Capítulo 01.3
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— Gerente Jeong, ouvi dizer que você conhece o Kwon Jaekyoung.
Como esperado, o diretor Ko gritou isso assim que Jiheon chegou à sala da diretoria.
— …Eu?
Jiheon devolveu a pergunta com uma expressão de espanto, como se estivesse ouvindo aquela história pela primeira vez na vida. Ainda bem que ele sabia que o diretor Ko viria com essa e havia até ensaiado antes como reagir; do contrário, no meio do susto, quase teria caído na armadilha respondendo algo como “ah, sim, bom, conhecer eu conheço”.
— Ah, mas você treinou na mesma piscina que ele, não foi?
O diretor Ko bateu na mesa, pressionando.
— Treinei. Mas provavelmente algumas centenas de pessoas além de mim também treinaram lá. É que aquele centro de natação era ligado à escola primária bem ao lado. Cada turma tinha aula de natação uma vez a cada duas semanas.
Jiheon distorceu a verdade com habilidade. Na realidade, ele e Kwon Jaekyoung recebiam treino individual de seus respectivos técnicos, independentemente das aulas da escola primária, mas ele não tinha lealdade suficiente para explicar até esse ponto. Numa situação em que era preciso esconder o máximo possível, por que iria relatar tudo com tantos detalhes?
— Então, você nunca trocou nem uma palavra com ele?
Mas esconder e mentir eram coisas categoricamente diferentes.
Jiheon hesitou. Se ele mentisse aqui e dissesse que sim, será que o diretor Ko deixaria passar numa boa? Se fosse assim, ele poderia fechar os olhos e dizer “sim, isso mesmo”. Mas o diretor Ko não era o tipo de pessoa que desiste fácil. Além disso, se mais tarde descobrissem que ele havia mentido, seria difícil lidar com as consequências.
No fim, Jiheon decidiu não mentir.
— Falar até falei, mas foram pouquíssimas vezes. Dá para contar nos dedos de uma mão a quantidade de vezes que conversamos ao longo de um ano.
— Como assim, só isso?
O diretor Ko ficou pasmo, como se não conseguisse conceber que fosse possível.
— Mas pelo menos vocês se cumprimentavam ao se cruzarem, não?
— Não, não tínhamos uma relação nem para isso.
— É mesmo…?
O rosto do diretor Ko exibia uma decepção evidente. Se ele empurrasse só mais um pouquinho, parecia que logo o outro suspiraria e diria “chega, chega, pode voltar para o seu lugar”, dispensando-o com um gesto de mão. Jiheon, mantendo o canto da boca o mais rígido possível para que o alívio não o fizesse relaxar, falou como se ele próprio estivesse muito consternado:
— Para começar, o atleta Kwon Jaekyoung e eu tínhamos horários de treino diferentes, então nem havia oportunidade de nos cruzarmos. E o atleta Kwon Jaekyoung… assim como hoje, na época também não tinha uma personalidade sociável. Provavelmente quase ninguém conversou com o atleta Kwon Jaekyoung além do técnico daquela época. E o técnico, na prática, devia se comunicar mais com a mãe dele do que com o atleta Kwon Jaekyoung. A mãe funcionava praticamente como intermediária. Até eu conversei mais com a mãe dele do que com o atleta Kwon Jaekyoung…
— Ah, que ótimo!
O diretor Ko de repente exclamou, radiante.
— Justamente, o contato que eu consegui é o da senhora Sim! A mãe do Kwon Jaekyoung! A pessoa da associação de apoio disse que não sabia o contato do atleta, só o da mãe, e me passou. Ah, que ótimo. O gerente Jeong pode entrar em contato com a senhora Sim, então! Ah, que ótimo, que ótimo!
…Ferrou.
Jiheon mordeu o lábio. Ele só queria enfatizar o quanto Kwon Jaekyoung era uma pessoa desinteressada pelos outros e que erguia muros à sua volta, mas parece que se empolgou demais e acabou dizendo coisas que não precisava.
— Aqui, este é o contato da senhora Sim. Diga que recebeu o contato do diretor Ko Hyeonseok, da Spoin, e ligue. E fale que é aquele Jeong Jiheon, hein? Tem que falar isso, sem falta.
O diretor Ko entregou o cartão de visita, animado. Recebendo o cartão com as mãos trêmulas, Jiheon pensou:
“Será que foi por causa disso que tive aquele sonho estranho ontem à noite? Parecia só um sonho sem sentido, mas será que na verdade era premonitório?”
Ao sair da sala da diretoria, Jiheon voltou ao seu lugar na equipe de relações públicas, pegou apenas o cigarro e o celular e foi para a sala de fumantes.
Felizmente, talvez por ser cedo, não havia ninguém lá. Jiheon escolheu o canto mais afastado e, assim que se sentou, examinou o cartão que tinha em mãos. Não era o cartão da senhora Sim, ou seja, da mãe de Kwon Jaekyoung. Devia ser o cartão daquela pessoa da associação de apoio que passou o contato da senhora Sim ao diretor Ko. E o número de celular anotado a caneta no verso do cartão devia ser o dela.
— …
Ele suspirou. Não havia necessidade de retrospectivas sobre como as coisas tinham chegado àquele ponto. Já estava feito e, agora, remoer algo que não dá para desfazer só ia azedar o estômago. Em vez disso, era melhor pensar em como sair daquela enrascada.
Não, na verdade, nem havia o que pensar. Que poder tem um assalariado? Se mandam de cima, é obedecer. E nem era uma tarefa tão grandiosa: era só dar um telefonema e marcar um encontro.
Claro, ter que invocar uma amizade de dez anos atrás — se é que dava para chamar aquilo de amizade, mais um vínculo passageiro — era um sofrimento, mas, na vida profissional, não dá para viver fazendo apenas o que se quer. E, comparado a toda sorte de merda que acontece, aquilo nem era caso para tanto escândalo. De qualquer forma, aceitar ou não o encontro dependia inteiramente da vontade do outro lado, então bastava fazer o que estivesse ao seu alcance.
Uma vez tomada a decisão, Jiheon tirou imediatamente o celular do bolso da calça. Esse tipo de coisa tem que ser resolvido na hora em que se decide; se ficar arrumando desculpa e adiando, a vontade só diminui.
Conferindo duas vezes os onze dígitos anotados no cartão, digitou o número com cuidado. Apertou o botão de chamada e, depois de alguns toques, o outro lado atendeu.
[Alô.]
Diante da voz cheia de elegância de uma mulher de meia-idade, Jiheon ficou momentaneamente sem jeito. Porque a mãe de Kwon Jaekyoung, de quem ele se lembrava vagamente, não tinha uma voz assim. Bem, aquilo também já era uma lembrança de dez anos atrás. Além disso, ele não tinha ouvido aquela voz tantas vezes a ponto de poder se dar ares de familiaridade.
Jiheon afastou os pensamentos dispersos da cabeça e falou com a voz mais séria e serena que conseguiu produzir:
— Bom dia. Aqui é o gerente Jeong Jiheon, da Spoin, empresa especializada em agenciamento esportivo. Estou entrando em contato porque recebi o seu número do diretor Ko Hyeonseok.
Ele ficou tenso, achando que ela perguntaria quem era o diretor Ko Hyeonseok, mas, por sorte, a mãe de Kwon Jaekyoung logo respondeu [Ah, sim.] e demonstrou saber de quem se tratava.
[É o diretor de quem o pessoal da associação de apoio disse que passaria o contato, certo?]
— Sim, exatamente.
[Mas por que o próprio diretor não ligou…]
No modo vago como ela deixou a frase no ar, transparecia um leve desagrado. A entonação era de “eu disse claramente para dar o número a esse tal de diretor, então por que um gerente, que nem está no mesmo nível, é quem está me ligando?”. É claro que Jiheon compreendia perfeitamente o sentimento dela. Por qualquer ângulo, aquilo não era educado.
Enquanto Jiheon pensava em como se explicar, a senhora Sim falou primeiro:
[De qualquer forma, gerente. Eu passei o meu contato a pedido da pessoa da associação de apoio, mas na verdade nós já estamos em negociação de contrato com alguém.]
— Está falando da Kava, certo?
[ Isso. A esta altura, com matérias já publicadas, fingir que não sabemos um do outro também seria ridículo. Então vou dizer claramente. Nós provavelmente vamos fechar com a Kava.]
Como esperado, foi rápido e direto. Diante da firmeza dela, que nem por educação disse algo como “entraremos em contato depois”, Jiheon sentiu mais do que admiração: sentiu-se comovido. Cada um tem sua opinião, mas Jiheon era do time que achava melhor recusar de forma clara desde o início quando não havia possibilidade. Em vez de enrolar em nome da educação e torturar o outro com esperanças, dar uma resposta o quanto antes era muito mais considerado. Assim quem foi recusado também desiste logo e segue em frente. Era o caminho que reduzia desperdícios em vários sentidos.
— Entendo…
Jiheon murmurou, fingindo estar bastante decepcionado. Teria sido bom se ele pudesse encerrar ali mesmo dizendo “compreendo, a Kava é uma ótima empresa e vai dar um bom suporte ao atleta Kwon Jaekyoung; se houver algo em que possamos ajudar, entre em contato a qualquer momento” — mas ainda restava a Jiheon uma última missão não cumprida.
— Mas, com licença, a senhora que está atendendo é mesmo a mãe do atleta Kwon Jaekyoung?
[ Como? Claro que sim.]
A senhora Sim se espantou, como se aquilo fosse um absurdo. Sem se importar com isso, Jiheon falou com ela em um tom bem mais afável:
— A senhora por acaso se lembra de mim? Nós nos vimos há bastante tempo no centro de natação de Ilsan.
[ Ah, é mesmo? ]
A senhora Sim respondeu com indiferença. Dava a impressão de querer dizer que não tinha visto apenas uma ou duas pessoas há bastante tempo e que não havia como se lembrar de cada uma delas. Sem se abalar, Jiheon continuou no mesmo tom cordial:
— Sim. Naquela época eu treinava lá e cheguei a cumprimentar a senhora algumas vezes. Nessa época o atleta Kwon Jaekyoung devia estar no quarto ou quinto ano do ensino fundamental.
[ Ah, foi mesmo…? ]
Ao ouvir que ele treinava lá, a atitude dela pareceu ficar um pouco mais cautelosa. Parecia estar remexendo a memória com afinco, tentando lembrar quais atletas treinavam ali naquela época.
Depois de um breve silêncio, a senhora Sim voltou a falar:
[ Um momento, qual é mesmo o seu nome, gerente? ]
— Jeong Jiheon.
[ Ai, meu Deus do céu! ]
Do outro lado da linha veio imediatamente um grito.
[ É sério? É o atleta Jiheon? Ai, meu Deus, meu Deus do céu! ]
— Agora já não sou mais atleta.
Jiheon falou, rindo.
A senhora Sim disse [ Ah, é verdade, claro. ] e, como se não conseguisse acreditar naquela situação, repetiu sem parar “meu Deus, meu Deus”. E, ao dizer com alvoroço [ Ai, o que é isso, que maravilha! ], foi então que finalmente surgiu a voz dela que Jiheon conhecia.
[ Então, você parou de competir e agora trabalha com agenciamento? Quer dizer, você trabalha em uma agência? ]
— Sim. Trabalho na Spoin.
[ Ah, é mesmo, meu Deus… ]
A senhora Sim não sabia o que fazer. Jiheon sabia que falar naquele momento era jogo sujo, mas não tinha outro jeito.
— Não fica bem eu mesmo dizer isso, mas é uma empresa realmente boa. O nosso presidente é ex-jogador de vôlei. Atuou na liga profissional. Por isso ele entende melhor do que ninguém a posição dos atletas. E há muitos funcionários ex-atletas como eu. Acredito que possamos dar um bom suporte ao atleta Kwon Jaekyoung. Por isso eu queria muito encontrá-la pessoalmente para conversar.
Jiheon falou ainda com voz cordial, mas em um tom bem mais formal. A intenção era estimular o lado emocional usando o vínculo do passado enquanto, com uma atitude razoavelmente confiável, apresentava ao máximo as qualidades da empresa.
Mas a senhora Sim era a senhora Sim.
[ Pois é. Uma empresa assim deve pensar mais na posição do atleta do que as outras. Mas o que fazer? Nós, neste momento, estamos realmente com as conversas com a Kava praticamente concluídas. Só falta assinar, e se agora, a esta altura, nós entrarmos em contato com outra empresa, isso também não seria correto, não acha? Claro, dá para dizer que basta ouvir a proposta e não fechar contrato, mas, se de qualquer forma não vamos fechar, também é meio ruim ficar tomando o tempo do pessoal da empresa. ]
O tom era o de quem não tinha intenção de, levada por um sentimentalismo qualquer, criar expectativas vãs sem pretender fechar contrato. Diante daquela atitude afiada, Jiheon voltou a se admirar. Ali, o manual mandaria dizer algo como “para nós já basta que a senhora nos receba e apenas ouça; que é isso, tomar o nosso tempo? Para nós é apenas uma boa oportunidade” — mas ele não queria chegar a esse ponto. Numa situação em que a conclusão já estava dada, ficar se estendendo em detalhes só cansaria ambos os lados.
— Entendo. Compreendo perfeitamente o que a senhora quer dizer. A senhora tem razão. Se o contrato já está tão adiantado, seria falta de educação com a Kava nós nos intrometermos agora. A Kava é uma boa empresa. Certamente será uma grande força para o atleta Kwon Jaekyoung em vários aspectos. A senhora escolheu bem.
Jiheon encerrou a conversa elogiando a interlocutora com palavras convenientemente agradáveis.
[ Parece que o atleta Jiheon ligou com a expectativa de conseguir uma reunião, e eu sinto muito que as coisas tenham ficado assim. ]
— Imagina. Mais do que isso, fiquei surpreso por a senhora se lembrar de mim.
Isso era sincero.
— Para ser franco, fiquei em dúvida até o momento de ligar. Estava preocupado que a senhora fosse ficar sem graça se eu trouxesse esse assunto do nada, mas a senhora se lembrou de mim na hora, e isso me surpreendeu. Obrigado.
[ Ai, como é que eu ia esquecer do atleta Jiheon? O nosso Jaekyoung gostava tanto de você.]
A interlocutora também era bastante hábil em cordialidades protocolares. Dez anos atrás era a mesma coisa. Bastava ver Jiheon para perguntar isso e aquilo e, no fim, sempre encerrava a conversa dizendo: “Espero que você se recupere logo da lesão. Tem que mostrar a sua melhor forma. O nosso Jaekyoung gosta tanto de você.” É claro que Jiheon não acreditava naquilo.
[ Depois eu entro em contato. Vamos nos encontrar para comer alguma coisa. ]
Dessa vez foi igual. Se ele acreditasse em algo obviamente dito por cortesia, quem sairia prejudicado seria ele mesmo. Sempre foi assim. Justamente por saber que eram mentiras ditas por educação de ambos os lados, escolhiam a dedo apenas as palavras que soariam agradáveis ao outro.
— Sim, ficarei no aguardo. A senhora deve estar ocupada e eu já a incomodei por tempo demais. Cuide-se, senhora. E, por favor, mande lembranças ao atleta Kwon Jaekyoung.
Jiheon falou sorrindo amplamente para a interlocutora do outro lado da linha.
Quando a ligação terminou, ele suspirou e guardou o celular no bolso da calça.
Pronto. Já fiz o que estava ao meu alcance. Se ele dissesse que, pelo visto, o contrato com a Kava já estava praticamente decidido, e que, mesmo tendo tentado, ela recusou dizendo que não seria correto com ninguém, o diretor Ko não teria escolha senão aceitar.
Jiheon suspirou de novo e pegou o maço de cigarros sobre a mesa. Ao acender e dar uma tragada profunda, teve a sensação, ainda que por um instante, de que todas as preocupações desapareciam. Fazer aquilo logo depois de chegar ao trabalho era motivo para levar bronca, mas ele racionalizou que, tendo acabado de resolver uma missão, podia se dar a esse luxo, e fumou tranquilamente até a última tragada.
Depois de aproveitar assim a pausa matinal para o cigarro e voltar ao escritório, logo veio outra convocação do diretor Ko. Deu vontade de fumar de novo, mas Jiheon apenas pousou o telefone e se levantou.
De qualquer forma eu fiz o meu melhor, eu realmente fiz o que estava ao meu alcance, o que posso fazer se o outro lado diz que não? — enquanto buscava um jeito de expressar isso da forma mais educada e formal possível, chegou ao quarto andar, onde ficava a sala da diretoria.
Jiheon bateu à porta com uma expressão sofrida. De dentro veio imediatamente um “ah, entre”. Jiheon respirou fundo uma vez e abriu a porta.
— Oh, gerente Jeong!
Assim que viu Jiheon, o diretor Ko saltou da cadeira como se tivesse uma mola no traseiro. Correndo em volta da mesa como um esquilo veloz, o velho saiu batendo com força nas costas de Jiheon e disse:
— O diretor executivo Choi acabou de entrar em contato! Ele quer que nos encontremos amanhã à tarde para conversar!
— Diretor executivo Choi…?
Quem é esse? Como não conseguia perguntar, Jiheon apenas piscou os olhos, e o diretor Ko, parecendo ler sua expressão, disse:
—Ah, você não conhece o diretor Choi?. Ora, é o responsável pelo Kwon Jaekyoung. O diretor Choi, da federação de natação!
Ah. Jiheon murmurou brevemente. Como Kwon Jaekyoung não tinha agência, a federação havia acionado o departamento responsável pelo apoio aos atletas para organizar uma equipe de suporte temporária que auxiliava suas atividades. O responsável geral por isso era um tal executivo de sobrenome Choi, e devia ser dessa pessoa que ele falava.
— …
De repente ele acordou de vez. Se uma pessoa dessas propôs marcar um encontro, isso quer dizer que, no fim, vão nos receber? O pessoal de Kwon Jaekyoung? Com a nossa empresa? Sério? Por quê?
Antes mesmo que Jiheon perguntasse, o diretor Ko já foi falando animado:
— Parece que a senhora Sim comentou que, se o próprio gerente Jeong entrou em contato, seria o caso de pelo menos se encontrarem. Isso! Era o gerente Jeong mesmo quem tinha que ligar, era a resposta certa! Uma pessoa não pode simplesmente ignorar um vínculo do passado. Além disso, rigorosamente falando, o nosso gerente Jeong é uma espécie de veterano para o Kwon Jaekyoung, não é?
Há quanto tempo ele estava aposentado, e que importância tinha ser veterano ou não? Eles nem sequer treinaram juntos, e eram pessoas que quase nunca conversaram. Se fosse para retribuir cada vínculo insignificante desses em nome da cortesia, então, se um amigo que emprestou uma borracha na escola primária aparecesse pedindo dinheiro emprestado, seria preciso atender também.
Ele até que queria falar aquilo com a maior seriedade, mas dava preguiça. E, antes disso, não tinha coragem de bancar o valentão desse jeito com alguém que era nada menos que diretor. No fim, Jiheon apenas riu e disfarçou com um “sim, ainda bem que eles se lembraram de mim”.
— Fico feliz que as coisas tenham se resolvido. Então eu vou voltar ao meu trabalho…
— Ah, sim, sim. Pode ir logo.
Antes mesmo que Jiheon terminasse de falar, o diretor Ko fez sinal com as mãos, dispensando-o. Devia estar de excelente humor, pois o velho até abriu pessoalmente a porta da sala da diretoria e acrescentou:
— E amanhã à tarde você vai precisar se ausentar por uma ou duas horas, então deixe tudo preparado com antecedência para não atrapalhar o trabalho.
Diante da fala repentina do diretor Ko, Jiheon, que já estava saindo da sala, parou e se virou:
— Como? Por que eu, amanhã à tarde…
Tardiamente, Jiheon pensou “não me diga”.
— Eu também vou?
— Claro, precisa perguntar?
O diretor Ko arregalou os olhos, como quem diz “que pergunta mais óbvia é essa?”.
— A senhora Sim disse que faz questão que o gerente Jeong vá. Ela disse que a reunião está sendo marcada praticamente por sua causa, e você não vai?
— …
Jiheon não conseguiu pensar em nada para dizer. Só tinha uma vontade desesperada de fumar.
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Na tarde de terça-feira, Jiheon terminou o trabalho mais cedo e organizou as coisas ao redor. Por último, desligou o notebook e conferiu as chamadas no. o celular; então, do outro lado da divisória, o assistente-gerente Nam pôs a cabeça para fora.
— Gerente Jeong, já está indo?
— Sim, vou lá e já volto.
— Nem precisa voltar hoje, mas traga o Kwon Jaekyoung.
— Prefiro voltar rápido e virar a noite trabalhando.
Diante da fala de Jiheon, o assistente-gerente Nam caiu na gargalhada. Era evidente que ele também havia dito aquilo de brincadeira. Jiheon sabia, mas naquele momento não tinha disposição mental para entrar na brincadeira.
— Chefe, estou saindo.
Jiheon avisou ao superior e deixou o escritório.
Assim que abriu a porta do prédio e saiu, o ar pesou. Diziam que aquele verão seria mais quente que o normal e, mal chegou julho, a temperatura em Seul ao meio-dia beirava os 34 graus. Jiheon pegou um táxi bem em frente ao prédio da empresa. Por ser um compromisso importante, ele havia escolhido com cuidado a camisa e a gravata e, com medo de ficar com cheiro, não fumou uma única tragada o dia inteiro. E agora não podia se dar ao luxo de suar caminhando sob aquele sol escaldante.
— Para Jamsil, por favor.
Quando ele disse o nome do hotel onde seria o encontro, o taxista partiu imediatamente sem nem digitar no GPS. Jiheon conferiu as horas mais uma vez e se recostou no banco. Com o ar-condicionado excessivamente forte, os antebraços expostos abaixo das mangas da camisa esfriaram rapidamente. Jiheon cruzou os braços e virou o olhar para fora da janela.
Preso àquela dinâmica de ir e vir conforme as ordens superiores, ele mal teve tempo de questionar para onde ia. Contudo, Jiheon continuava sem conseguir cair na real. Nós, em contato direto com a equipe de Kwon Jaekyoung? Estamos falando daquele mesmo atleta que ignorava as maiores agências do mercado e sequer atendia aos pedidos de reunião. E agora ele daria uma chance à Spoin, uma empresa recém-nascida de cinco anos? O mais absurdo de tudo — a parte que desafiava qualquer lógica em sua cabeça — era saber que o motivo por trás daquilo era ele mesmo.
E não era mesmo? Dez anos atrás, eles no máximo trocavam um cumprimento de vez em quando ao se cruzarem. Não eram próximos a ponto de, dez anos depois, haver esse tipo de lealdade, e ele também não se lembrava de ter feito nenhum favor à eles. Por isso, ao telefone no dia anterior, ele ficou bastante surpreso. Não esperava que a mãe de Kwon Jaekyoung ficasse tão contente assim.
Bem, aquela senhora sempre teve esse tipo de personalidade. Usando palavras gentis, ela era extremamente sociável; sendo sincero, tinha o costume de se fazer de íntima de quem mal conhecia. Como se quisesse compensar a personalidade fechada do filho, ela parecia multiplicar por dez o próprio carisma e a proximidade com os outros.
Com Jiheon, em especial, era sempre assim. Bastava avistá-lo de longe para vir cumprimentá-lo com um sorriso radiante. Em seguida, perguntava de forma muito natural como ele estava, se o ombro já tinha melhorado e passava a despejar conselhos e dicas que ele nem havia pedido — desde remédios milagrosos para as articulações até marcas de sungas feitas com materiais super tecnológicos. E, no fim da conversa, ela sempre disparava:
— Tomara que o nosso Jaekyoung cresça logo e possa treinar junto com o atleta Jiheon. Você não tem ideia do quanto ele é fã de você. Nós viemos morar aqui justamente porque ele viu um vídeo seu no Mundial pela televisão e cismou que queria aprender no mesmo lugar daquele hyung.
Ela devia ter contado essa história umas vinte vezes, no mínimo. E, todas as vezes, Jiheon ria e dizia “ah, é mesmo?”. Naquela época, Jiheon vivia com essa frase na boca. Porque não era só a mãe de Jaekyoung: praticamente todos os pais dos alunos do ensino fundamental e médio o paravam para dizer coisas parecidas.
Depois que Jiheon ganhou a medalha no Mundial e virou assunto em vários sentidos, muitas crianças se transferiram para a piscina onde ele treinava. Os funcionários do centro chegaram a reclamar que, todo dia, aparecia sem falta pelo menos um responsável fazendo escândalo na recepção, pedindo que seu filho pudesse treinar com o mesmo técnico do atleta Jeong Jiheon.
Ainda assim, casos como o de Kwon Jaekyoung — que mudou a família inteira para Ilsan — eram raros. O comum era que as pessoas acabassem se esgotando e optassem por fazer o trajeto de ida e volta diariamente. Quem morava mais longe recorria a soluções temporárias, como deixar a criança com parentes na redondeza ou fazer com que apenas um dos pais a acompanhasse.
Mas a mãe de Kwon Jaekyoung adotou, com ousadia, a solução de mudar a família inteira para Ilsan. Não se sabia ao certo como o pai havia reagido à decisão, mas o irmão mais velho, pelo menos, parecia bastante insatisfeito. E como não estaria? Além de terem se mudado de Seul para Ilsan de uma hora para outra por causa do caçula, ele ainda precisou trocar de escola repentinamente. Naquela época, o irmão estava no ensino fundamental II — uma fase sensível e cheia de preocupações —, e era impossível que ele gostasse de um ambiente familiar que girava exclusivamente em torno do irmão mais novo.
O irmão dele, quando as aulas terminavam, ia quase sempre ao centro de natação. Era para voltar para casa junto no carro da mãe depois que o treino do irmão acabasse. Jiheon viu algumas vezes o irmão de Kwon Jaekyoung sentado na sala de descanso esperando a mãe e o irmão. Parecido e ao mesmo tempo não tão parecido com Kwon Jaekyoung, o irmão ficava sempre sentado de forma torta, com o rosto cheio de insatisfação, olhando para um tablet.
Ao ver aquela cena, Jiheon acabava se lembrando da própria irmã mais nova. Ela também vivia reclamando, magoada, de que a mãe só tinha olhos para o irmão mais velho. Não que a mãe de Jiheon fosse extremada como a mãe de Jaekyoung; pelo contrário, como o marido era militar, ela nem costumava ir à piscina por receio de fofocas. Naturalmente, também não aparecia para buscá-lo como os outros pais e só falava com o técnico quase por telefone. Mesmo assim, com o cardápio montado em função do irmão mais velho e com a rotina da casa girando inteiramente em torno do calendário de competições dele, era inevitável que a irmã acabasse se sentindo deixada de lado e magoada.
Quando era pequeno, Jiheon também não compreendia sua irmã. Achava apenas que ela estava exagerando, já que, comparada à casa das outras crianças atletas, a casa deles não era nada, e os pais deles nem cuidavam tanto assim dele. Mas, à medida que amadureceu, sentiu na pele o esforço dos pais que têm um filho atleta e, na mesma medida, passou a compreender a mágoa que a irmã devia ter sentido.
Talvez por isso, quando via o irmão de Kwon Jaekyoung sentado sozinho na sala de descanso, Jiheon se sentia inevitavelmente comovido. E ainda por cima ele tinha justamente a mesma idade da sua irmã, o que aumentava o efeito. Por isso, vez ou outra, ele o cumprimentava ao passar e às vezes lhe comprava uma bebida ou um bastão de peixe empanado, e assim, sem que percebesse, aquele rapaz também passou a chamá-lo primeiro de hyung, e a se apegar a ele. Em certas ocasiões, ele ficava tagarelando sobre a própria vida e não soltava Jiheon até a hora do treino chegar. Pensando agora, aquela enorme facilidade de fazer amizade era, sem dúvida, herança da mãe.
O engraçado é que, apesar de conversar tanto com aquelas pessoas da família, na prática ele quase nunca havia conversado com Kwon Jaekyoung. Que conversa que nada: mesmo se cruzando na piscina, nem se cumprimentavam.
Mas isso era mais um problema de Kwon Jaekyoung do que de Jiheon. Porque, tirando o técnico responsável, Kwon Jaekyoung não cumprimentava ninguém dentro do centro. E, naturalmente, também não conversava. Ele sempre fazia apenas o que tinha para fazer, com o rosto inexpressivo, como se não visse nada e não ouvisse som algum ao redor.
Com Jiheon não seria diferente. Para começar, eles nem se cruzavam muito, mas, quando por acaso se cruzavam, ele agia como se não o tivesse visto. Isso valia para a piscina, é claro, e também para a sala de descanso ou a lanchonete. Ainda assim, seria de se esperar que, se ele estivesse conversando com o próprio irmão, o outro se aproximasse e dissesse ao menos uma palavra — mas ele sempre passava direto, ignorando tanto o irmão quanto Jiheon, como se não visse nenhum dos dois. Sendo assim, não havia como acreditar nas histórias da mãe, de que o Jaekyoung gostava muito do atleta Jiheon, ou que ele havia pedido para irem àquela piscina por causa do atleta Jiheon. Se fosse dizer que ele o desprezava e ignorava, aí sim.
Por isso, meio ano depois, no dia em que ele pegava as últimas coisas que restavam no armário e saía do local, Jiheon não pôde deixar de se surpreender quando Kwon Jaekyoung o seguiu até fora do centro e o segurou.
— Hyung, você vai mesmo parar de nadar?
De tão rápido que ele tinha corrido, aquele monstro de capacidade pulmonar falava com o fôlego preso na garganta, e aquilo passou do espanto e chegou a constrangê-lo. Teria sido melhor se ele apenas tivesse dito o que sempre dizia para as crianças da turma — ‘Sim, dê o seu melhor também por mim’ —, e dado as costas. Mas, dominado pelo embaraço, ficar mudo, sem conseguir responder nada e apenas encarando o outro, foi o seu primeiro erro.
— Por que você vai parar? É porque você é beta? Porque não é alfa, é por isso que vai parar?
Talvez achando que Jiheon não respondia de propósito, Jaekyoung segurou o braço dele com ainda mais força e perguntou. Nem o tom de cobrança, nem as palavras ditas com conclusões arbitrárias tiradas por conta própria incomodavam Jiheon. Porque aquilo já havia acontecido várias vezes. Com o técnico, com o pessoal da federação, com o pessoal da associação de atletas, com o professor responsável da escola — sempre que ele dizia que ia parar de nadar, todos diziam a mesma coisa.
Mas, por algum motivo, só naquele momento, só no instante em que ouviu aquilo de Jaekyoung, ele não conseguiu suportar.
⊹ ࣪ ⋆。𖦹⋆.Continua…﹏⊹ ࣪ ˖
◆ Tradução&Raws: Belladonna, Revisão: Nat ◆