Capítulo 04.3
𓆝 ⋆。𖦹°‧ Capítulo 4 – Parte 3
Independentemente disso, ele achava que entendia por que corria o boato de que ele era um ômega fingindo ser beta. Devia ser porque, ao contrário da imagem elegante e reservada que mostrava na TV, em ambientes privados o jeito de falar e os gestos eram muito melosos. É claro que, aos olhos de Jiheon, aquele tom de intimidade quase inconveniente parecia atuação.
— De qualquer forma, senhor Cha Seonghyeon, voltando ao que estávamos falando… — Disse Jiheon, deixando claro pelo tom que o assunto sobre o traço dele não tinha importância. E, de fato, não tinha. — Do ponto de vista do senhor, pode parecer superproteção, mas aqui isso é normal. Especialmente durante o período de competição. Como o resultado depende das condições do atleta, toda a equipe se esforça para que ele se mantenha nas melhores condições possíveis. Nessa época, não são só os atletas que ficam mais sensíveis, mas também toda a equipe.
— Puxa, parece um aluno do terceiro ano prestes a fazer o vestibular e a mãe dele. — Diante do comentário de Cha Seonghyeon, Jiheon acabou rindo sem querer. — Por que está rindo?
— Nada, é que a comparação foi perfeita. — Cha Seonghyeon franziu as sobrancelhas, como se perguntasse se era sério. Jiheon assentiu com convicção. Era verdade mesmo. — Quando o vestibular se aproxima, os alunos do terceiro ano fazem simulados no mesmo horário da prova, não é? Com os atletas é igual. Como o ritmo de vida influencia muito as condições físicas, quando participam de grandes competições, como as Olimpíadas, dias antes começam a comer e dormir de acordo com o cronograma das provas. Se, por exemplo, houver uma eliminatória às dez da manhã e uma final às nove da noite, eles acordam por volta das seis, fazem o aquecimento, treinam às dez, fazem uma refeição leve, tiram um cochilo e treinam de novo às nove da noite. É mais ou menos assim.
— Puxa, que meticulosos — comentou Cha Seonghyeon, rindo enquanto levava o cigarro à boca.
— Realmente são meticulosos. As condições físicas de uma pessoa podem ser afetadas até pelos detalhes mais insignificantes, e isso se reflete diretamente no resultado. Durante o período de competição, todos se sentem como se estivessem andando sobre gelo fino. Para não sobrecarregar o atleta, jamais dizemos coisas como “Fulano, seu rival, fez tal tempo no treino”. Também não contamos que alguém se machucou ou está passando por uma fase ruim. Simplesmente deixamos que o atleta se concentre em si mesmo. Esse é o trabalho da nossa equipe de gestão.
Cha Seonghyeon não respondeu. Ficou apenas fumando, com uma expressão pensativa, soltando um “hmm” de vez em quando. Logo depois, bateu a cinza no cinzeiro e perguntou:
— Tem uma coisa que eu quero saber. Se, na véspera da competição, o senhor achasse que determinado comportamento seu poderia afetar as condições do Jaekyoung, se conteria a qualquer custo?
— É claro — respondeu Jiheon, olhando para ele com uma expressão de quem não entendia como aquilo sequer era uma pergunta.
— Então, e se fosse o contrário? Se o Jaekyoung fizesse de repente uma exigência absurda, você atenderia a tudo o que ele pedisse sem recusar, mesmo que fosse algo de que não gostasse?
— Isso dependeria de que tipo de exigência, mas, na medida do possível…
— Por exemplo, se na véspera da final o Jaekyoung dissesse que quer transar com você?
— Senhor Cha Seonghyeon, você bebeu? Não me diga que você veio dirigindo alcoolizado? — Jiheon perguntou com um rosto preocupado.
— O quê? Nem pensar! — Cha Seonghyeon exclamou, arregalando os olhos. — Não tem como eu sair dirigindo bêbado em plena luz do dia.
Ele olhou rapidamente ao redor, com medo de que alguém tivesse ouvido, e encarou Jiheon com uma expressão perplexa.
— Você não pode sair falando essas coisas nos dias de hoje. Dirigir alcoolizado é crime. Não se compara nem de longe a um rumor de romance.
— Não, eu sei disso — disse Jiheon, como quem pedia para ele se acalmar. — Só perguntei porque o senhor disse algo tão absurdo que achei que talvez estivesse bêbado.
— Ora, isso é tão absurdo assim? — Cha Seonghyeon perguntou com uma risada. Em seguida, levou o cigarro à boca e murmurou, com uma expressão de lamento: — Eu estava falando sério.
《Sério onde?》
Se Cha Seonghyeon estava falando sério e ainda por cima sóbrio, a situação era ainda mais preocupante. Nem estava bêbado e conseguia dizer uma coisa dessas.
Jiheon estava mais preocupado com Jaekyoung do que com Cha Seonghyeon. Mais especificamente, com o gosto de Jaekyoung para escolher homens. Será que aquele moleque realmente só se importava com o rosto e não olhava para mais nada? A beleza não durava para sempre e, para piorar, homens bonitos sempre acabavam fazendo os outros pagarem o preço pela própria beleza.
— De qualquer forma, já que chegamos a este assunto, você não pode simplesmente responder? Eu estou realmente curioso.
Cha Seonghyeon falou soltando a fumaça. Jiheon o observou por um instante e assentiu, dizendo:
— Sim. Já que o senhor perguntou com seriedade, então tudo bem eu também responder com seriedade. — Cha Seonghyeon soltou um “oh”, animado. Sem se importar com a reação dele, Jiheon cruzou os braços e continuou com naturalidade: — Os atletas normalmente entram na vila cerca de uma semana antes da competição de natação e ficam lá até o fim dela. Durante esse período, não é permitido que tenham relações sexuais, seja com o namorado, a esposa ou quem quer que seja. Na véspera de uma prova, então, muito menos.
— Sério? Por quê?
— Porque prejudica o desempenho físico.— Jiheon respondeu como se fosse óbvio.
Cha Seonghyeon parou com o cigarro a meio caminho da boca e murmurou, com uma expressão perplexa:
— Não é brincadeira? É sério mesmo…?
— Não sei por que o senhor acha que é brincadeira, é sério. É uma parte com a qual os técnicos se preocupam bastante. Por isso algumas seleções chegam a limitar até o número de masturbações dos atletas durante o período de competição.
— O quê? Isso é uma idiotice. — Na verdade, Jiheon também achava. A proibição de sexo, vá lá, mas limitar até o número de masturbações era, sinceramente, uma violação dos direitos humanos, ele achava. Aquilo era menos uma conclusão com base científica e mais uma simples superstição. — Esse meio é nojento mesmo.
Cha Seonghyeon, com repulsa, como se tivesse visto algo realmente nojento, jogou o cigarro no chão. E foi no instante em que o esmagava com o sapato, com uma expressão de que o cigarro havia perdido todo o gosto:
— O que vocês estão fazendo aí? — Diante da voz que veio de trás, Jiheon virou a cabeça sem pensar. Jaekyoung acabava de sair do prédio do ginásio e caminhava na direção deles. — Por que você veio de novo sem avisar?
Jaekyoung perguntou assim que viu Cha Seonghyeon. Como alguém apareceu sem estar previsto, era natural perguntar primeiro o motivo da visita. Cha Seonghyeon devia saber disso, mas Jiheon não conseguia entender de forma alguma por que ele o olhava com aquela expressão presunçosa.
— É que é mais divertido quando eu apareço de surpresa.
Ao ouvir Cha Seonghyeon dizer aquilo, Jaekyoung lançou-lhe um olhar de quem não acreditava em uma palavra. Ainda assim, pela expressão dele, não parecia nem um pouco estar diante de alguém por quem nutria um amor não correspondido. Pelo contrário, seu aborrecimento era evidente.
《Será que ele faz isso de propósito por eu estar aqui?》
Jiheon pensou de braços cruzados.
《Será que, se eu não estivesse aqui, ele estaria com aquela expressão de antes? Será que, com aquela mesma expressão que fazia enquanto falava ao telefone, ele diria coisas carinhosas como “me ligue sempre que precisar”?》
Bem, isso não era ruim. Jaekyoung não era um robô, afinal. Apesar da aparência, era um ser humano como qualquer outro, então era natural que se comportasse de maneira diferente diante de alguém que ele gosta. Pelo contrário, Jiheon até achava admirável que ele fosse capaz de controlar as próprias emoções daquela forma. Ficava feliz em perceber que Jaekyoung ainda tinha espaço para desenvolver suas habilidades sociais, mas o fato de a pessoa de quem ele gostava ser Cha Seonghyeon o incomodava.
Cha Seonghyeon era o tipo de pessoa que achava não precisar ter consideração pelos outros, mas considerava natural que estivessem ao seu lado sempre que precisasse. Jiheon não gostava de ver Jaekyoung despejando seus sentimentos em alguém tão egoísta. Sabia que aquela era uma escolha de Jaekyoung, mas, ainda assim, não conseguia gostar da situação. Por mais que Jaekyoung fosse um sujeito com problemas de personalidade, ele também merecia encontrar alguém que gostasse dele tanto quanto ele gostava dessa pessoa.
— Jaekyoung. — A voz escapou antes que Jiheon tivesse tempo de se conter. Jaekyoung se virou. Ainda de braços cruzados, Jiheon continuou em voz baixa: — Acho melhor você ir direto para o hotel hoje.
Jaekyoung lançou a Jiheon um olhar ligeiramente surpreso, algo raro nele. E não era para menos. Era a primeira vez que Jiheon interferia de maneira tão explícita. Além disso, nunca havia tentado restringir suas ações daquela forma, nem mesmo em relação aos treinos.
— O senhor empresário está preocupado que você fique cansado, Jaekyoung. — Cha Seonghyeon se intrometeu sem demora. — Você está cansado? Então eu vou embora.
Cha Seonghyeon fingiu estar do lado de Jaekyoung e passou a ele o poder de escolha. Mas, a menos que tivessem combinado desde o início de se encontrar em outro lugar, não havia como Jaekyoung simplesmente mandar embora o Cha Seonghyeon que tinha vindo até ali buscá-lo.
— Não estou especialmente cansado.
— Viu? Está tudo bem, né? Então vamos só jantar. Depois eu te levo até o hotel. — Cha Seonghyeon falou animado e, olhando para Jiheon, sorriu com os olhos, como quem dizia: “Pode deixar, vou levar o Jaekyoung direitinho até o hotel.”
— Vou só jantar e depois volto direto para o hotel. Estou em boas condições.
— Não. Vá direto para o hotel — insistiu Jiheon.
Só então Jaekyoung olhou para ele como se desconfiasse de que havia algo por trás daquela insistência.
— Ah, senhor empresário. Por quêee?
Cha Seonghyeon agarrou a manga da camisa de Jiheon e a sacudiu, fazendo manha. Mesmo assim, continuava rindo, como se estivesse se divertindo horrores. Estava na cara que, assim que ficasse a sós com Jaekyoung, contaria a ele cada detalhe da conversa. Por isso, Jiheon não podia deixar que Cha Seonghyeon o levasse de jeito nenhum.
— Entre logo. — Jiheon falou apontando para o carro da empresa parado em um canto do estacionamento.
Cha Seonghyeon o observou por um instante e, soltando a manga que segurava, disse:
— Jaekyoung, o senhor empresário deve estar com ciúmes porque a gente tem se encontrado demais ultimamente.
— Não faça esse tipo de piada. Não tem graça nenhuma — Jaekyoung disse, sério.
Jiheon estremeceu um pouco diante daquilo. Se Jaekyoung tivesse apenas ficado irritado, tudo bem, mas ouvi-lo falar com tanta seriedade, de algum modo, doeu ainda mais.
《Ei, não precisava detestar tanto assim a ideia.》
Enquanto lamentava em silêncio, Jaekyoung passou a mão bruscamente pelo cabelo e se despediu de Cha Seonghyeon:
— A gente se vê depois. Hoje eu vou passar. — Depois disso, ele olhou para Jiheon e disse: — Vamos, hyung.
Ter conseguido colocar Jaekyoung no carro em segurança foi ótimo, mas o problema veio depois.
— Por que você fez aquilo agora há pouco? — Jaekyoung perguntou enquanto colocava o cinto de segurança.
— Porque falta só uma semana para a competição.
— Estou em boas condições. Não é como se eu fosse beber só porque vou sair o Seonghyeon hyung.
— Ainda assim…
Jaekyoung ficou olhando para ele em silêncio quando, de repente, seu celular tocou. Jiheon estalou a língua por dentro.
— O que foi?
Jaekyoung atendeu e foi direto ao assunto, sem sequer cumprimentar. Provavelmente era Cha Seonghyeon. Jiheon disfarçou a inquietação e tirou o carro do estacionamento. Prendeu a respiração e tentou captar algum vestígio da voz de Cha Seonghyeon, mas foi inútil. Dentro do carro, só se ouvia o ar-condicionado. De vez em quando, Jaekyoung respondia com um “e daí?” ou “e então?”, mas era impossível descobrir do que estavam falando só com aquilo.
Bem, mesmo sem ouvir a conversa, Jiheon podia imaginar.
Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, considerando o quanto ele havia se esforçado para explicar tudo nos mínimos detalhes, teria se contido. Mesmo que Cha Seonghyeon tivesse algo a dizer, deveria ter deixado para depois da competição, pelo menos na medida do possível.
Mas Cha Seonghyeon não tinha um pingo de bom senso. Estava longe de ser alguém razoável. Era do tipo que pensava apenas em fazer o que queria, sem se importar com os outros. A essa altura, provavelmente estava todo animado, contando a Jaekyoung exatamente o que Jiheon havia dito.
Como era de se esperar, assim que desligou, Jaekyoung apoiou o celular no painel e disse:
— Sobre o que você conversou com o Seonghyeon hyung?
— Pedi que ele deixasse você se concentrar, já que falta pouco para a competição.
Jiheon falou em tom seco.
— Sair para comer juntos não me cansa. E eu faço questão de não beber.
— Eu sei. Mas às vezes o cansaço mental é ainda mais pesado.
Jaekyoung não respondeu. Apenas olhava para Jiheon em silêncio. Diante daquele olhar explícito, Jiheon implorou internamente:
《Por favor, Jaekyoung. Mesmo que você tenha algo a dizer, vamos deixar para depois da competição.》
— Hyung, você fez isso porque acha que eu gosto do Seonghyeon hyung?
Mas Kwon Jaekyoung era assim. Por mais arbitrário que Cha Seonghyeon fosse, ainda não chegava aos pés de Kwon Jaekyoung. Aquele, sim, era o tipo de sujeito que não sossegava enquanto não conseguisse exatamente o que queria.
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◆ Tradução e raws Belladonna, revisão Nat ◆