↫─☫ Capítulo 03.4
𓂃 ࣪˖ ִֶָ Um presságio: Para o bem ou para o mal · Parte 4 ִֶָ་༘࿐
Por causa disso, Cuba, uma velha aliada, havia apresentado uma queixa não oficial, e o Kremlin não estava satisfeito. Antes que o caso afetasse sua família, Bazim precisava controlar Zhenya.
— Yevgeny, que diabos você está planejando?
— O que eu fiz?
— Por que um embaixador como você está se metendo em coisas que não beneficiam nem o país nem você mesmo?
— Você está enganado, Bazim. Pode não ser do interesse nacional, mas tem tudo a ver com o meu interesse pessoal. Se o meu amante está em perigo, farei o que for preciso para salvá-lo. Pergunte ao Kremlin que você tanto venera: se a Natasha estivesse prestes a ser devorada pela Baba Yaga, ele ficaria parado assistindo?
Bazim não conseguiu responder e ficou em silêncio. Natasha, a quem Zhenya se referira, era a conhecida amante do presidente. Com o apoio dele, não hesitava em se envolver em todo tipo de atividade excêntrica e ilegal. Embora o Kremlin sempre encobrisse seus erros, atraindo a desaprovação pública, o presidente dispensava todas as críticas com sua autoridade.
Que alguém assim criticasse as ações de Zhenya era irônico. O que era permitido a um não valia para o outro? Era absurdo vê-los se contradizerem.
— Você parece um pássaro com o rabo em chamas, correndo sem rumo. Parece que ouviu alguma coisa. Vá dizer ao Kremlin que não se preocupe com um pequeno alvoroço e mantenha a compostura de uma grande nação. Afinal, eles não ligam para o que os outros pensam, certo? Protestos de Cuba? Vão tratar como latido do cachorro do vizinho. Se acham que podem me pegar por isso, estão enganados.
— Então você vai continuar fazendo o que quiser? Vai transformar o Kremlin em seu inimigo?
— Quando foi que estivemos do mesmo lado?
Zhenya, que zombava dele, se levantou de repente. Bazim ficou tenso, rígido. Mesmo sendo irmão dele, sentia a mesma intimidação que qualquer outra pessoa sentiria. Zhenya não se curvava a hierarquias nem a reconhecimento, respondendo apenas aos próprios caprichos. O limiar para se exaltar era tão baixo que ele não diferia de um animal selvagem. Zhenya olhou para Bazim e fez um aviso:
— Bazim, cuide da sua vida. Se o seu sonho é ser um simples servo do Kremlin, continue lambendo as botas de Lomonosov como tem feito. Já te disse muitas vezes: contanto que você não toque no que é meu, não haverá necessidade de confronto. É tão difícil de entender?
Zhenya inclinou a cabeça de forma teatral, como se não conseguisse compreender. Depois de sustentar o olhar de Bazim por um momento, virou-se de repente e começou a arrumar suas coisas. Ao telefone, havia dito com doçura que logo estaria com o amante, e parecia pronto para sair na hora. Diante da atitude despreocupada dele, Bazim levantou a voz.
— Por quanto tempo você vai continuar agindo com tanta arrogância, Yevgeny? Sabe de onde vêm todos os luxos que desfrutou até hoje?
— Você acha mesmo que é graças ao Kremlin? Ou quer dizer que é graças ao prestígio da sua família?
Zhenya se virou devagar em direção a Bazim. A expressão leve e brincalhona sumiu, e o clima ficou gelado. Os olhos azuis estavam afiados como sempre.
— Acho que já paguei todas as minhas dívidas. Mesmo agora, estou me contendo mais do que o necessário.
— O quê?
— Você acredita mesmo que Lomonosov não me eliminou só por causa da nossa família? Não. Aquele homem eliminou qualquer coisa que o ameaçasse. Não importa se é família, um confidente próximo ou uma poderosa fonte de financiamento. Os Bogdanov? Para ele, não são um problema nem uma preocupação. Poderia ser um pouco inconveniente, mas ele simplesmente mataria todos e ficaria com o que restasse. Há muitos que poderiam substituir os Bogdanov. Mas a razão pela qual não fez isso é…
Zhenya deixou as palavras no ar enquanto batia no próprio peito. Depois apontou para Bazim.
— É porque isso está gravado no meu peito e no seu também. Eles têm medo de mexer no vespeiro sem ter desvendado o segredo de “Anastasia”.
— Você subestima demais aquele homem. Ele acredita que perder o orgulho é perder tudo. Se continuar desafiando-o, será punido como exemplo. Não importa quem você seja; como vai enfrentar centenas de milhares de soldados?
— Não posso vencê-lo com tropas. Mas e com poder de fogo?
— Yevgeny!
— Eles ainda não conseguiram completar nem um único míssil hipersônico, certo? Vivem se gabando de mísseis que só existem no nome.
Zhenya mencionou os mísseis de repente e riu. O desenvolvimento de mísseis hipersônicos era um dos projetos nacionais mais importantes da Rússia. Esses mísseis podiam percorrer 480 km em apenas cinco minutos, movendo-se tão rápido que os sistemas de defesa antimísseis existentes tinham dificuldade para interceptá-los. O Kremlin havia se gabado de ter desenvolvido com sucesso mísseis hipersônicos com tecnologia puramente nacional, já em uso prático. Na realidade, porém, a pesquisa relacionada estava paralisada havia anos.
— Não é só um lado que pode dar exemplo, não é? Se você bancar o tolo, vou mostrar bem na sua frente aquele míssil que tanto querem completar. Fogos de artifício no Kremlin… seria um espetáculo e tanto, não concorda?
Aquilo implicava que Zhenya havia conseguido adquirir até um míssil hipersônico. Bazim soltou um suspiro. Pelo que sabia, Zhenya não era de se gabar. As palavras que saíam da boca dele, por mais absurdas que parecessem, sempre tinham potencial para se tornar realidade.
— Haa… Não espero grande lealdade de você. Só peço que ao menos finja se importar com a família. Eu te dei tudo o que você queria. Não é o bastante? Só peço que fique calmo e que não chegue ao Kremlin nenhuma notícia sua. É tão difícil?
— Pela família, é? Já que você pede, vou lhe dar um último aviso pelo bem da nossa grande família e da nossa irmandade.
Zhenya se aproximou de Bazim com passos firmes. A sombra enorme que avançou sobre ele o envolveu de imediato.
— Não volte à minha ilha sem a minha permissão. Pare de se esgueirar como um ladrão e de bisbilhotar todos os cantos. É inútil. Se me ignorar, de agora em diante o guardião vai recebê-lo.
Por algum motivo, aquele guardião não soava humano. Talvez fosse um míssil superfície-ar capaz de eliminar qualquer intruso sem deixar rastros.
Um vasto campo de neve se estendia ao redor de Kwon Taekjoo. Tudo era completamente branco, sem uma única pegada na neve funda e acumulada. Até os galhos nus das árvores esparsas estavam cobertos de neve.
— Estamos aqui de novo.
Kwon Taekjoo murmurou para si mesmo enquanto examinava a área, perguntando-se se estava na Ilha Ajinoki. De repente, riu. Passara o dia todo pensando em Zhenya, e parecia que o subconsciente o havia levado até lá.
Começou a andar numa direção qualquer. A geografia e o clima geral pareciam bastante familiares. Se a mansão de Zhenya ficasse perto de um penhasco, aquilo poderia mesmo ser Ajinoki.
Mas, quando olhou ao redor, não havia mansão, nem mesmo uma cabana. Também não havia sinais de animais como renas ou coelhos. Seria tudo apenas um sonho?
Vagou sem rumo pelo vasto campo. Por fim, avistou pequenas pegadas. Eram de uma criança, não de um adulto. Por algum motivo, sentiu alívio. Sorrindo, acelerou o passo, seguindo as marcas pequenas.
Logo viu ao longe uma criança agachada, agasalhada com chapéu de pele, botas e casaco de pele. Mesmo assim, reconheceu-a na hora.
— Zhenya.
Chamou animado, mas o menino não respondeu. Não se virou nem reagiu. Seria porque aquilo também era um sonho e eles não conseguiam se comunicar direito?
— Ei, por que você está aqui fora, no frio? Onde fica a sua casa?
Deu passos largos em direção ao menino enquanto perguntava. Mas a criança permaneceu imóvel, de cabeça baixa, olhando para algo. Ao se aproximar, notou que o corpinho do menino tremia levemente. Não era um bom sinal.
— Ei, pequeno. O que foi?
Estendeu a mão e virou a criança pelo ombro. Só então viu o rosto do pequeno Zhenya, encharcado de lágrimas. Chocado com a cena inesperada, congelou ao ver o que o menino segurava. Era um cadáver ensanguentado. O rosto fora destruído por uma bala e estava irreconhecível. Só dava para adivinhar quem era pelos dedos, pelas unhas e pela estrutura do corpo.
O cadáver ao qual Zhenya se agarrava era Kwon Taekjoo.
— Ugh… Zainka. Minha Zainka.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, o menino começou a soluçar. Kwon Taekjoo estava tão atordoado que não conseguia pensar em como confortá-lo. Enquanto isso, o cadáver ficava cada vez mais vermelho. Sangue jorrava de algum lugar, formando uma torrente. O corpo e o pequeno Zhenya afundavam cada vez mais na enchente carmesim.
— Aaaaaang.
O pequeno Zhenya soltou um lamento agudo. De repente, o céu, até então calmo, se iluminou. Então objetos desconhecidos começaram a cair em massa, como chuva. Eram inúmeras bombas. Por instinto, Kwon Taekjoo estendeu a mão para o menino.
— Zhenya!
Gritou o nome dele com todas as forças. Mas foi em vão: as bombas que caíam por toda parte explodiram, sacudindo a terra e rasgando o chão. Por mais que lutasse, desesperado, a distância entre ele e Zhenya só aumentava.
— Aaaaang, Aaaaang!
O choro do pequeno Zhenya ficava cada vez mais agudo, até se tornar tão alto que parecia capaz de rasgar seus tímpanos. Naquele momento, a neve do chão se ergueu em um redemoinho branco, e milhares de bombas enterradas no solo dispararam para o céu. As bombas colidiram por toda parte, acendendo chamas. A reação em cadeia das explosões enviou ondas de pressão pela terra, devastando tudo num instante. Por fim, até a criança, soluçando sem controle, desapareceu sem deixar vestígios.
— Hah…!
Acordou sobressaltado. A visão familiar do quarto invadiu seus olhos de repente, causando uma leve tontura. Mesmo depois de apertar os olhos, a sensação não passou com facilidade. Sentia que não conseguia respirar.
Gemeu baixinho enquanto passava a mão pelo rosto. A palma ficou instantaneamente encharcada de suor. Os membros doíam de tanto que se debatera no pesadelo. Depois de cobrir os olhos com o braço por um momento para recuperar o fôlego, deu um soco na cama, frustrado.
— Droga… que sonho absurdo.
Sentou-se de supetão. Suor frio escorria pelas costas e pelo peito. A sensação era tão desconfortável que ele rangeu os dentes. O pescoço, a parte interna dos cotovelos, até a parte de trás dos joelhos estavam pegajosos, deixando-o com a sensação de estar completamente nojento. Precisava de um banho frio.
Abriu a porta e saiu. Da cozinha vinha o tilintar de pratos. Parecia que a mãe estava preparando a comida.
Olhou para o relógio: já eram onze da manhã. Havia ficado pensando até tarde da noite e, por isso, dormira além do costume, o que era raro nele.
— Você acordou?
A mãe chamou da cozinha, em voz alta, ao notar a presença dele. Como estava só de cueca, Kwon Taekjoo correu para o banheiro do outro lado do corredor.
— Sim. Vou me lavar primeiro.
— Tudo bem.
Depois de fechar a porta do banheiro, olhou-se no espelho. Apesar de ter descansado, o rosto ainda parecia pálido. Suspirou e caminhou devagar até o chuveiro.
Ficou ali por um tempo, deixando a água cair sobre o corpo. Aos poucos, o calor diminuiu, e os pensamentos dispersos começaram a se acalmar.
Não dava muito significado aos sonhos. Achava apenas que eram emoções profundas ou sentimentos do subconsciente se manifestando livremente enquanto a razão dormia. Tudo acontecia sem contexto e se desenrolava de modo absurdo.
No entanto, o sonho com o menino parecido com Zhenya sempre deixava uma impressão estranha em sua mente. Toda vez que encontrava a criança, ficava com uma mistura de emoções complexas e uma sensação de inquietação. Embora o menino se parecesse com Zhenya na infância, não havia prova de que fosse ele. Só Kwon Taekjoo o via daquela forma. E, mesmo que fosse, não passava de uma ilusão que se desfazia ao acordar.
Apesar de tentar se convencer de que não era nada, não conseguia esquecer a imagem do menino chorando amargamente.
‘Não pode ser nada importante.’
Balançou a cabeça. Depois começou a esfregar vigorosamente o cabelo molhado, como se tentasse lavar da mente todos os pensamentos confusos.
Depois do banho rápido, voltou ao quarto. Antes de vestir a cueca, checou o telefone. Nenhuma mensagem de Zhenya. Mesmo depois de explicar tudo com clareza, nada mudara. Era como falar com uma parede.
— Filho da pu…
Encarou o telefone com frustração e apertou o botão de chamada. Mas, antes que chegasse a tocar, uma voz automática informou que o número chamado estava indisponível. Zhenya tinha desligado o telefone? Ou talvez nem tivesse percebido que estava desligado.
Jogou o telefone na cama, irritado.
— Droga! Aquele idiota gigante só me faz preocupar. Não, o louco sou eu. Com quem diabos estou me preocupando?
Passando as mãos pelo cabelo, frustrado, foi em direção à cozinha.
Como esperado, o almoço já estava posto à mesa. Ele tirou a concha da mão da mãe, que estava prestes a servir a sopa.
— Deixa que eu faço isso.
Guiou-a com delicadeza até a cadeira, passando um braço pelos ombros dela. Depois serviu a sopa quente e a levou à mesa. Também levou o arroz e os acompanhamentos que a mãe havia preparado, carregando tudo de uma vez com as mãos grandes.
— Somos só nós dois, e você fez uma montanha de comida. Sinceramente, mãe, você sempre exagera.
— Você sempre come bem quando eu cozinho.
— Isso é verdade. Vamos comer.
— Vamos. Coma devagar e bastante.
Mãe e filho se sentaram juntos à mesa e começaram a comer. Durante a refeição, ele elogiou com entusiasmo a comida dela, dizendo que estava deliciosa e que suas habilidades eram inigualáveis. Fazia isso para que ela não se preocupasse com a palidez dele.
Felizmente, ou infelizmente, a mãe de Kwon Taekjoo não prestava muita atenção nele. Estava absorta nos próprios pensamentos e mal tocava na comida. Preocupado que algo estivesse errado, ele a observou em silêncio. De repente, os olhares se encontraram, e ela sorriu timidamente.
— Vou ao templo depois do almoço.
— Ao templo? De repente?
A mãe costumava visitar um templo próximo quando se sentia perturbada ou quando pensava no pai e no irmão dele. Fazia isso para acalmar a mente com a oração.
— Há algo errado?
— …Não, só quero fazer uma oferenda depois de tanto tempo.
— O que está acontecendo?
Quando ele insistiu com delicadeza, a mãe hesitou mais um pouco antes de falar.
𑣲⋆ Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws:
Rubyy&Belladonna
☰ ⌀ ⌀ ⌀ Aviso: Todos os fatos, personagens e situações retratados nesta obra são inteiramente fictícios. Não contendo nenhuma relação com fatos reais. ⌀ ⌀ ⌀ ☰
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