↫─☫ Capítulo 03.1
𓂃 ࣪˖ ִֶָ Um presságio: Para o bem ou para o mal · Parte 1 ִֶָ་༘࿐
— Taekjoo! Ei! Levanta rápido. Já são oito horas.
Uma voz familiar rompeu seu sono profundo. Kwon Taekjoo estremeceu e abriu os olhos com esforço. Um teto conhecido surgiu em sua visão turva. Então o rosto de sua mãe apareceu no canto do campo de visão.
Soltando um longo suspiro, ele se sentou devagar. Um gemido escapou de seus lábios enquanto passava a mão pelo cabelo desgrenhado.
— Por que você não colocou o despertador? Não vai se atrasar para o trabalho?
Sua mãe lhe entregou um copo de água, a preocupação evidente. Ele o pegou sem dizer uma palavra e bebeu.
— Não. Posso ir mais tarde hoje.
— Sério?
— Sim. Acabei de voltar de uma viagem de negócios.
— Ah! É porque é uma embaixada estrangeira que os benefícios e o tratamento são diferentes? Esse emprego é mais tranquilo do que o anterior?
— …Sim, algo assim.
Dizendo que ia se lavar, Kwon Taekjoo escapou para o banheiro. Mentir com tanto descaramento para a mãe o enchia de culpa. Ele não conseguia olhá-la nos olhos e mentir com facilidade. Se ela tivesse visto o estado em que ele estava quando voltou de Cuba, todas as suas mentiras teriam sido expostas. Mas, felizmente, os ferimentos menores haviam cicatrizado no caminho de volta para a Coreia. Ele tinha mais resistência e se recuperava mais rápido do que a maioria, o que foi uma sorte.
Já fazia quatro dias que voltara para casa. Zhenya disse que iria à Rússia por um tempo para finalizar um acordo com Matías. Graças a isso, Kwon Taekjoo pôde dormir sem interrupções.
Mesmo assim, o reflexo no espelho do banheiro mostrava um rosto cansado. Ele não havia descansado direito por causa de Zhenya até pouco antes de retornar.
Antes, tinha tanta confiança na própria resistência que conseguia saltar direto para a missão seguinte logo depois de concluir uma. Agora, depois de passar dias e noites com o amante, perguntava-se se era assim que o envelhecimento se manifestava, como um atleta passando do auge.
Bocejando fundo, pegou a escova de dentes. Enquanto escovava sem pensar muito, as lembranças dos últimos dias passaram diante dele como imagens de uma lanterna mágica.
Numa noite tardia, Kwon Taekjoo e Zhenya embarcaram em um helicóptero preparado e deixaram a ilha de Matías. O helicóptero pousou em um grande navio, que, segundo disseram, era um cargueiro que partira do Panamá, passara pelo México e seguia para Busan. No momento do pouso, o navio já havia deixado a cidade portuária de Manzanillo, na costa oeste do México, e cruzava o Pacífico.
Dali em diante, começou uma longa viagem de dezessete dias até Busan. O capitão e a tripulação acreditavam que Kwon Taekjoo e Zhenya eram seguranças enviados por uma empresa internacional de logística. Graças a isso, os dois não precisaram participar das tarefas tediosas do navio. Mesmo quando andavam armados, ninguém os questionava.
A aparência intimidadora também ajudou a afastar qualquer interferência ou curiosidade. A tripulação, independentemente da nacionalidade ou da idade, evitava os dois. Durante as refeições, se eles apareciam, os outros logo cediam seus lugares. Além da presença intimidadora, ter seguranças a bordo deixava a tripulação desconfortável.
As discussões comuns em longas viagens marítimas não eram problema deles. Os marinheiros brigavam e faziam barulho, mas a situação nunca durava muito. Quando Kwon Taekjoo ou Zhenya aparecia, todos se dispersavam com expressões constrangidas, como se nada tivesse acontecido.
Zhenya socava a parede de frustração sempre que ouvia barulho alto do lado de fora. Imediatamente, o navio inteiro silenciava. Na maior parte do tempo, os dois estavam fazendo sexo, então era compreensível. Se o barulho tivesse perturbado o sono dele, quem sabe o que Zhenya poderia ter feito em nome da autodefesa. Parecia um milagre terem conseguido voltar para a Coreia sem incidentes graves.
Graças ao aviso prévio ao Serviço Nacional de Inteligência, não precisaram passar pelos procedimentos de imigração no porto de Busan. Embora tivesse causado um pequeno alvoroço, Kwon Taekjoo ganhou alguns dias de folga como recompensa por completar a missão. Tudo correu de forma surpreendente, quase como uma ilusão. Sem a intervenção de Zhenya, nada daquilo teria sido possível. Os dias numa ilha desconhecida no México agora pareciam um sonho distante.
Depois de organizar os pensamentos e terminar o banho, ele saiu do banheiro. A mãe já havia preparado o café da manhã. Ele não pôde recusar e se sentou em silêncio. A mesa estava repleta de mais de dez acompanhamentos diferentes. Um ensopado de pasta de pimenta vermelha bem cozido despertou de imediato seu apetite.
— Por que você preparou tanta comida tão cedo?
— Imagine o quanto você sofreu, vivendo no exterior por quase um mês sem poder comer comida coreana. Você comeu bem? Desde que chegou em casa, só dorme, e está com o rosto tão abatido que chega a doer olhar.
— Mãe, por favor. Para que um homem precisa de rosto bonito?
— Esse seu rosto, que já não era grande coisa, está ainda mais abatido, meu filho. Quer que eu prepare algum remédio?
— Para quê? A comida que você faz é o melhor remédio.
Como sempre, ele dispensou as preocupações da mãe com um sorriso. Ela, com um olhar de reprovação, colocou um pedaço de peixe bem cozido sobre o arroz dele. Em silêncio, Kwon Taekjoo deu uma grande colherada de arroz e a levou à boca. O arroz recém-cozido e o peixe salgado se misturaram à perfeição. Depois de uma colherada do ensopado de pasta de pimenta vermelha, o estômago desconcertado se acalmou na hora.
— Isso está uma delícia. Mãe, você também devia comer.
— Já comi um pouco antes.
— Ora, não coma só um pouquinho.
— Você vai entender quando ficar mais velho. Comer três refeições por dia não é tão fácil de digerir.
A mãe respondeu enquanto colocava um pedaço de jangjorim no prato dele. Daquela vez, o jangjorim não tinha as pimentas verdes que ela costumava incluir. Zhenya, que certa vez provara uma delas por recomendação de Kwon Taekjoo, engasgara feio, e foi isso que levou à mudança. Já fazia mais de um ano. De algum modo, Zhenya se integrara naturalmente demais à vida cotidiana de Kwon Taekjoo.
— Este jangjorim… o embaixador também gostou muito dele.
Perdido em pensamentos, ele se sobressaltou com as palavras da mãe. Rapidamente cobriu a boca com as costas da mão para abafar uma tosse. Sem saber o motivo, ela lhe ofereceu um copo de água e disse para ele comer mais devagar. Aproveitando o momento, perguntou sobre Zhenya.
— Será que o embaixador está bem depois dessa longa viagem? Quando ele volta?
— Não sei. Quando terminar os negócios dele.
— O quê? Você, que é assistente dele, não sabe a agenda do seu chefe?
— Ele disse que era um assunto pessoal. O que eu posso fazer? Investigar a vida privada dele?
— Um subordinado deve ser capaz de perceber as coisas sem precisar que lhe digam.
Ele franziu os lábios diante da repreensão da mãe. Embora sempre tivesse detestado a mentalidade militar do avô e do pai, ela não era muito diferente. Não sabia dizer se era hábito ou se ela tinha um carinho especial por Zhenya, a quem sempre defendia.
— A propósito, o embaixador vai passar o aniversário dele na Rússia?
Ele fez uma pausa diante do comentário da mãe. Então olhou para o calendário de mesa no canto da mesa. O calendário já estava em agosto. Faltava exatamente uma semana para o aniversário de Zhenya.
— Você não acha que ele volta antes disso? Ele disse que viria em breve.
— Sério? Então devo preparar uma refeição especial para o aniversário do embaixador?
— Você, mãe? Não bastaria comprar um bolo para ele?
— Ah, não, isso não seria apropriado. O embaixador está tão sozinho num lugar tão distante; você não acha que ele ia se sentir muito solitário no aniversário? Nós já compartilhamos tanta coisa; o certo é oferecer a ele uma refeição quente.
— Isso é inacreditável. Mesmo em dias normais, sem motivo nenhum, você liga para o Zhenya para convidá-lo para almoçar ou tomar chá. E agora, só porque é aniversário dele, parece que finalmente arrumou uma desculpa… Bem, vou perguntar a ele.
— Sim, só não se esqueça de dizer a ele para não se sentir pressionado.
— Esse cara não é do tipo que se sente pressionado com facilidade. Você ainda não percebeu isso?
— O quê? Você chama o embaixador de “esse cara” na frente dele? Vai continuar sendo tão desrespeitoso?
— Não, ele não está aqui agora…
— Se você fala assim quando ele não está por perto, isso vira hábito.
Como sempre, a mãe de Kwon Taekjoo defendia Zhenya. Alegava fazer isso pelo bem do único filho, mas ele se perguntava se ela pensaria o mesmo caso soubesse como Zhenya o tratava. A ignorância realmente era uma bênção. Murmurou um pedido de desculpas e continuou comendo.
Agora que pensava nisso, fazia quatro dias que não tinha notícias de Zhenya. Achava ter deixado claro o que pensava da última vez, mas parecia que Zhenya já havia esquecido. Dizem que nenhuma notícia é boa notícia, mas isso não valia para ele. Parecia que Kwon Taekjoo teria de dar o primeiro passo.
Depois de terminar a refeição, foi para o quarto e pegou o telefone. Embora já esperasse por isso, não havia chamadas perdidas de Zhenya. Teria acontecido alguma coisa na Rússia? Talvez o pai dele finalmente o tivesse capturado para arranjar um noivado, ou talvez ele tivesse sido proibido de deixar o país por ter ajudado Kwon Taekjoo em Cuba.
Zhenya sempre o fazia se preocupar.
‘Droga’, pensou, enquanto apertava o botão de chamada. Mas, antes que a ligação chegasse a tocar, mudou de ideia e decidiu mandar uma mensagem.
[Onde você está?]
Surpreendentemente, a resposta chegou na mesma hora. Isso significava que Zhenya ainda podia usar todos os dez dedos. Bastardo.
[Está com saudade?]
Ele podia imaginar com clareza o rosto sorridente daquele cara. Estava prestes a responder “quem?” quando uma janela de chamada recebida apareceu sobre a mensagem. Era uma ligação da sede.
Kwon Taekjoo respirou fundo diante da porta do gabinete do diretor. Reportar-se aos superiores era o passo final para concluir a operação. Embora quase sempre falhasse nisso, teria de escrever outro relatório daquela vez? Prevendo o resultado óbvio, bateu na porta.
— Entre.
A voz do Diretor Kwak não era diferente do normal. Mesmo assim, Kwon Taekjoo soltou um longo suspiro. Depois de limpar a garganta, abriu a porta e entrou. O Diretor Kwak deixou de lado os documentos que revisava e olhou para ele. Era difícil adivinhar seus pensamentos apenas pela expressão.
Se o chefe anterior, o Sr. Lim, era uma raposa astuta, o Diretor Kwak era mais como uma toupeira: refletia em silêncio e reagia com sensibilidade. Como superior, era um tipo mais difícil de lidar. Kwon Taekjoo se curvou e ficou em frente à mesa dele.
— O senhor me chamou?
— Sim. Descansou bem?
— Sim, graças à sua consideração.
— Você se machucou em algum lugar?
— Como pode ver, estou perfeitamente bem.
— Você não sabe reclamar, não é?
— Eu não mudaria nada, mesmo que pudesse. Aprendi isso trabalhando no Serviço Nacional de Inteligência.
— Não acha que é por isso que acaba assumindo mais trabalho do que os outros?
— O que um funcionário público pode fazer? Se os superiores ordenam, tem de ser feito.
O Diretor Kwak riu e elogiou as realizações de Kwon Taekjoo.
— De qualquer forma, você trabalhou duro. Embora tenhamos considerado a possibilidade de intervenção americana, não esperávamos que eles fossem tão insistentes. Quase perdemos um talento valioso. Parece que têm algum senso de vergonha, já que não apresentaram nenhuma queixa sobre o incidente.
— Que motivo teriam para reclamar? Eu apenas reagi a um ataque preventivo para proteger meu direito de sobreviver.
— Sim, discutir justificativas é um assunto sem fim. Os Estados Unidos negam que a comoção daquela noite tenha sido planejada. Alegam que foi a ação de uma empresa militar privada agindo fora do controle do governo, apenas por interesses próprios. Em Cuba, o governo também tenta enquadrar o ataque como um desvio de mercenários internacionais. Não lhes convém que se saiba que o alvo não eram apenas civis inocentes. Se o “Martelo Elétrico” vier à tona, só enfrentarão críticas. E tampouco querem uma guerra em grande escala com os Estados Unidos.
O sacrifício de um indivíduo em nome do interesse nacional sempre foi facilmente ocultado. Daquela vez não foi diferente. Como resultado, tanto os hackers cubanos quanto os mercenários americanos foram usados e depois descartados. Talvez o destino de Kwon Taekjoo não fosse diferente.
— Independentemente disso, graças às suas operações secretas, conseguimos recuperar os dados com segurança. O dano do vazamento não foi muito grave, e todas as instituições e empresas que haviam sido hackeadas pararam de receber pedidos de resgate dos crackers. Claro, os jovens hackers também sobreviveram, então é possível que os ataques de Cuba sejam retomados quando as coisas se acalmarem. Mas reforçamos os sistemas de segurança nacional, então não será tão fácil quanto antes.
— …Hackers “jovens”?
— Ah, você não teve tempo de ouvir os detalhes. Os hackers do “Martelo Elétrico” eram todos irmãos. Do mais velho, que se acreditava estar morto, ao segundo, que foi dado como desaparecido, até a caçula, que sofre de uma doença pulmonar congênita.
— Todos os três?
— Sim. Não é surpreendente? Como pais tão comuns tiveram filhos tão geniais, um atrás do outro? Não sei como o governo cubano descobriu a utilidade deles, mas parece que mantinham os dois irmãos trancados em um porão, explorando os lucros obtidos com os ataques. Enganavam os dois com a promessa de curar a doença da caçula ou os pressionavam o tempo todo com soldados de guarda.
Kwon Taekjoo se lembrou do jovem hacker que encontrara no porão e da garota com a cânula nasal. Supôs que ela não estivesse envolvida em nenhum crime. Por isso, quando dispersou o gás sonífero, tomou cuidado para evitar a cânula, temendo colocá-la em perigo. Teria sido um cuidado desnecessário? Pensando bem, uma garota inocente não teria por que conhecer a existência daquela sala subterrânea.
Os inimigos que Kwon Taekjoo encontrava em campo muitas vezes fugiam do que ele esperava. Não era incomum que o alvo fosse uma mulher, um idoso ou, como daquela vez, um menor. Nesses momentos, ele sempre priorizava a missão e o dever. Pelo bem do país e para evitar danos maiores, precisava racionalizar dessa forma para manter a compostura.
𑣲⋆ Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws:
Rubyy&Belladonna
☰ ⌀ ⌀ ⌀ Aviso: Todos os fatos, personagens e situações retratados nesta obra são inteiramente fictícios. Não contendo nenhuma relação com fatos reais. ⌀ ⌀ ⌀ ☰
𖹭ּ ֶָ֢. Gostou do capítulo? Apoie a autora na plataforma oficial para demonstrar o seu carinho!