Capítulo 01.4
𓆝 ⋆。𖦹°‧Capítulo 1.4
Não, não é isso. Na verdade, o motivo era evidente. O motivo de ele ter se irritado apenas com as palavras de Jaekyoung, ao contrário das outras pessoas, era óbvio.
— Isso é uma coisa que você já sabia desde quando começou. E, além do mais, quantos alfas existem no mundo, afinal? Você também é alto e tem uma envergadura longa como a dos atletas alfa. Você conseguiria muito bem, se tentasse; por que está desistindo antes mesmo de tentar?
Porque quem disse aquilo era um garoto de doze anos que, poucos dias antes, havia recebido o diagnóstico confirmando que era alfa.
É claro que Jiheon também sabia. A culpa não era de Jaekyoung. Aquele garoto também não deve ter nascido alfa por vontade própria. Na verdade, mesmo que tivesse desejado, não faria diferença. Afinal, a maioria das pessoas desejaria. Com Jiheon era a mesma coisa. Se pudesse, teria querido nascer alfa.
Portanto, não havia por que reagir de forma áspera só porque aquele garoto dizia aquilo; ele ia se deixar abalar por cada comentário feito por alguém que não conhecia a sua situação? Talvez fosse algo que ele teria que enfrentar continuamente dali em diante.
No exato instante em que tentava se acalmar pensando assim, Jaekyoung voltou a abrir a boca.
— Dizem que os alfas também precisam tomar remédio o tempo todo para continuar como atletas. E que esse remédio não serve para todo mundo, então não dá para saber que efeitos colaterais podem aparecer; pelo menos você, hyung, não precisa tomar remédio.
Com aquelas palavras, o peito que finalmente ia se acalmando voltou a se agitar.
Remédio? Ele está falando disso como se fosse um sofrimento? Que diabos é um mísero remédio? Eu vou ter que viver com um chip no corpo pelo resto da vida, e ele vem se gabar por causa de um simples remédio.
Dizem que, quando uma emoção chega ao extremo, ela pode se manifestar em um comportamento exatamente oposto — e era verdade. Diante da fala do garoto, desprovida de qualquer malícia e, por isso mesmo, ainda mais cruel, o que saiu de Jiheon foi, ao contrário, uma risada.
— Ei, é a primeira vez que eu te vejo falar tanto assim.
Rindo, Jiheon retirou de si a mão de Jaekyoung que segurava seu braço.
— Hoje eu vou embora tendo ouvido de uma só vez toda a sua voz, que eu não ouvi durante um ano inteiro.
Jaekyoung chamou “hyung” e tentou segurar Jiheon de novo. Jiheon desviou daquela mão com naturalidade, fingindo estar ajeitando a bolsa no ombro. E, dando um passo atrás de forma ostensiva, disse:
— Mas, Jaekyoung, o seu jeito de falar é bem de alfa. Como a gente nunca tinha conversado direito, eu não sabia.
A mão que Jaekyoung havia estendido para segurar Jiheon ficou imóvel no ar. Jiheon olhou de relance para aquela mão e então voltou a rir com desdém para Jaekyoung.
— Ainda bem que eu descobri hoje.
Ele falou de propósito em tom leve, como quem faz uma piada, mas não havia como o garoto não perceber a verdadeira intenção escondida ali. Por isso ele fez aquele olhar tão ferido.
Ele esperava que o outro fosse cobrar na hora o que aquilo significava, mas Jaekyoung não fez isso. Apenas ficou olhando para Jiheon com a boca firmemente fechada. Nos olhos castanhos escuros pareciam ter se formado, vagamente, sinais de umidade.
O ímpeto assustador de cobrança de instantes antes tinha sumido, e ele olhava com uma expressão de quem ia chorar a qualquer momento — e, pela primeira vez, aquele garoto pareceu ter a idade que tinha.
É, isso mesmo. Ele ainda tem doze anos.
Assim que pensou isso, ele recobrou de repente a consciência e começou a se arrepender. Sentiu tanta vergonha de si mesmo por ter descontado a raiva em uma criança inocente que não conseguia suportar. De tão constrangido e envergonhado, teve vontade de fugir dali na mesma hora.
Na verdade, ainda hoje é assim. Só de relembrar aquilo, o rosto esquentava e a cabeça baixava sozinha. Se pudesse, teria vontade de sumir dentro da terra ali mesmo. De cabeça baixa, Jiheon passou a palma da mão pelo rosto.
Depois disso ele pediu desculpas imediatamente e encerrou tudo com palavras amenas, mas isso não fazia com que o erro cometido antes deixasse de existir. Por isso, ainda hoje, quando se lembra daquele dia, o que lhe vem primeiro à mente não é a despedida trocada entre ele e aquele garoto no final, e sim a própria atitude infantil e a expressão ferida do garoto.
Naquela época ele também era bem jovem. O corpo já estava totalmente desenvolvido, mas mentalmente ainda faltava muito para amadurecer. Mas isso não servia de desculpa. Porque Jaekyoung era muito mais novo que ele. Qualquer que fosse o pretexto, um estudante de ensino médio de dezoito anos agir daquele jeito com uma criança de doze era vergonhoso.
Será que ele vai estar lá hoje…
Esfregando com a palma da mão a bochecha quente, Jiheon pensou. Como todas as questões relacionadas ao contrato haviam sido delegadas à mãe, a probabilidade de ele mesmo não aparecer era grande. Ainda mais que nem era dia de assinar contrato, apenas de ouvir a proposta por alto. Com a competição a menos de dois meses, não havia motivo para um atleta abrir mão de horas de treino de propósito para ir até lá.
— Senhor, posso parar em frente à entrada principal?
Diante da voz do taxista, só então Jiheon ergueu a cabeça, sobressaltado. Pela janela dava para ver o prédio do hotel onde seria o encontro.
— Ah, sim. Pode parar em frente à entrada principal, por favor.
O taxista parou o carro exatamente em frente à entrada principal do hotel, conforme o pedido. Ao descer do táxi, Jiheon entrou no hotel e conferiu mais uma vez o relógio do celular. Duas e quarenta e seis da tarde. O compromisso era às três em ponto.
Jiheon se acomodou em um sofá vazio no saguão do primeiro andar. O presidente Kang Taejin e a líder de equipe Lee Yujeong, do departamento de gestão, resolveriam assuntos externos e viriam direto para lá. Felizmente, o diretor Ko não estava entre os integrantes daquele dia. Pelo fato de terem conseguido deixar para trás uma pessoa que insistia “a reunião foi marcada por mim, então eu não deveria ir também?”, parecia que o presidente Kang sabia muito bem que o tio materno era um ponto negativo para a equipe.
Ainda assim, o número de pessoas era bastante reduzido. Não havia ninguém do jurídico nem o diretor Jin, do escritório de apoio estratégico. É claro que, naquele dia, tratava-se antes de tudo de uma reunião simples para apresentar que visão eles tinham, de que forma vinham apoiando os atletas e que estratégia de suporte adotariam para o atleta Kwon Jaekyoung, então não havia necessidade de um advogado presente. E, considerando a personalidade da senhora Sim, era mais do que evidente que ela faria todo tipo de pergunta, então, na avaliação do presidente Kang, era melhor a presença da líder Lee, que comandava diretamente as operações de campo, do que a do diretor Jin, que ficava sentado à mesa apenas olhando documentos.
Jiheon concordava, até certo ponto. De qualquer forma, o que importava para a senhora Sim era a ordem de grandeza do valor da luva, então, por ora, não faziam falta advogado nem nada. Bem, pensando assim, o próprio fato de se encontrarem naquele dia também não tinha o menor sentido.
>>“Sei lá. O presidente diz que, ainda assim, o valor está em se encontrarem e apresentarem que tipo de empresa nós somos.O presidente e a líder do departamento de gestão devem saber o que fazem.”
Jiheon suspirou e recostou o corpo fundo no encosto do sofá. Com isso, o conteúdo da ligação que a pessoa no assento de trás tratava em voz bastante contida entrou direto em seus ouvidos.
— Não, ele disse que nem morto vai participar das Olimpíadas. Mandamos pensar com calma, e ele disse que não quer. Que vai se aposentar definitivamente ao fim desta competição. Ele disse que só assina o contrato se a gente entender isso e escrever um termo se comprometendo a não interferir na participação dele em nenhuma competição daqui em diante.
Jiheon ficou tão surpreso que congelou naquela mesma posição. Não teve nem tempo de se constranger com o fato de ter ouvido sem querer a ligação alheia. Olimpíadas, aposentadoria ao fim desta competição, participação em competições futuras, contrato e por aí vai. Todas as expressões que saíram da boca da pessoa atrás dele eram excessivamente familiares. Por qualquer ângulo, aquilo era gente do mesmo ramo.
>>“Não, agora, neste exato momento, neste hotel, tem outro profissional de agenciamento esportivo aqui? E ainda por cima uma empresa em negociação com um atleta de nível seleção nacional, com talento tão descomunal a ponto de poder decidir por conta própria se participa ou não das Olimpíadas?Será que é…” <>“Então é sobre o Kwon Jaekyoung mesmo.”
Jiheon teve certeza. Juntando tudo o que ouvira até ali, não podia ser outra coisa senão sobre Kwon Jaekyoung.
>>“Isso quer dizer que a pessoa sentada atrás de mim é funcionária da Kava. E, pelo clima atual, parece que as conversas com o lado do Kwon Jaekyoung não estão indo bem. …Será que a coisa vai realmente desandar? Foi por isso que a senhora Sim nos chamou? Ou nos chamou só para dar um susto neles no meio de uma queda de braço com a Kava?”
>>“Não, antes disso, por que o Kwon Jaekyoung está dizendo que não vai participar das Olimpíadas no ano que vem?”<>“O Grand Slam é ótimo, mas, sinceramente, no mercado publicitário o título de bicampeão olímpico funcionaria muito melhor. Ou será que isso também é só uma birra armada para usar como carta na negociação com a Kava?”<<
Ele estava sem conseguir se recompor com a enxurrada repentina de informações quando, justo nesse momento, o celular tocou.
[ Gerente Jeong, onde você está? ]
Era a líder Lee Yujeong, do departamento de gestão.
— Ah, eu estou no saguão agora.
Jiheon se levantou rapidamente. E então, cobrindo a boca com uma das mãos, sussurrou:
— Mas acho melhor a senhora não vir para cá agora. Se me disser onde está, eu vou até aí.
[ Ah, é? Então suba direto. Combinamos de nos encontrar no quarto do atleta Kwon Jaekyoung. ]
A líder Lee Yujeong informou o número do quarto e desligou. Assim que guardou o celular no bolso da calça, Jiheon procurou os elevadores. Mas os três elevadores centrais estavam todos subindo. Ainda por cima, a fila de pessoas em frente aos elevadores era enorme. Diziam que naquele dia haveria um grande simpósio e uma feira naquele hotel, então provavelmente eram convidados desses eventos.
Se dependesse daquilo, os elevadores das duas extremidades provavelmente estariam iguais.
— …
Jiheon cruzou os braços e pensou um instante. O quarto ficava no 21º andar. Olhando para a ponta do próprio sapato, fez as contas na cabeça com afinco. E logo se virou em busca da escada de emergência.
Pouco depois, ao chegar ao 21º andar, Jiheon teve certeza de que sua decisão fora acertada. Se tivesse insistido em pegar o elevador, provavelmente teria esperado ali uns bons dez minutos, enquanto pela escada levou pouco menos de cinco. Em compensação, foi terrivelmente cansativo.
Jiheon regulou a respiração ao máximo enquanto percorria o corredor. Graças a isso, ao chegar em frente ao quarto, a respiração já estava quase normalizada. Mas não havia nada a fazer quanto ao suor que começava a se formar na testa e na nuca.
— Ah, gerente Jeong.
A líder Lee, que estava de pé em frente ao quarto, reconheceu Jiheon primeiro e fez sinal com a mão, como quem diz "venha logo". O presidente Kang também se virou e disse, com uma expressão um pouco surpresa:
— Que suor é esse? Está tão quente assim lá fora?
— É que eu subi pela escada.
Dessa vez foi a líder Lee que fez uma expressão de espanto.
— Até aqui? Mas é o 21º andar!
— Vai subestimar um ex-atleta da seleção nacional? Isso aí é moleza.
O presidente Kang, também ex-jogador de vôlei da seleção nacional, falou se gabando. Sinceramente, moleza não foi, mas não havia clima algum para dizer isso.
— Antes de mais nada, enxugue o suor.
A líder Lee tirou um lenço da bolsa e o entregou a Jiheon.
— Obrigado. Vou lavar e devolver.
Quando Jiheon disse isso enquanto enxugava o suor, a líder Lee fez que não com as mãos, dizendo "não, não".
— Pode jogar fora. Já está bastante gasto que eu estava mesmo pensando em trocar.
— Então eu compro um novo para a senhora.
Jiheon falou sorrindo e, em seguida, dobrou o lenço e o guardou no bolso da camisa social.
— Então vamos entrar?
O presidente Kang disse isso e bateu imediatamente na porta do quarto. Pouco depois, uma mulher de meia-idade abriu a porta.
— São o pessoal da Spoin, certo? Estávamos esperando. Entrem, por favor.
Quem falou com um sorriso elegante era a senhora Sim, mãe de Jaekyoung. Ela deixou o presidente Kang e a líder Lee entrarem primeiro e, assim que viu Jiheon, que entrava por último, abriu os dois braços e o abraçou, dizendo:
— Meu Deus, o atleta Jiheon.
— Quanto tempo, hein.
— Olá. Há quanto tempo.
— Pois é! Já faz quase dez anos, não é mesmo? Mas a senhora está com uma aparência melhor agora do que há dez anos. Parece até mais jovem.
— Ai, imagina, não pode ser!
A senhora Sim riu e fez que não com as mãos, mas Jiheon havia falado sinceramente. Não só o estilo geral, incluindo as roupas, mas a pele também tinha viço e o semblante estava mais luminoso; ela parecia bem melhor do que naquela época. Bem, naquela época o rosto dela também estava sempre bem. E como não estaria? Era mãe de um filho tão brilhante. Só de ouvir os elogios e a inveja de todos ao redor, o sorriso não devia sair do rosto dela o dia inteiro.
— Venham, por aqui, por favor.
A senhora Sim conduziu os três até a mesa da sala. Pela sala de estar, pela cozinha, e pelas duas portas de quartos visíveis de imediato, não devia ser um quarto comum, e sim uma suíte tipo residência.
— O Jaekyoung está fazendo fisioterapia agora. Já já ele sai.
A senhora Sim falou apontando para a porta firmemente fechada lá dentro. Diante daquilo, Jiheon não pôde evitar que o coração pesasse. Porque, no íntimo, ele esperava ouvir que ele tinha ido treinar. Bem, desde que ouviu o funcionário da Kava falando ao telefone no saguão, já tinha um mau pressentimento.
— Entendo. A senhora deve estar bastante ocupada, obrigado por reservar um tempo para nós.
O presidente Kang cumprimentou, inclinando a cabeça.
— Não é qualquer pessoa: foi o próprio atleta Jiheon, quer dizer, o gerente Jeong, que entrou em contato, então era o mínimo.
Diante disso, a líder Lee Yujeong riu e disse:
—Presidente, o senhor vai ter que pagar uma refeição gostosa para o gerente Jeong.
— Ah, claro. É óbvio.
O presidente Kang também falou, todo sorridente. A senhora Sim riu ao ver os dois e, voltando o olhar novamente para Jiheon, disse:
— Eu tenho um vínculo profundo com o gerente Jeong. Nós fomos para aquele centro de natação por causa do atleta Jiheon, quer dizer, do gerente Jeong. O Jaekyoung insistia tanto que queria aprender no mesmo lugar que aquele hyung que nós até nos mudamos para Ilsan.
Se o diretor Ko tivesse ouvido aquilo, é evidente que teria gritado na hora: "Ora, como assim? Você disse que não eram nada próximos e eram amiguíssimos!". Enquanto engolia em seco pensando que era uma sorte imensa ele não ter vindo àquela reunião, ao seu lado o presidente Kang emendou, com uma expressão satisfeita:
— O nosso gerente Jeong Jiheon esteve em altíssima evidência na época, quando ganhou a medalha no Mundial.
— Isso mesmo. Já era raro um nadador do nosso país ganhar medalha em Mundial, e ainda por cima naquela época ele era estudante do ensino médio. Como o noticiário ficava passando os vídeos da competição sem parar, o menino viu aquilo e disse que também queria aprender ali.
— O atleta Kwon Jaekyoung provavelmente teria se saído bem onde quer que tivesse aprendido.
Jiheon se intrometeu rapidamente assim que a senhora Sim terminou de falar.
— As condições físicas ele já tem de nascença, mas ele era extremamente dedicado. Desde a época do ensino fundamental o volume de treino dele era descomunal. Nem adultos conseguem tanto.
De algum modo, ele despejou palavras de elogio na tentativa de desviar o assunto de si para Jaekyoung.
— Ah, claro, claro. Um gênio que ainda por cima se esforça tanto, não tem como não se tornar o melhor do mundo.
O presidente Kang assentiu com afinco.
— Exatamente. Por isso eu pensava que seria bom se ele também se interessasse pelo medley, e quando soube que ele tinha ganhado o ouro no medley nos Jogos Asiáticos, pensei: "ah, é claro". É que, entre os nadadores, existe a percepção de que o medalhista de ouro do medley é, na prática, o campeão de tudo.
— Ah, é verdade. Aliás, o que fez o Jaekyoung se preparar para o medley foi…
No exato momento em que a senhora Sim ia dizer alguma coisa, a porta do quarto interno se abriu e saíram o fisioterapeuta e um homem já adiantado em anos.
— Diretor Choi.
A senhora Sim se levantou do sofá. O homem de meia-idade, vestido de terno, se aproximou da mesa.
— Este é o presidente Kang Taejin, da Spoin.
Quando a senhora Sim apontou para o presidente Kang, a pessoa chamada de diretor Choi disse "ah, muito prazer" e estendeu a mão.
— Sou Choi Seonghyo. No momento estou trabalhando ao lado do atleta Kwon Jaekyoung, dando apoio.
— Kang Taejin.
O presidente Kang apertou a mão estendida pelo diretor Choi e logo inclinou a cabeça. Em seguida, apresentou lado a lado a líder Lee e Jiheon, que estavam sentados.
— Esta é a líder Lee Yujeong, do nosso departamento de gestão. E este é o gerente Jeong Jiheon, do departamento de marketing.
— Muito prazer.
O diretor Choi cumprimentou primeiro a líder Lee Yujeong e, em seguida, estendeu a mão também para Jiheon.
— Eu já encontrei o gerente Jeong uma vez, dez anos atrás.
— Ah, é mesmo?
Ao ouvir "dez anos atrás", ele já começou a ter um mau pressentimento. E, como não podia deixar de ser:
— Sim. Foi quando houve aquele jantar com os dirigentes da federação depois do Mundial. Eu também estava lá naquela ocasião.
— Entendo.
— Não imaginei que fosse revê-lo assim.
O diretor Choi riu, segurando a mão de Jiheon.
— Saber que o gerente Jeong está na Spoin me deixa mais tranquilo. Afinal, faz uma grande diferença ter ou não um agente vindo do meio esportivo. Como o gerente Jeong também atuou na seleção nacional, entenderá bem a posição do nosso atleta Kwon Jaekyoung e, acredito, será uma grande força em vários aspectos.
Diante das palavras protocolares do diretor Choi, a senhora Sim, que voltava de acompanhar o fisioterapeuta até a porta, emendou: "Isso é uma coisa que eu também gosto muito". Mesmo sabendo que era pura cortesia de praxe, o canto da boca do presidente Kang não teve como não se abrir.
— Sim. O nosso gerente Jeong vai se sair bem. Mas, e o atleta Kwon Jaekyoung, onde…
— Ah, ele está se trocando agora. Já já sai.
Mal o diretor Choi terminou de falar, a porta do quarto interno se abriu e Jaekyoung saiu.
Jiheon se assustou assim que o viu. Ele sabia que ele era alto, mas, ao vê-lo pessoalmente, a imponência era impressionante. Ele mesmo tinha 1,84m e, por causa da natureza da profissão, achava que já estava imunizado contra a maioria dos gigantes, mas, passando de 1,90m, o ângulo em que precisava erguer a cabeça era outro. Por ser o oposto exato da última vez em que o vira, era ainda mais difícil se adaptar. Naquela época Jaekyoung era uns dez centímetros mais baixo, então era ele quem precisava baixar um pouco a cabeça e olhar para baixo. Exatamente como Jaekyoung olhava para Jiheon agora.
— …
Quando os olhos se encontraram, Jiheon naturalmente virou o rosto e desviou o olhar. Precisava de tempo para se adaptar. E, ainda por cima, o rosto continuava idêntico ao de dez anos atrás, o que aumentava a sensação de desconforto.
Não, o rosto também tinha mudado. Tinha mudado, mas era o mesmo. Ele mesmo achava aquilo sem sentido, mas era verdade. Os olhos profundos, os olhos castanhos escuros, os cílios longos e volumosos, o nariz esculpido — tudo continuava igual. Até mesmo os lábios firmemente cerrados eram exatamente como dez anos atrás.
Só que não havia nada daquela sensação infantil de outrora. Como naquela época, examinando cada traço um a um, o rosto continuava bonito e delicado, mas a impressão que se sentia de imediato, à primeira vista, era de uma masculinidade e uma imponência enormes. Isso era curioso. Era como se o transcorrer de dez anos se desenrolasse ali, diante dos olhos.
— Sou Kwon Jaekyoung.
Jaekyoung falou brevemente, jogando o cabelo bagunçado para trás de qualquer jeito. Tanto quanto a expressão, também a voz transmitia indolência.
— Ah, sim. Kang Taejin.
O presidente Kang cumprimentou tardiamente e estendeu a mão, mas nesse momento Jaekyoung já havia se virado. Como se não tivesse visto a mão do presidente Kang, ele foi até uma poltrona individual num canto da sala de recepção e se largou nela.
O sofá era bonito e sofisticado, mas pequeno demais para acomodar um rapaz de 1,92m e 84kg. Não importava como se sentasse, as pernas longas acabavam sobrando para fora. É claro que Jaekyoung não se importou. Ele cruzou as pernas longas que sobravam e apoiou o cotovelo em um dos braços da poltrona. Jogou o peso para aquele lado, quase se deitando de lado. E então fechou os olhos.
Diante daquela atitude, que por qualquer ângulo indicava não ter a menor intenção de participar da conversa, o rosto do presidente Kang endureceu.
— Ele deve estar assim porque acabou de sair da fisioterapia e está cansado.
A mãe de Jaekyoung falou como quem justifica o filho.
— Ah, é cansativo, sim. Com certeza. Eu também fico sem conseguir raciocinar depois de uma massagem.
A líder Lee Yujeong emendou rapidamente.
— Faz pouco tempo que ele chegou à Coreia, por isso é ainda mais difícil. Ele ainda não se adaptou ao fuso.
O diretor Choi também falou, sorrindo.
Faz mais de uma semana que ele chegou à Coreia, e vem com essa história de fuso horário? Ainda por cima, a diferença para a Austrália é de apenas uma hora. Assim que Jiheon pensou isso, o presidente Kang disse "sim, deve ser isso. Afinal, faz apenas uma semana" — algo bastante carregado de segundas intenções — e se sentou.
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução&Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆