Capítulo 02.10
𓆝 ⋆。𖦹°‧ Capítulo 2.10
Quando terminou o trabalho e saiu da empresa, já passava das oito da noite.
Talvez por ter dirigido depois de muito tempo, estava especialmente cansado naquele dia. Ele bem que gostaria de pegar um táxi, mas, como de ônibus eram só vinte minutos, acabou optando por ele. Melhor caminhar um pouco do que ficar ouvindo o taxista tagarelar sobre isso e aquilo à toa.
Felizmente, do ponto de ônibus até em casa era uma distância mínima. E, dentro daquele trajeto curto, havia loja de conveniência e loja de marmitas, de modo que dava para comprar praticamente tudo de que precisava. Havia até uma quitanda. Ao ver os pêssegos expostos na banca, lembrou-se da expressão séria do assistente-gerente Nam perguntando se ele era de exatas, e não teve como não rir.
Na verdade, a primeira pessoa a lhe dizer aquilo era mesmo de exatas. Foi uma namorada da época da faculdade, estudante de arquitetura. Eles faziam juntos uma disciplina eletiva no primeiro semestre do terceiro ano e, no dia em que terminaram as provas intermediárias, ele se lembrava de ter se surpreendido bastante ao ouvir, do nada, um pedido de namoro. E não era à toa: embora fizessem a mesma aula, eles nunca haviam conversado uma única vez. De qualquer forma, como ele acabara de terminar com um homem com quem havia ficado uns três meses, ele disse que sim e começaram a namorar assim mesmo.
E foi mais ou menos um mês depois de começarem a namorar, como em qualquer outro dia, estavam conversando no café depois de comer quando de repente ela disse:
— Aliás, Jiheon, por acaso você é ômega?
Era a primeira vez que recebia uma pergunta dessas. Normalmente perguntavam como se fosse óbvio, “você é alfa, né?”, e ele devolvia perguntando por que pensavam assim. Como o próprio fato dela perguntar se ele era ômega era curioso e surpreendente, Jiheon perguntou sem nem tentar sondar:
— Como você soube?
— Ah, eu sabia.
A namorada sorriu como quem já esperava aquilo e, do mesmo modo calmo com que perguntara a Jiheon, disse:
— É que eu sou alfa.
Jiheon se surpreendeu tanto quanto ao receber a pergunta sobre ser ômega. Era a primeira vez que via uma mulher alfa ao vivo e, além disso, até ela dizer, ele não havia percebido o menor sinal disso.
— Óbvio. Ser alfa só significa reagir aos feromônios de ômegas, é a única diferença em relação a betas. Se não falarmos, como se saberia? Ainda mais em uma época como a de hoje, em que se suprime até a produção de feromônios com chips; não há mesmo diferença nenhuma.
A namorada falou com serenidade, como sempre. E, tomando um gole da bebida gelada à sua frente, acrescentou sorrindo levemente:
Mas eu, independentemente dos feromônios, consigo reconhecer ômegas. Mais precisamente, seria mais correto dizer que eu me sinto atraída apenas por ômegas. Não é que eu penso “ah, aquela pessoa é ômega” e por isso me sinto atraída; é que quando eu penso “ah, essa pessoa é bacana, tem algo de bom nela” e vou ver, é ômega. Homem ou mulher, tanto faz.
— Independentemente dos feromônios?
— Deve ser, né? Todos estavam com chip. Você mesmo, Jiheon, também usa.
Era como ela dizia. Jiheon com certeza estava com o chip naquela época. Portanto, não havia como acontecer liberação de feromônios.
— Na verdade, com você, Jiheon… falando com sinceridade, olhando para você eu pensei “com esse aí não vai ser assim”. Porque você era muito diferente das pessoas com quem eu tinha me relacionado até então.
A namorada falou sorrindo. Ela não disse concretamente o que era diferente e como, mas Jiheon achou que entendia mais ou menos o que ela queria dizer. Devia querer dizer que a aparência, incluindo o porte físico, era diferente da dos ômegas com quem ela costumava se envolver.
— Mas, toda vez que eu te via na sala de aula, estranhamente eu sentia uma coceirinha bem aqui.
A namorada falou apontando para o peito.
— Quer dizer que seu coração batia forte?
Quando Jiheon perguntou, ela inclinou a cabeça, dizendo “sei lá”.
— É uma sensação um pouco diferente de bater forte. Ah, como eu explico isso? — Ela murmurou com um rosto pensativo e só voltou a falar pouco depois. — Isso, é isso. Eu tenho alergia a pêssego, e é bem forte, sabe? Então, só de olhar para um pêssego, já me dá uma espécie de coceira no corpo. Essa sensação de coceirinha, de comichão, é o que eu sinto vindo de dentro do peito. Você entende como é?
— Sei lá. Como eu não tenho alergia a pêssego, não sei dizer.
Quando Jiheon falou rindo, ela também riu, dizendo:
__ De qualquer forma, é uma coisa assim. Sempre foi assim. Quando eu via um ômega, sentia essa coceirinha no peito. É claro que, como eu não parava cada pessoa para perguntar “você é ômega?”, não posso dizer que é cem por cento certo. Na verdade, talvez houvesse alfas ou betas no meio. Mas, pelo que verifiquei até agora, é assim.
— E, ao me ver, você também sentiu isso.
— Sim. Por isso eu ficava “será que é? Será que não?” e continuava olhando, e aí fui ficando cada vez mais interessada.
O fato de aquela fala ter permanecido em sua memória até hoje se devia tanto ao ineditismo da expressão quanto ao fato de a situação em si ter sido extremamente marcante.
Reconhecer que alguém era ômega mesmo com a supressão dos feromônios feita pelo chip… O fato de isso ser possível passou de curioso a algo bastante chocante.
Se fosse hoje, ele provavelmente diria “e daí? Qual é o problema?”. Deduziria sem grande alarde que isso significava apenas existirem alfas capazes de reagir a quantidades mínimas de feromônio — e que, como a sensibilidade varia de indivíduo para indivíduo, era natural que o grau de reação também variasse.
Mas, naquela época, ele simplesmente não conseguia pensar assim. Ficou apenas surpreso e desconcertado.
Na verdade, até então Jiheon vivia sem sentir muito na pele que era ser ômega. Não, mais precisamente, seria correto dizer que ele não sentia na pele as características de um ômega.
E não era só com Jiheon. Hoje em dia isso era o normal. Diferentemente das pessoas de antigamente, que passavam pelo primeiro cio junto com a puberdade e assim descobriam que eram ômegas, hoje se faz o exame desde o ensino fundamental e, se sai o diagnóstico de ômega, coloca-se o chip ali mesmo na hora.
Como se bloqueia a própria produção de feromônios, naturalmente não havia cio, nem alfas que sentissem o cheiro e avançasse dizendo “você é ômega, né?”. O útero dentro do abdômen, por sua vez, não havia como ser visto a olho nu, então estava fora de questão.
Assim, a pessoa vive sem ter grande consciência de ser ômega e, mais tarde, quando arrumar um parceiro ou cônjuge, e remover o chip por causa de gravidez ou por qualquer outro motivo, só então ela passa pelo primeiro cio, tardio.
Por causa disso, havia até análises segundo as quais as sequelas do primeiro cio são mais graves hoje do que no passado. Diziam que era porque, com o aumento do nível intelectual das pessoas e do número de pessoas com formação superior, havia uma forte tendência a compreender os sintomas do cio racionalmente, mas não a aceitá-los como algo que acontece consigo.
Quanto mais a pessoa pensava “por mais que seja assim, será que um ser humano pode chegar a esse ponto? Com os outros pode ser, mas comigo não vai ser assim; comigo, ao menos, isso não é possível”, maior parecia ser o sentimento de autodepreciação depois de experimentar o tal “estado em que a razão some e resta apenas o instinto”, do qual antes só ouvira falar. Especialmente quanto mais tarde chegava o primeiro cio, maior era a intensidade do choque — em casos graves, havia até quadros de depressão, a ponto de, nos últimos anos, clínicas de aconselhamento especializadas terem brotado como cogumelos.
De qualquer forma, deixando as outras pessoas de lado, como Jiheon não tinha, para começar, intenção de ter filhos, também não pretendia remover o chip, nesse caso, ele nunca passaria por um cio na vida, e por isso acreditava que, no fim, jamais experimentaria as características de um ômega até morrer. Além disso, como estava distante da aparência que as pessoas comumente imaginam de um ômega, ele também não se tornava alvo de alguns discursos discriminadores. Por isso ele vivia acreditando que, sendo assim, não seria muito diferente de uma beta.
Mas, no instante em que ouviu as palavras da namorada, percebeu que essa crença era uma ilusão criada por ele.
《 “Mesmo com o chip, um alfa consegue reconhecer um ômega. Será que o ômega, por mais que tente se esconder, no fundo continua sendo apenas um ômega? Será que é impossível escapar de ser tratado como objeto sexual pelos alfas? Nem mesmo numa época em que a ciência médica avançou tanto não é possível dar jeito nisso…? Seria como a gravidade, algo de que a humanidade não pode escapar?” 》 — ele não conseguia frear aqueles pensamentos deprimentes. Justamente por ter passado tanto tempo considerando aquilo como algo que não lhe dizia respeito, o medo era ainda maior e, fizesse o que fizesse, só lhe vinham à mente reflexões sombrias.
Por causa disso ficou difícil tratar a namorada como antes e, no fim, pouco depois eles terminaram. E, com o passar de mais algum tempo, o choque inicial se dissipou e, em seu lugar, surgiu uma curiosa vontade de contestar.
Será que é mesmo assim? Será que alfas e ômegas, independentemente dos feromônios, acabam inevitavelmente se atraindo? Diante dessa questão bastante fundamental, surgiram ao mesmo tempo a vontade de negá-la e a de verificá-la.
Foi mais ou menos nessa época que ele começou a frequentar bares e clubes. Deixou de lado os relacionamentos sérios e, de vez em quando, saía e dormia com quem encontrasse na hora. Em regra, não recusava os homens que se aproximavam demonstrando interesse por ele e, em compensação, logo após o ato, sempre fazia a mesma pergunta: se eram alfas, betas ou ômegas. A esmagadora maioria era beta. Às vezes havia ômegas também, mas alfas quase nunca apareciam — entre todos os homens com quem se envolveu naquele período, foram apenas dois.
E, se perguntassem se o sexo com esses dois alfas tinha algo de diferente, também não havia nada de especial. Ah, um deles ficou dizendo o tempo todo durante o sexo que era bom demais, que era a primeira vez que era tão bom, que ele estava ficando louco. Mas aquilo não era nada além de coisa dita no calor do momento. Talvez ele dissesse a mesma coisa a todos com quem dormia.
No fim, a única coisa que Jiheon aprendeu com clareza naquela experiência foi uma só. Que, para ele, ser penetrado era definitivamente melhor do que penetrar; era só isso.
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Para melhor entendimento durante a leitura:
《Pensamento》
[Telefone]
「Fala da tv ou narrador」
*Escrita*
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução e Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆