Capítulo 01.5
𓆝 ⋆。𖦹°‧Capítulo 1.5
Com todos os envolvidos reunidos, finalmente começou a discussão sobre as questões contratuais. Discussão é modo de dizer: como ainda era a fase de apresentação, o presidente Kang e a líder Lee explicavam com afinco a dimensão e os tipos de apoio ao atleta que poderiam oferecer, e a senhora Sim fazia uma ou outra pergunta de vez em quando. O próprio interessado, Jaekyoung, não disse uma palavra. Não, parecia nem estar escutando. Estava desde antes recostado de lado na poltrona, apenas de olhos fechados, com ar de quem não tinha o menor interesse nas próprias condições contratuais.
A senhora Sim, que a princípio demonstrava certo entusiasmo, foi aos poucos perdendo o ânimo na voz.
— Entendo. Então, por ora, isso é o máximo…
Ela parecia nada satisfeita com as condições contratuais da Spoin. Especialmente quanto ao valor da luva, dava a impressão de achar aquilo um absurdo. E não era para menos. As condições apresentadas pelo presidente Kang eram, afinal, o máximo dentro do nível usual. Para começar, não havia como comparar com uma empresa cheia de dinheiro como a Kava.
Quanto mais a conversa se estendia, mais Jiheon não conseguia se livrar da sensação de estar sentado sobre uma cama de pregos. Não era que não tivesse previsto que acabaria assim, mas ele não imaginava que o clima ficaria tão desastroso a esse ponto. Se era para ser assim, só lhe ocorria a pergunta: por que nos chamaram, afinal? Sabendo que, fora as do porte da Kava, a situação de todas as outras agências é mais ou menos a mesma.
Enquanto engolia um suspiro por dentro, Jiheon de repente sentiu um olhar e ergueu a cabeça. E deu de cara com Jaekyoung, que estava olhando para ele.
— …
Mais do que o fato de a pessoa que ele achava estar dormindo estar claramente de olhos abertos, foi aquele olhar penetrante que enrijeceu todo o seu corpo.
…Desde quando ele está olhando?
Mesmo depois de cruzar o olhar com Jiheon, Jaekyoung não desviou os olhos. Muito pelo contrário: de repente se levantou da poltrona e começou a caminhar em direção à mesa.
— Ai, que susto. Quando você chegou aqui?
A mãe de Jaekyoung falou, tomando um susto ao ver o filho que, em algum momento, veio parar ao seu lado. Piscando os olhos sem parar, como se não acreditasse no que via, sua expressão dizia: “Esse menino participando de uma reunião dessas, meu Deus, isso é que é acontecimento”.
— E o atleta Kwon Jaekyoung, tem alguma dúvida sobre o nosso lado?
O presidente Kang rapidamente endireitou as costas e perguntou a Jaekyoung, que estava de pé à sua frente.
— Ou, se houver algo que queira solicitar em separado, pode dizer à vontade.
O presidente Kang falou sorrindo. Mas Jaekyoung não estava ouvindo o que ele dizia. Não fez sequer menção de olhar naquela direção. Desde antes, ele estava sem parar, olhando apenas para Jiheon.
— …
A essa altura Jiheon já tinha passado do constrangimento para a preocupação. Sem conseguir sequer perguntar por que diabos ele estava fazendo aquilo, pegou discretamente um dos maços de documentos sobre a mesa para cobrir o rosto, e então, do alto, veio uma voz de repente:
— Hyung…
Com aquela única palavra, Jiheon já teve a sensação de que o coração despencava.
— Está falando do gerente Jeong, certo?
O presidente Kang perguntou ao lado.
— Gerente Jeong.
Jaekyoung chamou Jiheon novamente, usando o tratamento corrigido pelo presidente Kang. E então:
— Você é beta, não é?
Diante da pergunta que não esperava de forma alguma, Jiheon, tomado de surpresa, arregalou os olhos e ergueu a cabeça. E não foi só Jiheon. Todos no quarto olharam para Jaekyoung com a mesma expressão. O constrangimento estava estampado no rosto de todos.
— E… por que o senhor tem essa curiosidade?
Quem fez a pergunta no lugar de Jiheon foi o presidente Kang.
— Não posso ter curiosidade?
Só então Jaekyoung olhou para o presidente Kang. Jiheon também olhou para o presidente Kang. No rosto do presidente Kang, o constrangimento já havia se apagado e, em seu lugar, começava a brotar uma expressão de aborrecimento.
— Eu perguntei se o senhor não tinha nenhuma dúvida relacionada ao contrato.
— Escute, presidente Kang.
A senhora Sim se intrometeu, aflita.
— Como o senhor deve saber, o Jaekyoung é alfa. Se acabarmos trabalhando juntos, vamos nos encontrar com frequência daqui em diante, e, se por acaso o, é, o gerente for ômega, poderiam surgir complicações, não é mesmo? Provavelmente foi por isso que ele perguntou.
Se o motivo fosse realmente esse, dava perfeitamente para entender a vontade de confirmar com antecedência. Jiheon quis simplesmente acreditar nisso.
Mas o presidente Kang não parecia ter essa intenção.
— Mesmo sendo ômega, hoje em dia, graças aos chips, praticamente não acontece de haver liberação de feromônios. Especialmente no caso dos atletas, que tomam continuamente remédio para reduzir a sensibilidade aos feromônios, na maioria das vezes eles nem percebem. E, se a preocupação era realmente essa, bastaria terem nos solicitado depois, na hora de redigir o contrato. Que, considerando o traço do atleta, alocássemos preferencialmente funcionários de traço beta no local.
Quanto mais falava, mais firmeza ganhava a voz do presidente Kang. Por fim, ele chamou Jaekyoung com voz áspera — “Atleta Kwon Jaekyoung” — e, encarando-o com um olhar cortante, disse:
— O senhor perguntou isso realmente tendo a intenção de trabalhar conosco?
Jaekyoung olhou por um instante para o presidente Kang e logo respondeu brevemente:
— Não.
Ao lado, a senhora Sim gritou: “Ei, Jaekyoung!”. O presidente Kang riu como se aquilo fosse um absurdo e começou imediatamente a recolher os documentos espalhados sobre a mesa. A líder Lee Yujeong também recolheu rapidamente os papéis à sua frente e, assim que o presidente Kang se levantou, ela se levantou junto.
— Desculpe por termos tomado o tempo de vocês.
O presidente Kang falou brevemente e fez um sinal com os olhos para a líder Lee Yujeong e Jiheon, que estavam ao lado. Era para irem embora.
Na ordem inversa da entrada, Jiheon foi o primeiro a sair da sala. Atrás, ouviam-se o diretor Choi e a mãe de Jaekyoung falando isso e aquilo, como que tentando apaziguar o presidente Kang. É claro que o presidente Kang fingiu não ouvir.
Como a líder Lee Yujeong disse que iria direto para uma operação de campo, apenas o presidente Kang e Jiheon voltaram para a empresa.
— Aquela reunião nunca foi o nosso lugar.
O presidente Kang falou assim que entrou no carro que estava estacionado no estacionamento.
— Deu para ver de cara que eles não tinham a menor intenção de fechar com a gente; para que ficar sentado ouvindo mais? É desperdício de tempo para os dois lados.
Não era que ele tivesse ido sem saber disso, mas o presidente Kang bufava pelo nariz como se só tivesse descoberto naquele instante. Provavelmente estava se antecipando, com medo de que Jiheon se culpasse por achar que as coisas haviam terminado assim por causa dele.
— Desculpe. Por minha causa…
E, como não podia deixar de ser, assim que Jiheon abriu a boca, o presidente Kang franziu a testa e disse: “Ah, que é isso. O que é que é por sua causa?”.
— Deixa. Seja como for, eu não tenho a menor vontade de fechar contrato com aquela atleta. Independentemente do que eles sejam ou deixem de ser, eu é que não quero. Você acha que eu faço esse trabalho para limpar a bunda de moleques sem noção? Eu também tenho a minha filosofia e os meus princípios.
O presidente Kang Taejin era uma boa pessoa. Como empresário, não se sabia, mas como pessoa era bom. Era o que Jiheon pensava.
Ex-jogador de vôlei, ele havia se dado muito mal por causa de agências no tempo em que era atleta e, ao contrário, também havia recebido grande ajuda delas. Justamente por isso, orgulhava-se de conhecer melhor do que ninguém a importância de uma agência esportiva.
Foi por isso que ele mergulhou nesse negócio, mas, por ser temperamental e por causa desse ímpeto de explodir de vez em quando, já havia derrubado alguns contratos praticamente fechados no passado. É claro que, comparados ao de Kwon Jaekyoung, não eram casos tão grandes. E, nesse meio, esse tipo de coisa era extremamente comum.
Ainda assim, Jiheon começava a ficar preocupado. Porque, naquele ano completava exatamente três anos desde que entrara na empresa e, nesse período, longe de a situação financeira melhorar, ele tinha a sensação de que só aumentavam as dívidas.
— Sempre tem uns caras assim. Que, depois de se darem bem, ficam arrumando confusão com os veteranos à toa. Ah, se eles tivessem sido maltratados por esses veteranos no passado, eu até entenderia. Se fossem sujeitos que impuseram uma disciplina absurda em nome da veterania, eu entenderia. Mas não é nem isso. Não é que tenham rancor de algo específico; eles só querem se exibir daquele jeito que estão em altíssima evidência agora. São sujeitos muito baixos.
Pelo visto, o presidente Kang parecia acreditar que Jaekyoung havia feito aquela pergunta na frente de todos para humilhar Jiheon. Do ponto de vista do presidente Kang, não era estranho pensar assim. Porque ele sabia. Sabia que Jiheon era ômega.
Hoje em dia, ao contrário do passado, não era obrigatório revelar o traço na contratação. Ficava inteiramente a critério da empresa. Só que, no caso das agências esportivas, como os atletas de traço alfa se cuidavam a ponto de tomar remédios para reduzir a sensibilidade aos feromônios, era necessário que a empresa também tomasse cuidado redobrado.
Por isso, na Spoin também havia uma recomendação — não uma imposição — de que funcionários com traço ômega apresentassem previamente a documentação ao departamento de recursos humanos. Mas, por ser recomendação e não imposição, pelo visto havia mais gente que não apresentava do que gente que apresentava. Afinal, bastando gerenciar bem o chip, não haveria problemas com feromônios, e eles simplesmente não queriam revelar.
É claro que havia funcionários como o assistente-gerente Nam Seungmyeong, que apresentava a documentação e ainda se abria previamente com os colegas, prevendo situações inesperadas. Mas casos assim eram realmente raros; a maioria ou permanecia calada ou, como Jiheon, apenas entregava o laudo e ponto final.
De todo modo, o presidente Kang sabia que Jiheon era ômega porque recebia os relatórios do RH, e não havia como Jaekyoung saber disso. Porque, até aquele último dia em que se viram nove anos antes, ele acreditava que Jiheon era beta. Mais do que isso: acreditava que ele havia parado de nadar por ser beta.
Bem, mesmo assim isso não mudaria nada. Perguntar publicamente o traço de alguém na frente de várias pessoas já é, em si, uma falta de educação. Fosse a pessoa beta ou ômega, podia perfeitamente ser uma humilhação. E, ainda mais, se quem fez a pergunta é um homem chamado de o alfa entre os alfas. A menos que se seja também um alfa, era evidente que qualquer um desconfiaria da intenção e se sentiria incomodado.
Jiheon finalmente achou que compreendia a intenção de Jaekyoung. Pois é, para começar, aquele moleque acredita que eu parei de nadar por ser beta. Ele parecia pensar que Jiheon havia desistido de antemão por achar que jamais venceria um alfa. E, se um sujeito assim fez questão de perguntar naquela situação “hyung, você é beta, não é?”, isso significa…
Deve ser mesmo um “vá se ferrar”. Jiheon sorriu com amargura.
E ainda por cima aquele é o atleta mais em evidência do momento, e este aqui é um agente que faz o trabalho sujo dos atletas. Se a intenção era fazê-lo perceber a diferença entre alfa e beta olhando para a posição dos dois hoje, chegava a ser bastante cruel. Se ele fosse realmente beta e tivesse parado de nadar por causa disso, talvez tivesse tido um gatilho acionado.
>>“…Mas qual será o motivo para ele querer tanto assim me machucar?”
Jiheon ficou curioso tardiamente. Será que aquilo do último dia, quando se despediram, ficou mesmo na memória dele? Era um moleque extremamente sério pelo menos quanto à postura em relação à natação. Talvez ele não tenha gostado do fato de Jiheon ter parado de nadar daquele jeito, como quem foge. E, ainda por cima, alguém nessa posição ter ironizado dizendo que o jeito dele de falar era bem de alfa — no coração de uma criança, isso deve ter machucado bastante. Se ele, ao ver seu rosto, lembrou-se do que houve naquele dia e falou aquilo no calor da raiva, até que dava para entender, mas…
Ele era do tipo que guarda cada coisinha assim? Jiheon achou aquilo um tanto inesperado. Não era uma questão de ser mesquinho ou algo assim; era curioso o próprio fato de Jaekyoung lembrar por tanto tempo e guardar no coração algo acontecido com outra pessoa. Justamente porque era um moleque que não tinha interesse algum pelos outros e tratava todo mundo como invisíveis, parecia que, mesmo que algo desagradável acontecesse, ele esqueceria por completo em pouco tempo.
Bem, vai saber. Como é que eu poderia conhecer a verdadeira personalidade dele? Vi ele por pouco tempo dez anos atrás e as vezes que conversamos dá para contar nos dedos de uma mão.
Seja como for, tomara que aquilo de agora há pouco tenha aliviado ao menos um pouco o coração dele.
Jiheon decidiu simplesmente pensar assim e encerrar o assunto. Não queria mais ficar remoendo nada relacionado àquilo. Mais precisamente, não queria pensar em Jaekyoung.
>>“Por favor, chega.”
Mas não havia como a realidade ser tão complacente.
— Gerente Jeong, como foi?
Assim que voltou ao escritório, o assistente-gerente Nam perguntou com os olhos brilhando.
— Foi por água abaixo, ora.
Jiheon respondeu brevemente.
— Ai, eu sabia.
O assistente-gerente Nam fez o gesto de enxugar lágrimas com as costas da mão. Pelo fato de reagir assim de imediato, sem nem perguntar o motivo, pelo visto ele nem tinha criado expectativa desde o início.
— Então, no fim, eles vão mesmo com a Kava?
— Acho que sim, imagino… Ah, no momento eu não sei bem.
Jiheon contou ao assistente-gerente Nam o que acontecera no saguão do hotel. Quando explicou brevemente o conteúdo da ligação da pessoa da Kava, o assistente-gerente Nam soltou um “quê?!” e arregalou os olhos.
— Sério? Que ele não vai participar das Olimpíadas?
Aquela parte pareceu ser a mais inesperada para o assistente-gerente Nam também.
— Mas por quê? Por que ele disse que não vai competir?
— Isso eu também não sei.
Quando Jiheon deu de ombros, o assistente-gerente Nam cruzou os braços e inclinou a cabeça, dizendo “o quê?”.
— Será que ele quer só completar o Grand Slam e encerrar de forma limpa? Alcançar o grande feito e se aposentar sem arrependimentos, algo assim?
Quando se fala em Grand Slam da natação, normalmente são obrigatórios três eventos — Olimpíadas, Mundial e Campeonato Pan-Pacífico — mais um dos torneios internacionais realizados em cada continente, como Jogos Asiáticos, Campeonato Europeu ou Copa dos Campeões das Américas. É claro que havia quem usasse a expressão Grand Slam incondicionalmente para quem vencesse quatro competições internacionais, independentemente do porte, mas no meio da natação costumava-se fazer uma distinção rigorosa, chamando isso de quase Grand Slam.
Kwon Jaekyoung já havia vencido Olimpíadas, Mundial e Jogos Asiáticos, e agora aguardava o Campeonato Pan-Pacífico, que aconteceria dali a um mês e meio. Se ganhasse o ouro ali, Kwon Jaekyoung completaria o Grand Slam, sendo o primeiro nadador do continente asiático a fazê-lo. E, pelo seu nível atual, a previsão de todos era que, a menos que a competição fosse cancelada, ele alcançaria o Grand Slam sem sombra de dúvida.
— Bom, o Grand Slam em si já é algo histórico. Depois de conquistar isso, até faz sentido não sobrar arrependimento, mas, mesmo assim, se ainda vier junto o título de bicampeão olímpico, é uma carreira completamente insana, não é? Que bicampeão que nada; do jeito que o Kwon Jaekyoung está indo agora, até tricampeão parece possível.Não é mesmo, gerente Jeong?
O assistente-gerente Nam buscou a concordância de Jiheon.
— Nas Olimpíadas depois da próxima ele vai ter só vinte e seis anos.
— Para um nadador, vinte e seis anos é veterano. Deixar ir é uma questão de educação.
— Uau, que frieza.
O assistente-gerente Nam falou rindo.
— Não, isso também varia de pessoa para pessoa, não é? Olhe o jeito que o Kwon Jaekyoung está indo agora. Mesmo que o desempenho caia um pouco quando ele tiver vinte e seis, ele ainda vai nadar melhor que os outros atletas.
Isso era verdade. Para começar, a capacidade física inata dele estava num nível incomparável com a dos outros e, além disso, era um atleta que treinava continuamente para maximizá-la. Se cuidasse bem das lesões, conseguiria manter bons resultados de forma constante, independentemente da idade. Envelhecer e ver o desempenho não ser mais o mesmo significaria, no caso dele, apenas descer do nível divino para algo como o mais forte do mundo humano.
— Ah, mas do ponto de vista da Kava a situação deve ser bem complicada mesmo. Eles devem ter oferecido no mínimo alguns bilhões de wones de luva; para cobrir isso, precisariam rodar publicidade sem parar por pelo menos três anos. A conta que eles devem ter feito para apresentar a proposta era: conquistar o Grand Slam este ano e rodar propaganda animadamente o ano inteiro e, quando o efeito começasse a desaparecer, estourar o bicampeonato olímpico e rodar mais um bom tempo.
— Deve ser isso.
— Hmm, o que será que vai acontecer agora?
O assistente-gerente Nam falou com uma expressão de quem estava se divertindo. De braços cruzados e falando como quem assiste ao incêndio do outro lado do rio, ele dava a impressão de que já nem tinha em mente o fato de que a própria empresa acabara de se encontrar com Kwon Jaekyoung naquele dia.
Bem, quando uma coisa não vai dar certo, é melhor desistir logo de início.
Elogiando mentalmente a rápida mudança de postura do assistente-gerente Nam, Jiheon abriu o arquivo de texto no desktop. Ele acabara de pousar as mãos no teclado para finalizar a redação do comunicado à imprensa que precisava entregar até o dia seguinte quando a porta do escritório se abriu e dois funcionários do departamento de marketing, que haviam saído a trabalho, entraram lado a lado.
— Uau, mas o que é isso, sério.
— Ele não vai fechar contrato com a gente, vai?
— Ah, imagina.
Diante dos dois funcionários falando animados entre si, o pessoal do escritório perguntou “por quê? Aconteceu alguma coisa?”.
— Não, o Kwon Jaekyoung está aí embaixo agora.
— A gente acabou de ver ele no saguão do primeiro andar quando estava entrando.
Diante da fala dos funcionários, todos no escritório gritaram “o QUÊ??” ao mesmo tempo. A maioria riu logo em seguida, dizendo “ah, é impossível, o que ele viria fazer aqui”, mas houve também quem se levantasse do lugar às pressas dizendo que ia ver com os próprios olhos, por via das dúvidas.
— O que é isso? Será que é verdade?
O assistente-gerente Nam olhou para Jiheon com uma expressão de incredulidade.
— Não tem como. Devem ter visto errado.
Assim que Jiheon respondeu, o telefone sobre a mesa tocou estridentemente. Movido por um mau pressentimento sem explicação, Jiheon pegou o fone o mais devagar que conseguiu.
[ É o gerente Jeong Jiheon, da Spoin? Aqui é do primeiro andar. Há um visitante procurando pelo gerente Jeong Jiheon. ]
>>“…Será que é verdade?”
Jiheon apertou o fone com força.
>> “Não, não pode ser. Não tem como.”
Se estava tão curioso, bastaria perguntar primeiro que tipo de visitante era, mas nem vontade disso ele teve.
— Entendido. Estou descendo agora.
Assim que pousou o fone, Jiheon se levantou. Ao sair do escritório, nem lhe ocorreu esperar o elevador; desceu direto pela escada.
Assim que chegou ao primeiro andar, percebeu que tudo era verdade. A fala dos funcionários e o seu próprio mau pressentimento: tudo era, sem sombra de dúvida, verdade.
Jaekyoung estava de pé em frente ao balcão de informações. Pelo boné e ainda por cima o capuz que ele usava naquele auge do verão, parecia ter feito algum esforço para não ser notado, mas foi em vão. A menos que fizesse algo quanto àquela altura e àquele corpo, mesmo de óculos escuros e máscara todos reconheceriam de imediato que era Kwon Jaekyoung.
De fato, por todo o saguão as pessoas olhavam de canto de olho e cochichavam sobre Jaekyoung. Como, ainda por cima, era um prédio onde, além de agências esportivas, se concentravam empresas como agências de entretenimento e publicidade, todos pareciam ter reagido com um “ué, ué? não me diga?” assim que o viram.
Chamá-lo ali pelo nome, “senhor Kwon Jaekyoung”, seria o mesmo que dizer a todas aquelas pessoas: “vamos, corram todos aqui para cumprimentá-lo e puxar assunto! Tirem fotos logo!”. Sem alternativa, Jiheon se aproximou bem de Jaekyoung e falou em voz baixa:
— O que o traz até a…
— Vamos conversar.
Jaekyoung soltou aquilo sem nem ouvir Jiheon terminar de falar. Jiheon ficou levemente irritado, mas logo acalmou o coração e respondeu com serenidade:
— Se por acaso for sobre o contrato, em vez de comigo, fale diretamente com o presi…
— Não, com o hyung.
Jaekyoung cortou Jiheon dessa vez também. E, por fim, ainda apressou: “Eu queria muito que a gente saísse daqui logo”.
>>”É, o senhor é um homem ocupado. Deve querer dizer o que tem para dizer da forma mais simples possível e ir embora”.<< Jiheon assentiu com uma expressão de quem compreendia de bom grado.
— Então, gostaria de ir a um café aqui perto? É um lugar que costumamos usar para reuniões de trabalho; é silencioso e não tem muita gente, então dá para conversar bem.
— Não tenho tempo de ir até lá.
Jaekyoung falou de forma cortante.
— Basta ser um lugar onde a gente possa ficar sozinho, então vamos a qualquer lugar. Se não tiver gente, até um banheiro serve.
Pelo tom com que falava, por qualquer ângulo não parecia que ele tinha ido até lá para falar sobre contrato. Ele queria mandá-lo embora, mas, mesmo assim, não podia ignorar alguém que fizera o esforço de ir até ali.
Por outro lado, também não dava para conversar de verdade em um banheiro. No fim, Jiheon se virou e disse:
— Então venha por aqui.
Como ele dizia não ter tempo nem de ir a um café, Jiheon pensou em usar simplesmente a sala de reuniões do quarto andar. Àquela hora certamente estaria vazia, e para usá-la por uns dez minutos não era necessário pedir autorização.
Justamente naquele momento o elevador estava subindo do estacionamento subterrâneo. Achando aquilo conveniente, Jiheon apertou depressa o botão de subida. Logo o elevador chegou ao primeiro andar e, assim que a porta se abriu, seus olhos encontraram os de alguém que estava dentro.
— Ué? Hyung!
Dentro do elevador estava Song Yeonho. Song Yeonho era um esgrimista de vinte e cinco anos e, por assim dizer, um dos poucos astros de destaque que a Spoin tinha. Além de ser tão habilidoso a ponto de já ter sido selecionado para a seleção nacional ainda no ensino médio, era alto e bonito, e o apelido sempre mencionado pela imprensa era "o belo espadachim". Por causa do formato do sabre de sua modalidade, os funcionários da Spoin mais próximos dele às vezes o chamavam meio de brincadeira de "príncipe".
— Yeonho, quanto tempo.
Jiheon conhecera Song Yeonho quando foi escalado para a equipe de apoio de campo nos Jogos Asiáticos do ano anterior. Dois anos mais novo que Jiheon, Song Yeonho não o chamava de assistente — na época o cargo de Jiheon era de assistente — e sim de hyung, agindo com familiaridade. Depois disso, como ele continuava a chamá-lo de hyung sempre que se viam na empresa, Jiheon corrigiu algumas vezes no começo dizendo "é assistente", mas depois, por preguiça, acabou deixando para lá: tudo bem, me chame como quiser.
— Você vai para o quarto andar? Não vai para o terceiro?
Quando perguntou ao ver que o botão do quarto andar já estava aceso, Song Yeonho disse: "ah, hoje eu vim porque tenho uns documentos para entregar no departamento administrativo".
— Mas, hyung, você sabia que eu ganhei o individual da Copa Presidencial faz pouco tempo?
— Óbvio. Quem você acha que escreveu aquele comunicado à imprensa?
— Ah, claro.
Song Yeonho ergueu o polegar. Jiheon deu uma risadinha e perguntou de novo:
— Então já está garantido na seleção nacional para as Olimpíadas do ano que vem, né?
— Claro. Mesmo somando o ranking da FIE eu sou o primeiro.
— Parabéns, você mandou bem.
Jiheon falou enquanto afagava a nuca de Song Yeonho. Song Yeonho fazia de propósito uma expressão orgulhosa e ria, mas, incomodado com Jaekyoung, que estava de pé ao lado de Jiheon, ficava olhando de relance para aquele lado. Parecia estar em dúvida se aquela pessoa era mesmo quem ele estava pensando ou não.
Ele estava internamente inquieto com medo de que Song Yeonho puxasse assunto de repente, mas felizmente nesse momento o elevador chegou ao quarto andar. Assim que a porta se abriu, Jiheon foi o primeiro a sair, dizendo:
— Então, Yeonho, resolva bem os seus assuntos. A gente se vê depois.
— Sim, eu vou dar uma passada na equipe de relações públicas!
Song Yeonho falou acenando amplamente com a mão. Jiheon respondeu "está bem", rindo, e seguiu na direção oposta à de Song Yeonho. Jaekyoung o seguiu em silêncio.
Passando pelo escritório compartilhado pelos departamentos de recursos humanos e administrativo, logo ao lado ficava a sala de reuniões. Jiheon abriu a porta da sala de reuniões, deu uma olhada dentro e, ao confirmar que não havia ninguém, disse finalmente a Jaekyoung:
— Pode entrar.
Jaekyoung entrou primeiro na sala de reuniões, e Jiheon entrou logo em seguida.
— Aqui provavelmente ninguém vai vir.
Ele apertou o interruptor na parede para acender a luz e, de repente, ouviu um clique atrás de si. Jiheon se virou, assustado. Jaekyoung girava para o lado a tranca da maçaneta, trancando a porta.
Só depois de confirmar que a porta não abria é que ele se aproximou lentamente de onde Jiheon estava. Sem perceber, Jiheon colou as costas na parede e ergueu os olhos para Jaekyoung.
— Eu vim porque tenho uma coisa para perguntar.
Jaekyoung falou com o rosto praticamente colado ao de Jiheon.
— Perguntar o qu…
— Hyung, você é beta mesmo?
Por um instante Jiheon duvidou dos próprios ouvidos.
— Ei…
De tão desconcertado, saiu-lhe um "ei" sem querer. Não, ele veio até aqui só para perguntar isso?
— Jaekyoung.
Jiheon chamou o nome de Jaekyoung, rindo. Não era um riso que ele quis dar; era que aquilo era tão absurdo que a risada simplesmente saiu.
Mas Jaekyoung não riu.
— Estou perguntando se você é beta.
Ele apenas pressionava Jiheon com o mesmo rosto inexpressivo do início.
— Por que você está assim desde antes, afinal? Por que essa curiosidade?
— Responda logo.
— Ei.
— Hyung, você é ômega, não é?
Jaekyoung mudou a pergunta. Só então o sorriso desapareceu do rosto de Jiheon.
— Você é ômega, não é?
Jaekyoung perguntou novamente. Não, tinha o formato de pergunta, mas o tom era, na prática, de certeza.
— …Você sabe que isso é assédio sexual?
Jiheon falou com uma voz forçadamente calma.
— Não saia por aí perguntando isso aos outros de qualquer jeito. Assim você acaba sendo processado de verdade.
— Quando você trocou o chip pela última vez?
— Você chegou a ouvir o que eu acabei de dizer?
No fim, Jiheon estalou a língua.
— E por que você fica concluindo as coisas assim, do na…
— É porque eu sinto o cheiro.
Diante daquilo que Jaekyoung soltou de repente, Jiheon parou de falar sem querer e ergueu os olhos para ele.
— É sério.
Quando os olhares se cruzaram, Jaekyoung falou brevemente. Por causa da voz sem oscilação e do rosto inexpressivo, era ainda mais impossível adivinhar sua intenção.
— Que cheiro é esse?
Jiheon perguntou com uma voz ainda mais calma que o habitual, para não deixar transparecer que estava abalado.
Jaekyoung ficou observando Jiheon fixamente e logo virou o rosto, dizendo:
— Tem, sim. O cheiro que vem de você, hyung. Uma coisa esquisita, tipo cheiro de mato.
— Jaekyoung.
— Vinha desde a época do centro esportivo.
— …
No instante em que ouviu aquilo, toda a força escapou do seu corpo. Como sentiu que, se descuidasse, cambalearia a qualquer momento, Jiheon encostou completamente as costas na parede e cruzou os braços.
Ele queria dizer alguma coisa, mas nada lhe ocorria naquele momento. Era como se a cabeça tivesse se tornado, literalmente, uma folha em branco.
Não era por estar desconcertado. Era por decepção. Uma decepção tão grande que ele chegava a sentir um sentimento de desolação. Mesmo assim, por terem compartilhado uma momento na vida, ele o apoiava de coração. Nunca esperou que o outro sentisse o mesmo, mas, ainda assim, não imaginava que ele nutrisse tanta má vontade.
Não, não importava o que Jaekyoung pensava a seu respeito. Apenas era decepcionante o modo como ele expressava isso. Porque, apesar de tudo, ele acreditava que Jaekyoung não era do tipo que magoa os outros de propósito.
Ele sempre foi assim. Era só alguém que não se interessava por nada além do que era da sua conta; ele nunca havia pensado que tivesse mau caráter ou uma personalidade torta por trás. Pelo contrário, achava muito melhor isso do que ficar se metendo à toa na vida alheia.
Por isso, quando ouviu aquilo no hotel, ele também deixou passar pensando que podia acontecer. Vendo-o agir assim de repente agora, deve ter se magoado bastante seu coração infantil. Mas a culpa foi minha, então, tomara que isso alivie o coração dele.
Ele tentou colocar o máximo possível a culpa em si mesmo e encerrar o assunto. Mas…
— É divertido tirar sarro das pessoas desse jeito?
Jiheon perguntou com voz serena, de braços cruzados. Teria sido melhor se ele tivesse rido com uma expressão de "que patético", mas dava preguiça. Ele nem queria se esforçar tanto.
— Já terminou o que tinha a dizer?
Jiheon ergueu o corpo que estava encostado na parede. Quando ele ia sair da sala de reuniões daquele jeito, Jaekyoung o segurou.
— O que é isso, solte.
Jiheon, assustado, tentou se soltar, mas Jaekyoung não o soltou. Aquela mão, que dez anos antes se desprendia com facilidade assim que Jiheon a repelia, dessa vez agarrou o pulso de Jiheon com ainda mais força.
— …!
A dor fez sua testa franzir involuntariamente. Sentindo que um gemido escaparia a qualquer instante, Jiheon mordeu os lábios. Conter o som era uma espécie de último resquício de orgulho.
Jaekyoung encarou Jiheon em silêncio e logo falou com uma voz que soava irritada:
— Acreditar ou não é escolha sua, hyung, mas se já faz mais de três anos que você trocou o chip, vá ao hospital. Eu, por causa do remédio, devo estar agora no nível mínimo de sensibilidade a feromônios, então, se até eu consigo sentir o cheiro, quer dizer que está bem grave.
Assim que terminou de falar, Jaekyoung esticou a mão e puxou o lenço que estava no bolso da camisa social de Jiheon. Jogou-o no chão, soltou o pulso de Jiheon e saiu imediatamente pela porta da sala de reuniões.
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução&Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆