uma atrás da outra, sem dar brecha ao silêncio.
Mas, por algum motivo, Jiheon não conseguia voltar a falar. Não era só porque Jaekyoung estava de olhos fechados. Simplesmente, a boca não se abria.
Quando Jiheon fechou a boca, o interior do carro finalmente mergulhou em um silêncio completo. No fim, os dois não trocaram uma única palavra até chegarem ao hotel. O silêncio foi insuportável e pesado, como Jiheon havia previsto. E, inesperadamente, também lhe deu uma sensação um pouco triste.
Ao chegar ao hotel, Jiheon subiu ao quarto junto com Jaekyoung. Era para explicar a situação à senhora Sim e pedir que cuidasse para que ele descansasse bem naquele dia, mas, quando chegou ao quarto, a senhora Sim não estava.
— E a sua mãe?
— Sei lá. Deve ter ido ver móveis.
Só então Jiheon soltou um “ah”. Isso, agora é bem a época disso.
Quando a aposentadoria de Jaekyoung foi provisoriamente decidida, a senhora Sim começou naquele mesmo dia a procurar casa. Como agora precisariam encerrar a vida na Austrália e vir morar definitivamente na Coreia, ela queria vender a casa de Ilsan e se mudar de vez para Seul. E, felizmente, dias antes ela havia encontrado um apartamento de que gostou e fechado contrato ali mesmo. A mudança seria feita enquanto ele estivesse na vila olímpica, para que Jaekyoung não precisasse se preocupar, então no momento sair diligentemente para ver móveis para a casa nova parecia ser a rotina e a alegria dela.
Enquanto Jiheon pensava se deveria ligar para a senhora Sim ou simplesmente voltar assim mesmo, Jaekyoung entrou primeiro no próprio quarto. Jiheon hesitou bastante tempo e, tardiamente, entrou atrás dele.
Jaekyoung havia tirado a jaqueta e estava sentado na beira da cama, de camiseta branca. Quando Jiheon abriu a porta do quarto e entrou, ele o olhou com uma expressão de “o que foi?”.
— Você está mesmo bem de saúde, né?
— Estou bem.
Jaekyoung falou isso e, deitando-se por completo na cama, acrescentou:
— E, mesmo que eu não estivesse, agora não há nada que dê para fazer.
E era verdade. Numa hora dessas seria bom receber uma massagem ou terapia manual para ao menos relaxar a tensão do corpo, mas justamente o contrato de atendimento domiciliar havia terminado na semana anterior. Mesmo procurando agora uma clínica de massagem de reabilitação ou terapia manual nas redondezas, esses lugares sempre tinham agenda cheia e não seria fácil conseguir horário. E, ao voltar, pegariam com certeza o horário de pico. Receber massagem e depois ficar espremido no carro por dezenas de minutos anularia tudo.
Jiheon hesitou por um bom tempo e no fim disse:
— Quer que eu faça uma massagem, ainda que simples?
— …Você sabe fazer?
Jaekyoung, excepcionalmente, olhou para ele com um rosto surpreso. Interpretando aquilo como aceitação, Jiheon afrouxou a gravata no pescoço e disse: Aprendi na faculdade.
— Eu fiz a disciplina de terapia manual. Tive aulas práticas e tudo.
Deite de bruços. Jiheon falou enquanto se aproximava da cama. Jaekyoung, deitado na cama, ficou observando-o em silêncio e logo se virou lentamente de bruços.
— Posso confiar, né?
— Não.
Diante da brincadeira de Jiheon, Jaekyoung virou a cabeça ainda de bruços e olhou para ele.
— É brincadeira. Pode confiar. Eu tive aulas práticas, já disse.
Quando ele falou rindo, Jaekyoung, mesmo com um rosto de insegurança, voltou a se deitar direito de bruços. Jiheon primeiro pressionou uma vez com a palma da mão as costas inteiras de Jaekyoung. Na verdade, para massagear as costas era mais prático subir sobre o corpo da pessoa, mas, se ele fizesse isso naquele momento, não sabia que ideia errada Jaekyoung teria.
O tempo do borboleta ter caído mais que o do livre significa provavelmente que há alguma travação em algum movimento do borboleta.
Pensando assim, Jiheon começou a pressionar lentamente as costas de Jaekyoung a partir do centro.
As partes mais sujeitas a sobrecarga no borboleta são o grande dorsal, os romboides, o redondo maior… e aqui era o trapézio inferior, não era?
Enquanto pressionava com a palma da mão as áreas correspondentes, recordando o que havia aprendido, a gravata ficava atrapalhando o tempo todo. Mesmo enfiando-a de qualquer jeito no bolso da camisa, bastava se mover um pouco para ela escapar logo e cair sobre as costas de Jaekyoung.
— Só um instante.
No fim Jiheon simplesmente tirou a gravata. Jogou-a de qualquer jeito sobre a escrivaninha e, ao voltar, cruzou olhares com Jaekyoung, que o observava deitado de bruços na cama.
— O que foi, está desconfortável em algum lugar?
— Não.
Jaekyoung respondeu brevemente e voltou a baixar a cabeça, enterrando o rosto no próprio braço.
— Se doer ou ficar desconfortável, avise, sem falta.
— Pressionando de leve desse jeito não tem como doer.
Diante da réplica certeira de Jaekyoung, Jiheon riu sem graça e ainda se justificou: “Ei, não tem jeito”.
— É a primeira vez desde que me formei na faculdade. E se eu apertar errado e piorar as coisas?
Ele achou que Jaekyoung se levantaria dizendo “então por que você se ofereceu para fazer massagem? Deixa para lá”, mas, inesperadamente, ele não fez isso. Pelo contrário, como quem diz “faça como quiser”, relaxou ao máximo as costas, que até então ainda estavam um pouco tensas, e, quando Jiheon se aproximou de novo, perguntou do nada:
— Por que você fez a disciplina de terapia manual?
— Sei lá. Porque achei que aprender seria útil?
Jiheon falou pressionando lentamente com a ponta dos dedos o meio das costas de Jaekyoung.
— Era uma disciplina do curso de reabilitação esportiva, e lá havia algumas eletivas que se sobrepunham ao nosso curso e várias aulas que valiam a pena. No começo eu até pensei em fazer como segunda habilitação, então acompanhei com bastante afinco.
Mesmo que no quarto ano eu tenha estragado a segunda habilitação e tudo o mais me divertindo. Enquanto acrescentava isso mentalmente, Jaekyoung perguntou de novo:
— Que outras aulas do curso de reabilitação esportiva você fez?
— Hmm, eu sou mais do lado prático do que teórico. Fiz principalmente as que dessem para usar em qualquer lugar. Bandagem de reabilitação, lesões esportivas, nutrição, essas aulas.
— Hyung, você cozinha bem?
— Não, de jeito nenhum.
Quando disse que só sabia a teoria, Jaekyoung murmurou: “Ora essa”.
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e raws Belladonna, revisão Nat ◆