Capítulo 03.4
𓆝 ⋆。𖦹°‧ Capítulo 3.4
Jaekyoung, talvez por ter os olhos profundos, tinha cílios especialmente longos. Quando as gotas se prendiam neles, não escorriam facilmente, e era como se ele estivesse com joias por cima. Por isso ele piscava algumas vezes; e, quando não adiantava, esfregava os olhos com a mão — imagem que Jiheon sempre achara muito fofa. Porque a expressão indefesa, típica de uma criança, se revelava por inteiro e, excepcionalmente, ele parecia ter a idade que tinha. Por isso, quando Jaekyoung tirava os óculos depois de dar voltas na piscina, ele até esperava intimamente que ele esfregasse os olhos com a mão. Isso, exatamente como agora.
— Hyung.
Jaekyoung chamou Jiheon enquanto esfregava os olhos com a ponta dos dedos.
《 Ei, me chamar assim com o mesmo rosto de dez anos atrás não é golpe baixo?》
Dizendo isso mentalmente, Jiheon se levantou.
— É você que não está sendo justo.
Levantando-se enquanto gemia de propósito, ele ajeitou os óculos e foi até o bloco de partida. Ao ver Jiheon subindo no bloco, Jaekyoung fez uma expressão um pouco surpresa.
— Você insistiu tanto e agora vem com essa cara?
Jiheon deu uma risadinha enquanto apertava a tira dos óculos. E se inclinou, assumindo a posição de mergulho.
Ele achou que, de tão sem prática, já seria sorte se não desse uma barrigada, mas, assim que se inclinou, as duas mãos agarraram a borda da plataforma e o pé esquerdo recuou. Com o peso transferido para a base, no momento exato em que sentiu que era a hora, o corpo mergulhou naturalmente na água.
O corpo afundou fundo na água. Ele não sabe quantas vezes teve sonhos parecidos nos últimos dez anos. Mas o corpo não estava pesado como nos sonhos. Pelo contrário, estava leve como se fosse voar. Por isso ele teve que dar as pernadas de golfinho em um ponto mais próximo da superfície do que o habitual.
Depois de emergir também não foi diferente. O corpo estava inacreditavelmente leve. Era a primeira vez que sentia o próprio corpo tão leve desde o Mundial. Girar o ombro com toda a força não doía, e o cotovelo estava perfeito.
Com apenas algumas braçadas, Jiheon já chegava aos 50m e, assim que virou, moveu os braços com ainda mais força. Não estava em competição e não precisava fazer tempo, mas o corpo acelerava sozinho. Aquele instante de cortar a água fria e avançar amplamente era tão bom, e ele queria aproveitá-lo mais, que só lhe restava se mover com mais força e mais rapidez.
Em algum momento a figura de Jaekyoung apareceu em seu campo de visão. Jiheon pensou por um instante em parar ali, mas, mesmo enquanto pensava isso, os braços continuavam se movendo. No fim ele não parou no meio, foi até o fim e tocou a parede com a mão. Só depois de tocar o painel com a mão, é que interrompeu o movimento.
Enquanto tirava os óculos ofegando, Jaekyoung disse:
— Está conferindo o tempo? Por que você levanta tanto a cabeça?
— Ei, para com isso!
Jiheon falou horrorizado. Era o que o técnico Lim gritava para as crianças toda vez. Ao ver Jiheon com aquela repulsa, Jaekyoung riu alto, com um “ha ha!”.
Jiheon não disse nada, mas ficou bastante surpreso. Porque era a primeira vez que Jaekyoung ria assim tão abertamente. Era a primeira vez que ouvia o riso dele, e também a primeira vez que o via se divertindo daquele jeito; tudo era a primeira vez.
De algum modo o coração bateu forte. Como dez anos antes, quando ouviu que a forma como ele nadava era bonita, o peito flutuou. Desconcertado consigo mesmo, Jiheon se apressou em passar as duas mãos pelo rosto molhado e disse:
— O técnico Lim dizia isso mesmo quando os alunos iam direito sem levantar a cabeça.
— É pura implicância.
— Isso. Era um sujeito que acreditava que precisava dar pelo menos uma bronca de qualquer jeito.
— Eu detestava mesmo aquele homem.
— Por causa da bebida?
— Por isso também.
Jaekyoung apenas respondeu brevemente, sem dizer o motivo concreto de detestá-lo. Bem, os motivos para detestar aquele homem não eram poucos. Se fosse listar tudo, não teria fim.
— Como técnico, ele é mesmo meio ruim. Não é do tipo que sabe ensinar, e ainda é autoritário demais. Mas, como atleta, bom, não era ruim — Jiheon assentiu enquanto falava. — Ele ganhou prata nos Jogos Asiáticos no nado costas, não foi? Considerando que ele parou alguns anos no meio por causa de uma lesão e, com uma reabilitação diligente, acabou ganhando medalha, é impressionante. Na época de atleta, ele devia ter garra e uma determinação enorme.
Jaekyoung, que ouvia em silêncio, disse de repente:
— Você sempre tenta ver primeiro o lado bom das pessoas, hyung, seja quem for.
— Eu?
Quando Jiheon devolveu a pergunta com um rosto de quem não sabia, Jaekyoung assentiu.
— Parece que você sempre encontra pelo menos um motivo para elogiar.
— É mesmo? Será que é um vício profissional? Para fazer esse trabalho é natural ter que identificar todos os pontos fortes do atleta. E os fracos também.
— Você era assim desde antigamente.
Jaekyoung falou com tanta firmeza que Jiheon só conseguiu dizer, sem graça: “Ah, é?”.
— De qualquer forma, aquilo de virar a cabeça era brincadeira; a postura estava boa. A forma da braçada não se desfez nem um pouco.
Jaekyoung falou, jogando água nos ombros.
— É porque eu fui devagar no começo. Se fosse mais rápido, ia dar problema.
Jaekyoung fez uma expressão de “acho que ficaria bem” e, movendo a cintura dentro da água, alongou-se levemente enquanto dizia:
— Você não nadou nenhuma vez nesses dez anos?
— Não. Entrar na piscina em si já foi a primeira vez.
— Por quê?
— Por estar ocupado? — Jiheon logo riu, dizendo que era brincadeira, e emendou: — É que, se eu fosse com outras pessoas, elas iam querer que eu mostrasse como eu nado, e isso eu não ia fazer.
— Era só mostrar.
— Não quero.
— Por quê?
— Depois de ter largado a natação, pareceria que eu estaria me exibindo.
— Mesmo tendo largado, quem é bom é bom; qual é o problema?
Jaekyoung falou como quem não entendia. Como Jiheon apenas riu, Jaekyoung murmurou com um rosto de criança emburrada:
— Podia nadar sozinho, pelo menos.
Jiheon balançou a cabeça devagar. Queria dizer que não tinha vontade.
— Nos primeiros anos depois de largar a natação eu não chegava nem perto da água.
— Porque estava de saco cheio?
— Talvez? E também havia muita coisa para fazer além de nadar. Largando a natação, apareceu mesmo muita coisa para fazer.
Jiheon falou apoiando os dois braços na raia flutuante.
— No ensino médio eu fiquei ocupadíssimo me preparando para os vestibulares no tempo que sobrou, e na faculdade fiquei ocupadíssimo me divertindo.
— Que vida boa.
Jaekyoung falou com um “hunf”.
— É verdade. Foi uma boa vida.
Jiheon concordou rindo.
— E aí, no terceiro ano da faculdade, se não me engano. Fui com uns amigos a uma casa com piscina nas férias, e a piscina era razoavelmente grande.
— E você entrou nela?
— Não. — Jiheon falou ainda sorrindo. — Em quatro dias e três noites eu não entrei uma única vez.
— Por quê?
— Porque, se entrasse, com certeza ia querer nadar; e, depois de nadar, ia me lembrar dos velhos tempos.
Jiheon transferiu o peso para a raia flutuante. A raia oscilou bastante e ondulações se formaram na superfície antes tranquila. Recostado na raia, Jiheon moveu amplamente apenas uma das pernas dentro da água, de um lado para o outro.
— Eu achava que as pessoas que largavam o esporte odiavam falar daquela época por causa das memórias de treino duro e do sofrimento com as lesões, mas não era isso: era por causa do arrependimento do que deixaram para trás.
Na ponta dos pés, no joelho, nas coxas, a água girava ao seu redor. Aquela água de que ele gostava tanto e da qual tanto quisera escapar voltava a envolver seu corpo inteiro.
— Era por aquele arrependimento de “e se eu tivesse aguentado só mais um pouco? E se eu tivesse tentado só mais uma vez, o que teria acontecido?”. Mas, mesmo assim, o resultado provavelmente teria sido o mesmo — Jiheon assentiu lentamente. — Racionalmente eu sei disso, mas ainda assim não dá para se livrar desse sentimento. Talvez isso que se chama arrependimento.
— Hyung.
Diante do chamado repentino de Jaekyoung, Jiheon disse “hm?” e ergueu a cabeça. Quando os olhares se cruzaram, Jaekyoung falou com uma voz que afundava pesadamente:
— Você também odeia me ver nadando, por acaso?
Jiheon hesitou por um instante antes de decidir falar com sinceridade:
— No começo me senti um pouco assim. Mas agora não. E mesmo no começo não era um “odeio isso”; eu olhava pensando que você era incrível. Só que, ao te ver nadar, de vez em quando eu me lembrava dos velhos tempos e pensava “e eu, como era?”, e isso era um pouco difícil.
Mas, quanto mais olhava, mais lhe parecia que aquele ciúme ou complexo de inferioridade também eram completamente sem sentido. Kwon Jaekyoung era Kwon Jaekyoung. Não era à toa que era o melhor do mundo, e ele havia se esforçado muito além do que lhe fora dado por natureza. Quem não se esforçara igual a ele, ou mais do que ele, não tinha nem o direito de sentir ciúmes.
Pior ainda: ele agora nem era atleta; pelo contrário, estava na posição de cuidar e apoiar atletas. Cada um tinha um papel diferente, e ele não queria sofrer se comparando à toa com algo do passado, e não do presente. Jaekyoung era, para ele, alguém a quem apoiar e proteger, não um objeto de competição.
Seu adversário não eram os atletas dentro da água, mas sim as agências fora dela. E, no momento, ele tinha Kwon Jaekyoung. Se Jaekyoung tinha o corpo perfeito que todos os atletas cobiçavam, ele tinha o atleta perfeito que todas as empresas cobiçavam. Tendo conseguido aquilo que tanto queria, era hora de trabalhar sem mais desculpas disso e daquilo. Se mais tarde sairia da equipe exclusiva ou não, isso era assunto para depois; de qualquer forma, enquanto estivesse ao lado de Jaekyoung, o certo era fazer tudo o que pudesse por ele.
— E, há pouco, enquanto eu estava sentado ali…
Jiheon apontou para o lado da borda onde estivera sentado. Olhando para lá, ele começou a dizer alguma coisa, mas logo apenas assentiu, sorrindo.
— De qualquer forma, está tudo bem. Agora está tudo bem — Jiheon repetiu.
— Sério?
— Sim. Foi por isso que eu entrei na piscina também. Se eu detestasse de verdade, teria dado um jeito de não entrar. E muito menos nadar. — Dizendo isso, Jiheon endireitou o corpo que estava recostado na raia. — De qualquer forma, nadar depois de tanto tempo é bom mesmo. A sensação é de que o corpo se solta.
Talvez por ter ficado com os braços apoiados na raia, as suas escápulas estavam doloridas. Jiheon repetiu o movimento de esticar bem os dois braços para cima, como quem se espreguiça, e baixá-los devagar.
— Você não fez nenhum outro exercício todo esse tempo?
— Só um pouco de academia na faculdade?
— Se é assim, o seu estado físico até que não é ruim.
— Qual é o critério de “não é ruim”?
Jiheon riu, achando aquilo absurdo.
— Na verdade eu achava que você teria acumulado mais gordura.
— Ah, eu tenho uma genética que não engorda fácil.
— Pois é. Pelo contrário, você está até um pouco mais magro do que eu imaginava.
— É porque perdi todo músculo.
Quando ele falou apalpando o antebraço, sem graça, Jaekyoung disse:
— Hyung, o seu braço nunca foi cheio de músculos mesmo.
《 Esse desgraçado tem uma memória e tanto.》
Estalando a língua mentalmente, Jiheon falou tardiamente, como quem se justifica:
— É meu biotipo. Por mais pesado que eu pegue na musculação, meus braços não ganham músculos.
— É, existem pessoas assim mesmo. — Excepcionalmente, Jaekyoung não retrucou e assentiu docilmente. — Entre os atuais atletas japoneses tem um com o físico parecido. Kudo, se não me engano, do nado de costas; quando o vi pela primeira vez me surpreendi. O abdômen é absurdo, mas os braços são finíssimos.
— Ah, comigo o abdômen também é o que aparece mais rápido e some por último. Até hoje, se eu contrair, talvez dê para ver alguns gominhos.
Para melhor entendimento durante a leitura:
《Pensamento》
[Telefone]
「Fala da tv ou narrador」
*Escrita*
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆