↫─☫ Capítulo 03.3
𓂃 ࣪˖ ִֶָ Um presságio: Para o bem ou para o mal · Parte 3 ִֶָ་༘࿐
— Você sabe que é um chefe terrível, né, Sunbae? — murmurou Yoon Jongwoo, se espreguiçando.
Como fazia tempo que não conversavam direito e provavelmente falariam de trabalho, em vez de ir a um restaurante foram para o apartamento de Yoon Jongwoo.
O lugar, que Kwon Taekjoo não visitava havia muito tempo, não tinha mudado nada. Era um apartamento pequeno, de dois quartos, voltado para o leste, o que significava que não recebia muita luz solar. As cortinas estavam fechadas, deixando o ambiente escuro mesmo de dia. Roupas espalhadas sem critério por cadeiras, cabides e aparelhos de ginástica. A área ao redor do computador estava atulhada de tralhas, exceto por um pequeno espaço bem em frente à cadeira. Kwon Taekjoo se perguntou como ele conseguia viver e comer em meio a tanta bagunça.
Enquanto jogava algumas roupas no cesto de lavanderia, comentou:
— Que bagunça.
Só então conseguiram abrir espaço suficiente para se sentar um de frente para o outro. Enquanto Yoon Jongwoo preparava a grelha, começou a resmungar.
— “Que bagunça”, você diz? Francamente! Já te falei mil vezes. Você sempre invade o meu espaço e o meu tempo sem avisar. Ainda pega as minhas coisas!
— Ei, posso ser muitas coisas, mas nunca tentei tirar nada de você, tentei?
— Já esqueceu a vez em que usou o meu personagem do jogo sem permissão? E trata o meu carro como táxi. E agora isso. Você disse que ia me pagar algo bom, então por que estamos aqui? Você não vê o seu subordinado como um servo, vê?
— Não seja dramático. Além do mais, eu não trouxe coisa boa?
Kwon Taekjoo apontou para as sacolas que havia deixado na mesa. No caminho, tinham passado no mercado próximo e comprado sashimi e carne, comidas de que Yoon Jongwoo gostava e que combinavam perfeitamente com bebida. Até o sashimi e os cortes de carne tinham sido escolhidos por ele mesmo, então as reclamações repentinas pareciam ter outra causa. O jeito como os olhos dele fugiam do olhar de Kwon Taekjoo provava isso.
— Você só está tentando fugir da bronca — provocou Kwon Taekjoo. — Então, pirralho, que tal viver de forma um pouco mais organizada? Isso é um chiqueiro ou uma casa? Areje o lugar de manhã e à noite. Quando foi a última vez que lavou roupa? É um milagre não ter ficado doente vivendo e comendo aqui. É por isso que vive fraco, não é?
Não era difícil enxergar além das desculpas superficiais de Yoon Jongwoo. Diante da enxurrada de broncas, Jongwoo gemeu:
— Por que está me passando sermão se eu nem te convidei?
— Não sabe que intromissão é uma forma de cuidado? Devia ser grato por ter um superior como eu cuidando de você.
— Cuidado indesejado é violência. Falar com você é como voltar ao exército.
Yoon Jongwoo resmungou em tom derrotado, continuando as queixas enquanto arrumavam a mesa.
— Dizem que é bom ter um sunbae queridinho dos superiores. Acho que errei na aposta desde o começo.
— Você acha que eu sou queridinho? Acho que ninguém no escritório escreveu mais relatórios disciplinares do que eu.
— Isso é motivo de orgulho? Só piora. Se é leal aos superiores, seja leal de verdade. Mas você sempre faz do seu jeito. Não basta alcançar o objetivo. Já levei bronca várias vezes por te ajudar.
— Desta vez eu não levei bronca.
— Essa é cara de quem não levou bronca?
— O que tem de errado com a minha cara?
— Você parece preocupado o tempo todo, o que não é do seu feitio.
Kwon Taekjoo esfregou o rosto por instinto. Até alguém tão distraído quanto Yoon Jongwoo tinha notado a preocupação dele? Não podia negar que estava tenso desde que o Diretor Kwak o alertara sobre o envolvimento de Zhenya. Mas não era só isso que pesava sobre ele.
Enquanto isso, Jongwoo dividiu a grelha em duas partes, assando a carne de um lado e fervendo água para o macarrão instantâneo do outro. Preparou depressa a bebida, o sashimi e alguns acompanhamentos. E não parou de falar um segundo. Parecia ter muita coisa para desabafar.
— Sinceramente, não está se sentindo sobrecarregado, Sunbae? Querer fazer o trabalho de várias pessoas só te deixa sem tempo e mais exposto ao perigo. Você vive correndo. Por que não reforça a equipe?
— Porque ter mais gente não mudaria nada.
— Como assim, não mudaria nada? Sua carga diminuiria bastante. Pelo menos teria alguém para te cobrir.
— Pelo contrário, ter de cuidar dos membros da equipe e resgatá-los pode tornar tudo mais difícil. Além disso, quem conseguiria acompanhar o meu ritmo?
— Ugh… esse ritmo é o problema. Se você fosse só viciado em trabalho e perfeccionista, ninguém diria nada. Mas obriga todo mundo ao seu redor a seguir o mesmo ritmo, e é por isso que reclamam. Ainda quebra regras e passa dos limites. Ninguém fala em voz alta, mas ninguém quer te apoiar.
— Tudo bem. Contanto que eu tenha você, estou bem.
— Eu não estou bem!
— Essa doeu, moleque. Quantas vezes eu já te paguei comida? Quem você acha que enche a sua geladeira de acompanhamentos?
Sem conseguir encontrar uma resposta à altura, Yoon Jongwoo cerrou os punhos. Mordeu o lábio inferior de frustração, e o corpo estremeceu. Enquanto isso, Kwon Taekjoo pôs um pouco de carne assada no prato dele. Ainda com ar de descontentamento, Yoon Jongwoo comeu a carne com empenho.
— O que eu quero dizer é: pegue leve, Sunbae. Seu objetivo não é morrer em serviço, é?
Kwon Taekjoo assentiu, distraído, enquanto abria uma garrafa de soju. Quando inclinou a garrafa em direção a Yoon Jongwoo, ele logo ergueu o copo. Kwon Taekjoo serviu primeiro o colega, depois a si mesmo. Após uma breve pausa, Yoon Jongwoo disse:
— Saúde.
E bateu de leve os copos. Kwon Taekjoo sorriu e bebeu o soju de um gole só. Mal sentiu o efeito, talvez porque nos últimos tempos tivesse bebido coisas bem mais fortes com Zhenya.
Serviu-se de outro copo e o bebeu na hora. Enquanto girava o copo vazio entre os dedos, foi observado de perto por Yoon Jongwoo. Pela experiência, Jongwoo parecia saber que ele fazia isso quando tinha muita coisa na cabeça.
— Jongwoo, você sabe, não sabe? Eu vivo correndo sem parar.
— Claro. Você era puro trabalho, sem lágrimas.
— Quando eu trabalhava, nunca pensava em mais nada. Não me importava se o inimigo numa missão era homem, mulher, velho ou criança. Superar situações extremas e imprevistas e, no fim, conseguir o que eu queria me dava uma adrenalina incrível. Era uma sensação que eu nunca tinha experimentado, e talvez por isso eu tenha me viciado tão rápido. Às vezes, não fazer nada e só descansar parecia um inferno. Por isso achei que esse trabalho era a minha vocação.
— Uau… Sendo assim, parece mesmo que é, né?
— Talvez seja porque estou envelhecendo, como você disse. Cada vez mais, pensamentos aleatórios se infiltram no trabalho. Às vezes hesito em puxar o gatilho, e minha mentalidade parece ter mudado um pouco.
Yoon Jongwoo, que ia dar uma grande mordida, parou no meio. Ligando os pontos, perguntou com cautela:
— Sunbae, aconteceu alguma coisa em Cuba?
Kwon Taekjoo balançou a cabeça de leve e se serviu de outra dose. Depois ficou um bom tempo brincando com o copo vazio, aparentemente perdido em pensamentos.
— Não é só que foi um problema na hora. Pensando bem, já faz muito tempo que perdi a motivação do começo.
Inclinando a cabeça, Yoon Jongwoo pôs um pedaço de carne na boca. Era difícil entender que parte de Kwon Taekjoo havia mudado. Até onde sabia, o sunbae nunca falhara em seus deveres. As atividades recentes não eram diferentes das de antes. Na verdade, Jongwoo achava que seria bom ele diminuir um pouco o ritmo.
Enquanto Jongwoo o observava, Kwon Taekjoo continuava pensativo, bebendo um gole atrás do outro. Algo claramente o incomodava, mas ele não falava abertamente, o que dificultava perguntar diretamente. Em vez disso, Jongwoo serviu em silêncio o macarrão instantâneo, que estava no ponto certo.
— Você vai arruinar o estômago. Coma alguma coisa também. Acha que seu corpo é de ferro para sempre?
Por algum motivo, o olhar de Kwon Taekjoo estava fixo no macarrão. Encarava-o com intensidade, mas não parecia disposto a comê-lo, o que era estranho.
Por fim, quebrou o silêncio.
— O que você faria se duas coisas com as quais você se importa profundamente não pudessem coexistir?
— É sobre a sua mãe?
— Hã? Minha mãe?
— Sua mãe quer que você tenha estabilidade, e você sente que esse trabalho é a sua vocação. Não é isso que está te incomodando?
Sentiu-se pego de surpresa. Não era que ignorasse as preocupações da mãe. Tinha ciência delas, mas não pensava nela enquanto trabalhava.
Na verdade, o afeto e o senso de dever que sentia pela mãe nunca o haviam detido antes. Justificava-se pensando que o que fazia era pelo bem do país e beneficiava mais gente, e que por isso devia ter prioridade. Mesmo quando mentia à mãe para tranquilizá-la, não sentia culpa.
Mas agora? Por que era diferente com Zhenya?
Embora a situação não fosse imediata, Kwon Taekjoo tinha a sensação crescente de que, em algum momento, teria de escolher entre Zhenya e o trabalho. O aviso do Diretor Kwak havia despertado aquela vaga inquietação. Se chegasse a hora de fazer essa escolha, que decisão tomaria? Só de pensar em algo que ainda nem havia acontecido, a ansiedade só crescia.
O encontro se estendeu até tarde da noite. Yoon Jongwoo, que vinha desabafando sobre as dificuldades do trabalho, começou a se repetir antes de finalmente apagar, agarrado a uma garrafa vazia. Kwon Taekjoo o deitou no chão com um travesseiro e se sentou na cama, tentando acalmar a mente caótica. De repente, deu vontade de fumar, mas ele não tinha cigarros. Yoon Jongwoo também não fumava. Parecia que Kwon Taekjoo tinha se acostumado a fumar os charutos de Zhenya.
‘Devo ir para casa? Poderia passar na loja de conveniência e comprar um maço de cigarros.’
Mas apenas pensou nisso, sem se mover. Sem ter mais nada para fazer, começou a mexer no telefone.
[O que você está fazendo? Você disse que ia voltar em breve. Ainda não acabou?]
Kwon Taekjoo olhou a última mensagem que trocara com Zhenya. A conversa havia sido interrompida de repente por uma chamada da sede.
‘Será que ele vem amanhã? Será que vem antes de eu ser designado para uma nova missão?’
Havia coisas que precisava conversar com ele com sinceridade antes disso. Talvez fosse por isso que se sentia tão ansioso.
Eram 23h. Se Zhenya estivesse em Moscou, seriam por volta das 17h lá. Sem pensar muito, Kwon Taekjoo apertou o botão de chamada. O toque longo continuava, parecendo prestes a cair, mas nunca caía. Ele poderia ter desistido, mas esperou, teimoso. O som do toque ecoava no silêncio.
Quanto tempo havia se passado? De repente, o toque parou, e ele ouviu a voz que esperava.
[— Taekjoo?]
[— Você demorou.]
Kwon Taekjoo devolveu a Zhenya a repreensão de sempre. Percebendo o tom, Zhenya soltou uma risada baixa.
[— Você bebeu.]
[— O quê, você sente o cheiro de álcool daí?]
[— Já te disse. Eu sei tudo sobre você.]
[— Pouco convincente. Diz que sabe tudo, mas ainda não apareceu.]
[— Bebeu muito? Não é do seu feitio reclamar assim.]
Zhenya riu, a garganta vibrando, como se estivesse de bom humor. Ele sempre se animava com uma palavra, um olhar ou um gesto de Kwon Taekjoo, mas Kwon Taekjoo não entendia por que ele era tão difícil de alcançar. De repente, percebeu como suas ex-namoradas devem ter se sentido quando terminaram. Os términos sempre partiam delas, e, a cada vez, elas o culpavam pela indiferença. Quem semeia ventos colhe tempestades, e agora parecia que ele estava colhendo o mesmo.
[— Reclamando? Você sempre interpreta as coisas do seu jeito.]
Kwon Taekjoo murmurou, descontente. Enquanto isso, a risada de Zhenya continuava, como se observasse um animal fofo ou uma criança travessa. Ele não entendia como Zhenya podia ser tão despreocupado sem saber o que se passava em sua mente, e isso só o irritava mais.
[— Quebrou algum dedo? Por que eu sempre tenho que ser o primeiro a te procurar, só para você responder a contragosto?]
[— Hmm… Eu não entendo. Você sempre desaparece quando está trabalhando, e quando estamos juntos, me manda manter distância. Mas agora que estamos separados, sente minha falta? Não consegue ficar sozinho nem por um momento?]
Kwon Taekjoo podia imaginar o nariz de Zhenya empinado de orgulho, os ombros largos e a atitude arrogante. Não conseguiu evitar um suspiro. Zhenya riu abertamente e acrescentou, com a voz ainda cheia de riso:
[— Sim, Taekjoo. Continue reclamando assim.]
Ouviu-se um suspiro. Zhenya parecia estar em algum lugar ao ar livre.
[— …Maldito bastardo. Pare de rir e venha logo. Tenho algo para te dizer.]
[— Parece que tem mesmo. Anda fazendo coisas que não costuma fazer.]
Zhenya parecia ter se reclinado com conforto.
[— Se eu for, você vai ter que explicar por que ficou na casa daquele idiota até essa hora.]
[— O quê? Onde diabos você está…?]
Kwon Taekjoo se levantou de supetão e olhou ao redor. Agora entendia por que Zhenya estava tão relaxado: parecia capaz de ver em tempo real onde ele estava e o que fazia. Como observava cada movimento, Zhenya não tinha curiosidade nem preocupação. Mesmo quando Kwon Taekjoo estava de serviço, Zhenya o observava e aparecia sem avisar. Ele não sabia por onde começar a corrigir aquilo, e a tarefa parecia esmagadora.
[— Ah, esquece. Discutir com um bastardo como você é perda de tempo. Vou desligar.]
[— Até breve.]
Zhenya desligou, sorrindo até o fim. O quarto voltou ao silêncio, e o som da respiração de Yoon Jongwoo ficou mais evidente.
Com o telefone ainda na mão, Kwon Taekjoo inclinou a cabeça para trás e soltou um suspiro profundo. Sua mente estava tão emaranhada quanto um novelo de lã.
— …Dito isso, preciso ir. Parece que a minha Zainka está bastante chateada por ter sido deixada sozinha.
Zhenya sorriu enquanto olhava para Bazim, sentado à sua frente. Bazim tinha no rosto a expressão de quem presenciou algo estranho. Ao ouvir a chamada inesperada no viva-voz, perguntou-se o que estava acontecendo, e o conteúdo da conversa o chocou. Já era surpreendente aquele “psicopata” fingir ter um relacionamento, mas ouvir a voz masculina e grave do outro lado o deixou atônito. Embora desconfiasse, ouvir com os próprios ouvidos foi um choque.
Bazim empalideceu e murmurou, incrédulo:
— Aquele espião coreano…?
— Ele não é mais um espião.
A resposta casual de Zhenya fez Bazim gemer e levar as mãos à cabeça.
Zhenya havia voltado ao país, e Bazim largara tudo para encontrá-lo. Cerca de duas semanas antes, um terrorista desconhecido atacara civis em Cuba, e Zhenya aparecera no local. De alguma forma, ajudara ativamente o terrorista a escapar.
𑣲⋆ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws:
Rubyy&Belladonna
☰ ⌀ ⌀ ⌀ Aviso: Todos os fatos, personagens e situações retratados nesta obra são inteiramente fictícios. Não contendo nenhuma relação com fatos reais. ⌀ ⌀ ⌀ ☰
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