Capítulo 02.6
𓆝 ⋆。𖦹°‧ Capítulo 2.6
Terminada a refeição, Jiheon foi até o quarto onde Jaekyoung estava. Quando ele parou diante da porta e bateu com cuidado, a senhora Sim, que preparava café na cozinha, gritou:
— Esse daí não responde nem se você chamar. Não se preocupe, abra a porta e entre.
Acatando o conselho da senhora Sim, Jiheon abriu a porta do quarto com ousadia. Jaekyoung, que estava deitado na cama com fones de ouvido, franziu a testa e disse “o que foi?”.
— Você tem compromisso hoje?
Diante da pergunta de Jiheon, Jaekyoung tirou os fones e perguntou de volta: “O que você disse?”.
— Estou perguntando se você tem compromisso a partir deste horário.
— Por quê?
— Se não tiver nada para fazer, eu vou cumprimentar o presidente da associação de apoio; quer ir junto?
— Cumprimentar por quê?
— Só para dizer que a partir de agora somos nós que cuidamos de você. Que vamos fazer um bom trabalho e que ele nos apoie, essas coisas…
— Não vou.
Jaekyoung respondeu sem nem ouvir Jiheon terminar.
— Por quê, não quer ir?
— É evidente que, se eu for, ele vai mandar eu ir às Olimpíadas; para que ir?
Jaekyoung falou como quem está com preguiça.
— E aquele velho também não deve estar esperando me ver. Alguns anos atrás eu estava na Coreia por causa da seletiva olímpica e ele ficou me chamando tanto que eu falei umascoisa.
— O que você disse…?
— Que já falta tempo para treinar e que fica complicado se ele ficar me chamando.
《 “…Esse aí é genuíno.”
Jiheon pensou com seriedade.
Por mais que ele falasse o que queria sem distinguir com quem, ter esse tipo de atitude até com quem lhe dava dinheiro… Se fosse do tipo comum, que é duro com os fracos e mole com os fortes, dava para tentar corrigir; mas, se ele era assim do começo ao fim, sem desvio, então só restava reconhecer. Reconhecer que ele tinha nascido assim mesmo. Naquele ponto, Jiheon chegava a se perguntar se não havia um problema no hemisfério direito do cérebro, que dizem ser responsável pelo julgamento situacional e pela leitura de ambiente. Mesmo que os neurônios estivessem intactos, era certo que parte das sinapses estava rompida.
— Está bem… se você fosse também, o presidente levaria um susto.
Jiheon assentiu, dizendo “entendi”. Quando ia fechar a porta depois de dizer que iria sozinho e que ele descansasse, Jaekyoung falou:
— Você vai cumprimentar só o presidente?
— Não. Preciso passar também no escritório da federação.
— Por que na federação?
— Também é preciso cumprimentar eles.
Diante da fala de Jiheon, Jaekyoung franziu o cenho em silêncio. Era uma expressão de que algo não lhe agradava. Jiheon decidiu não se preocupar. Nem pretendia perguntar o que o incomodava. Porque, se fosse abordar as coisas por esse lado, seria mais rápido procurar no mundo algo de que Jaekyoung gostasse.
— Descanse.
Depois de dizer isso, Jiheon saiu do quarto.
— O Jaekyoung disse que vai?
A senhora Sim perguntou enquanto lhe entregava uma xícara de café.
— Não.
— Eu sabia. Não tinha possibilidade de ele ir.
A senhora Sim balançou a cabeça, como quem nem criara expectativa desde o início.
— Ele estava tão cansado que pulou até o treino da tarde; num dia desses é melhor não se mexer e descansar bem.
Mal Jiheon terminou de falar, a porta do quarto interno se abriu e Jaekyoung saiu com um boné enfiado na cabeça.
— Combinei de encontrar um amigo; como é no mesmo caminho, me dê uma carona.
— Onde vocês combinaram de se encontrar?
— Em Itaewon.
O escritório da federação ficava em Yongsan, então de fato era no mesmo caminho.
— Mas eu preciso passar antes na casa do presidente Cho. Combinei de estar lá às duas.
Jiheon falou conferindo as horas no celular.
— Você vai ter que esperar no carro enquanto eu falo com o presidente; tudo bem? Vou só cumprimentar, então não deve demorar.
— Tudo bem.
— Certo, então vamos.
Jiheon tomou um gole de café e pousou a xícara.
Ao chegar ao estacionamento, Jiheon pediu que Jaekyoung esperasse um instante e organizou primeiro o banco de trás do carro. Só depois de tirar de qualquer jeito as bolsas e objetos jogados e abrir espaço para Jaekyoung se sentar é que ele entrou no banco do motorista.
— Entra.
Quando ele falou enquanto colocava o cinto, Jaekyoung, contrariando as expectativas, abriu a porta do banco do carona.
— Senta atrás. Eu organizei pra você.
— Não quero. Isso aqui não é táxi.
《 “Isso quer dizer que ele não me vê como o motorista dele? Ou que ele acha ruim eu dirigir enquanto ele viaja confortável no banco de trás?”
Se outro atleta tivesse dito aquilo, ele teria pensado exatamente isso sem sombra de dúvida; mas, sendo Kwon Jaekyoung, levou tempo para captar o sentido.
— Pode considerar que é um táxi. Fazer o papel de motorista é parte do nosso trabalho também. Daqui em diante, sempre que você for a compromissos, vai andar em carros dirigidos por mim ou por funcionários da nossa empresa, e você não precisa ir na frente toda vez…
— Eu me viro.
Jaekyoung cortou Jiheon e entrou no banco do carona. Os bancos da frente ficaram lotados num instante. Mesmo sendo um sedã grande, com espaço razoável na frente, com dois homens enormes sentados lado a lado dava uma sensação sufocante. Jiheon se apressou em abrir a janela.
— Vou abrir a janela um instante por causa do cheiro do ar-condicionado.
Ele falou ligando o ar-condicionado tardiamente. Jaekyoung não respondeu nada. Com uma expressão de indiferença, ele apenas apoiava o braço no batente da janela, olhando para a frente. Só por aquela imagem, não havia nada de estranho.
Deve ser isso mesmo. Ele havia colocado o chip direito e confirmara duas, três vezes que funcionava sem problemas. Se ainda assim houvesse liberação de feromônios a ponto de Jaekyoung detectar, aí seria caso de denunciar o fabricante do chip.
Ele sabia disso, mas não havia jeito de conter a inquietação. Será que aumento mais um pouco a dose do remédio? Jiheon pensou enquanto dava ré. Já estava com uma dose excessiva para o seu caso, mas por algum motivo não se tranquilizava. Havia o histórico, e ainda por cima a conversa que tivera com a diretora Lim, o que o deixava ainda mais preocupado.
Enquanto conferia a agenda mentalmente e calculava um dia em que pudesse ir à clínica, Jaekyoung perguntou de repente:
— Este carro é seu?
— Eu não compraria um carro tão grande.
Jiheon falou enquanto girava o volante com afinco.
— É carro da empresa.
— Quando você tirou a carteira?
— Na época da faculdade.
— Em que ano?
— Sei lá, acho que não foi no primeiro ano. Talvez no segundo.
— Você não comprou carro?
— Não, não comprei. Na faculdade eu usava o carro que o meu pai dirigia, e depois que entrei na empresa, como a distância até a casa onde moro agora é curta, vou a pé ou de ônibus.
Ele respondia quando perguntavam, mas ficou se perguntando por que tanto interrogatório.《 “Não me diga que ele está perguntando porque está preocupado com o meu tempo de habilitação?” 》 Ao pensar isso, ficou tenso à toa e as mãos apertaram o volante com mais força.
Jiheon saiu do estacionamento do hotel tentando fazer curvas mais suaves do que o normal. Quando já havia entrado na avenida em segurança e respirava aliviado, Jaekyoung perguntou de novo:
— Você já levou algum namorado no carro?
— Como é?
Jiheon perguntou de novo, achando que tinha ouvido errado. Ele achou que Jaekyoung ficaria irritado dizendo para não fazê-lo repetir duas vezes, mas, surpreendentemente, ele apenas repetiu a pergunta, sem dizer mais nada.
— Estou perguntando se, na faculdade, você já levou algum namorado no carro.
Jiheon olhou de relance para a expressão de Jaekyoung. Como ele estava com o boné, só dava para ver do nariz para baixo. E, mesmo assim, como ele apoiava o queixo no dorso da mão, dos lábios bonitos só se via a metade.
— Já, claro.
Jiheon falou brevemente, voltando a olhar para a frente.
— Eram mais mulheres ou mais homens?
— Racionalmente, você acha que eram mais mulheres ou mais homens?
Jiheon deu uma risadinha. Jaekyoung, ainda com o queixo apoiado no dorso da mão, disse:
—Isso não dá para saber. Você é do tipo de quem tanto homens quanto mulheres gostam, hyung.
— O quê? Falar isso não vai te render nada.
Jiheon, sem jeito, falou de propósito como quem faz manha. A avaliação generosa era uma coisa, mas ele se surpreendeu ainda mais ao pensar que, inesperadamente, ele era de um tipo sem preconceitos. Achava que ele pensaria que, por ser ômega, todos os namorados dele naturalmente teriam sido homens. E, em vez disso, perguntar sobre homens e mulheres.
Era curioso e ao mesmo tempo divertido que um homem que era o próprio estereótipo popular do alfa, na prática, não fosse governado por esse tipo de preconceito. Bem, pensando bem, ele próprio quebrava o preconceito de que um homem alfa só se envolveria com homens ômega ou mulheres alfa, tendo se envolvido apenas com homens beta.
— Para começar, na faculdade o número de alunas é cerca da metade do de alunos. Dizem que estatisticamente é assim, mas na prática eu não sei bem. Na realidade, parece nem chegar a um quarto. E o meu curso, em especial, tinha poucas mulheres; era predominantemente masculino. Isso responde à pergunta?
— Que curso você fez?
Jaekyoung perguntou imediatamente.
— Marketing esportivo.
— Por que você escolheu esses curso?
— Procurando um lugar onde eu pudesse entrar com as minhas notas e o meu histórico de competições, aquele me pareceu o mais adequado?
— Sem relação com a sua aptidão?
Aptidão. Jiheon murmurou aquela palavra em voz alta, como se a ouvisse pela primeira vez.
— Acho que não pensei muito nisso. Pensando nos meus pais, achei que pelo menos precisava me formar em uma universidade de quatro anos com algum nome, e, dentro disso, o que dava para almejar era o curso de marketing esportivo da minha universidade.
— E, trabalhando, como é?
— Se combina com a minha aptidão?
Jaekyoung assentiu em silêncio.
— Sei lá… eu acho que esse tipo de coisa a gente vai ajustando conforme faz. Quantas pessoas conseguem viver na vida profissional fazendo só o que querem? Se não for a um nível de “não dá para suportar de jeito nenhum”, a gente vai vivendo e se ajustando.
Ao se aproximarem do cruzamento, o carro que vinha ao lado ligou a seta e começou a se preparar para entrar na frente. Jiheon reduziu levemente a velocidade e disse:
— Até a semana passada eu estava em relações públicas. O trabalho principal era redigir comunicados à imprensa e, fora isso, participar do planejamento de marketing ou ajudar na produção de conteúdo. Olhando só o conteúdo do trabalho, mais do que marketing esportivo, era mais próximo de planejamento publicitário. Bem, era razoavelmente fácil.
— Então é a primeira vez que você acompanha um atleta?
— Você está falando do trabalho de gestão? É a primeira vez.
— Este lado parece combinar com a sua aptidão?
— Isso eu também não sei bem, senhor. Ainda estou no primeiro dia.
Jiheon disfarçou como quem faz uma brincadeira. Então Jaekyoung, pela primeira vez, virou a cabeça e olhou para Jiheon. Com o queixo apoiado no dorso da mão, ficou observando em silêncio Jiheon dirigindo e perguntou de novo:
— Se é a primeira vez em gestão, como você ficou próximo daquele atleta de antes?
Aquele atleta de antes. Ele não fazia ideia de quem ele estava falando.
— De quem você está falando agora?
— Daquele que pegou o elevador com a gente antes.
— Ah, o Yeonho.
No exato momento em que Jiheon murmurou isso, o sinal mudou. Jiheon parou o carro e, subindo a janela, disse:
— Song Yeonho, é esgrimista. Ele ganhou a prata nos Jogos Asiáticos do ano passado, e naquela época eu tinha sido escalado para a equipe de apoio de campo. Foi assim que a gente se conheceu. Como ele recebia entrevistas o tempo todo, a gente andava quase sempre junto. É só isso. Não a ponto de dizer que somos próximos.
— Pareciam muito próximos.
— Isso é só porque ele é sociável.
Jiheon falou sorrindo. Jaekyoung ficou de novo um bom tempo apenas olhando para Jiheon e então soltou:
— Afinal, o que diabos significa ser sociável?
《 “Significa, meu caro, exatamente o oposto de você.”
Ele queria dizer isso, mas se conteve.
— Ah, é só ser aberto com qualquer pessoa e tratar todo mundo com proximidade, sabe.
Diante da fala de Jiheon, Jaekyoung deu uma risadinha. E então:
— Ser próximo e ficar dando em cima são coisas diferentes.
Murmurou como se falasse sozinho e voltou a virar o rosto para a janela.
— …
Jiheon ficou desconcertado.
《 “Não me diga que ele está falando do Yeonho. Ele quer dizer que o Yeonho estava dando em cima de mim?”
Enquanto ele apenas encarava Jaekyoung sem conseguir dizer nada de tão absurdo, o sinal mudou. Os carros começaram a se mover todos ao mesmo tempo. Jiheon também pisou no acelerador às pressas. Era hora de se recompor e se concentrar na direção.
Mas Jiheon não conseguia de jeito nenhum. O que Jaekyoung dissera não saía de sua cabeça.
Sendo muito sincero, muito sincero mesmo, Jiheon também havia percebido um pouco. Que Song Yeonho demonstrava por ele uma simpatia além do necessário.
Mas isso foi logo depois dos Jogos Asiáticos do ano passado e, ainda assim, como ele continuou fingindo não perceber, logo pareceu murchar. Ainda mais na semana anterior, quando se encontraram no elevador… não houve nada de mais. Ele achou que conversaram normalmente, como funcionário da empresa e atleta contratado; não fazia ideia do que Jaekyoung tinha visto para sentir aquilo.
Se quisesse, podia perguntar. Mas Jiheon decidiu não perguntar. Numa situação daquelas, qualquer resposta seria certamente desconfortável. E ainda por cima ficaria mais desconfortável com Jaekyoung do que com Song Yeonho.
Já não eram próximos, e ele não queria cutucar a ferida. Jiheon afastou à força os pensamentos dispersos da cabeça e decidiu se concentrar apenas na direção.
Felizmente, por ser dia útil e de dia, o trânsito estava ótimo. Tratando o amarelo como verde, de Jamsil até a residência do presidente Cho em Banpo não levou nem quinze minutos.
𓆝 𓆟 𓆞 𓆝 𓆟
Para melhor entendimento durante a leitura:
《Pensamento》
[Telefone]
「Fala da tv ou narrador」
*Escrita*
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆