Capítulo 03.3
𓆝 ⋆。𖦹°‧ Capítulo 3.3
— Ouvi dizer que entrou um garoto excelente na turma do fundamental I.
Provavelmente foi cerca de dois meses depois do fim do Mundial. Na sala de espera, perto da lanchonete, ele ouviu adultos conversando sobre o assunto. Jiheon deduziu que deviam ser os pais dos alunos do ensino fundamental II. A conversa começou com um “dizem que o técnico Lim está tão empolgado que só dá atenção a ele” e logo evoluiu para “na época dos nossos filhos, ele só gritava de fora da água; não é demais? Se o técnico Lim tivesse dedicado um pouco mais de tempo a eles naquela época, os tempos seriam melhores do que hoje; o técnico Yoo até orienta bem, mas é mole demais”, terminando enfim em reclamações sobre o técnico Yoo, do fundamental II.
É claro que Jiheon ouviu com um ouvido e deixou sair pelo outro. Para começar, era uma conversa que não tinha nada a ver com ele e, além disso, os boatos que os pais daquele meio espalhavam eram, na maioria, absurdamente inflados. Fora tudo isso, o próprio fato de o técnico Lim se dedicar assim a um único aluno não fazia sentido. Aquele homem era técnico só no nome; pelo modo como ensinava, era pior do que um instrutor horista. Um sujeito que supostamente era treinador e nem entrava na piscina, apenas gritava de fora até o fim. E aquele mesmo técnico Lim estaria ensinando um único aluno em separado? Era evidente que algum pai havia inflado enormemente um ajuste de postura feito uma ou duas vezes e espalhado a fofoca. Foi o que ele pensou na época.
Não demorou muito para Jiheon confirmar a veracidade do boato.
Foi na terça-feira da primeira semana das férias de inverno. Como sempre, Jiheon foi à piscina depois da fisioterapia e testemunhou uma cena surpreendente.
O técnico Lim estava dentro da água ensinando alguém. E com muito afinco, demonstrando cada movimento de braço. Quem seria, para o técnico Lim se dedicar tanto assim? Será que a esposa do diretor do centro tinha vindo? — foi o que pensou ao olhar, mas, surpreendentemente, era um menino do ensino fundamental.
O técnico Lim, que nem entrava na água mesmo com dezenas de alunos olhando para ele, ficava apenas agitando os braços de fora, se atirando de corpo e alma para ensinar um único garoto do fundamental. Só então Jiheon percebeu que a história que circulava no centro não era simplesmente boato infundado.
O fato de o técnico Lim estar ensinando alguém com tanto entusiasmo era surpreendente, mas mais surpreendente ainda era a habilidade do garoto. Ele o viu nadando 400m medley: era rápido a ponto de ser inacreditável que fosse um aluno do fundamental, e a postura era excelente.
Só então Jiheon achou que entendia por que o técnico Lim havia se jogado com tanto entusiasmo. Ele achou que valia a pena investir de verdade. Considerando que o menino estava apenas no quarto ano do fundamental e que fazia menos de um ano que aprendera a nadar, dava para dizer que era genial. Se fosse bem treinado, dava para almejar não só a seleção nacional, mas até uma medalha nos Jogos Asiáticos.
Depois disso, ele via aquele garoto toda terça e quinta-feira. O horário de treino do garoto parecia ser das duas às quatro nos dias úteis. O de Jiheon era das quatro às seis. Jiheon costumava se esforçar para chegar no horário certo, mas inevitavelmente havia dias em que chegava um pouco mais cedo. Principalmente às terças e quintas, dias de fisioterapia. Saindo direto da clínica depois do tratamento e caminhando devagar até o centro de natação, ele sempre chegava por volta das 15h30. E então, por mais devagar que trocasse de roupa e fosse para a piscina, eram umas 15h45.
Quando chegava, o garoto estava sempre dando voltas sozinho na piscina. Se o treino começava às duas, o horário de término devia ser exatamente às 15h50, mas ele sempre nadava até as quatro. Como se não pudesse perder nem dez minutos, cortava a água sem descansar um instante. Passados uns três ou quatro meses, o técnico Lim — talvez porque os velhos hábitos tenham voltado — passou a se enfiar na sala de descanso dos instrutores e a dormir cada vez com mais frequência, mas, ainda assim, o garoto continuava dedicado.
Nessa época, o tempo de fisioterapia de Jiheon foi encurtado, e ele passou a chegar ao centro de natação ainda mais cedo do que antes. Ao contrário de antes, quando se esforçava para entrar mais tarde de qualquer jeito, agora, chegando a qualquer hora, ele ia direto para a área da piscina. E, até o início do próprio treino, ficava assistindo ao garoto nadar.
Quando o garoto completava a metragem que o técnico Lim havia determinado, no tempo restante ele nadava livremente — e treinava principalmente nado livre. É claro que também treinava os outros estilos, mas, em comparação com o nado livre, era mais um nível de revisão esporádica.
O técnico Lim parecia pretender formá-lo tendo o nado livre como prova principal e, ainda por cima, como velocista de curta distância. Mas Jiheon achava aquilo um pouco desperdício. Porque, para se contentar apenas com nado livre de curta distância, o garoto se saía bem também nos outros estilos e era rápido. Se, mesmo treinando quase só nado livre, ele já estava naquele nível, então bastaria dedicar um pouco mais de atenção aos outros estilos para obter resultados descomunais. Como era um garoto com ótimas condições físicas e bom equilíbrio, ele pensou que, se fosse bem conduzido, dava para ter expectativas também no medley.
Mas era mais do que evidente qual seria a reação do técnico Lim se ele dissesse aquilo. “Você agora, por ter ganhado uma medalha no Mundial, não enxerga mais nada? Nunca te ensinei, mas eu sou um técnico de fato. Quem conhece melhor esse garoto, você ou eu? Eu faço tudo isso com um propósito; quem é você para se meter? Se é assim, então seja você o técnico dele” — era evidente que ele diria todo tipo de coisa.
E dizer aquilo diretamente ao garoto… a reação do próprio interessado provavelmente não seria muito diferente. É claro que ele não esbravejaria “quem é você?” como o técnico Lim. Pelo contrário, era grande a probabilidade de ele apenas olhar uma vez com uma expressão de “quem é que está latindo aí?” e ir embora. Pela personalidade daquele garoto, ele era perfeitamente capaz disso.
Na verdade, ele já tinha ouvido algumas vezes que o garoto era muito arrogante, que tinha o hábito enraizado de ignorar as pessoas por se achar bom. Ainda assim, ele pensava《 será que é tanto assim? Deve ser mais um exagero de pais cegos de inveja 》— mas era verdade. Ignorar as pessoas não era no sentido de desprezar e menosprezar; era literalmente fingir que não as via.
Com Jiheon não era exceção: dentro ou fora da piscina, mesmo o vendo, ele não dava sinal de reconhecimento. Ainda assim, quando o via na lanchonete e lugares assim, Jiheon fazia questão de dizer “ei” e cumprimentá-lo com um rosto alegre, mas o garoto apenas o olhava de relance, fazia um aceno de olhos que mal era um aceno e passava direto. Depois de aquilo se repetir algumas vezes, Jiheon também ficou meio desanimado e deixou de cumprimentá-lo ao vê-lo.
《…E, ainda assim, continuo assistindo a ele nadar.》
Jiheon riu, achando aquilo absurdo até para ele mesmo. Mas não havia jeito. Porque ele era bom demais. A velocidade com que cortava a água era descomunal, e a postura era ótima; ficar olhando dava até uma sensação de alívio no peito. E, além disso, ao contrário da aparência, ele não enrolava, era dedicado; por mais difícil que fosse, não puxava o braço para o lado nem baixava o ângulo do cotovelo. Cerrava os dentes e se esforçava para manter exatamente a postura que aprendera no início. Como aquilo era visível, ele achava aquele garoto admirável, achava impressionante para uma criança e, na mesma medida, se preocupava.
Por isso, depois de muito hesitar, um dia ele puxou conversa assim que o garoto saiu da água.
— Ei, escuta.
O garoto, como sempre, apenas olhou de relance para Jiheon em vez de responder. Como ele não havia puxado conversa esperando uma reação afetuosa, Jiheon não se importou e disse apenas o que tinha a dizer.
— Vi que, no nado livre agora há pouco, você gira muito o ombro; fazendo assim o braço não dói?
— Não dói.
O garoto respondeu secamente. A voz rachada e rouca típica da mudança de voz incomodava os ouvidos. Ele até pensou por um instante que talvez fosse por isso que ele falava pouco, mas tanto fazia. Naquele momento não era isso que importava.
— Mesmo que não doa agora, pode doer mais tarde. O técnico Lim não fala nada?
O garoto balançou a cabeça.
Bem, é claro. Deve ter sido ele quem ensinou a fazer assim.
E não era só o técnico Lim. Incluindo o técnico Park, que havia treinado Jiheon, a maioria dos técnicos formados em educação física ligados à federação atual ensinavam a braçada de propulsão de ombro como se fosse o padrão. Era porque não conseguiam se libertar da fórmula pré-histórica de que curta distância é propulsão de ombro e longa distância é propulsão de quadril. Todos eles aprenderam assim e, graças a isso, com habilidade superior à dos demais, chegaram até a seleção nacional, então acreditam que isso é o certo. De qualquer forma, como a possibilidade de um atleta do país ganhar medalha em Olimpíadas ou Mundiais é remota, sob a meta de formar bem alguém e levá-lo à seleção nacional, ensinavam exatamente o que haviam aprendido. Afinal, se a braçada de propulsão de ombro for bem aproveitada, os tempos saem bons de imediato. O quanto isso aumenta o risco de lesão e que tipo de sobrecarga impõe ao corpo do atleta não era da conta deles.
A tendência de tentar formar como velocistas de curta distância todos os alunos do fundamental que pareciam ter algum talento seguia a mesma lógica. Na natação, do fundamental II em diante já se podia participar da seletiva da seleção nacional. Mas, por mais habilidoso que fosse um aluno do fundamental II, era difícil vencer estudantes do ensino médio e adultos. Especialmente nas provas longas, com grande desgaste físico, era praticamente sem chance. Por isso os técnicos, querendo resultados rápidos de qualquer jeito, ignoravam as condições físicas e as aptidões individuais de cada atleta e empurravam a curta distância incondicionalmente.
Não havia como o técnico Lim ser diferente. Pelo contrário, como o técnico Park, do mesmo centro, havia formado um discípulo medalhista mundial, ele devia estar louco para produzir logo um atleta de destaque também. Naturalmente devia estar fazendo o garoto treinar até a morte apenas o nado livre, sua prova principal. E ainda por cima da forma que rendesse a maior velocidade imediata, invocando um conceito que no Ocidente já quase não se usa, por ser considerado de eficácia mínima diante do risco de lesão.
— Não estou dizendo que o método do técnico está errado… mas, se sobrar um tempo, procure vídeos de atletas estrangeiros no YouTube. Isso vai ajudar bastante.
Jiheon falou tomando o máximo de cuidado para não soar como quem dá lição.
— Se você olhar os medalhistas olímpicos, as posturas são todas diferentes. E hoje em dia há a tendência de considerar que, mantendo bem o quadrante anterior, é mais eficiente adaptar o resto às características físicas de cada um. E, olha, mesmo fazendo assim eles são bem rápidos mesmo. Rápidos e, com certeza, com menos sobrecarga no ombro. Então dê uma olhada.
Jiheon sugeriu em tom leve.
— Depois de olhar, não seria ruim procurar um método que combine com você. Na minha opinião, além do nado livre, você é bom em tudo, então acho que seria bom mirar também no medley. E aí, como o borboleta já exige muita força nos ombros, é melhor ir por um caminho que reduza a sobrecarga ao menos no nado livre. E, mesmo que não fosse isso, se você continuar girando o ombro tão amplamente como agora, há grande chance de sofrer depois.
Ele hesitou entre dizer ou não “como eu”, e o garoto murmurou:
— …ito.
Como ele murmurou baixo com aquela voz já rouca, a fala se cortou e quase não deu para ouvir.
— Desculpa, o quê?
Jiheon perguntou inclinando o ouvido na direção do garoto. O garoto pareceu hesitar um instante e logo falou com a voz rouca:
— Assim é mais legal. Girar bem o ombro e levantar bem o cotovelo deixa a forma da braçada bonita. Como a sua, hyung. — O garoto acrescentou em voz baixa.
Jiheon já não se lembra do que respondeu naquela hora. Talvez tenha dito rindo “ei, você nada pela estética?”, talvez tenha dito com seriedade “ainda assim você tem que corrigir”, ou talvez não tenha conseguido dizer nada.
Mas ele se lembrava com certeza de que, diante daquela fala inesperada, o coração flutuou à toa. E também de que, por isso, ele não conseguiu entregar ao técnico a carta que guardara na bolsa — a carta em que dizia que queria parar de nadar — e voltou com ela.
Jaekyoung, no fim, nunca corrigiu o estilo. Como naquela época, continuava girando muito o ombro e movendo os braços com força.
Vendo Jaekyoung nadar exatamente daquele mesmo jeito, com uma postura semelhante à do seu antigo eu, era inevitável que sentimentos diversos surgissem.
Ele sentia vergonha de si mesmo por ter tido a ousadia de aconselhá-lo pensando apenas pelo próprio critério, sendo que ele era diferente dele; e sentia inveja de que ele, mesmo tendo aprendido do mesmo jeito, longe de se lesionar, continuasse ocupando o posto de melhor do mundo. Sentia uma inveja insuportável do corpo robusto que ele tinha de nascença, dos braços longos e das mãos e pés grandes, daquela força capaz de avançar vários metros com uma única braçada.
E, ao mesmo tempo, ao evocar os olhos brilhantes do garoto que tratava seu antigo eu quase como objeto de admiração, um canto do peito ficava com cócegas e também latejava.
— Você não vai mesmo nadar?
Jaekyoung, que em algum momento havia completado 400m e chegara a um total de 500m, falou. Como Jiheon apenas riu em vez de responder, Jaekyoung tirou os óculos e suspirou:
— Você está sendo injusto.
Para melhor entendimento durante a leitura:
《Pensamento》
[Telefone]
「Fala da tv ou narrador」
*Escrita*
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆